Artigos

O big bang da Fifa, invenções e esquecimentos da bola

ZH - Gremio Campeao do Mundo 1983Esqueça o drible seco de Renato Gaúcho no zagueiro do Hamburgo antes de fuzilar o 2×1, em 1983. Não ouse bubourscar no Youtube a arrancada e o jogo de corpo de Pelé, no segundo gol do Santos contra o Benfica, no baile de 1962. Passe uma borracha no calcanhar sem querer de Muller contra o Milan, no bi do São Paulo em 1993. Tire da memória o lançamento de Zico e um Nunes, chegando sozinho, para liquidar o Liverpool, em 1981. Sim, parece que é isso que a Fifa, respaldada por parte da imprensa, quer fazer.

Nesta semana, em que o Corinthians entra em campo para tentar o segundo título mundial de clubes, muitos veículos de comunicação colocam a equipe como a única que pode igualar o feito do Barcelona de Messi e ser bicampeã do mundo. Um mundo, que nos registros da federação internacional, começa em 2000. Numa época de pré-crise financeira da entidade, uma tentativa de um torneio que só se tornaria possível cinco anos depois, com o apoio da Toyota – empresa que patrocinava a final do que conhecíamos como Mundial Interclubes.

Hoje, podemos ler notícias que mostram como os mundiais anteriores à 2000 e entre 2001 e 2004 são apagados dos registros da instituição. (link). Tente buscar no site da Fifa algo sobre o Torneio Intercontinental – antes que questionem, uma disputa pelo mundo é uma disputa entre continentes, a fórmula atual mostra isso. Se achar algo, não será com a grandeza com que acompanhamos a disputa ao longo dos 44 anos de existência (1960-2004).

Acho que o Corinthians, caso vença, será bi. Assim como o Santos foi. E o São Paulo de Telê Santana (que depois seria tri, em 2005). Devemos ter um olhar crítico sobre a cobertura dos campeonatos. Quais os interesses por trás? São políticos? Financeiros? Empresariais? Sabendo que os veículos jornalísticos escolhem abordar alguns fatos em detrimento de outros, e por meio de determinados enquadramentos em detrimento de outros, o que configura uma realidade construída por eles, já que não relatam todos os fatos ocorridos por todos os ângulos possíveis. Segundo Pierre Bourdieu, “os jornalistas têm os seus óculos particulares através dos quais veem certas coisas e não outras, e veem de uma certa maneira as coisas que veem. Operam uma seleção e uma construção daquilo que é selecionado” (BOURDIEU, 1997, p.12). Ou seja, não se pode apenas “comprar” a versão que a Fifa coloca como verdadeira. Não se deve silenciar sobre os campeonatos anteriores, a memória da própria imprensa esportiva.

No futebol, invenções e esquecimentos não são raros. A maioria deles construída pelo discurso da imprensa. Vejamos no Brasil. Em uma decisão política da CBF, Santos e Palmeiras se tornaram os maiores vencedores de Brasileiros de um dia para o outro. Reconheceram campeonatos anteriores a 1971, com fórmulas e formatos diferentes, como nacionais. E assim, a mídia aceitou a ideia e não vemos vozes contrárias ao discurso “vindo de cima”.

Enquanto uns são reconhecidos com facilidade, dois clubes brigam há 25 anos pela taça de 1987. Flamengo e Sport Recife duelam em tribunais, em arquibancadas, em mesas de bar. Propostas de dividir o troféu entre os times de mesmas cores não são aceitas. E a imprensa, que antes “manchetava” “Flamengo tetracampeão” naquele ano, passa a colocar em dúvida a validade do torneio. A própria Fifa, que antes não reconhecia a equipe carioca como a vencedora da  Copa União, hoje coloca o Flamengo como o campeão de 1987 (vide imagem). É muita confusão para uma memória só.

“Assim, o público – a sociedade – é cotidiana e sistematicamente colocado diante de uma realidade artificialmente criada pela imprensa e que se contradiz, se contrapõe e frequentemente se superpõe e domina a realidade real que ele vive e conhece. Como o público é fragmentado no leitor ou no telespectador individual, ele só percebe a contradição quando se trata da infinitesimal parcela de realidade da qual ele é protagonista, testemunha ou agente direto, e que, portanto, conhece. A imensa parte da realidade, ele a capta por meio da imagem artificial e irreal da realidade criada pela imprensa; essa é, justamente, a parte da realidade que ele não percebe diretamente, mas aprende por conhecimento” (ABRAMO, 2003, p.24).

peléA mídia, então, como produtora e vocalizadora de determinados significados e de representações da realidade, tem alguma capacidade de interferir nas relações sociais. Ela usa códigos e símbolos, de forma incessante, que contribuem para a formação de visões do mundo. As mensagens transmitidas pelos meios influenciarão, em alguma medida, as escolhas dos cidadãos. A mídia faz uma escolha, esquece um acontecimento e ajuda a construir socialmente a realidade de quem a tem como fonte de percepção do mundo.

Não se pode esquecer heróis e títulos. Comemorações históricas de clubes, conquistas que os sustentam. Que atraem torcedores. Se acharmos comuns esses esquecimentos, sem críticas, daqui a uns anos – talvez poucos anos – a comemoração desse Mundial de 2012 seja minimizada ou apagada pela Fifa e pela imprensa, caso apareça algum outro torneio com uma fórmula mais mirabolante. E mais lucrativa para quem organiza.

Citações:
ABRAMO, Perseu. Padrões de manipulação na grande imprensa. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1 ed., 2003.
BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão. Oeiras: Celta, 1997.

***
É um prazer poder dividir o espaço deste blog com tantos pesquisadores e escritores conceituados na área do Esporte. Espero contribuir com temas que possam render boas discussões.

Anúncios

Um comentário em “O big bang da Fifa, invenções e esquecimentos da bola

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s