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Olimpíadas 2012, quando o riso não precisa ser idiota

Dedicado ao meu amigo Luiz Rojo

No que diz respeito à participação da seleção em Copas do Mundo, a recepção das derrotas frequentemente se articula em torno da pergunta “Por que o Brasil perdeu” cuja resposta tem como elemento central a figura dos vilões, que seriam os jogadores sobre os quais recai a culpa da derrota. Além dos vilões, as recepções das derrotas se empenham em elencar problemas, criar polêmica, provocar sensação nos leitores com manchetes provocativas, deixando de lado uma perspectiva que de fato dê atenção aos aspectos técnicos do jogo. Esse tipo de recepção que historicamente se configurou no discurso da imprensa esportiva em relação às Copas do Mundo tem se estendido aos Jogos Olímpicos. Pelo menos neste ano, a imprensa preferiu elencar os erros de nossos atletas muitas vezes investindo em uma espécie de vilanização, buscando culpabilizá-los pelo desempenho abaixo do que se esperava.

Cesar Cielo foi alvo desse tipo de recepção. Na matéria intitulada “Tombo” publicada na Folha de São Paulo, a terceira colocação do nadador brasileiro na prova dos 50 metros foi tomada como uma quase derrota cuja responsabilidade coube a Cielo: “Após passar em branco nos 100 m livre, Cielo falha na defesa do título olímpico dos 50m e sai de Londres com apenas uma medalha de bronze” (04/08/2012). O uso da palavra “falha” deixa explícita uma perspectiva que privilegia a busca de lacunas no desempenho do atleta. Uma busca que no caso de grande parte da imprensa tem como característica o pouco conhecimento acerca das especificidades das práticas esportivas da qual se fala e assim como no futebol, a falta de reconhecimento do desempenho dos adversários.

Outra preocupação da imprensa é fazer uso de chavões. O recurso aos lugares-comuns é tão grande que dois dos principais jornais do país recorreram a mesma fórmula para anunciar a eliminação de Fabiana Murer dos jogos de Londres. O Globo em sua capa publicou a manchete: “E o vento levou” em que afirmava que “A campeã mundial e uma das favoritas ao ouro, Fabiana Murer é a mais nova decepção em Londres” (Grifos meus, 05/08/2012). Na matéria publicada no Caderno de Esportes desse mesmo jornal, a questão do “erro” mais uma vez foi ressaltada: “Fabiana desiste, culpa o vento, mas depois assume o seu erro” (05/08/2012).

A Folha de São Paulo teve procedimento bem próximo, a começar pela manchete “E o vento levou”, publicada em seu Caderno de Esportes. Na matéria comenta-se que o resultado de Fabiana nas Olimpíadas de Londres, havia sido pior que o de Pequim e que a diferença estava apenas na “explicação da derrota. Na China, foi o sumiço de uma vara. Na Grã-Bretanha, o vento forte. De fato havia condições climáticas desfavoráveis ontem no Estádio Olímpico (…) O vento no entanto era para todas as saltadoras” (05/08/2012). A ênfase na culpa de Fabiana persistiu e assim como O Globo, fez-se uso das próprias palavras da atleta fazendo parecer que se tratava de uma espécie de confissão: “Mas, apesar de todas as suas explicações, Murer admitiu que a culpa pelo fiasco na prova foi sua” (Grifos meus, Folha de São Paulo, Caderno de Esportes, 05/08/2012).

Esse tipo de conduta por parte da imprensa se relaciona aos atuais mecanismos de produção de notícias que cada vez mais obedecem a uma lógica mercadológica, que valoriza mais o efeito sobre os leitores do que uma perspectiva menos simplificadora dos fatos. Lógica mercadológica evidenciada, sobretudo na face exagerada e perversa desse tipo de perspectiva. Faço referência ao caso do tratamento dado pelos chamados jornais de vertente sensacionalista, ao desempenho dos atletas brasileiros nos Jogos de Londres. Nesse caso chamo atenção para duas capas principais do Meia Hora publicadas consecutivamente dias 01/08/2012 e 05/08/2012.

A primeira capa mostrava a imagem das nádegas de uma atleta contra um fundo rosa no qual surgia a figura dos anéis olímpicos. Como manchete, podíamos ler: “Brasil continua tomando no anel olímpico. Sem medalha, pelo terceiro dia seguido, a equipe brasileira leva ferro até no futebol feminino” (01/08/2012). A outra capa mencionada mostra a foto de Fabiana Murer seguida da manchete “Brasileira treme com a vara na mão” (05/08/2012). Ambas as manchetes são marcadas por um teor exagerado, pela ênfase apelativa, pelo uso da linguagem ambivalente, pelo humor grotesco e erótico.

Como nos lembra Marialva Barbosa, imaginar que de um lado está o jornalismo “sério” e do outro o “sensacional” seria perpetuar uma dicotomia de fundo preconceituoso. Longe de poder ser compreendida como uma produção dirigida apenas às classes menos abastadas – o que em parte se relaciona ao baixo preço cobrado por seus exemplares –, o tipo de imaginário com o qual a linguagem sensacionalista dialoga não é exclusiva de uma parcela da sociedade, mas circula nela como um todo. Portanto conteúdos que seguem essa linhagem editorial podem ser consumidos em diversas esferas. E certamente o são. Segundo dados da Associação Nacional de Jornais, o Meia Hora tem uma média de circulação de 136.802 de exemplares diários. Números nada desprezíveis.

