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Jogando em casa

Por Carolina Diniz

Mestranda em Comunicação pela UFPB

O mês de agosto tem sido generoso com os cicerones brasileiros atuais. Na mesma semana, a Forbes, revista americana de finanças, e a Konami, empresa japonesa de games, desenvolvedora do Pro Evolution Soccer – apenas PES entre os gamers – agendaram a mídia em torno da presidente Dilma Rouseff (capa da Forbes), do jogador Neymar e do cantor sertanejo Michel Teló.

A primeira goza de prestígio na revista americana menos pelo carisma do que pelos rumos que o país está tomando na economia e pela postura em relação à política internacional. Teló, que já teve seu sucesso comparado ao de Carmen Miranda pela mesma revista, volta a ter destaque pegando carona naquela que foi sua principal plataforma de ascensão: o futebol. Lembremos que foi a partir das coreografias das músicas do sertanejo encenadas por jogadores de futebol nas comemorações dos gols que Teló alcançou o sucesso internacional. O terceiro cicerone em destaque no mês é o jogador Neymar que, num intervalo de duas semanas, perdeu a medalha de ouro e “ganhou” destaque dividindo a capa do PES com o português Cristiano Ronaldo. No jogo, Neymar comemora os gols dançando “Ai se eu te pego” de Teló.

O cicerone é aquele encarregando de informar os usos e costumes, caráter e posição da cultura, rica e multifacetada, acentuando em sua performance os gestos que irão de alguma forma dar sentido ao exótico. Cada um desses personagens citados se apóia em algum elemento da cultura brasileira divulgando-a positivamente para ter destaque internacional. E há uma economia em torno do cicerone, seja ela em troca de favores, interesses recíprocos ou capital gerado pelas informações. No caso de Teló e Neymar, um representa a sonoridade sertaneja, porém pop, fruto do business agrário de um país que cresce economicamente alicerçado principalmente nas bases rurais, enquanto que o outro se ancora no passado mítico de um futebol arte tão carente hoje em dia no país.

O cantor e o jogador são destaques na divulgação do novo jogo da franquia que conta, pela primeira vez, com todos os times da Série A do Campeonato Brasileiro. No país que é considerado um dos grandes pólos consumidores de games no mundo, a inserção tardia de elementos nacionais importantes – menos a coreografia como estratégia de marketing do que a própria presença da liga nacional – num jogo de futebol, esporte mais praticado no país, só deixa mais evidente a incapacidade dos gerentes de futebol brasileiro em pensar formas modernas de geração de receita.

Para fechar o acordo de inserção dos times brasileiros no jogo, executivos da Konami precisaram conversar com cada um dos 20 times que compõem a elite do futebol brasileiro separadamente. Antes apenas os times brasileiros que participavam da Copa Libertadores da América estavam disponíveis no PES.

Não é novidade a boa fase econômica do país. Isso tem feito com que as desenvolvedoras de jogos tenham voltado seus olhos para o mercado nacional lançando produtos já com traduções e legendas em português. A Konami já tinha mostrado interesse pelo mercado nacional quando convidou o narrador Silvio Luiz e o comentarista Mauro Beting para terem as vozes na transmissão da versão brasileira do PES 2011, além de ter sempre o jogador do momento na capa da edição lançada no Brasil. Mas falta de organização do futebol nacional sempre impediu a inserção da liga nacional entre as ligas disponíveis para os jogadores.

Até a assinatura com os clubes brasileiros, apenas os cicerones colhiam os lucros a partir de uma visão mais apurada de utilização do momento de destaque internacional do país para inserir em suas performances aquilo que é considerado produto nacional “autêntico”: o futebol.

Voltando duas casas no tabuleiro do bom senso, a CBF, por sua vez, cobrou muito mais que o pedido por todos os clubes brasileiros para que o Pro Evolution Soccer pudesse disponibilizar o uniforme da seleção brasileira. A konami não aceitou pagar o valor pedido pela confederação e, por isso, a camisa amarela da seleção estará mais uma vez ausente no jogo. Uma pena para quem conseguiu pela primeira vez jogar em casa.

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