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Jornalismo esportivo on-line: da prática para a teoria

O retorno à redação esportiva após mais de um ano dedicada à leitura de textos e ao exercício diário da vida de estudante é uma experiência, no mínimo, super interessante. Ainda mais quando essa volta se dá para a redação de um veículo até então pouco explorado, profissionalmente, por mim, como é o caso da internet. Suporte total para minha vida de produtora de televisão e de estudante, a web é uma novidade enquanto personagem principal do meu cotidiano de repórter e editora.

Com certo olhar de funcionária, mas, ao mesmo tempo, de observadora participante, algumas questões passaram a surgir e viraram tema de intensa reflexão no meu cotidiano. Em primeiro lugar, como trabalhar a questão da quantidade e da qualidade no meio on-line. A exigência de atualidade – critério de noticiabilidade que permeia a prática jornalística em qualquer veículo, mas, inegavelmente, ganha ainda mais força no meio web – é, de certa forma, conflitante com questões relacionadas ao critério de qualidade. Este pode ser entendido desde a obediência aos padrões jornalísticos que servem como base para nossa ideologia profissional (pelo menos quando você pensa de forma ideal) – busca da objetividade, da verdade e da imparcialidade – como a própria qualidade do texto em si – da ortografia até as melhores escolhas.

Não, isto não quer dizer, de forma nenhuma, que jornalismo on-line não tenha qualidade, pelo contrário. Do conflito, acredito, que surja, em muitos casos, um produto que traz, justamente, a força dos encaixes e desencaixes desses dois critérios, ou seja, a obrigação da quantidade, mas com toque de qualidade. O jornalista on-line tem como característica, sim, a agilidade. Mas a base de seu trabalho continua sendo os critérios de noticiabilidade e os parâmetros jornalísticos relacionados à prática jornalística.

Outro aspecto, mas que conversa diretamente com o conflito entre quantidade e qualidade, reside na multiplicidade de funções exercida por um só jornalista. Repórteres, produtores, editores, editores de imagem, fotógrafos e cinegrafistas, por diversas vezes, se resumem em um só. Isso exige organização, foco, muita concentração na produção diária de notícias. Os jornalistas estão sempre atentos ao mais importante e ao mais interessante, dentro das editorias onde são responsáveis. Rondas intermináveis, olho em inúmeras agências e na concorrência, e preocupação com o texto. Perda de qualidade nesse processo, com excesso de trabalho, sim, é uma preocupação existente. Mas não há tempo para pensar muito nisso. Na verdade, até há tempo, mas ele é bem exigente, e já é hora de publicar outra notícia.

A força do critério atualidade traz mais uma questão interessante. A produção jornalística, segundo vários teóricos da área, tem como característica a descentralização. John Soloski escreve em seu texto sobre profissionalismo no jornalismo que, tendo em vista a característica dinâmica da produção de notícias, seria inviável, financeiramente e, também, por questão de tempo, controlar uma a uma a produção de cada linha de texto. O autor cita, inclusive, uma forma adotada pelas empresas considerada eficaz para manter o profissionalismo e reforçar a linha editorial, mesmo no cotidiano caótico: utilização do método de punição e recompensa. Isto tanto no momento de definir se uma reportagem será ou não publicada, ou mesmo, alterada, terror de jornalistas orgulhosos do seu produto final, até na questão de outras concessões, como, por exemplo, viagens e o jornalista ser escalado para grandes coberturas.

Voltando à questão da descentralização, no on-line, é perceptível que essa característica se torna ainda mais evidente. Todos sabem muito bem o que deve ser feito, a linha editorial a ser seguida e vestem os óculos de Bourdieu, em referência às práticas profissionais. Mas a facilidade para colocar uma notícia no ar e a exigência do critério de atualidade intensificam a autonomia dos jornalistas. Liberdade, esta, que é maior que nos veículos tradicionais, onde, dificilmente, uma matéria vai ao ar sem a aprovação de, pelo menos, uma pessoa.

Para finalizar, o critério de noticiabilidade relacionado à audiência também é potencializado no jornalismo on-line. A própria força da interatividade, seja através de e-mail ou da participação direta dos internautas deixando comentários, ajuda nesse processo. Mas, também, cada clique pode ser medido. Não é como numa TV ou num impresso que se pode ter ideia do macro, mas, não, exatamente, quantas pessoas assistiram/leram (ou pelo menos demonstraram algum interesse) a matéria. Na web, é possível e em tempo real. Só contar número de cliques, de retuitadas e de compartilhamentos e, voilá, sabe-se exatamente por onde seu leitor está passeando. Ainda não dá para saber o motivo da escolha do clique, mas, pelo menos a quantidade, esta sim, é  facilmente mensurável. Sendo assim, a produção acaba sendo influenciada pelo fator da audiência, que, como já dito, também é critério para a construção de notícias em outros veículos, com a diferença de que neles o jornalista constrói a imagem do seu público. Na internet, a chance de os leitores serem mapeados é maior.

Até agora você pode se perguntar: mas o que o esporte tem a ver com isso tudo? Bom, em primeiro lugar, saí da produção de esporte em televisão, para um mestrado focado em jornalismo esportivo e o meu retorno foi à redação on-line voltada ao esporte. Além disso, apesar da forte aproximação da editoria esportiva com o entretenimento e a força do critério interesse, em detrimento, por exemplo, da relevância do tema, na minha concepção é inegável que o jornalismo esportivo ainda seja jornalismo, com todo o significado dessa palavra. Com suas misturas, suas possibilidades, liberdades e informalidades e, como em toda atividade jornalística, com suas disputas pela definição do que é ou não é notícia.

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