Embora compreenda que as notícias sensacionalistas se relacionam frontalmente com a perspectiva do entretenimento e que elas ocupam um espaço importante na história do jornalismo por ter dado importância à vida cotidiana, muitas vezes em detrimentos dos grandes editoriais de política, ao mesmo tempo há de se preocupar com seus excessos. Tal preocupação, entretanto não significa propor algum tipo de vigilância ou controle proibitivo, afinal esse pensamento é pouco compatível com uma sociedade democrática em que a liberdade de imprensa é algo saudável e muito bem vindo.

Por outro lado, esse tipo de produção jornalística está longe de poder ser concebida como democrática, embora deseje configurar para si mesma essa aparência. O jornalismo sensacionalista tem sua face autoritária ao fazer uso de “uma discursividade repetitiva, fechada ou centrada em si mesma, ambígua, motivada; autoritária, despolitizadora, fragmentária (…) uma produção discursiva sempre trágica, erótica, violenta, ridícula, insólita, grotesca ou fantástica” (Danilo Angrimani. Espreme que sai sangue. Um estudo do sensacionalismo na imprensa. SP: Sumus Editorial, 2004, p. 15)

As capas acima mencionadas tiveram o humor erotizado como base para a composição de suas manchetes. É o riso que se busca provocar, o que nos poderia fazer crer que se trata de um modo menos rígido e mais leve de se tratar os resultados dos atletas olímpicos. Entretanto é através de uma visão sexista que a derrota é interpretada a partir de um referencial fálico em que as expressões “tomando no anel”, “leva ferro” e “treme com a vara na mão” se tornam sinônimos de derrota. Essas expressões prescindem de explicações detalhadas, ambas representam um modo vulgar, estereotipado e preconceituoso pelo qual a derrota é traduzida em linguagem sensacionalista.

Enquanto leitores é interessante dialogarmos com Renato Janine cujas palavras cito aqui por serem pertinentes e elucidadoras: “Nada de policiar piadas! O inquietante, porém, é que as pessoas se descontraiam ouvindo o que há de pior no preconceito (….) o riso não precisa ser idiota” (O afeto Autoritário. Televisão, ética e democracia. SP: Ateliê Editorial, 2004, p.21). É na dimensão da recepção que podemos encontrar estratégias que diminuam o caráter impositivo das notícias sensacionalistas. Afinal se por um lado os mecanismos discursivos das manchetes acima mencionadas são usados de modo a persuadir seus leitores, elas também podem provocar o efeito contrário de estranhamento. Longe de ser um caminho de mão única, a relação entre os polos de produção e recepção são marcados por tensões. Isso significa que no nível da recepção as mensagens podem ser ressignificadas, o que demonstra a importância de nosso papel enquanto leitores.

Como leitora – e nesse caso também anexo a minha perspectiva de pesquisadora -, me impressiona ver o quanto a narrativa da imprensa de um modo geral tem insistido na tentativa de desmerecer o desempenho dos atletas da delegação brasileira. Um desmerecimento que faz tudo parecer simples e banal, obliterando-se o quão difícil é fazer parte do conjunto de atletas que participa de uma Olimpíada, evento de excelência esportiva e que abriga os melhores atletas do planeta. Estar em uma olimpíada não é nada simples, sobretudo se pensarmos que o Brasil ainda não oferece as melhores condições para uma formação atlética.

Não desejo com isso que caiamos em um ufanismo cego que a tudo elogia. Mas é bastante redutora a tendência de a imprensa adotar discursos usados no futebol, marcados pelos lugares comuns e por uma dificuldade em lidar com resultados que não seja a vitória. É de se refletir sobre os significados que a derrota adquire no Brasil e especialmente dos possíveis limites da versão que a imprensa nos oferece desse tipo de resultado. Esse esforço reflexivo e de resistência pode ser empreendido por nós leitores e também espectadores. Para isso, o riso também pode ser um ótimo aliado.

Confesso que há pouco tempo tinha pouca paciência com as Olimpíadas, mas estimulada pela imprensa – um estímulo às avessas – tenho me divertido muito com o espetáculo de corpos em busca de seus limites. Tenho feito das Olimpíadas uma espécie de teatro, seguindo os conselhos de Roland Barthes para quem os esportes ocupam o papel que na Antiguidade cabia ao teatro: “reunir a cidade em uma experiência comum – o conhecimento de suas próprias paixões (…) (Tradução minha. Les Sports et les hommes. Les Presses de l’Université de Montréal, 2004, p. 67).

Ao contrário do teatro comum também compomos a cena enquanto atores: “Observar, aqui, não é somente viver, sofrer, esperar, compreender, é também e, sobretudo, manifestar tudo isso, com a voz, o gesto, as feições – é fazer do mundo inteiro testemunha: em uma palavra, é comunicar. (Tradução minha. Les Sports et les hommes. Les Presses de l’Université de Montréal, 2004, p. 67).

É preciso aproveitarmos esse tipo de experiência que no caso das Olimpíadas ocorre apenas de 4 em 4 anos. E nessa experiência o riso não precisa ser idiota.

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Um comentário em “Olimpíadas 2012, quando o riso não precisa ser idiota

  1. O jornalismo me envergonha. Os comentaristas dos jogos, em especial, de futebol, estão terríveis. Chove racismo, sexismo, machismo. Que vergonha danada ouvir tanta coisa feia na televisão, com tanta gente ouvindo! Obrigada pela vida inteligente na internet!

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