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A associação entre os dois P. Homenagem a C.

Conheci C após poucos meses de moradia no Rio de Janeiro, no final de 1976, quando ainda vigorava o poder militar e a AIDS começava a entrar em nosso cotidiano, afetando colegas e conhecidos. C. era um negro jovem, alto, espirituoso e bem humorado que trabalhava como datilógrafo da equipe de pesquisa à qual me incorporei. Diria que era um belo exemplar da espécie humana. Um dia me disse que ele era um “fodido”. Estranhado, perguntei o motivo. C. respondeu que ele era um 3 “P”. Sacou pela minha expressão que eu não tinha entendido, com meu português aprendido na marra,  e então esclareceu “eu sou preto, pobre e puto”. Ele morreu jovem, muito jovem, como dizem que ocorre com os escolhidos dos deuses.

C. parecia representar a condensação dos preconceitos no Brasil e em grande parte do mundo: juntando cor, pobreza e gênero. Na verdade, cada preconceito isoladamente tem força muito menor que quando associados, aqui também a união faz a força e as políticas afirmativas e de apoio, cujo caso notório seja a que se destina as mulheres pobres e negras.

Desconfia-se muito mais de um preto pobre que de um preto acomodado. O puto e pobre ocupa um lugar na escala social bem mais baixo que o puto e rico. Mais ainda, um preto rico parece que deixa de ser preto e um puto rico se torna até charmoso. (Foi uma ausência em Mario Filho que, por contexto histórico, não colocou em jogo o terceiro P).

Capa de “O negro no futebol brasileiro”

No capítulo 1 de sua obra, O Negro no futebol brasileiro,[1] quando narra as origens dos clubes de futebol no Brasil, opõe o clube de elite ou dos ricos (Paissandu, Fluminense e Botafogo, os mais mencionados, embora não sejam os únicos) ao clube dos operários e/ ou pobres (Bangu na cabeça, embora mencione vários). O futebol na origem está dividido entre torneios de ricos e de pobres (ainda que os ricos passem a jogar também no campo de Bangu, com os causos que relata de agressões dos torcedores pobres quando ganham os ricos):

“No fundo, luta de classe, sem ninguém dar por isso, é claro. Todos levavam a coisa mais para rivalidade entre o clube do subúrbio e o clube da cidade. (…) O que distinguia a Bangu do Botafogo, do Fluminense era o operário. O Bangu, clube de fábrica, botava operários no time em pé de igualdade com os mestres ingleses. O Botafogo e o Fluminense, não, nem brincando, só gente fina. Foi a primeira distinção que se fez, entre clube grande e pequeno, um o clube dos grandes, o outro, o clube dos pequenos”.  (Mario Filho, 2003, p.43).

“Grandes” são os clubes dos ricos, das elites. “Pequenos” são os clubes dos operários, dos pobres. Assim, no primeiro capítulo podemos encontrar vários parágrafos que parecem inspirados em um marxismo popular ou vulgar. Os times de subúrbios seriam formados por pobres ou pretos ou por pretos pobres ou pobres pretos. Seja o que for, em termos de raça, eles são operários, vivem preferencialmente do esforço e da habilidade do corpo. Os clubes da cidade e da elite são formados por brancos ou ricos e por brancos ricos ou ricos brancos. Eles não são operários e, portanto, não vivem preferencialmente do esforço físico nem da habilidade do corpo.

Foto de Mário Filho

O Vasco, time de base portuguesa, ocupa um lugar especial em Mário filho, na historiografia do futebol e nas autoconstruções do próprio clube, pois teria demonstrado que se ganha com bons jogadores, independentemente da cor da pele. O acentuamento da cor da pele por Mario Filho, sobretudo a partir de Garrincha e Pelé, e mais do último do que do primeiro, coloca em jogo o que A. J. Soares denominou como “freirismo popular” que sobrevive até hoje. Mario Filho, enfatizando que se ganha com negros bons de bola, não dá a mesma ênfase ao reconhecimento de que também se ganha com pobres (operários ou suburbanos) que joguem bem e, portanto, com pobres (brancos, mulatos e pretos que sejam bons de bola). Porém, este reconhecimento da experiência está associado com a emergência de um futebol competitivo, espetáculo e profissional. O futebol vai deixando de ser mera diversão e se torna profissão que se manifesta nos resultados. Se ganhar é o objetivo, os bons passaram a ser valorizados. Para nós, isto é tão óbvio que não podemos pensar que no passado tenha sido diferente.

Contra a valorização por vezes exacerbada da qualidade do jogador preto, a experiência deve ter registrado que se ganha apenas com bons jogadores. Talvez a experiência hoje aponte para a categoria de “mestiço” sob a qual, de modo crescente, é penada nossa herança e identidade. Nos tempos de Mário Filho a categoria e o fato de sermos mestiços não gozava do apreço representacional nem do valor fatual que hoje lhe outorgamos. Hoje desejamos sermos “morenos”, seja como resultado natural da mestiçagem seja como produto de sol e cremes ou de bronzeamento artificial.

