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No Engenhão com Malinowski e Geertz [1]

Sou tubista, o que significa dizer que prefiro assistir aos jogos de futebol e basquetebol pela televisão, do conforto do meu sofá.  As vantagens, como todos sabem, são inúmeras: é mais barato, não precisa procurar vaga pra estacionar, enfrentar filas, ser esmagado por um monte de machos suados, sem fumaça de nicotina e outras drogas pra poluir as narinas, replay dos melhores lances, sem uma bandeira de torcida obstruindo a visão, bebida alcoólica gelada à disposição a qualquer hora, etc. Estou plenamente convencido (apesar de achar triste e ser saudosista quanto aos estádios outrora lotados, conforme fica explícito em minha postagem anterior – O Sumiço dos Torcedores  de que assistir através da teletela (ORWELL, 1949) é o novo paradigma a ser seguido. Quero aqui, entretanto, expressar minha indignação a respeito do sistema de vendas de partidas televisadas no Brasil! Não quero ver os jogos de outros times, só os do time para o qual torço, mas sou obrigado a adquirir o campeonato completo… porque? Alô CADE! Isso não configura venda casada?

Mesmo com essa convicção, eis que fui instigado ir de corpo presente um evento esportivo. Como disse certa vez o finado Nélson Rodrigues (no caso dele era o Flu, não no meu): “Só mesmo o Fluminense para me fazer atravessar o oceano Atlântico” (Tratava-se da baía de Guanabara. Nélson confidenciava ao botafoguense Luís Mendes, agora também falecido, que odiava andar de barca e só ia ao Estádio Caio Martins, na distante Niterói, por causa de seu amor pelo tricolor das Laranjeiras).

Fui, assim, ao Estádio mais novo do Brasil, pela terceira vez… (Eu tinha prometido, após as desventuras vividas durante os jogos Pan-americanos de 2007, que jamais voltaria ali). Quer saber como pode ser emocionante? Leia esse relato de uma ida a um clássico… A ideia de ir ao jogo tinha me ocorrido após o almoço… O time para o qual torço vinha de 3 vitórias seguidas, e iria enfrentar naquele sábado o inexpressivo Coritiba, ou seja, mais uma vitória anunciada. Animei-me, portanto, formei um pequeno grupo de 4 pessoas e fomos. Ainda deu tempo de ver, pela TV, os jogos das 16 horas, já que o embate no Engenhão começaria apenas às 18:30.

Já na ida, começam os problemas: nenhum táxi quis parar pra nos levar ao estádio. Como estava cedo (17:30), ainda faltando 60 minutos pra bola rolar, fomos andando à pé. A distância não é grande: 4,5 Km, faço em 20 minutos numa boa. Como nem todos têm a perna grande como a minha, e ainda tentávamos parar os táxis no caminho, levamos 30 minutos. Mesmo assim, tranqüilo… faltavam 30 minutos. Próximo passo: achar as bilheterias. Tivemos que circundar quase metade do estádio para chegar às bilheterias. No caminho, nossas cervejas tiveram que ser bebidas apressadamente, pois os guardinhas impedem que qualquer um se aproxime do estádio com cerveja: HIPÓCRITAS.

Finalmente avistamos a bilheteria, na Rua Dr. Padilha, setor Leste. Não foi uma visão animadora: milhares de torcedores em filas quilométricas tentavam se aproximar das poucas bilheterias. Transeuntes avisavam que não havia mais ingressos. Incrédulos, tentamos obter um posicionamento oficial. Impossível chegar à bilheteria. Perguntamos aos guardinhas, que, sem ser muito convincentes, confirmaram. Além das filas para a compra, havia uma outra, para o ‘resgate’ do ingresso físico, para aqueles que, cautelosos, haviam adquirido os seus previamente, através dos computadores. Também não parecia promissor… centenas na fila, faltando 20 minutos pro kickoff. Partimos pro plano B.

Vários dos “transeuntes” nos ofereciam ingressos. Resolvemos adquirir, embora ressabiados. Era isso ou voltar pra casa e ver apenas o segundo tempo pela TV. Os preços dos cambistas, estranhamente, eram os mesmos das bilheterias oficiais: R$60 Setor Leste Inferior, o mais caro do estádio disponível para o cidadão comum. Sem meia entrada: velhos, crianças, estudantes, todos pagam democraticamente o mesmo valor. Todos iguais perante a ‘lei’. Antes de trocar o nosso papel moeda, R$240 por um pedaço de papel oferecido por um desconhecido, titubeamos, ao que o vendedor diz que dá todas as garantias. Ufa! Ainda bem… lembrei daquele comercial do videocassete Mitsubishi: “Garantia…mas que garantia? La garantia soy yo! La garantia és mi palabra!”… (procurei em vão pelo vídeo pra postar, não achei…)

Mas o cara já era um especialista em desconfiança humana e tinha uma técnica: ele adiantava UM ingresso, e um dos elementos do grupo ia testar. Quando este entrasse, dava o sinal para os outros de que podiam comprar que “a parada é quente”, “funciona mermo”. Assim foi feito, tudo funcionando, só tem que ter cuidado pros peemes cana-dura não sacarem a parada… Senão, mela tudo… Dessa vez não viram, acho.

Como em outras situações, uma vez dentro, fica melhor…

Com os bolsos vazios, mas o coração cheio de esperanças, chegamos às arquibancadas. Ainda deu tempo de uma passada estratégica no banheiro do Sr. Havelange (Eu sempre achei que era proibido por lei botar nome de gente viva em monumentos, ruas, estádios e similares… o velho tricolor ainda não está vivo? E acabo de descobrir que há mais um estádio com seu nome, em Uberlândia… Não que ele não mereça… Claro que merece!) e ficar mais leve ainda.

