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Preconceito, futebol e o LED da FCS

Recebi na semana passada o email a seguir:

Como vai?  Meu nome é Juliana Poêys, sou estagiária do Laboratório de Editoração Eletrônica (LED) da UERJ. Realizei uma entrevista com o senhor sobre o livro Futebol, Jornalismo e Ciências Sociais: Interações e gostaria muito da sua participação em uma nova matéria, dessa vez com o tema ” Preconceito no Futebol’‘. A matéria será veiculada no site da AJEsportes nesta semana. Farei algumas perguntas à respeito do tema logo abaixo e peço para que, se possível, as responda para mim até sexta. Peço para que também confirme o recebimento deste e-mail.

Prezada Juliana lamento não lhe ter respondido por passar a semana prostrado. Maldito dengue!, De fato, não tinha disposição nem força para responder seu email. A Internet não perdoa. Ela exige disponibilidade constante ainda que seja para justificar a não disponibilidade. “Antigamente” podíamos não atender o telefone. Estávamos ausentes. A Internet não admite a ausência. Sinto que ela possui certo tom totalitário que penetra na pele, não sei se nos ossos também, de seus usuários mais conspícuos. Oberve, creio que nem passou pela sua cabeça pensar terá ocorrido alguma coisa com Lovisolo e perguntar? No fundo não importa, como a Internet permite mandar a mesma mensagem para muitos é suficiente se alguns respondem.  Sempre teremos alguma amostra para a matéria em pauta. Contudo, decidi tomar suas questões e colocar as respostas em nosso blog. Advirto-lhe que suas questões são lugares comuns, no sentido retórico e, portanto, acabam tendo cara do preconceito na busca de seu reforço. Parafraseando a Sartre: “os preconceituosos são sempre os outros”.

Juliana a continuação solta suas perguntas (sempre destacadas em itálico).

Como foi a introdução do futebol no Brasil, inicialmente tido como esporte de elite, e como o racismo se mostrou neste período?

Um leitor atento sentirá de que existem muitas respostas incrustadas nas perguntas. Muitas afirmações pressupostas. A primeira é que podem ser dadas respostas claras e distintas em espaço reduzido ou com baixo custo de tempo. Nada mais falso. Isso é possível se quem responde tem uma lista de preconceitos na ponta da língua, pois, o preconceito é um economizador nato. Por exemplo, é falso pensar que existe “racismo”, isto é, apenas uma forma ou no singular. No caso do Brasil, houve várias formas de “racismos”. Por exemplo, racismo sem segregação sexual, daí a miscigenação. Se as raças podem superar as fronteiras dos contactos na intimidade do sexo, porque não poderiam fazê-lo na dança, no esporte ou em comer juntos? Depois de tudo, nossa identidade musical e gastronômica é marcadamente negra. Se a negritude participa da identidade, como sustentar ao mesmo tempo o vigor do racismo? Parece que rapidamente passamos a ter um preconceito às avessas: música, dança, esporte, comida e sexo afro descendente é bom!

Esporte de elite e clube de elite não se confunde. A esgrima é um esporte de elite que apenas poder ser praticado em clubes de elite. Jamais foi o caso do futebol nem no seu país de origem. Rapidamente se formaram times populares que até disputavam jogos ou torneios em função da aposta tão amada pelos ingleses. Pode ter surgido em instituições escolares de elites, tanto quanto o rúgbi, porém praticado em espaços não elitistas e, mais ainda, rapidamente destinados a formar a personalidade de todos, desde soldados a generais. Por aqui chegou tanto na mala dos ricos quanto na sacola dos pobres na Praça Mauá.

Temos poucos dados sobre as competições dos pobres, os jornais apenas cobriam as dos clubes de “elite”. Há limitações para a tarefa do historiador que não raro toma a parte documentada, geralmente referida à elites, pelo todo. Resulta uma história parcial e, o que pode ser pior ainda, defeituosa. Então, não sabemos muito das praticas populares do futebol desde as últimas décadas do século XIX.

