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Futebol: uma economia auto vampira?

O colega Carmelo me enviou um trabalho da PLURI CONSULTORIA (economia, sport business e inteligência de mercado) que avalia o valor dos jogadores de futebol. A PLURI elaborou um software próprio, PLURI SOCCERMETRIC que usa como base o PLURIDATA (o maior banco de dados disponíveis, segundo a consultora) abrangendo os jogadores e times dos 60 maiores campeonatos do Mundo. Considera 15 variáveis desde a idade até a capacidade de gerar retornos de marketing. Os dados são de natureza dupla: alguns administrativos como idade, força física, condição clínica, histórico de lesões e posição em que joga; outros são de natureza avaliativa ou subjetiva como a qualidade técnica, a disciplina táctica e o espírito de equipe. No material não se explicita o peso de cada variável determinante para a avaliação. Fernando Pinto Ferreira é o autor.

A consultoria organiza um ranking dos times pelo seu valor e realiza algumas descrições interessantes.

Os 50 times mais valiosos do Brasil têm um valor equivalente a soma dos elencos de Barcelona e Real Madrid (2,8 bilhões de reais). Se pensarmos que a Espanha equivale a alguma coisa comparável com São Paulo, teremos que concluir que os nossos times valem pouco. A razão não é explicitada. O Santos seria o time mais valioso, 315 milhões, sendo que Neymar representa 40% desse valor. O Santos valeria 26 vezes mais que o Americano, lugar 50 no ranking e cujo valor seria de 12,2 milhões de reais. Muitos bilionários brasileiros poderiam comprar os times sem grande esforço de caixa, alguns milionários também.  Utilizando 20% do seu lucro o Itaú poderia comprar todos os times brasileiros. A GERDAU usando seu lucro, perto de 2 bilhões, 90% dos times aproximadamente. Até a TIM, com lucro de 1,3 bilhões poderia entrar no páreo pisando forte. Isto é fantástico!  Os valores do negócio do futebol não parecem ser tão significativos como o imaginamos, sobretudo, a partir do entusiasmo de jornalistas e dirigentes.

A comparação entre os estados indica que o maior valor está concentrado em São Paulo, 979 milhões, seguido por Rio de Janeiro, 620 milhões e, em terceiro lugar, Rio Grande do Sul com 428 milhões.  Meus amigos da Escola de Educação Física da UFRGS, Vicente, Marco Paulo e Adroaldo, entre outros, podem ficar bastante satisfeitos. Do total dos estados do Brasil, apenas 11 estão representados no ranking. Ou seja, 16 estados têm times menos valiosos que o Americano e, o Distrito Federal, sétimo maior PIB do Brasil, não conta com nenhum time no ranking. Parece que estamos próximos do vampiro brasileiro de Chico Anísio. Mais ainda, que a economia vampira do futebol se chupa a si mesma enquanto não se decide uma mudança em termos de responsabilidades para uma relação transparente e eficiente entre futebol e Estado.

O entusiasmo dos jornalistas do SPORTV falando da entrevista de Falcão a Placar me fez comprar a revista. Confesso que é a primeira vez que o faço. Na página 20 a revista publica uma matéria sobre o “aquecimento” gerado pelo fenômeno Neymar. Apresenta o crescimento no valor dos contratos do Santos entre 2009 e 2012. Neste ano, o Santos arrecadaria (estimativas) 70 milhões em direitos de TV; 30 milhões em patrocínio, 12,5 milhões em material esportivo e 20 milhões de bilheteria. O total ascenderá 132,5 milhões (os sócios crescerão no ano 30%, passando dos 13.000). Ou seja, o valor aproximado do Neymar! A matéria não fala das despesas. Como os caminhos se fazem andando é bem possível que ao final do ano a conta fique no vermelho. Negócio estranho o futebol! Pediria ao colega Dr. Edivaldo de Góis, filho de peixe e peixe até morrer, que acompanhasse o processo do Santos e mantenha informado o nosso blog.

O futebol produz espetáculo e jogadores. Direitos de TV, patrocínio e bilheteria tem a ver com o espetáculo. Porém também o clube pode ser visto como uma fábrica de produção ou cadeia produtiva de jogadores e como atividade empresarial que mediante a compra e venda no mercado procura saldos positivos ou excedentes, para não falarmos de “lucro”. Na página 59, a Placar se refere ao Cruzeiro sob o ponto de vista da compra venda.  No ano de 2008 o Clube teria arrecadado perto de 33 milhões, contudo, o déficit foi de quase 25 milhões.  No de 2011 a arrecadação beirou os 31 milhões e o déficit foi de 30.  Os dados levam a desconfiar da esperanças da PLURI que mencionamos acima (economia, negócios e inteligência de mercado). O problema da gestão se torna central. Onde podemos ler a análise jornalística séria da gestão dos clubes? Gostaria de ser informado para me esclarecer.

Na página 22, a revista se refere ao dirigente popstar do Fluminense, Rodrigo Caetano, que recebe por volta de 300.000 reais mensais para ser diretor-executivo de futebol. Adoraria saber mediante quais critérios se avalia sua gestão e, sobretudo, qual é sua rentabilidade. De fato, segundo a matéria ele ganha mais que muitos jogadores. Para arrematar, na página 59, o leitor poderá ler os nomes de dirigentes envolvidos em negócios não muito claros: um investigado pelo Ministério Público e, outro, indiciado pela Polícia Federal. Empréstimos, juros elevados e irregulares parecem formar parte do imbróglio. Lembro que em um curso sobre Marketing Esportivo, que organizamos com Ronaldo Helal, na UERJ, convidamos o  Presidente do Flamengo, naquele tempo Edmundo dos Santos Silva, e toda a equipe de marketing do clube. Eu saí convencido de que estavam todos imbuídos do totalitarismo da marca (deveríamos usar desde cuecas a lençóis com a marca e cores do Flamengo), com a qual fariam grandes negócios e levariam Flamengo às alturas parnasianas da gestão empresarial. Tenho a impressão de que não se chegou aos céus dos negócios!

Na verdade, comprei a revista Placar para ler a entrevista do Falcão. Li no sábado de carnaval tendo por fundo a algaravia dos blocos. Fiquei um tanto decepcionado e, então, decidi ler depois do carnaval, já sem algaravia, para comentar, como diria Spinoza, de modo equânime. Contudo, fica como tema a análise criteriosa da gestão dos clubes. Pessoalmente, ficaria satisfeito se a gestão se tornasse transparente, os clubes cumprissem com todas suas obrigações legais, sobretudo as sociais e trabalhistas, e no final do mandato o cargo fosse transmitido salientando que não existem dívidas e que todos os compromissos foram saldados. Poderia ficar no caixa um pequeno excedente para pagar as contas miúdas do funcionamento diário.

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