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Quando a arte encontra o esporte. Ou o esporte como obra de arte

Instrução para leitura: Esse é um de meus posts mais breves desde que comecei a escrever aqui para o blog. É mais a descrição de algo interessante que passou pelos meus olhos nos últimos tempos e que desejei compartilhar com os leitores aqui do blog.

Na sexta-feira, 03/08, praticando uma das minhas atividades rotineiras – ler jornal-, me deparo, no caderno de cultura, com um artigo sobre a série fotográfica “Pilots”. Nada demais. Afinal, o que não falta nesse Caderno em específico são dicas de exposições, obras de arte, movimentos culturais. O caráter pouco usual dessa matéria era o teor da obra em questão.  O artista da Tanzânia, radicado na Alemanha, Jens Ulrich produziu uma série de colagens fotográficas, obtidas pela junção de fotos de esculturas de corpos humanos espalhadas por sua cidade (Berlim) com imagens dos corpos atléticos de esportistas nas Olimpíadas. O resultado me deixou fascinado e me fez refletir sobre essa coleção de imagens.

Lendo a matéria percebo que o artista desejava promover com sua obra uma crítica do culto ao corpo durante o nazismo, mais do que evidenciar a beleza atlética dos corpos capturados em movimento ou estáticos. Creio que a imperfeição das colagens, como percebemos nas fotos acima, possui um propósito: opor-se ao ideal do corpo perfeito. Noto também a estreita relação com a ocorrência das Olimpíadas em Londres, o que aumentou a visibilidade da obra.

A criação artística de Jens me despertou automaticamente a associação com um intelectual alemão ilustre. Seu nome é Hans Ulrich Gumbrecht, teórico da literatura, mas referência para diversas áreas, como História, Ciências Sociais e Comunicação. Jens e Gumbrecht compartilham, assim, de laços germânicos e de parte do nome. Mas não apenas isso. A obra artística de um está em diálogo com a teoria do outro. Nada mais instigante do que esse cruzamento de relações ao acaso.

Gumbrecht propõe uma análise do esporte pelo viés da materialidade dos corpos e da produção de presença da assistência do espetáculo esportivo. Essa produção de presença seria o justo oposto da produção de sentido, basilar do pensamento hermenêutico que predominou nas Humanidades desde sua fundação enquanto ciência. A definição sucinta desse conceito seria a seguinte: “Algo presente é algo que está ao alcance, algo que podemos tocar, e sobre o qual temos percepções sensoriais imediatas” (Elogio da Beleza Atlética, 2007, p. 50).

A justificativa de Jens para produzir suas colagens possui um fundo hermenêutico, de crítica a um modelo político que prevaleceu na Alemanha durante um curto, porém, marcante período. O resultado dessas motivações , no entanto, é mais expressão estética do que sentido.  Já Gumbrecht se expressa por um meio mais hermenêutico -o livro-, mas propõe um olhar atento para o outro pólo, o das sensações proporcionadas pelo esporte. Seriam as sensações e sentimentos, aliás, que manteriam aceso nos torcedores o fascínio pelo esporte durante toda suas vidas. O que o esporte desperta em cada um não pode ser explicado por palavras, mas, antes, vivenciado enquanto uma experiência estética única, próxima daquela de uma obra de arte.

As imagens de Jens são emblemáticas dessa presença produzida pelo esporte. Abaixo, deixo as fotos expressarem mais do que poderia tentar explicar. Veja aqui a série completa de imagens.

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