– A diversidade racial no Brasil propicia o preconceito nos campos?

De novo muitas respostas embutidas. Em quais campos houve preconceito? No campo do clube de Elite? Alguns agitaram o nome do Fluminense e como exemplo, o famoso pó de arroz, e outros declararam que no Bangu o negro era bom de bola. Para manter a ideia de que vigorava o preconceito, se afirma que a fábrica não tinha brancos suficientes para formar os times de futebol. Que não tinha brancos suficientes interessados em futebol jamais foi demonstrado!. Agora, se faltavam brancos “bom de bola”, e então entravam os negros, o que estava em jogo era formar bons times e os negros serviam para isso e, então, onde está o preconceito ou de que preconceito se trataria se a seleção era pelo desempenho e não pela cor da pele?

A diversidade racial propicia o preconceito? Hitler inventou a diversidade racial para implementar a forma mais brutal de racismo estatal. Parece que não é o caso da feijoada, onde gado e porco entram na mesma panela da diversidade alimentar. A diversidade teve como resposta a segregação nos EEUU, hipótese de Freire, contudo não segregou no Brasil, defendeu o mestre pernambucano. Agora, o que Juliana entende por preconceito? Os seguidores de Comte no Brasil pensavam, no século XIX, que os negros tinham grandes habilidades corporais, superiores às dos brancos. No caso teríamos um preconceito positivo favorável à inclusão no esporte, na música e na dança. Os negros não seriam fortes de cabeça, talvez dissessem, essa parte que deve conduzir a sociedade, então teríamos um preconceito (racismo intelectual ou cognitivo) para excluir do poder, no suposto caso que uma parcela significativa de negros estivessem nessa disputa. Bom, o time poderia ter jogadores negros, dificilmente técnicos dessa cor, conciliando o preconceito positivo da habilidade corporal e o negativo da condução intelectual. Trata-se, então de definir e qualificar os preconceitos, superar a imagem de um bloco compacto, homogêneo e monolítico que explica pouco e apenas serve para declarar, com autossatisfação, que os preconceituosos são os outros.

– O Brasil é reconhecido como um dos maiores ”exportadores” de grandes craques do Futebol. Apesar de toda a boa fama dos nossos jogadores, o preconceito étnico é ainda algo recorrente? 

Os que pagam pelos jogadores brasileiros afrodescendentes, e de outras partes do mundo, não parecem ter fortes preconceitos nem parecem acreditar que os torcedores do time estejam eivados de preconceitos. Se assim fosse, como se atreveriam a comprar e pagar altos preços? Podem pensar que atos baseados em preconceitos, produto de frustrações dos torcedores, são excepcionalidades e para isso é suficiente a lei. De onde você pensa que ele é recorrente, quais são suas evidencias ponderadas para fazer a pergunta? Será que o negro que joga em nosso time pode ser amado e o que joga no time adversário xingado de “macaco” ou coisa pelo estilo? Caso isto ocorra, de que diabo de racismos se está falando? Será que a categoria racismo explica alguma coisa?

– Nos casos de preconceito contra jogadores brasileiros, na maioria dos casos relatados, evidencia-se mais a questão étnica ou a questão racial?

Os casos relatados são poucos. Será que temos uma boa base para responder sua questão e, mais ainda, como separar a questão étnica da racial? Quais são suas definições? Elas devem ser postas para os entrevistados! Ter claro o que se está perguntando forma parte da preparação da entrevista e do questionário.

– O campeonato carioca de 1923 foi definido como emblemático, justamente por trazer um time- Vasco da Gama- composto por negros, mulatos e brancos pobres. Qual foi a repercussão desse episódio na época e como este fato modificou o elitismo do esporte?

