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Para não falar de futebol – um post sobre xadrez

Nós, os amantes do futebol, tendemos a achar este esporte o melhor do mundo. Não apenas para nós, mas tendemos a generalizar essa afirmação a todas as pessoas. Na produção acadêmica sobre esporte podemos supor que esta paixão é transposta para o campo profissional, visto a ampla superioridade de produções sobre futebol. O que talvez não saibamos é que exista outro esporte, ou jogo, muito apreciado, de origens milenares e que também possui vasta bibliografia, provavelmente tão grande quanto a de futebol. Esse esporte é o xadrez.

“A literatura técnica do jogo atingiu proporções espantosas. Dificilmente passa um ano sem que apareçam dezenas de novos livros de xadrez, escritos em todos os idiomas falados pelo crescente exército dos aficionados do jogo. Mais de dez mil volumes contêm a coleção J. G. White de livros de xadrez, guardada na Biblioteca Pública de Clevelândia! Creio que isso supera o número de livros impressos sobre todos os outros jogos em conjunto” (LASKER, 1999, p. 184)

Na concepção de Johan Huizinga, famoso filósofo autor do livro “Homo Ludens”, o xadrez é um jogo, ainda que dotado de elevado grau de seriedade (característica que se oporia ao lúdico, a essência do jogo). Todavia, para fazer mais sentido a presença deste post em um blog chamado Comunicação e Esporte adotarei a resolução do COI, que considera o xadrez um esporte, ainda que nunca tenha feito parte de uma Olimpíada (mas possui uma “olimpíada” própria desde 1923, organizada pela FIDE)*.

Mas por que falar de xadrez em plena efervescência da Libertadores e início do Brasileirão? Primeiro, porque no início desse ano estive em contato com uma vasta literatura enxadrista para a produção de um artigo acadêmico. Segundo, porque queria diversificar um pouco a temática predominantemente futebolística das minhas postagens aqui no blog.

Vamos ao que interessa: o Xadrez. A teoria mais aceita propõe que este jogo teria surgido na Índia no século VI d.C, com o nome de Chaturanga. Outros estudiosos apontam a China e a Pérsia como outros possíveis berços do xadrez (ou de ancestrais desse jogo). Da Índia o xadrez se espalhou para a Europa por meio dos árabes, que haviam conquistado aquele país e se apropriado do jogo. Aliás, os árabes foram os primeiros a refletir teoricamente sobre a prática enxadrista.

Na Europa, o xadrez foi ganhando a “cara” que tem hoje, sofrendo as suas últimas transformações. No Chaturanga, a sorte era um fator presente no jogo, com o lançamento de dados determinando parte da jogada do enxadrista. No xadrez moderno, o elemento sorte desaparece, sendo substituído pela lógica e pela perspicácia do jogador.  Outra mudança foi na nomenclatura das peças, com o Ministro passando a ser conhecido por Rainha ou Dama. Alguns pesquisadores defendem que essa mudança refletia o aumento da participação feminina na sociedade. Atualmente, a Rainha é a peça mais poderosa do xadrez.

Capa Original de “Repeticion de amores e arte de axedrez”

Com a invenção da prensa por Gutemberg o xadrez espalhou ainda mais sua presença pela população europeia e mundial.  O primeiro livro publicado com as técnicas modernas de impressão foi Repeticion de amores e arte de axedrez, de autoria de Luis Lucena, em 1497.

Durante a Guerra Fria, o xadrez assume a função de instrumento política na disputa entre EUA e URSS pela hegemonia mundial. Nessa época, mais uma vez, o xadrez extrapola a posição de mero jogo, exercendo a função de metáfora da guerra. Na União Soviética, o número de jogadores saltou de mil para 5 milhões em menos de 60 anos – de 1923 a 1979 (BECKER, 2002, p. 304). Uma vitória no torneio mundial possuía um grande peso simbólico, era o triunfo de um projeto de nação sobre outro.

Atualmente, a quantidade de jogos virtuais de xadrez é imensa, o que contribui para popularizar ainda mais o jogo. Pode-se aprimorar suas habilidades de enxadrista jogando contra rivais robóticos em diferentes níveis de dificuldade. Com a internet, também é possível assistir vídeos de grandes partidas de xadrez e acompanhar ao vivo os grandes torneios.

No Brasil, o jogo foi trazido por D. João VI, quando da chegada da família real em terra tupiniquins em 1808. Como não poderia deixar de ser, a história do nacional xadrez se cruzou com o futebol. O primeiro campeonato nacional de xadrez, realizado em 1925, foi promovido graças ao Clube de Regatas Vasco da Gama (um dos mais populares clubes de futebol brasileiro) – segundo o médico e enxadrista brasileiro Idel Becker em seu livro “Manual de Xadrez” (2002).

Para fechar esse post, selecionei uma frase bastante instigante de David Shenk:

“Por que vocês acham que as pessoas jogam xadrez há tanto tempo? O que será que tem de tão bom assim nele? – Porque é divertido”.

 *Para informações gerais sobre o desporto olímpico, pode ser interessante a leitura de seu verbete na Wikipedia.

 

Referências

SHENK, David. O jogo imortal: o que o xadrez nos revela sobre a guerra, a arte, a ciência e o cérebro humano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007. 311p. Para ver a resenha desse livro, clique aqui.

BECKER, Idel. Manual de xadrez. São Paulo: Nobel, 2002.

LASKER, Edward. História do xadrez. 2. ed. São Paulo: Ibrasa, 1999.

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2 comentários em “Para não falar de futebol – um post sobre xadrez

  1. O xadrez é esporte – já diz o Comitê Olímpico Internacional que tem esta como uma atividade reconhecida, isto é, que pode ser incluída no programa dos Jogos Olímpicos a qualquer momento. Mas se você ainda não está convencido disso, aqui vão outros argumentos:- é um jogo- há competição- é uma atividade de alto rendimento- há sentimento de superar a si próprio e ao seu adversário- há desgaste físico e mental- é praticado por milhares de pessoas- é baseado em regras- possui uma entidade reguladora (confederação e federação internacional)E onde há esporte, há competição. No Brasil a entidade que regulamenta o esporte é a Confederação Brasileira de Xadrez . Já em âmbito mundial, a FIDE – World Chess Federeation (em inglês) é quem organiza o esporte.Para classificar os enxadristas a FIDE bem como todas as federações nacionais usam o sistema rating ELO, desenvolvido pelo físico Arpad Elo. Através deste sistema é possível dizer quem são os melhores jogadores de xadrez do mundo. O sistema rating ELO é um sistema estatístico baseado na hipótese que a performance de cada enxadrista em suas partidas é variável. Desta maneira, o físico Arpad Elo concebeu a força de jogo de um enxadrista com uma média entre o desempenho de todos os outros jogadores em determinado torneio. O enxadrista que alcançou o mais alto rating ELO foi Garry Kasparov – 2851 pontos.

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