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Avenida Brasil, literatura e futebol

Durante muito tempo foi comum ouvir que no Brasil a literatura havia feito pouco proveito do futebol enquanto temática. Em relação a contos temos uma produção razoável, especialmente os produzidos nos últimos 10 anos. Mas de fato, o futebol não ocupa lugar central na produção literária especificamente no que diz respeito a romances. Pode-se contar nos dedos, romances que tenham feito do futebol assunto relevante dentro de suas tramas. O cinema já foi mais generoso e diversas produções, incluindo documentários, levaram para a grande tela o esporte mais popular do país. Um ótimo exemplo é “Linha de Passe”, de 2008, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomaz.

Recentemente em âmbito acadêmico diversos estudos têm resgatado a relação entre futebol – e dos esportes de um modo geral – e a literatura, demonstrando que ainda há muito a ser pesquisado e analisado a respeito desse assunto. Uma dos aspectos positivos desse enfoque atual é a tentativa de abarcar uma série de produções artísticas que incluem quadrinhos, músicas etc, não se limitando a uma concepção fechada de arte e literatura.

Porém, creio que ainda falta um investimento maior em pesquisas e análises sobre a mais exitosa relação entre literatura e futebol: a novela. A telenovela é a produção ficcional – e porque não dizer literária – mais importante do Brasil, sendo capaz de alcançar um imenso público com o qual dialoga diretamente. Como propõe a pesquisadora Esther Hamburguer “As novelas são modos de se tomar posição a respeito de algum tema relevante na sociedade” (O Brasil antenado, a sociedade da novela), o que indica o quanto esse tipo de produção deve ser visto com menos reservas.

Em relação ao futebol, já tivemos o grande sucesso “Irmãos Coragem”, de Janete Clair, no qual um de seus personagens principais, Duda (representado por Claudio Marzo) era um famoso jogador do Flamengo. Essa novela obteve a incrível marca de 80% de audiência, no Brasil. Tivemos também outro sucesso, “Vereda Tropical”, de Silvio de Abreu, com Mário Gomes como Luca, um jogador que no último capítulo consegue atuar no time principal do Corinthians. A cena da participação de Luca foi gravada no dia do jogo ente Vasco e Corinthians, em 1985, que terminou em 2X2 com direito a protesto da torcida Corinthiana que diante da má atuação do clube gritava: Luca!!Luca!

E o futebol esteve no centro da cena de Avenida Brasil, uma produção que entrou para a história das novelas, no país, e cujo capítulo final nos fez parecer estar em uma decisão de campeonato.

O futebol se manteve presente de ponta a ponta em Avenida Brasil, a começar pelo protagonista da trama, Tufão, que em campo demonstrava pleno domínio e precisão que o transformou em ídolo do clube mais popular do país, o Flamengo.

Fora de campo, entretanto, Tufão demonstrava uma rara ingenuidade e insegurança da qual a vilã Carminha tirou todo proveito possível. Seu filho adotivo, Jorginho, bem que tentou seguir os passos de sucesso do pai, mas além de estar longe de seu talento, Jorginho era um rapaz problemático, envolvido com álcool e um passado de abandono. Assim como diversos filhos de jogadores famosos, Jorginho teve que se contentar em viver sob a sombra do pai, além de passar a trama toda sendo sustentado por ele.

Porém, mais do que Tufão, Carminha e Nina, o protagonista de Avenida Brasil foi o Divino Futebol Clube. Esse clube se configurou como espaço de memória e sociabilidade dos moradores do bairro homônimo. O Divino foi o clube de formação de Tufão, e nesse espaço se reuniam outros rapazes em busca da mesma trajetória de sucesso do ex-jogador.

Tufão representou o típico perfil de jogador de futebol no Brasil, pelo menos no que diz respeito ao perfil consagrado em nosso imaginário. Um rapaz de origem humilde cuja família enfrenta uma série de dificuldades na vida mas, que após algum tempo, consegue fama e dinheiro por intermédio do futebol.