Sobre os eventos que menciona há bastante bibliografia. Corresponde ao jornalista sua leitura e reflexão para realizar uma matéria interessante, se possível, para seu público. Colegas seus têm produzido monografias e trabalhos na FCS. Seria um sinal de respeito comentá-los e convidá-los ao debate. Eu percebo um tipo de trabalho jornalístico que pretende iludir a leitura, isto é grave tanto para a formação quanto para o produto: o texto.

– Xenofobia e preconceito racial são os tipos mais relatados quando o assunto é preconceito nos campos. A homofobia parece não ser amplamente discutida. Há algum critério específico de punição para preconceito nesses casos ou não?

De novo, há muitos trabalhos sobre o tema em ciências sociais. A homofobia, por exemplo, é um tema recorrente de discussão na Argentina. Diversos países contam com legislação punitiva contra a homofobia. O jornalista não pode apenas perguntar, ele deve pesquisar. A pergunta específica dirigida ao especialista é um dos caminhos que não pode ser abandonado, porém, não é o único. Você poderia ter feito um levantamento na Internet antes de formular suas perguntas, elas teriam saído mais trabalhadas.

 

– O futebol feminino ainda é alvo de várias formas de preconceito, já que o esporte ainda é maciçamente composto por homens. Como foi a introdução das mulheres no futebol brasileiro, caracterizado por muitos como machista?

As ditas universidades da terceira idade estão formadas maciçamente por mulheres. Isto seria produto do preconceito contra os homens? Não podemos pensar que a falta de igualdade na participação sempre resulta do preconceito. Esta posição é uma economia burra do pensamento. A história específica deve ser construída para podermos pensar a partir dela e com ela. A questão do meu exemplo seria: quais são as relações diferenciais, práticas e simbólicas, entre homens e mulheres com a Universidade da Terceira Idade?

Querida Juliana, os responsáveis pelo LED devem apontar para uma melhora significativa na formação de seus integrantes, por isso meus comentários são gerais embora use seu material como base. Creio que a FCS deveria discutir seus processos de formação. Se minhas respostas impulsam  nessa direção ficarei profundamente satisfeito.

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6 comentários em “Preconceito, futebol e o LED da FCS

  1. Esta foi a segunda ou terceira vez que a autora da entrevista me procura e eu digo que prefiro responder pessoalmente ou pelo telefone. Aí ela procura outro para entrevistar. Será que é esta a tendência atual do jornalismo? Onde fica a interação entre entrevistador e entrevistado? Nós, professores da FCS/Uerj, deveríamos levantar esta questão entre nossos docentes.

  2. Parabéns pela provocação Hugo. Infelizmente existe uma tendência dos estudantes e até mesmo jornalistas formados e consagrados a devalorizarem a pesquisa na preparação de uma matéria. Em conversa informal que tive esta semana com amigos jornalistas que trabalham em emissoras esportivas fui indagado qual a importância de se ler os trabalhos acadêmicos da área se o “acadêmico é chato” para o grande público? Como argumentava que o jornalismo esportivo na minha visão é pobre e deveria se informar mais dos trabalhos produzidos na área fui enquadrado como mais um chato e que nossos trabalhos não servem para fazer uma matéria cotidiana.É uma lástima esta distância entre o jornalismo esportivo realizado e a produção acadêmica. Temos de tentar estimular os alunos a terem contato com os trabalhos acadêmicos na área desde a graduação.
    Abs

  3. Parabéns pela provocação Hugo. Infelizmente muitos estudantes e até jornalistas e consagrados desvalorizam a etapa da pesquisa na preparação das matérias ou entrevistas. Em conversa informal com amigos jornalistas esportivos fui questionado sobre a importância dos jornalistas lerem os trabalhos acadêmicos, pois o “acadêmico é chato” para o grande público e não serviria para elaborar as matérias cotidianas. Fui chamado de chato pois defendia que o jornalismo esportivo está muito pobre. Enfim, como professores temos de estimular nossos alunos a terem mais contato com o conhecimento acadêmico.
    Abs

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