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Neymar, uma musa?

https://i0.wp.com/www.gp1.com.br/images/290x387/neymar-114434.jpgAntes que qualquer neymarzete reclame, explico: na mitologia grega, as musas eram nove filhas de Mnemosine, a deusa da memória, e Zeus. Essas entidades mitológicas, capazes de inspirar a criação artística, viviam no museion, templo de preservação das artes. A palavra museion deu origem a palavra museu, local estabelecido para a preservação da memória. Não costumamos categorizar homens como musas, por estas serem entidades eminentemente femininas, geralmente usadas para adjetivar mulheres de grande expressividade musical. Mas se tomarmos Neymar como um representante da cultura brasileira por ser um jogador que recupera um estilo brasileiro de jogar futebol, vemos que sua performance em campo e seu agendamento de mídia, direcionado ou espontâneo, carregam uma memória que nos conduz a pensar que classificá-lo como musa não seja tão absurdo assim. Vejamos.

Neymar resgata, com seu estilo driblador e criativo em pequenos espaços, a memória de um “futebol arte”, estilo que foi, durante muito tempo, um traço de reconhecimento e diferenciação do futebol brasileiro e que fez com que o país ganhasse a alcunha de “país do futebol”, “pátria de chuteiras”, e tantas outras. No futebol “alegre”, que faz bem aos olhos, e no seu próprio lema “alegria e ousadia”, vemos traços de Tália, a musa da comédia, da festividade.

Poucos jogadores têm uma performance em entrevistas que fuja dos clichês “atrás dos três pontos”, “fazer o que o professor pediu”, “tentar sair com a vitória”, etc. Neymar não é um desses poucos. A substituição da suposta alegria presente à confortável distância dos microfones é substituída por um aspecto grave e sério que o aproxima de Melpomêne, musa da seriedade.

Algumas comemorações marcaram a história do futebol brasileiro. Os socos no ar de Pelé e Zico e o dedo indicador em riste de Ronaldo tornaram-se marcas desses ídolos brasileiros. A dita “jóia da Vila Bemiro” construiu sua própria forma de comemoração: a dança. Assim, com uma coreografia em cada gol marcado, Neymar aproxima-se de Terpsícore, a musa da dança.

Pela fama e pela vaidade, Neymar acabou sendo transformado em um sex symbol. As capas da Capricho e Atrevida e os gritinhos das neymarzetes nos remetem à quinta musa: Érato, a musa do desejo.

https://i2.wp.com/img2.mlstatic.com/capricho-neymar-giovanna-lancellotti-carla-diaz-watson_MLB-O-221768170_4972.jpgVoltando aos aspectos futebolísticos, Neymar tem sido protagonista de partidas épicas como aquele Santos e Flamengo no campeonato brasileiro de 2011 ou naquela final do Mundial de Clubes do mesmo ano que, mesmo não tendo sido uma partidaça, teve como pré-partida um duelo midiático acirradíssimo entre a jóia do Santos e o argentino Messi. Suas histórias épicas podem ser contadas pelo próprio Neymar, mas poderiam ser contadas por Polímnia, a musa da narração histórica.

Assim como Urano, musa da inspiração, as atuações decisivas na curta carreira de Neymar o revestem de uma aura de genialidade que faz com que este jogador tenha performances que já foram eleitas para continuar na memória futebolística brasileira. Dessa forma, Neymar assemelha-se a Clio, a nona entidade, a musa da história, filha da memória.

O objetivo em comparar Neymar com as nove musas do Olimpo é menos uma forma de endeusá-lo do que uma forma de percebermos quais aspectos da carreira dele estão sendo agendados pela mídia que acabarão formando a memória selecionada sobre esse jogador. O sociólogo francês Joël Candau (2012, p. 23) classifica esses agendamentos de memória, ou seja, esses aspectos da vida/carreira selecionados deliberadamente para serem as representações que cada indivíduo faz de sua própria memória, como metamemória: a memória reivindicada, a construção explícita de identidade. Sua performance em campo e o trabalho de seus assessores, auxiliados pelo agendamento espontâneo da mídia, colocando-o sempre em comparação com ídolos do passado do futebol brasileiro, ou seja, traçando um paralelo entre a sua carreira e uma memória de futebol mais ampla, que seria memória coletiva para Halbwachs (1994), ou protomemória, para Candau (2012).

Perceber como a memória de uma figura pública é construída nos ajuda a perceber como a sociedade elenca como prioridade o que se quer legar de uma história, acontecimento, personalidade. No caso do Neymar, perceber quais aspectos são esquecidos e quais ganham destaque nos leva a entender como alguns setores da sociedade e como o próprio jogador querem encaixar esse personagem na construção da história desse esporte.

Referência

CANDAU, Joël. Memória e identidade. São Paulo: Contexto, 2012.

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