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O paraíso dos “bipolares”

Vou tomar de empréstimo a palavra bipolar, usada na Psiquiatria. O transtorno bipolar caracteriza-se pela alternância no indivíduo de estados de humor que variam entre a  mania e a depressão. Lembram da música do Nirvana, Lithium? A letra mostrava o vai e vem do humor de um bipolar, transtorno que ao que parece seu vocalista, Kurt Coubain, sofria. Os bipolares são capazes de ir da alegria extrema à tristeza medonha sem nenhum tipo de mediação.

Sem esquecer os danos e sofrimentos causados por esse transtorno, tomo de empréstimo a expressão bipolar somente para tentar expressar uma tendência que noto no território futebolístico. A tendência de se transitar com certa frequência entre polos opostos.

Cada vez mais vez penso que o futebol é o paraíso dos “bipolares”. A começar pela imprensa esportiva.

E o jogo entre Barcelona X Santos na final do Mundial Interclubes pode ilustrar essa minha hipótese. Sim, desculpem-me voltar a esse jogo já desgastado, mas convenhamos estamos em um período de férias futebolísticas. Além disso, trata-se de um ótimo exemplo para o que pretendo comentar.

Vamos lá.

Pouco antes daquele jogo, grande parte da imprensa esportiva discutia se seria justo Neymar não apenas constar na lista dos 23 melhores jogadores do mundo, mas sim na listagem dos três finalistas à Bola de Ouro. Jornais impressos e mesas-redondas de programas esportivos de algumas rádios discutiam se Neymar poderia ou não estar entre os finalistas, se Neymar era ou não melhor que Messi.

Quanto a esse último se é interessante lembrar as declarações de Pelé que afirmou que o jogador santista era sim melhor que o do Barcelona, afinal segundo suas palavras: “Pra mim, Neymar é muito melhor que Messi, porque o Neymar bate bem com a esquerda, bate bem com a direita, é excelente driblador. Tem uma habilidade com a bola, facilidade para sair para os dois lados (…) individualmente não tem ninguém igual ao Neymar.” (Arquivo meu)

Sabemos que Pelé é afeito aos exageros e declarações apressadas. Mas é preciso lembrarmos que Pelé respondia a pergunta feita por um jornalista durante uma coletiva de imprensa. Se hoje em dia, a resposta de Pelé virou alvo de piadas (foi o alvo preferido da manchete do periódico argentino Olé do dia seguinte ao jogo), a pergunta do jornalista também poderia ser do mesmo modo julgada.

Muitas das indagações desse tipo não se sustentavam e nem mesmo deviam ter sido cogitadas. Grande parte das perguntas surgidas antes do jogo tinham como motivação alimentar polêmicas, enquetes e consequentemente revestir o jogo Santos X Barcelona de expectativas e audiência. E revestir o encontro Neymar x Messi com a atmosfera de o embate do século, ou coisa desse tipo.

Mas após 90 minutos (ou mesmo antes), tanta euforia se converteu em desânimo. Após o jogo, não apenas o futebol de Neymar, mas o próprio futebol brasileiro foi posto em questão. Algumas dúvidas acabaram e certezas nasceram. A imprensa foi quase unânime em dizer que Neymar já havia ido muito longe ao constar entre os 23 melhores jogadores do mundo e ir para finalíssima da premiação seria algo mesmo inviável. E a conclusão mais importante: Neymar estava longe de ser melhor que Messi.

E quanto ao futebol brasileiro? Muito se disse na imprensa que ele estava atrasado e, sobretudo, havia mostrado o quanto corrompera sua “origem”, sua “essência” etc, etc. No jornal O Estado de São Paulo foi publicada uma matéria com o sugestivo título: “Barça leva futebol brasileiro ao divã”. Nela alguns ex-jogadores e técnicos eram perguntados sobre os motivos da derrota do Santos e a suposta demonstração de fragilidade do futebol brasileiro.

Mas se o Santos ganhasse? Outras certezas nasceriam e certamente favoráveis a Neymar e ao futebol nacional. Não é nem necessário mencioná-las.

Porém, o que há de igual nas conclusões diferentes? Ambas são movidas pelo resultado do jogo. Ou melhor, pelo resultado de um único jogo. Ele [o resultado] tem o poder de transformar heróis em vilões, de transformar o que antes era problema, na mais perfeita solução. Tudo pode mudar em questão de minutos. É possível caminhar da tristeza ao entusiasmo em questão de minutos.

A configuração do campo jornalístico com sua temporalidade pautada no hoje contribui bastante para o fácil trânsito entre diferentes pólos.

É certo que eu poderia terminar este texto fazendo uma ferrenha crítica ao jornalismo esportivo. E de fato tenho algumas restrições e preocupações relativas ao modo de produção das notícias esportivas.

Mas também preciso reconhecer que há um pouco de mim – ou melhor de muitos de nós – nas notícias esportivas.

Inevitável lembrar o dia 27 de novembro de 2011 e o jogo Vasco X Fluminense, no Engenhão, válido pela penúltima rodada do Brasileirão. O time cruzmaltino precisava vencer para continuar sonhando com o título.

Alecsandro fez o primeiro gol. Vasco 1 x 0. Após o empate do Fluminense, com gol de Fred, aos 38 minutos do 2º tempo, baixei a cabeça e pensei: que modo melancólico de terminar o campeonato… Perder o título já na penúltima rodada. Que vergonha! E esse Bernardo? Sempre entra e não faz nada. Tô cheia!! Cansada de torcer!! Cansada do futebol!!

Mas aí… poucos minutos depois (por volta dos 45min) Bernardo fez o gol da vitória.

Fonte: http://www.gettyimages.com

Como sempre, desmaiei por segundos. E logo depois me ergui, achando Bernardo o melhor jogador do mundo e o futebol, o esporte mais fantástico do qual eu jamais me separaria.

Também curti meus acessos de bipolaridade e saí convicta que o futebol é o nosso paraíso.

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Um comentário em “O paraíso dos “bipolares”

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