Faltavam uns 5 minutos pro início da partida, mas já sabedores de que essas coisas sempre atrasam no Brasil (conhecem o famoso brazilian’s standard time?) [2], procuramos calmamente um lugar com boa visão do campo para assistir à partida. O público, estranhamente, se aglomera em frente à linha divisória do gramado, ficando em pé. Bastam uns poucos passos pro lado e se acha lugar vazio… É, não estava cheio, superlotado, havia muitos lugares vazios, numa prova inequívoca de incapacidade gerencial, já que tínhamos o dinheiro, queríamos adquirir os ingressos de forma legal e foi impossível! O pior foi ver que os setores atrás dos gols estavam interditados graças a uma ação comercial de uma fábrica de… cerveja! (ué, mas não é proibido cerveja no estádio?!  A FIFA tá certíssima em querer mandar na Copa 2014… É o nome dela que tá na reta).

E não é que também descobri que o Engenhão foi copiado do Estádio da Luz, em Lisboa? O Estádio lusitano foi inaugurado em 2003, a cópia carioca em 2007

O jogo foi “meia-boca”, não muito empolgante, mas no finalzinho o time para o qual torço ganhou por 1 X 0, numa jogada iniciada em um escanteio ali pertinho de onde eu estava. O mais interessante é que não vi o gol… tava olhando para o lado na hora, e quando olhei,  já era! Obrigado, gênios administradores do futebol: O telão do estádio não repete os lances… então, pra quê telão?

Na próxima fico em casa, que lá posso voltar o lance, pausar pra ir ao banheiro, gravar pra ver depois, ou ficar repetindo o chute daquele jogador só pra ver de novo como ele é ruim, enquanto saudoso, ouço a música do Moraes Moreira…


[1] Não sabem quem são? Procura… você acha em qualquer enciclopédia, ou no gúgol.

[2] Um conceito possível: “In Brazil, sometimes all you can do is just shake your head and forget about it, since things just don’t seem to run smoothly here!  Brazilians are infamous for being late and unreliable … they operate on Brazilian Standard Time, a time zone different from any other country in the world!”

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10 comentários em “No Engenhão com Malinowski e Geertz [1]

  1. João said: gostei do texto. Apesar de discordar de muita coisa. Afinal, para mim, nada como ver um jogo no estádio. Seja do Tupi no Mario Helênio, do Brasil no Mario Filho ou do Vasco no Caldeirão. Mas entendo sua preferência pelo conforto do lar, acho legítimo e encontro cada vez mais gente que pensa como você.
    Achei perfeitas as críticas quanto ao atual modelo de venda do payperview. E também fico aflito com a péssima gerência do futebol brasileiro que deixa lugares vazios nos estádios com muita gente querendo ir.
    Sobre o Engenhão, acredito que ele tenha sido inspirado no Estádio do Dragão (Porto) e não do no Estádio da Luz. Fausto, nosso portuga, pode confirmar.

  2. Pelo menos internamente, não vi nenhuma semelhança entre o Estádio da Luz e o Engenhão. Dentre outras, a principal diferença é a visão do campo, muito superior no estádio português. Se o Engenhão foi inspirado em algum estádio luso, deve ter sido no do Porto, que é de construção mais recente.

  3. as semelhanças são, dizem, externas, em sua maioria. O arquiteto que projetou o engenhão foi o irmão do botafoguense Roberto Porto.

    Discussão em Portugal:

    futebolportugal.clix.pt/2009/12/copia-do-estadio-da-luz/

    Wikipedia:

    “Sua cobertura, de 35.000 m² de área, recobre todos os assentos, servindo de proteção para chuvas e criando sombra ao sol. O Engenhão também apresenta quatro arcos em sua parte superior, remetendo grande semelhança ao Estádio da Luz”

    Engenharia:
    http://www.revistatechne.com.br/engenharia-civil/123/imprime53095.asp

    ” O projeto executivo da cobertura metálica do Estádio João Havelange foi realizado pelo escritório paranaense Andrade Rezende. Para a obra, a empresa consorciou-se a outros dois escritórios: o Alpha Projetos, do arquiteto Flávio D’Alambert, que elaborou o projeto básico da estrutura; e o Tal Projetos, empresa portuguesa que já havia participado da construção do Estádio da Luz, em Portugal, e que supervisionou a elaboração do projeto da cobertura. […] Como o Estádio da Luz, o Engenhão possui quatro arcos que sustentam a cobertura das arquibancadas. Mas as semelhanças param por aí.”

    O arquiteto se defende:
    http://forum.tvgolo.com/index.php/topic,1934.msg44231.html#msg44231

    Os arcos “são nossos, ó pá”, afirma arquitecto brasileiro que projectou o Estádio Olímpico João Havelange ao comentar a forte semelhança dos quatro anéis da cobertura do mais moderno estádio do Brasil aos arcos do Estádio da Luz, em Lisboa.

    “É uma bobagem falar que um tenha copiado o outro, é uma ideia que pode ocorrer a qualquer um”, disse à Lusa o arquitecto Carlos Henrique Ribeiro Porto, um dos quatro responsáveis pelo projecto do chamado “Engenhão”, inaugurado em 2007 para os Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro.

    Embora o Estádio da Luz tenha sido inaugurado em 2003 antes do Engenhão, o projecto inicial do estádio olímpico brasileiro data de 1995, explica Ribeiro Porto, e foi projectado para ser um estádio da cidade do Rio e “já tinha os quatro arcos e uma arquibancada suspensa para 50 mil pessoas”.

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