Ao contrário da maioria dos jogadores que são alçados à fama, Tufão ao findar a carreira retorna ao seu bairro de infância e no que diz respeito à vida pós-gramado, Tufão manteve-se próximo ao futebol de modo esporádico, oferecendo pequenos auxílios financeiros ao seu clube de formação, Divino e, sobretudo frequentando-o. Nada além disso.

Tufão também fugia ao padrão de vida de muitos jogadores e ex-jogadores que tiveram sucesso na carreira, ao adotar um estilo de vida muito simples, longe de grandes eventos e das rodas sociais glamourizadas cercada de artistas e celebridades.

Tufão se aproxima de Adriano, no que diz respeito à sua exaltação da vida simples, junto aos amigos de infância. E se Adriano planeja construir uma mansão na Vila Cruzeiro – como foi divulgado em alguns jornais – , Tufão ergueu a sua mansão no bairro Divino e lá passava seus dias em convívio com a família e amigos, desfrutando de todo conforto que o dinheiro herdado do futebol pode lhe oferecer. Afinal diferentemente de Adriano, Tufão é um indivíduo pacato, que valoriza a vida em casa, sendo arredio à exposição midiática e às festanças.

A mansão da família Tufão foi uma espécie de microcosmo do subúrbio carioca, ou melhor, do que se imagina ser o subúrbio carioca. Não sem motivos, foram frequentes os estereótipos em relação à vestimenta, comportamento, gostos, hábitos etc,

Mas, sobretudo a mansão de Tufão representou uma série de imagens em torno do jogador de futebol, concebido como alguém a quem o dinheiro não é capaz de conferir uma cultura sofisticada. Mesmo com muito dinheiro, a família Tufão primava pelo gosto duvidoso na decoração da casa, mostrando um comportamento “espontâneo” no qual cabia gritos, brigas públicas e várias outras demonstrações de pouco pudor diante do outro.

A vilã Carminha foi amplamente aceita pela família Tufão por se propor como aquela que cumpriria o papel de zelar pela construção e manutenção de uma imagem mais sofisticada da família Tufão. A seu modo, Carminha cumpre esse papel ao fazer da mansão Tufão um lugar do qual o Divino se orgulhava em abrigar.

Foi em busca de uma identidade menos “suburbana” que Nina surge como aquela que iria atuar na mansão como uma chefe de cozinha com experiência no exterior e que se mostrava acostumada a fazer pratos elaborados, importados e, portanto, muito diferentes do que as empregadas tradicionais da casa eram capazes de fazer.

Pelas mãos de Nina, Tufão tentou minimizar a pouca educação que considerava ter. Por isso seguindo os conselhos da cozinheira, passou a ler romances como Metamorfose de Kafka e Madame Bovary de Gustave Flaubert. A sofisticação de Nina seduziu Tufão que se viu encantado com um mundo que considerava ser o oposto do seu, um homem de poucos estudos e que ganhara a vida jogando bola.

Em torno do Divino surgiram personagens como Suelen, uma Maria-Chuteira que caiu nas graças do público, por que longe de representar algum tipo de submissão feminina, demonstrou agir de modo deliberado fazendo de seu corpo um objeto de poder sobre aqueles que a desejavam. Poder limitado, entretanto, pois quando Suelen tentou ir além do território do Divino percebeu que o universo das celebridades do futebol podia ser imenso e perigoso.

Daí seu retorno para o conforto e a segurança do Divino onde constrói uma vida em família a partir de um triângulo amoroso ambíguo, já que formado por ela, e pelos jogadores Leandro e Roni, este último dono de uma forte fama de gay. Essa fama surge como um obstáculo a sua carreira de jogador. Em diversos momentos da novela, ficou claro o esforço do pai de Roni em casá-lo para assim ampliar suas chances de ser contratado por um grande clube. Por conta dessa necessidade, Roni se casa com Suelen, com quem mantém um relacionamento de conveniência já que lhe é útil para a carreira, mas, sobretudo lhe é útil para ficar próximo de Leandro. É por Leandro – um dos namorados de Suelen – que Roni desperdiça um pênalti de propósito, perdendo a chance de ser contratado por um clube grande.

A homossexualidade foi tratada em um contexto no qual ela permanece como um grande tabu: nos esportes de um modo geral e especialmente no futebol.

