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Esporte com a língua

Venho há bastante tempo intrigado com o encampamento de termos oriundos da prática desportiva pela linguagem cotidiana. Tal fato ocorre de maneira bastante profícua no idioma anglicano, mas vejo que também há muitos exemplos de figuras de linguagem associadas ao esporte na língua de Camões… O que acontece é que de tão vulgarizadas, tais expressões acabam passando despercebidas aos nossos ouvidos. Encontrei inclusive um livro sobre esse assunto, “O Cabeça de Bagre”, de Ari Riboldi (2008). Disponível aqui.

Claro que, sendo o Futebol [1] o esporte mais popular entre nós, tupiniquins, há mais ocorrências de expressões associadas a este esporte do que ao softball, por exemplo. Na nossa capital cultural, os Estados Unidos, as expressões vêm dos esportes mais praticados por lá, especialmente baseball, football e basketball. Quem não sabe o que um estadunidense quer dizer quando pergunta: “Did you score?”[2]

Uma lista de expressões associadas ao esporte na língua inglesa, porém mais especificamente no ambiente corporativo pode ser vista aqui.

Desta lista Estadunidense, a expressão que mais gostei foi “keep your eye on the ball” (não perca a bola de vista), menção honrosa para “We need someone to quarterback this project” (precisamos de alguém para supervisionar –ou acolher, cuidar – esse projeto).

Tentarei, nas linhas a seguir, fazer um apanhado destas expressões pseudo-esportivas  e uma breve comparação sobre tal uso entre nós (tupiniquins) e eles (yankees). Na língua portuguesa observo quase que totalmente expressões futebolísticas. No inglês existem muitas metáforas provenientes do Pôker também, como “poker face”, “bluffing”, etc.

Mas talvez a metáfora mais famosa da língua inglesa é a das bases do baseball nos relacionamentos amorosos: primeira base: beijo/ segunda base: seios/ terceira base: região genital. É amplamente divulgada em filmes hollywoodianos, como American Pie (EUA, 1999) por exemplo. A metáfora está bem explicada nesse endereço . A cena famosa do filme sobre a terceira base:

Expressões esportivas na língua portuguesa:

“à moda Bangú” = De qualquer maneira, desorganizado.

“abrir as pernas” = facilitar.

“amarelou” = se acovardar, temer.

“artilheiro” = vencedor, conquistador, sedutor.

“na banheira” = impossibilitado de continuar, em situação vexatória (fora de jogo).

“bate-bola” = troca de ideias, diálogo.

“entrar de carrinho” = ser ríspido ou desleal.

“cartola” = elemento burocrático, gerencial, “diretoria”.

“levar (ou dar) um chapéu” = situação embaraçosa, vergonhosa, tomar um prejuízo.

“levar (ou dar) um chute”[1] = ser dispensado, demitido, excluído.

ser “cobra” ou “cobra criada” ou “fera” = ser habilidoso.

“botar pra escanteio” ou “pra córner”[2] = eliminar, excluir, dispensar.

“craque”[3] = muito habilidoso, o melhor.

tal homem  é “coluna do meio” ou “joga no outro time”[4] = afeminado.

“bola pra frente” = prosseguir, continuar, dar andamento.

“vamos virar o jogo” = reagir, lutar.

“tá de marcação” ou “marcação cerrada” = perturbar, vigiar.

“vestir a camisa do time” ou apenas “vestir a camisa” = se esforçar por algo.

“nesta altura do campeonato” = a uma hora dessa, em momento inapropriado.

“show de bola” = algo ótimo, muito bom, genial. O vocábulo inglês show significa espetáculo.

“chegar junto” = conferir, vigiar, cuidar bem.

“entrar de carrinho” = ser desleal, cometer ato inesperado. O “carrinho” é uma jogada do futebol em que um jogador se alinha horizontalmente no gramado para tentar tomar a bola.

“tomar um lençol” = ser desmoralizado. (em Portugal esse tipo de jogada encobrindo o adversário chama-se de “cabrita”, e não de lençol).

“esconder o jogo” = Fazer mistério, não revelar as intenções ou estratégias.

“ser mascarado” = falso, sem entrega, não se esforça o bastante, “mercenário”.

“jogo sujo” = ser desleal.

“jogo limpo” = Ser leal.

“zagueiro” = cônjugue ciumento ou mulher difícil.

Mais sobre esse assunto:

http://www.ehtc.com/resources/news-articles/bid/87767/Sports-The-Lingo-of-Business

http://www.institutodeletras.uerj.br/idioma/numeros/21/idioma21_a02.pdf

http://www.cartaforense.com.br/conteudo/colunas/o-futebol-e-a-lingua-portuguesa/150

http://www.alinguagemdabola.com.br/pdf/sobrefutebolbrasil.pdf

 

*E o Campeonato Carioca de Futebol Profissional hein!? Esvaziado sem as maiores torcidas… Mérito dos finalistas, nada contra… Mas não ter um estádio na cidade para realizar a final… VERGONHOSO! Alô, dona FERJ… Os inimigos paulistas devem estar rindo muito…Que vexame!


[1] A palavra “chute” é um anglicismo, derivado do inglês shoot (disparar). O termo correto em português seria “pontapé”. A intersecção do esporte com a arte bélica é antiga e perpetuada. O mesmo se dá com a palavra artilheiro, proveniente da comparação com o soldado da Artilharia.

[2] Outro anglicismo, derivado de corner (esquina). a forma aportuguesada traduziu-se por “escanteio”.

[3] Derivado do inglês crack (quebrar) – aquele que “quebra”, “desmonta” as estratégias do jogo.

[4] Esta expressão também é utilizada na língua inglesa: “the Guy swings for another team” ou “He bats for the another team”


[1] football association, o verdadeiro nome desse esporte, segundo a FIFA –  Fédération Internationale de Football Association.

[2] “marcou pontos?” = Conseguiu?, “comeu?

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5 comentários em “Esporte com a língua

  1. Me lembrei de outras duas expressões:

    “Driblar a situação”= Livrar-se de algum problema.
    “Dar o ponta-pé inicial” = Começar uma tarefa ou projeto

    Muito interessante essa influência esportiva na linguagem cotidiana dos povos. Isso atesta o quanto a paixão pelos esportes move as emoções humanas. E essa prática se tornou tão corriqueira que nem percebemos mais ao usarmos esses termos. É algo que já faz parte do nosso idioma nativo e da nossa cultura.

  2. O desportivismo expressa uma aspiração ou espírito que a actividade vai ser apreciada por si mesmo. O sentimento é bem conhecido pelo jornalista desportivo Grantland Rice, que disse “não interessa como ganhaste ou perdeste, mas como jogaste o jogo”, o lema dos Jogos Olímpicos modernos é expresso pelo seu fundador Pierre de Coubertin : “O mais importante…não é vencer, mas sim, participar”. Estas são expressões típicas desse sentimento.

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