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Futebol, Penteados e Preconceitos

O cabelo dos futebolistas é um objeto que incita a atenção dos comentadores esportivos. Um exemplo recente é a quantidade de comentários e piadas realizadas sobre o penteado de Cristiano Ronaldo na Eurocopa; até Maradona se juntou ao coro dos comentadores. A constituição deste objeto de atração do jornalismo esportivo é fantástica e qualquer leitor de nosso blog pode conferir por conta própria. Alguns esportistas parecem confirmar a atração dedicando energias ao look cabeludo, vejam-se os casos de Love e Neymar, como exemplos.

A dedicação ao cabelo atravessa tempos e culturas e sempre é possível encontrar exemplos tanto sobre os investimentos em sua estética quanto sobre a recusa, por exemplo, na economia, mais ou menos recente, de usar a máquina elétrica para raspar a cabeça. A recusa poderia ser entendida como símbolo de sua importância, de modo semelhante ao funcionamento num mundo consumista de atitudes anticonsumistas. Contudo, será anacronismo ir do presente ao passado? Ou será que de fato existe uma linha de continuidade nos comentários sobre os cabelos e seus tratamentos?

Mario Filho, quando se refere ao craque Arthur Friedenreich, dedica tremenda atenção aos cuidados que o atleta tinha com seu cabelo. Mario Filho está obrigado, por condições do contexto, a operar com duas superioridades: a de classe e a de raça. Ocorre que a associação entre raça e classe aparece como muito forte em sua obra sobre o futebol brasileiro e, sobretudo, entre os clubes: os times grandes de raça branca e classe alta e os times pequenos, ou de subúrbio, de classe baixa e com a presença, talvez significativa, de negros e mulatos. Mais ainda, os dirigentes dos clubes, habitualmente brancos, ocupam posições de destaque na sociedade e os jogadores, com participação de negros e mulatos, vêm de baixo, salvo poucas e honrosas exceções.

Arthur Friedenreich (o “pé de ouro”, o “tigre”) foi uma figura de tremendo significado nos começos do futebol. Seu pai era um bom alemão de barbicha rala que fazia questão de dizer a todo mundo que aquele craque era seu “Filho”. O alemão parecia não se sentir incomodado por ter um filho afro descendente. Segundo o próprio Mario, Friedenreich seria o maior ídolo do futebol brasileiro, em especial por ter marcado o gol da vitoria contra Uruguai em 1919, embora discorde e pense que o principal mérito tenha sido de Neco, que carregou a bola até a linha de “corner” e deu o passe para Friedenreich marcar, apenas empurrando a bola. Quando o gol ocorreu, Mario tinha 11 anos, contudo, sua escrita leva a pensar que ele estava presente e que viu a ação.

“Friedeinreich, de olhos verdes, um leve tom de azeitona no rosto moreno, podia passar (por branco) se não fosse o cabelo. O cabelo farto, mas duro, rebelde” (p. 61). Assim, Mario Filho centra seus comentários a partir da raça. Lembremos que Friedenreich, filho de um alemão e uma lavadeira negra descendente de escravos, jogou inicialmente no clube Germânia, hoje Pinheiros. Um clube que em nada lembra os populares e de bairros. Depois circulou pelos melhores times de elite do Brasil ao longo de sua extensa trajetória como atleta. Também foi longa sua passagem na terra, pois morreu com 97 anos.

Com maestria Mario relata que Friedenreich era o último atleta a entrar em campo. A demora era produzida pelos cuidados que esticar ou pranchar os cabelos demandavam. Mario relata as operações como se estivesse estado presente e ganha o estatuto de testemunha. Aparecer como testemunha é um dos princípios da retórica de Mario, reforçada pela economia de citações de fontes que, por vezes, se diz que existiram, mas que se perderam (não se sabe onde nem como).

Mario transmite que é o cabelo do atleta o sinal que denuncia sua  descendência africana, embora misturada com o sangue alemão. Ele nos leva a acreditar que o craque dedicava um tempo enorme para dissimular sua descendência negra. Esta afirmação é produzida pela junção dos argumentos, ou seja, ela é suscitada, porém não demonstrada. Vejam que o tempo dedicado por Love a seu cabelo não parece estar em nada orientado para dissimular sua negritude. Ao contrário, ele parece nos dizer que Love aprecia a estética negra. E o tempo dedicado por Cristiano? Eu diria que apenas forma parte de sua percepção de como deve entrar bonito em campo. E as mudanças de corte e penteado de Neymar, o que significam? Talvez apenas a procura do que gosta mais e, é bem possível, uma forma de se divertir. Após a repetição da publicidade de Nextel, de Neymar com seu pai, seria loucura duvidar da participação negra em seu código genético.

Dito brevemente: há muitas razões possíveis a serem invocadas para justificar o tempo dedicado à estética do penteado. Mario imputa uma: dissimular a negritude. Mas, quando faz isso, nos está dizendo que o afro descendente brasileiro quer parecer branco e que para isso utiliza artifícios dissimuladores. Paradoxalmente, utiliza uma personalidade do campo do esporte em cuja trajetória os preconceitos não aparecem jogando de forma negativa ou segregadora.

Vários de seus exemplos para justificar os preconceitos parecem reforçar o modo de olhar branco: os negros gostariam de ser brancos e tentam mediante simulações se parecerem com eles, ou pelo menos, fazer que seja esquecido que são negros. Ou seja, nos exemplos de Mario Filho os negros estariam aceitando serem inferiores? Como o reconhecimento do craque, por gregos e troianos, se tornaria sentimento de inferioridade? Insisto, os argumentos de Mario são confusos e sua imagem final, o domínio do preconceito e a simulação como reação, navegam em águas escuras.

Observemos: os preconceitos raciais podem levar tanto na direção da dissimulação dos antecedentes quanto de sua afirmação orgulhosa. Lembremos o símbolo do punho erguido do Black Power, da especialização no tratado dos cabelos para negros e da reivindicação de uma medicina para a raça negra e até mesmo as revistas de moda dedicada aos negros, onde o cabelo tem atenção especial. Ou seja, as pressões podem levar na direção do orgulho dos surdos, dos gays, dos negros ou de qualquer segmento que se considere estigmatizado.

Uma sociedade escravagista deve elaborar preconceitos para se justificar a superioridade dos senhores sobre os escravos. Eliminada legalmente a escravidão os preconceitos podem continuar agindo com força na cultura. Contudo, isto não significa que os segmentos objeto dos preconceitos os aceitem e ajam para dissimular o pertencimento mediante a “elegância”, o “podearroz” ou o “pranchado dos cabelos”, ou seja, se identifiquem com seus geradores. Os exemplos de Mario seguem essa lógica e excluem a reação de afirmação, a resistência aos preconceitos e a demonstração empírica de que os preconceitos podem estar errados.

O lamentável é quando as ciências sociais e os jornalistas continuam falando na partitura escrita por Mario Filho para denunciar os preconceitos. Sem dúvida eles existem, contudo, os exemplos de Mario Filho estão carregados de dúvidas e se baseiam naquilo que parecem querer combater: a interiorização do preconceito e a conduta de simulação mediante o vestuário, o aclarar da pele ou em pranchar os cabelos. Quando o preconceito leva à discriminação econômica, social e cultural seus indicadores mais fortes são as diferenças desfavoráveis de renda, educação, condições de sobrevivência e, até, na esperança de vida.  Diante desse quadro, o que faz o negro ou o mulato com seu cabelo merece interpretações mais acuradas.

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