Se a homossexualidade foi tratada – mesmo que com certa discrição -, senti falta de um maior investimento na relação entre mulher e futebol. Quando esse relacionamento surgia se dava por intermédio dos homens, ou seja, as mulheres iam ao estádio para vê-los ou para acompanhá-los. Não houve a figura de uma torcedora na novela e muito menos a de uma jogadora. O futebol mostrou-se um território dos homens, o que considero uma pena, afinal isso em parte contribui para a manutenção da íntima relação entre futebol e masculinidade, quando se poderia contribuir justamente para uma problematização dessa ideia. A novela Zaza, de Miguel Falabella, foi mais interessante nesse sentido, ao apresentar a personagem Valéria como uma menina cujo sonho era tornar-se jogadora de futebol.

Mas diferentemente de Zazá, Avenida Brasil esbanjou em qualidade narrativa. Por isso, assim como em uma decisão de campeonato, seu capítulo final monopolizou os meios de comunicação e as conversas diárias. Na rádio, houve mesa-redonda discutindo qual deveria ser o destino das personagens Carminha e Nina que disputaram ao longo dos mais de 200 capítulos, a preferência do público. A vitória foi de Carminha. Uma vitória tranquila e incontestável, pois se no futebol a fama cabe aos heróis, nas novelas ocorre o contrário. E para uma vilã do porte de Carminha não restaria nada menos do que o direito de entrar para o rol das grandes vilãs da história das telenovelas, fazendo companhia a Odete Roitman, Laura Cachorrona e Flora. Carminha a 1ª dama do futebol no Divino.

Ainda em relação ao capítulo final, algumas rádios atualizavam constantemente as informações sobre o que ocorria na novela. As ruas ficaram vazias durante a transmissão do episódio final e os bares lotaram de gente que comia e bebia enquanto torciam pelo resultado do duelo Carminha x Nina. Alguns telões chegaram a ser instalados, como se fosse uma Copa do Mundo.

E Avenida Brasil terminou.

Terminou tendo como cenário o lugar mais adequado possível: um campo de futebol com o Divino lutando por uma vaga na primeira divisão. Vaga conseguida graças a um pênalti cobrado por Adauto, jogador que largara o futebol após perder um pênalti decisivo pelo mesmo clube Divino há alguns anos atrás. Adauto se redimiu convertendo o pêntalti.

Das janelas de apartamentos e casas no Rio de Janeiro puderam ser ouvidos muitos gritos quando o Divino ganhou o jogo com o gol de Adauto. Muitos brincavam, outros fingiam que o Divino era seu clube, afinal como diz o hino do clube:

Avante esquadrão divinal

Avante, escutai o clamor

E até o apito final

Lutai com garra e louvor

Pois entre os grandes do Rio de Janeiro

Ó meu Divino, és sempre o primeiro

Se em Avenida Brasil, o Flamengo deu fama a Tufão, se o Flamengo representou o futebol das massas e dos grandes clubes, o Divino representou um simpático clube de subúrbio que tinha como marca seu envolvimento com a comunidade. Um clube que vivia de um passado glorioso que parecia estar longe de voltar em meio a um contexto futebolístico extremamente mercadorizado e feito para poucos.

Até o momento nenhuma novela havia feito do futebol elemento tão central e feito de maneira tão primorosa. Avenida Brasil inovou em diversos níveis da dramaturgia televisiva, quebrando certos lugares-comuns do melodrama e caindo no gosto público como há muito tempo não se via.

Repito, entendo que a novela é a mais importante produção ficcional do Brasil e finalmente ela se viu unida de modo decisivo com o futebol, o esporte mais popular do país.

E essa união mostrou-se tão forte que nas redes sociais foi criado um divertido quadro em que se faz uma analogia entre os clubes do Brasileirão 2012 e os personagens de Avenida Brasil. É simplesmente hilário.

Mais tirinhas aqui.

Como vascaína, adorei ser representada por Carminha minha personagem favorita de Avenida Brasil. Carminha assim como o Vasco chegou no topo e nele se manteve durante um tempo, mas ao final “ficou sem nada”.

Carminha pelo menos não morreu e ao topo sempre se pode voltar algum dia.

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