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Futebol e Carnaval: a mistura dos estereótipos cariocas

A relação do futebol com o samba é notória e extremamente veiculada pelos meios de comunicação, sobretudo com a presença constante de jogadores nos desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Craques como Júnior, Zico, Romário, Edmundo e, mais recentemente, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho participam constantemente dos eventos na cidade, seja desfilando em espalhafatosos carros alegóricos ou apenas se divertindo em um camarote patrocinado por uma cervejaria ou por empresários que desejam curtir a festa de Momo ao lado dos ídolos do esporte.

Recentemente, os clubes com maior torcida no Rio de Janeiro já tiveram enredos inteiros dedicados a agremiação no ano do seu centenário. O Flamengo foi homenageado pela Estácio de Sá em 1995 e o refrão continua sendo cantado pela torcida nos estádios, e o Vasco da Gama foi o tema da Unidos da Tijuca em 1998. Fluminense e América foram homenageados na divisão de acesso pela Acadêmicos da Rocinha e Unidos da Ponte respectivamente em 2003 e 2004. Para maiores informações e letras dos sambas, clique aqui.

O Botafogo está presente no clássico enredo da Caprichosos de Pilares de 1985 cujo tema era “E por falar de saudade”. O refrão “Bota, Bota, Bota fogo nisso, que a virgindade já levou sumiço” foi cantado com entusiasmo não só pelos integrantes da escola, mas pelo público presente na recém-criada Praça da Apoteose que foi fundada no dia 02/03/1984 com um projeto do arquiteto Niemeyer e apoio político do governador na época Leonel Brizola e do intelectual Darcy Ribeiro.

 

O histórico desfile da Beija-Flor em 1986, debaixo de chuva, com o enredo “O Mundo é uma bola” é emblemático desta relação entre futebol e samba, e é corriqueiro o retorno da temática nos anos de Copa do Mundo. Todavia, esta relação aparentemente recente que remonta o novo Sambódromo e atualmente é espetacularizada nas transmissões televisivas que atravessam as madrugadas dos sábados, domingos e segundas de Carnaval é histórica e cheia de entrecruzamentos com a mídia e o futebol

Foi o jornalista Mário Filho, ícone da imprensa esportiva brasileira na primeira metade do século XX e mais conhecido popularmente como a denominação oficial do  Maracanã, quem teve a ideia de estimular um concurso entre “escolas de samba” no ano de 1932 no jornal Mundo Esportivo. Como no início do ano as partidas de futebol eram escassas, o visionário intelectual teria sugerido o pleito entre os recentes blocos, que se autodenominavam “escolas” desde a criação da “Deixa Falar” pelo sambista Ismael Silva em 1928.

A Estação Primeira de Mangueira tornou-se a primeira campeã do carnaval carioca e o simpático morro tornou-se famoso pelo samba e personalidades como Cartola, Nelson Sargento e Jamelão, e não por craques de futebol, apesar do Sport Clube Mangueira ter sido uma das primeiras equipes do futebol carioca.

A equipe rubro-negra tijucana formada por funcionários da fábrica de Chapéus Mangueira, que era localizada no bairro da zona norte, mas contava com diversos funcionários/atletas que viviam na favela, disputou 8 Campeonatos cariocas e protagonizou vexames como a derrota de 24×0 imposta pelo Botafogo em 1909 , além de sofrer uma vergonhosa goleada na estréia da equipe de futebol do Flamengo no dia 03 de maio de 1912. Apesar de registros em manuais jornalísticos de que a partida teria terminado 16×2, existe uma controvérsia pois podem ter sido apenas 15 gols para o estreante. O fato é que o Sport Clube Mangueira era constantemente humilhado e acabou se extinguindo em 1927, curiosamente um ano antes da criação das “Escolas de samba”.

O caminho inverso ao da Mangueira, ou seja do Futebol para o Carnaval, também é fundamental para se entender a história de determinados Grêmios recreativos. Unidos de Vila Isabel, Portela, com a influência de Natal que afirmava ser mais do futebol que do próprio samba segundo a própria página oficial da Escola, e a Mocidade Independente de Padre Miguel são exemplos clássicos desta derivação. O caso da Mocidade talvez seja o mais emblemático pela relação direta com uma equipe amadora do bairro, o Independente Futebol clube, e pela onipresença do famoso bicheiro Castor de Andrade, tanto no futebol com o Bangu quanto com o Carnaval na Mocidade durante décadas.

 

Assim sendo, é inegável a relação histórica entre futebol e carnaval na “cidade maravilhosa”, porém a última imagem que me marcou nesta simbiose cultural foi uma cena do filme de animação Rio dos estúdios de Walt Disney. Na curiosa película, que com certeza é muito bem feita tecnicamente e ótima fonte de entretenimento, diversos estereótipos sobre a cidade são propagados a cada minuto, o que me fez lembrar também do clássico personagem “Zé Carioca”, o papagaio apaixonado por samba e pelo Vila Xurupita F.C.

Uma cena em que moradores da favela estão parados absortos observando uma partida do Brasil contra a Argentina me chamou bastante atenção. Além dos embasbacados cariocas se esquecerem de tudo no momento da partida e as próprias aves que estavam presas conseguirem fugir, o ambiente carnavalesco juntou a rivalidade futebolística com a Argentina  à festa carioca onde mulatas, malandros, aves e até um buldogue inglês tresloucado se divertem alucinadamente.

Enfim, a reprodução dos velhos estereótipos do carioca malandro, bom de bola e de samba e que só pensa em Carnaval são ressignificados em meio a uma histórica e prazerosa parceria: o futebol e o Carnaval. Boa folia para todos com campeonato carioca no sábado. Mas como diria João Gilberto “tristeza não tem fim, felicidade sim” e tudo vai se acabar na quarta-feira.

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2 comentários em “Futebol e Carnaval: a mistura dos estereótipos cariocas

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