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Produtos da mídia ou produtores de mídia?

Semana passada, entre os dias 18 e 19, tive o prazer de participar do seminário “Natureza e Construção da Celebridade no Século XXI”, evento realizado na Universidade Federal de Minas Gerais, com apoio do Globo Universidade. Minha participação foi na mesa “Personagens Públicos e Valores Sociais”. Na ocasião, apresentei parte de minhas pesquisas sobre “mídia e idolatria no universo do futebol”. Ao final da mesa, uma das perguntas dirigidas a mim versava sobre o poder da mídia de “fabricar ídolos”. Ao voltar para o Rio de Janeiro, um aluno de uma universidade de São Paulo me pede uma entrevista para seu trabalho de conclusão de curso e uma das perguntas questionava o “fato” de o atleta, nos tempos de hoje, ter se tornado um “produto esportivo”.

Ora, o poder dos meios de comunicação é evidente em vários temas relacionados ao futebol, inclusive ao da idolatria. Mas por que parece lugar comum acreditar que a mídia tem o poder absoluto de “fabricar” ídolos? Seríamos todos enganados por ela, exceto aqueles que fazem a “denúncia”? Estes ídolos não seriam genuínos, teriam sido escolhidos ao acaso? Não se percebe que sempre existe algo no atleta “fabricado” capaz de exercer fascínio e render histórias jornalísticas. Este “algo” é simplesmente o talento, algo que não se explica e que é elemento fundamental nas biografias de nossos ídolos futebolísticos.

Na década de 1980, Zico era o atleta mais festejado pela imprensa brasileira. Na década seguinte, Romário ocupou este posto. Estamos falando de dois ex-atletas extraordinários, com várias conquistas em seus currículos. Logo após, vieram os Ronaldos e hoje a mídia brasileira aponta o olhar para Neymar. Por que será? É bastante evidente que as escolhas não são fortuitas e que se estes atletas são “produzidos pela mídia”, eles, por sua vez, “produzem a mídia”, pautando notícias e agendando assuntos. Mas soa como opinião culta o tal do pensamento que fala em “produto de marketing” e/ou “fabricação da mídia”. Seria Neymar uma invenção dos poderosos meios de comunicação? Jovem e dotado de um talento extraordinário, Neymar é ídolo nacional e herói do Santos, pelas suas importantes conquistas. É a grande aposta do Brasil para o posto de herói da seleção. A mídia tem e terá o poder de editar esta trajetória, mas será Neymar quem irá, com suas atuações e possíveis conquistas, “escrever” sua trajetória em parceria com os meios de comunicação.

O vazio que ficou em nossos meios de comunicação após a morte prematura de Ayrton Senna nunca mais foi preenchido. No início se tentou algo com Rubens Barrichelo, mas a ausência de conquistas expressivas como as de Senna, fez com que a mídia se retraísse, pois ela não teria o poder de nos enganar de forma tão acintosa.

Resumindo. Sempre existe algo (talento, dom) e um contexto social em relação ao “objeto mitificado” (o atleta em questão) capaz de resultar em narrativas “heroicas”. A mídia tem o poder de editar estas biografias, mas ela o faz de acordo com os feitos dos biografados e dentro de um contexto determinado. Neste sentido, Zico, Romário, Senna, os Ronaldos e agora Neymar “escreveram” (Neymar ainda está “escrevendo”) em parceria com a imprensa suas trajetórias de vida rumo ao estrelato. Torna-se fundamental analisar estas “escritas” para compreendermos melhor o fenômeno da idolatria no universo esportivo.

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2 comentários em “Produtos da mídia ou produtores de mídia?

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