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O Maraca não é mais do Célio, do Júlio, do Arthur e muito menos do Silva

O debate em torno da reabertura do Maracanã, outrora templo do futebol mundial, ganha aos poucos contornos políticos na imprensa nacional. Uma parte dos jornalistas engajados como Juca Kfouri, José Trajano, Lúcio de Castro e outros de uma rede de canal fechado atacam veementemente a “pasteurização”, termo muito bem empregado por Kfouri em mesa esportiva nesta última segunda-feira, do estádio e da forma de se torcer dentro dele (veja aqui um trecho do programa).

Em contrapartida, ícones da rede oficial aberta e da emissora esportiva que se autoproclama campeã argumentam em favor dos supostos benefícios oriundos dos ventos da modernidade.  Quantas aberrações já foram feitas em nome de um discurso de modernização na nossa História?

Como bem conclamou o jornalista Trajano na referida mesa é o momento de se posicionar politicamente. Como diria Bertold Brecht, o pior analfabeto é o político. Neste sentido o presente blog tem como principais objetivos levantar algumas questões pertinentes ao debate e demonstrar a minha opinião enquanto pesquisador esportivo sobre o polêmico tema.

Primeiro, gostaria de esclarecer que não compareci ao estádio no último domingo, mas provavelmente vou ficar encantado com a beleza arquitetônica das novas instalações, pois como já estive em duas Copas do Mundo, conheço alguns estádios europeus e tenho uma ideia do resultado.

Todavia nesta discussão a questão Estética não me parece primordial e se inferioriza diante do campo da Ética e da Política. Independentemente de amar futebol, pesquisar futebol, respirar futebol nos dias de rodada do meu time e durante as Copas do Mundo não posso ser conivente com malversação de verbas públicas, políticas públicas de lazer excludentes dos estratos sociais mais desfavorecidos economicamente e aberrações jurídicas impostas através de projetos que desrespeitam o próprio patrimônio histórico nacional.

No que diz respeito aos rios de dinheiro público que vêm sendo gastos desde 2000 com três reformas no estádio, independentemente das astronômicas cifras, trata-se de mais um exemplo da falta de compromisso ético dos organizadores do evento e dos políticos envolvidos, com a defesa da coletividade. Talvez nesta cruzada inglória a única exceção esteja sendo, de maneira surpreendente para mim, o deputado Romário, uma das poucas vozes que tem denunciado constantemente os abusos com as verbas destinadas a construção dos estádios e os contratos leoninos feito com megacorporações para gestão das “arenas” multiuso.

Com relação ao torcedor, seguindo um modelo britânico de isolamento das classes mais populares, ele se encontra cada vez mais elitizado, robotizado e imbecilizado nos estádios. Em nome de um discurso da família se valoriza a propriedade e, segundo relatos e imagens dos principais programas televisivos, o caminho para o estádio parecia uma procissão debilmente feliz. A torcida nos estádios se transformando em uma marcha da Família, Tradição e Propriedade realmente não me parece um bom caminho. A História recente do nosso país já nos mostrou o que isso significa.

E por falar de História, como bem ressaltou Juca Kfouri, a ausência das pessoas mais pobres devido aos preços absurdos dos ingressos pode tirar uma boa parcela negra dos estádios gerando uma questão racial extremamente perigosa em um país que mascara esse grave problema social. E no meio jornalístico contemporâneo não vejo nenhum Mario Filho para escrever uma nova obra épica como “O Negro na arquibancada brasileira” legitimada por uma referência acadêmica como Gilberto Freyre para defender a presença das camadas mais pobres nos estádios.

O terceiro ponto concerne à destruição de áreas tombadas pelo patrimônio público brasileiro e que estão sofrendo grande risco de serem totalmente destruídas, além de uma escola. É uma aberração legal o procedimento decretado ex-ofício sem a provocação do juízo que autoriza derrubar o Parque Aquático Júlio Delamare e o complexo de atletismo Célio de Barros.

Estádio de Atletismo Célio de Barros
Parque Aquático Júlio Delamare

Outrossim, o simbólico fim de uma escola municipal de referência que tem o nome do primeiro grande craque brasileiro que era filho de uma negra com um imigrante alemão, Arthur Friendereich, é emblemático de um movimento de Bota-abaixo  a educação, a mítica do futebol nacional, o respeito pelos esporte amadores. Isto tudo ocorrerá em função de uma das cláusulas pétreas da constituição da FIFA: grandes estacionamentos, pois os trens, ônibus e metrôs deverão ficar vazios e o palco tem que ser funcional. Para quem?

Escola Municipal Friendereich
Arthur Friendereich posa para foto.

Antes das reformas várias torcidas bradavam em alto som “ O Maraca é nossoooo, AHA, UHU” mas agora com certeza ele não será mais do Célio, do Júlio, do Arthur , Friendenreich ou Antunes Coimbra, e muito menos do popular Silva. E para piorar provavelmente vamos ouvir nas arquibancadas ‘Hilariê’ cantado pela turma da FIFA mostrando o seu valor em dólares, euros ou pagando com VISA que segundo o marketing é muito melhor.

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9 comentários em “O Maraca não é mais do Célio, do Júlio, do Arthur e muito menos do Silva

  1. Olá, Álvaro:

    Parabéns pelo texto. Concordo com as suas colocações dos usos e abusos do dinheiro público nesta reforma do Maracanã, que infelizmente, ocorreu em praticamente todos os estádios para a Copa do Mundo 2014. A destruição da escola e das outras duas estruturas esportivas é apenas mais uma prova do quanto o Governo Sérgio Cabral Filho age com a sociedade.

    Todavia, permita-me apenas discordar de você em dois pontos: não será um certo exagero seu a comparação das formas de torcer impostas pelas autoridades públicas com a marcha da família, tradição e propriedade? Segunto ponto: será que é realmente possível haver este controle por parte de autoridades públicas, FIFA, CBF, Polícia Militar ou quem quer que seja? Veja, também não tenho uma resposta para esta segunda questão, mas me parece um pouco difícil, tendo em vista as várias formas de torcer hoje em dia que merecem ser investigadas.

    Por fim, não tenho qualquer saudosismo pelo antigo Maracanã. Me parece que parte da imprensa esportiva quer discutir o processo de elitização do acesso ao jogos de Futebol por esta via (o passado glorioso e popular X a modernidade elitizada). Na minha visão, não é por aí. O Maracanã já era elitizado e o que o faz ficar ainda mais certamente não é a sua estética e sim a sua gestão, que deveria ser mais pública do que privada.

    Alguém pode dizer que a geral era o espaço do povão, do pobre. Pode ser. E deixá-lo assistir aos jogos desta forma, mesmo com todo o carnaval que se fazia por lá, é para parar e pensar: quem pode pagar mais, merece mais conforto. Quem não pode, que fique em pé.

    Um grande abraço,

    André Couto

  2. Todavia nesta discussão a questão Estética não me parece primordial e se inferioriza diante do campo da Ética e da Política. Independentemente de amar futebol, pesquisar futebol, respirar futebol nos dias de rodada do meu time e durante as Copas do Mundo não posso ser conivente com malversação de verbas públicas, políticas públicas de lazer excludentes dos estratos sociais mais desfavorecidos economicamente e aberrações jurídicas impostas através de projetos que desrespeitam o próprio patrimônio histórico nacional.

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