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Futebol para poucos

Foto tirada pela própria autora do post

O Carioca-2012, já tem seu lugar marcado na minha memória. Pela primeira vez assiti a um jogo no Estádio Proletário Guilherme da Silveira Filho, ou Moça Bonita. Era Vasco x Bangu marcado para uma quarta-feira, dia 01 de março, às 16h. Desde que eu soube que o Vasco jogaria em Bangu, comemorei muito me imaginando nas arquibancadas de um estádio que faz parte da minha memória futebolística e no qual eu nunca tinha ido.

Por volta das 14h, daquele dia, peguei um trem em Madureira e segui para a Estação Guilherme da Silveira. Eu estava me sentindo “a torcedora”, fanática e preparada para o que viria: sol, calor, sol, calor….. afinal estávamos em pleno verão carioca e Bangu, como muitos sabem, é famoso pelas altas médias de temperatura.

O estádio lotou. E eu fiquei em pé, do início ao fim, debaixo de um sol escaldante. Vi a vitória do Vasco, mas vi também muita confusão do lado de fora. Confusão gerada pela má organização do evento. Vi muita gente correndo do gás de pimenta e da polícia. Ouvi os portões do estádio serem balançados pela torcida que estava do lado de fora com ingressos nas mãos, mas que fora impedida de entrar.

Senti medo. Olhei ao redor e pensei que de fato aquele estádio era uma espécie de bomba relógio que podia explodir a qualquer momento. As saídas eram apertadíssimas e em caso de pânico, as chances de uma tragédia eram grandes.

O medo passou porque tudo se acalmou do lado de fora do estádio. Mas continuei vendo coisas. Vi muita gente descendo as arquibancadas, passando mal por causa do calor. Idosos, crianças, jovens, o sol escaldante não escolheu suas vítimas.

Eu sobrevivi. Por incrível que pareça, resisti ao calor, principalmente devido a minha estratégia: fiquei no topo da arquibancada e consegui pegar todas as brisas que por mim passavam.

E o que restou dessa experiência? Aliás, por que estou mencionando esse acontecimento, aparentemente tão particular e acontecido há mais de um mês atrás?

Essa breve história é uma espécie de introdução para falar do Carioca-2012 e por extensão do contexto do futebol contemporâneo.

Os campeonatos estaduais têm sido um dos temas mais discutidos na imprensa esportiva ao longo desses últimos meses. Muitos questionamentos surgem: questiona-se a necessidade dos estaduais, a quantidade e, sobretudo, a qualidade das equipes participantes.

Especificamente em relação ao Carioca 2012, sobretudo nas mesas redondas da TV e rádio, muito se tem falado sobre o fraquíssimo nível técnico dos chamados “pequenos” e das péssimas condições dos gramados de seus estádios. É exemplar nesse sentido, o estádio de Moça Bonita – aquele que eu fui – que abrigou algumas partidas dos “grandes” e teve sua capacidade de receber jogos, altamente posta em dúvida. Especificamente em relação ao estádio do Bangu inúmeras foram as críticas, vindas até mesmo de jogadores, como foi o caso de Loco Abreu do Botafogo.

Grande parte do discurso adotado por jornalistas e outros especialistas entende que o Carioca tem nos oferecido espetáculos lastimáveis, seja pelas condições materiais dos espaços onde os jogos são praticados, seja pela qualidade dos times. Como indício desse fracasso menciona-se a pouca presença de público nos estádios, em alguns casos públicos que não ultrapassaram o número de 20 pessoas (Sobre esses dados ver a matéria “Média de público comprova decadência do Carioca”, publicada no Lancenet).

Toda polêmica e todo debate em torno dos Estaduais, especificamente, o Carioca são válidos e bem-vindos. Mas há uma séria lacuna nessa discussão.

Geralmente quando se busca saber os motivos do baixo nível técnico do Carioca-2012, menciona-se o óbvio: a presença de times fracos e sem “estrutura”. Mas falta uma pergunta fundamental que poucos têm se dado ao trabalho de lembrar: Por que esses clubes não posssuem estrutura?

Por que clubes como Bonsucesso, Madureira e Bangu, por exemplo, passaram por um processo tão violento de decadência?

Fonte: Site Oficial do Madureira

Temos o Bonsucesso fundado em 1913 e que na década de 1930 revelou Leônidas da Silva. Temos o Madureira fundado em 1933 e que já teve em seu time Jair da Rosa Pinto e que teve jogo assistido em Cuba por Che Guevara (veja imagem ao lado). E o que dizer do Bangu fundado em 1904, um clube nascido na fábrica Bangu e que já nessa época tinha em seu time jogadores negros e operários.

