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Super-Santa, carne de bode e Intercom 2011

Em setembro passado, tive o prazer de participar mais uma vez do Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, o Intercom, que este ano foi realizado na aprazível capital pernambucana nas instalações da Universidade Católica de Recife.

Em meio aos debates acadêmicos no GP de Esporte, coordenado pelo pesquisador de rádio esportiva da UFJF, Márcio Guerra, e nas mesas dos bares da boêmia Recife, tive uma semana bem produtiva e agradável para um amante do futebol.

Sábado de manhã, ministrei um mini-curso no evento, abordando as origens do futebol no Cone sul e a imprensa uruguaia nas Copas de 1930 e 1950, que foi o tema da minha dissertação de Mestrado no PPGCOM/Uerj.

Foi uma atividade interessante e com a presença de muitos graduandos, como é o espírito da proposta. Cabe o registro que o estudante que fez um relato na página da Intercom das discussões, não interpretou bem algumas afirmações minhas e atribuiu frases ao palestrante, no caso eu, que não foram pronunciadas, como por exemplo: “ No início do século XX o futebol argentino era mais associado a força e não a técnica em oposição ao  brasileiro”. Não diria uma insanidade destas e estava falando da oposição na construção dos estilos de jogo dos países platinos a um modelo inglês e europeu. Enfim, ossos do ofício, do jornalista e não do pesquisador.

À tarde, decidi não ir a Ilha do Retiro por questões ideológicas e o cansaço da noite anterior, visto que meu vôo chegou por volta das 2 horas da manhã e após descansar algumas horas na Pousada/cativeiro, onde fiquei em Boa Viagem, resolvi caminhar para procurar algo que comer e falar um pouco sobre o futebol local.

Encontrei o Espetinho mais chique que já conheci. Em uma transversal na Praia da Pina (final de Boa Viagem), no meio da rua, um salutar comércio de espetos com direito a cardápio e variedades, como picanha maturada argentina, cordeiro e filé com gorgonzola, a módicos preços, além da possibilidade de ouvir as estórias de Janjão, torcedor de carteirinha do Santa Cruz (um dos mais tradicionais clubes do Nordeste brasileiro, quiçá do país, e que atravessava a amargura de estar na quarta divisão). Esta semana classificou-se para a Terceirona “com muito orgulho, com muito amor”.

Domingão no Mundão do Arruda. Esta foi a programação decidida junto ao colega Rafael Fortes, companheiro de congressos, peladas e novos estádios para o Curriculum Lattes do esporte.

Nos encontramos no bairro da Encruzilhada, e após ter descido no Mercado errado e passado pela experiência pitoresca de uma moto-táxi “pirata”, cheguei ao encontro de Rafael, onde rumamos para comer no Bar do Tonhão uma suculenta carne de bode antes do grande “derby” Santa Cruz x Porto de Caruaru, válido pela quarta divisão do Campeonato Brasileiro. Junto conosco, a figura do Intercom, Luiz Adolfo, carioca de Juiz de Fora, especialista em games, tricolor do Rio e atualmente radicado na Bahia onde é professor da Universidade Estadual de Juazeiro.

Eu, Super Santa e Luiz Adolfo

Partimos animados para o espetáculo após encontrar um folclórico torcedor trajado de Clark Kent, o Super-Santa. Impressiona a dimensão do Arruda, bem como o tamanho do descaso com a sua manutenção. Um dos maiores estádios do país encontra-se praticamente abandonado e o mais incrível é que mesmo com as obras para a Copa e a existência de três palcos futebolísticos na cidade, não foi aventada nenhuma possibilidade de reforma no Arrudão. Qual a solução brilhante? Um novo estádio está sendo construído aos cuidados de uma prestigiada empreiteira e, possivelmente, o Aflitos do Náutico Capibaribe, que se localiza em área de “nobre” interesse imobiliário será futuramente demolido. São os legados regionais da Copa.

Enfim, e o jogo. Cerca de 26.000 pessoas em um momento difícil para o Santa que necessitava da vitória, jogava com desfalques e sofria a pressão da torcida Inferno Coral, realmente enlouquecida, do lado oposto ao que ficamos, devidamente avisados pelo Janjão. E o jogo novamente? Bem, futebol quase nenhum, uma pelada digna da quarta divisão. Triste para quem já assistiu boas equipes do Santa, como em 1987, quando a equipe disputava o verdadeiro Brasileirão e foi campeã pernambucano no ano. Como os tricolores dizem, o único campeão pernambucano em 1987.

