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Sobre o nosso “jeito moloque” de fazer as coisas

Por Fausto Amaro 

Momentos de déja vu são figuras narrativas valorizadas no cinema norte-americano. Aquela sensação de que já passamos por determinada situação, reconhecemos tal pessoa ou vimos certo lugar. Esse sentimento me atinge sempre que leio crônicas futebolísticas que retratam o suposto típico craque brasileiro. Nessa construção, enfatiza-se sempre a genialidade e a irreverência do jogador nacional. Outrossim, coloca-se em destaque também características típicas da fase infanto-juvenil humana, como: picardia, brincadeira, molecagem, rebeldia, irresponsabilidade.

Ok. Posso estar exagerando na dose para iniciar a defesa de meu argumento, mas o que digo não é de todo inverossímil. Cronistas, jornalistas, escritores, dentre outros, falam em nosso jeito moleque de jogar. No futebol moleque do brasileiro. De um jogador que nasceu com um talento nato e que treina apenas para cumprir a chata burocracia do clube. Afinal, ele é gênio. E gênios já nascem prontos. Treinar arduamente para que? Deixe isso para os “esforçados” – aqueles jogadores desprovidos de habilidades puras e que, por isso, precisam treinar para aperfeiçoá-las. Até aqui não estou afirmando nada novo. Artigos como “A construção de narrativas de idolatria no futebol brasileiro” (2003) de Ronaldo Helal já esmiuçaram essa relação de forma muito mais aprofundada e analítica do ponto de vista acadêmico. O que quero então?, perguntaria um leitor mais sagaz e menos paciente.

Minha aposta (não tão original assim, admito) é que a valorização da imaturidade do jogador brasileiro seja reflexo de nossa “juventude” enquanto nação. Fomos “descobertos” para os europeus, o centro do mundo de então, no século XV. Somos uma nação independente desde apenas 1822 e uma república desde 1889. É inegável que somos um país que ainda caminha rumo à maioridade – nossa independência tardia colabora bastante para isso. Dada nossa recente formação, ainda estamos em processo de consolidação de nossa identidade brasileira (no início do século o debate sobre a miscigenação do povo brasileiro rendeu excelentes ensaios pró e contra a “mistura de raças”) e de nossas instituições democráticas. Isso para não falar de nossas carências em saúde, educação e infraestrutura de transportes. Enfim, temos o talento nato para forjarmos uma grande nação – o Brasil foi, durante muito tempo, alcunhado de “país do futuro” -, mas esbarramos no trabalho árduo necessário para construí-la. E o resultado só viria no longo prazo – da mesma forma o jogador “esforçado” deve treinar várias horas diárias durante anos para se tornar um grande craque, ou, pelo menos, um atleta mediano.

Não desconsidero o fato de o Brasil hoje ser a sexta maior economia, tendo ultrapassado a Inglaterra, um país que, segundo minha argumentação no parágrafo anterior, poderia ser, tranquilamente, chamado de “adulto”. Não obstante, acredito que nós, brasileiros, ainda tendemos a crer na consecução de fins sem muito esforço ou, pelo menos, é essa a divulgação que gostamos de fazer de nossa imagem. Parece-nos mais exitoso e admirável socialmente afirmar que se chegou a uma ideia, projeto, trabalho, de forma rápida e genial. Se algo inevitavelmente mais trabalhoso, como obras públicas de infraestrutura, dá errado, tendemos a culpar à recente formação de nossas cidades – ora, infraestrutura não se ergue do dia para a noite, diriam os nacionalistas mais ufanistas. Em outras palavras, praticamos o “fazer moleque” em nosso cotidiano. De todo modo, cremos que, ao final, tudo dará certo, uma vez que somos dotados de grande genialidade e talento nato. Além disso, contamos com a sorte e o favor divino – os jogadores canarinhos apreciam muito divulgar em camisas brancas sua reverência e agradecimento a Deus (ele é brasileiro, não é mesmo?!) pelos feitos conquistados graças ao esforço individual.

Alberto Carlos Almeida, em artigo à Época (veja aqui), defende esse nosso jeito brasileiro de ser, onde o fazer tudo em cima da hora não é um defeito, mas apenas uma forma “nossa” de fazer as coisas. Seríamos essencialmente assim e não teríamos por que mudar, segundo o sociólogo. Apesar de concordar com 90% do que ele diz, me incomoda essa transposição de uma criação do jornalismo esportivo (o futebol moleque) para explicar outras esferas da sociedade (como infraestrutura, transporte, educação). O jeito moleque, imaturo, irresponsável, mas cheio de genialidade, deixa o campo de futebol e passa para a esfera social cotidiana como justificativa para os nossos atrasos.

Posso estar errado ao tentar efetuar essa aproximação – talvez ela seja simplesmente fruto de minha imaginação e do avançar da hora. Entretanto, caso esteja certo, deveríamos nos preocupar com essa essencialização e idealização de nosso jeito de ser.

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