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Salve o Corinthians e outros interesses

A cobertura da final da última Taça Libertadores chamou mais a atenção que o resultado final da partida. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que o que mereceu destaque não foi o trabalho realizado pela imprensa esportiva – mas sim pela imprensa dita generalista, que deu amplo espaço à partida que deu o título inédito ao Corinthians. Como de costume, o noticiário esportivo abusou da narrativa dita heróica para contar a façanha do clube mais popular de São Paulo.

No entanto, o que notamos de diferente foi a prioridade dada ao tema pela imprensa que não é especializada em esporte. A TV Globo, única detentora do direito de transmissão em TV aberta, esgotou o assunto. Para começar, no domingo antes do jogo decisivo, o Fantástico foi, em parte, apresentado direto do palco da final, o Estádio do Pacaembu. Na quarta-feira, dia do jogo, o assunto foi tema em todas os programas da emissora. Iniciou-se pelos telejornais do começo da manhã, passando pelas outras atrações matinais. Até o programa Bem Estar (cujo nome se propõe ser auto-explicativo) tentou tirar uma casquinha e se aproveitar do “dia especial”. Como “gancho”, a atração ensinou quais seriam as melhores opções de tira-gosto para quem ia acompanhar a partida pela TV.

Mas a grande surpresa veio à noite. Poucas horas antes do jogo, o Jornal Nacional abriu sua edição noticiando o jogo entre Corinthians e Boca Juniors. O leitor desatento talvez não tenha percebido a importância que isso tem. Para uma notícia ser a primeira do JN, ela deve ser considerada, por uma experiente equipe editorial, como a mais importante e relevante do dia. Aquela que o telespectador está esperando e que o telejornal não pode terminar sem abordar. Nas Olimpíadas e durante a Copa do Mundo, é comum que o esporte ocupe este espaço.

Para nós, amantes do futebol, a notícia poderia ser alvissareira. Afinal, o principal telejornal brasileiro entende que a decisão da Taça Libertadores da América merece destaque. Mas, nem sempre foi assim. Por seguidos anos, equipes brasileiras chegaram à decisão do principal torneio continental. Mesmo assim, o JN reservou apenas o finalzinho da edição para lembrar que o jogo passaria logo depois da novela. O que mudou? Deram tanto destaque apenas porque era o Corinthians? O futebol passou a ser mais importante para a televisão?

Nem uma coisa, nem outra. Ou, talvez, as duas coisas juntas. Foi fácil encontrar nas redes sociais (da internet e da vida real) o comentário: “A Globo torce para o Corinthians”. A princípio, parece choro de torcedor rival magoado com o tratamento dispare. Mas, no fundo, há um pouco de razão. Com os investimentos cada vez mais altos para garantir os direitos de transmissão é inevitável que a emissora queira que algum time brasileiro esteja na final da competição para a qual ela derramou um caminhão de dinheiro para ter a exclusividade. Sem uma equipe brasileira, ela sequer iria transmitir a partida decisiva o que, invariavelmente, traria prejuízo. E se é para ter um time na final, melhor que seja algum que tenha grande torcida e que, se possível, esta torcida esteja no principal mercado publicitário. No entanto, é preciso deixar claro que essa torcida não implica em nenhuma interferência direta no resultado do jogo. Fosse isso possível, o Corinthians não teria ficado tanto tempo sem conquistar o cobiçado título.

Por outro lado, um fenômeno estranho tem acontecido. As audiências do futebol no horário nobre da TV Globo tem caído. Os números são guardados a sete chaves, mas volta e meia algum colunista da internet mostra que quando a novela entrega para o futebol, a audiência costuma cair. Além disso, a ameça de outras emissoras, principalmente na grande São Paulo é cada vez mais real. Isso se nota tanto nas negociações para comprar os direitos da competições esportivas quanto na disputa por espectadores.

Tudo isso fez com que percebessem que era preciso investir naquele jogo e isso significou dar um destaque além do normal à principal atração do dia. O grande incômodo é que ficou claro que a decisão editorial da emissora foi tomada com base no mercado publicitário e no eventual interesse do público. Na reunião para decidir qual a notícia mais importante do dia, optaram pelo jogo do Corinthians. E que fique claro que optaram pelo jogo do Corinthians, e não a final da Taça Libertadores. Fosse outro time, a decisão provavelmente seria diferente. Foi assim nos últimos anos. Se a emissora acha que o fato mais importante do dia é a final da Libertadores, isso tem que ser o fato mais importante do dia independente do time envolvido e do tamanho da torcida.

Independente do motivo da decisão, seja ele o desejo de valorizar o jogo para tentar recuperar as audiências antigas ou justificar o investimento feito e atrair o mercado publicitário, estamos em um caminho perigoso. A escalada de notícias não foi definida com base na hierarquia dos valores notícias (inevitavelmente subjetivos e manipuláveis, é verdade). Optaram por aquilo que iria agradar o público, os anunciantes e ainda alavancaria a audiência da própria emissora. O drama é que, no limite, os editores dos principais jornais do país podem decidir, em algum momento, que os escândalos políticos (ou qualquer outro tema dito relevante) não nos interessam mais que os jogos dos nosso times.

Nota do autor: o jogo do meu time quase sempre me interessa mais que um escândalo político corriqueiro. Mas eu quero a opção de escolher esta ordem de relevância. E, principalmente, quero sempre ter a opção de ser informado sobre todos os assuntos.

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