Esses clubes – do subúrbio carioca – perderam o trem da história do futebol, uma história que cada vez mais tem sido feita para poucos. Se por um lado não é possível fugir da lógica mercadológica atual, há de se considerar que a divisão do dinheiro circulante no território futebolístico é demasiadamente desigual. Enquanto os chamados “grandes” recebem altas cotas da TV e das Federações, os “pequenos” operam milagre para se manterem ainda vivos. Com pouco dinheiro não há como ter um bom time, muito menos um estádio e um gramado decente.

Portanto, toda discussão acerca do baixo nível dos campeonatos estaduais, especialmente, o Carioca seria uma ótima oportunidade para se debater algumas questões importantes do futebol contemporâneo e, sobretudo, de se buscar soluções.

Entretanto, grande parte de jornalistas e especialistas têm comos propostas principais: diminuir o número de participantes dos estaduais tornando-o menos “inchado” e proibir a realização de jogos em estádios precários como os de Moça Bonita.

Sim, o estádio do Bangu é precário. Minha ida foi trabalhosa, o que incluiu medo e desconforto. Mas também senti a alegria de ver o Vasco vencendo e a alegria de ver o entorno do estádio, colorido de bandeiras, cercado de torcedores, muitos dos quais moradores dali perto, claramente satisfeitos de poderem ver um jogo ali pertinho. Além disso, experimentei a alegria de estar em um estádio que já havia abrigado muitos jogos ouvidos pelo rádio desde minha infância.

Foto tirada pela própria autora do post

São fatos difíceis de negar que o estádio deveria oferecer condições melhores para nós torcedores e para os jogadores (É importante lembrar que o jogador Tenório do Vasco se contundiu em um jogo em Moça Bonita). São fatos inegáveis também que o Carioca precisa melhorar em termos qualitativos. Mas a solução não pode se basear em fórmulas tão redutoras e simplistas.

Na década de 1910, a Reforma Pereira Passos tinha como proposta modernizar o Rio de Janeiro. Para isso fez inúmeras reformas urbanas. Exterminou cortiços, reformou a ordem urbana alargando ruas e tornando-as mais transitáveis e higiênicas. Porém para isso, mudou muitas pessoas de lugar, sem lhes oferecer outra opção de moradia. A pobreza considerada nociva foi retirada do alcance da visão de todos. Era o preço da modernidade. A cidade melhorou, tornou-se mais saneada, o que de fato era necessário. No entanto, a pobreza continuou, a direferença é que ficou escondida. Com o tempo a pobreza continuou e voltou à vista de todos.

Às vezes parece que se deseja fazer o mesmo com o futebol brasileiro: expulsam-se aqueles que não têm condições, sem sequer preocupar-se em saber os motivos dessa falta de estrutura.

A discussão, do modo como está sendo conduzida, em nada tem contribuído para uma visão mais crítica do futebol contemporâneo. E em nada contribuirá para fortalecer a cultura futebolística brasileira.

Foto tirada pela própria autora do post

O futebol no Brasil – assim como em outros países – tem tomado rumos perigosos. O futebol no Brasil tem minguado e se limitado ao êxito de poucos em detrimento da decadência de muitos. A cultura futebolística tem se tornado excludente e isso se estende a participação dos torcedores. Ingressos caros e tão caros quanto, são os produtos vendidos dentro dos estádios. No Engenhão, por exemplo, um simples copo de água custa R$3. Com a reforma do Maracanã que terá sua capacidade diminuída, certamente os ingressos também serão feitos para poucos. E aquele que já abrigou 200 mil pessoas será capaz de receber somente 70 mil, uma diminuição da participação pública ironicamente bancada pelo dinheiro público.

Eu adoraria voltar a Moça Bonita e vê-la de fato reformada abrigando jogos da primeira divisão do Carioca ou outras partidas de campeonatos diversos.

E não me chamem de romântica. Não proponho o retorno ao passado, muito menos acredito que a lógica mercadológica está acabando com o futebol. Não acredito que o futebol moderno seja uma praga que deve ser exterminada. Ao contrário, a lógica mercadológica pode ser uma ótima aliada para o fortalecimento do futebol.

Mas creio fortemente que o futebol precisa tornar-se plural e os debates em torno do esporte mais popular no Brasil precisam ser mais férteis, mais inteligentes e assim contribuir para que futuramente o território futebolístico não se reduza a meia dúzia de clubes que se revezam na atenção da imprensa e na conquista de campeonatos.

Por isso, demos um grande viva ao Derby campineiro!!!!

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