Não diríamos que o registro de que se ganha com a equipe formada por bons jogadores em interação com técnicos da experiência, o hiper caso do Barcelona.  Ninguém sustentaria que um time de jogadores ruins, e pior técnico, é melhor que um time formado por bons jogadores, embora se procurarmos na história do futebol poderiam encontrar alguns casos para sustentar tal estapafúrdio argumento. Contudo, os colocaríamos na caixinha do excepcional. Todavia, creio que reconheceríamos como preconceito a afirmação de que “um time de jogadores brancos é superior a um time de jogadores negros” e também reconheceríamos como preconceito a afirmação contrária. Diante de nossos olhos vemos desfilar no mundo e, sobretudo, na Europa, times formados por brancos, pretos, mulatos e até orientais, embora poucos até o momento, ou seja, o time pretende se formar com bons jogadores. Independentemente da cor, eu creio que a maioria dos jogadores tem sua origem nas camadas populares por delas serem a maioria de seus praticantes; são o celeiro do futebol. Na América Latina toda sabemos a origem do jogador quando abre a boca para os jornalistas, pois, ainda, as diferenças de classe se manifestam como diferenças de fala que resultam das diferenças de escolaridade. Contudo, hoje, um time bom é um time geralmente mestiço, misturado ou mixed e, isto, por condições e experiências.

O deslizamento de Mario Filho da ênfase sobre a conjunção ou associação preto e pobre para o qualificativo isolado de preto — onde tudo indica, inclui o mulato, embora este seja um mestiço– creio que levou a um abandono do marxismo popular e a sua substituição pelo freirismo popular, na temática do reconhecimento e integração do negro e do mulato (mestiço, para mim, como no caso paradigmático de Garrincha) no futebol, que domina até hoje na imagem de um futebol mulato que teria gerado o estilo brasileiro. [2]

Um problema de Mario Filho Freire é o de tentar explicar como há negros importantes para o quadro social e para o time de clubes de elite como Fluminense e Botafogo. Suas descrições salientam que eles são socialmente relevantes sob o ponto de vista da riqueza, do estudo ou da criatividade, como a do mulato Basílio Viana que fez o escudo do Botafogo. Ou o caso de Joaquin Prado, paulista preto do lado preto da família Prado, que era ilustre e rica.

Foto de Gilberto Freire

Se Mario Filho estivesse de forma estrita na linha teórica de G. Freire, não teria problemas para explicar a falta de segregação dos descendentes negros (ricos, prestigiosos ou criativos), dada a singularidade do racismo brasileiro que levava ao convívio das crianças das diferentes raças, segundo Freire.[3] Qual é a mágica de Mario Filho? Muito simples: esses negros teriam deixado de sê-lo ou não seriam vistos como tais. De fato, riqueza e ilustricidade quebram a associação que “fundia ou fodia” o saudoso C.

A afirmação do jogador negro Robson, que atuava no Fluminense no início dos anos cinquenta, “Eu já fui preto e sei o que é isso”, ganha destaque para confirmar a mágica da transformação social do preto ou mulato talvez em branco ou em alguém sem raça ou em branco preto ou em preto branco. Na verdade, o que ocorre é uma quebra da associação a partir de uma afirmação que parece mais uma piada ou uma boutade do que uma apresentação de evidência. O que fica é que no Brasil se pode mudar raça. A distinção entre alma e corpo é útil para isso, negro de alma branca ou branco de alma preta, mas, talvez, por detrás dessa distinção, o percurso social ascendente, com a resultante de reconhecimento e integração, seja o chão que suscita as elaborações justificadoras.

Freire nos diria que o racismo brasileiro é muito particular. Seus preconceitos são talvez “brandos”, no sentido de que não conseguem criar estruturas e práticas sustentáveis de segregação. Um racista americano usaria seus preconceitos, se pudesse para enforcar Robson, e nem aceitaria que o emblema de seu clube de elite fosse feito por um mulato, que até mentia sobre a escola na qual tinha estudado. A diferença explica a Guerra da Secessão nos Estados Unidos, os preconceitos eram pra valer e a integração do negro foi feita a sangue e fogo durante e depois da guerra. As evidências americanas sobre o racismo são fortes, muito fortes!

E as brasileiras? As apresentadas por Mario filho são bastante discutíveis e podem ter outras interpretações além das dadas por ele. Ainda está em questão, por exemplo, a acusação a três negros pela perda do Mundial de 1950. As evidências são altamente discutíveis, mais ainda quando se considera que do outro lado, do Uruguai, o herói também era negro.

O racismo “à brasileira” aparece como um problema que merece ainda ser discutido e que demanda evidência mais fortes que a delícia dos “causos”  narrados por Mario Filho ou os insultos em quadras e campos, registrados pela imprensa, quase obsessivamente, que associam a cor e a orientação sexual à qualificativos que, supostamente, denigram.


[1] As citações são de O Negro no Futebol Brasileiro, Rio de Janeiro, FAPERJ/MAUAD, 2003.

[2] Luis H. Antezama J., boliviano de Cochabamba, linguista, sociólogo e historiador, escreveu um estudo pioneiro sobre “el pajarito” Garrincha. No momento que escrevo não estou conseguindo encontrar o exemplar que gentilmente me dedicou quando o conheci pessoalmente em encontro da CLACSO, do grupo de Trabajo Esporte y Sociedad, no agradável Quito.. Luis é ele mesmo um passarinho físico e intelectual. Como ave intelectual percorre temas e gera movimentos surpreendentes. Minhas saudades.

[3] Veja-se de Freire “Tempos mortos e outros tempos”, memórias sobre seus anos de juventude e formação.

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