Da peleja só me lembro dos constantes berros “filho de uma rapariga” direcionados principalmente para o robótico centroavante “Caça-ratos” e do gol da vitória feito por um jovem que entrou na segunda etapa, além do Luiz Adolfo, sempre conectado, me avisando sarcasticamente do andamento do jogo Flamengo e Bahia no Engenhão, partida em que o clube carioca tomou uma lavada.

Neste dia, iniciaram-se os trabalhos no Grupo de Trabalho, e por questões da fé dominical aos estádios do mundo, não pude assistir a apresentação do querido amigo João Paulo do nosso grupo, que aborda a polêmica obra de Mario Filho “O Negro no Futebol brasileiro” na sua descrição sobre o mitológico título vascaíno de 1923 comparando com o relato jornalístico do período (leia aqui). Como ele também é um “louco por futebol”, entendeu a motivação de força maior.

Segunda à tarde, ocorreram intensos debates no grupo com a participação da integrante do grupo Camila Pereira apresentando interessante trabalho sobre a construção do herói em publicidades da Brahma Chopp (leia aqui).

O GP de Esporte vem crescendo quantitativamente, e também qualitativamente em alguns casos. Nosso grupo da UERJ busca participar efetivamente e achamos que a manutenção desse espaço é fundamental para o desenvolvimento do campo acadêmico esportivo na área da Comunicação. Fica o convite para a participação de novos pesquisadores da área ano que vem em Fortaleza, onde inclusive o esporte será o tema geral do evento.

À noite, resenha esportiva com choppinho na bela Recife antiga junto com o Rafael, João Paulo e o colega Pablo, outra figura carimbada na Intercom. Do futebol para o funk, tema de pesquisa de doutorado pela UFRJ do Pablo, terminamos a noite ouvindo um sensacional jazz ao ar livre em um bar colado a mais antiga Sinagoga da América Latina. Sempre conectado (mais uma vez), Luiz Adolfo chegou para prolongar as “saideiras”.

Terça de manhã, minha apresentação tinha como objetivo estabelecer um panorama teórico sobre a relação entre memória e representações coletivas em trabalhos acadêmicos sobre Copas do Mundo, instigando assim uma reflexão teórica preliminar sobre a questão (leia aqui). Um trabalho coletivo do grupo analisando o discurso midiático sobre Neymar nos jornais “O Globo” e “Estado de São Paulo” encerrou a sessão da manhã com a estréia entre os “profissionais” da revelação do nosso grupo de pesquisa, o Fausto (leia aqui). Antes Fausto já tinha participado da Intercom Jr com o trabalho “As novas (antigas) tendências no consumo de informações esportivas“, escrito em parceria com o Carmelo, membro do nosso grupo e também autor aqui do blog. Pela tarde, Andreia Gorito, mestre pela UERJ e coordenadora do curso de Comunicação da UVA (Universidade Veiga de Almeida) em Cabo Frio, apresentou sua pesquisa sobre os “incríveis” Autônomos F. Clube (leia aqui).

À noite, após as compras da viagem (camisas retrô do Íbis, Santa Cruz -campeão de 1987- e Nacional do Uruguai em um stand da PE Retrô no próprio Campus da Católica), resenha esportiva com membros do grupo e o carismático Luiz Adolfo em bar próximo a Universidade.

No dia da Independência formal do país, mais bode. Junto com Rafael encontramos um amigo seu, jornalista em Recife, e comemos uma fenomenal picanha de bode, além de cordeiro no restaurante “Entre amigos do Bode”. Não fui recebido de forma muito amistosa, pois trajava camisa rubro-negra com os sábios dizeres “Hexa, eu já sabia” e todos na mesa eram torcedores do Sport Clube Recife. Percebi que dois apenas me cumprimentaram devido à livre pressão de suas esposas e que era melhor mudar o foco do assunto. E a Copa em Recife? Mais polêmica no almoço. Um dos presentes era “integrado” na acepção da obra de Umberto Eco e do Comitê Organizador, e o jornalista questionava o andamento das obras no Estado. Foi melhor voltar ao bode.

Eu e Rafael ainda tínhamos um compromisso acadêmico na quinta-feira. Participamos também com trabalho na sessão de esporte do ALAS 2011, Congresso Latino-americano de Sociologia, na UFPE. Após nossa apresentação na quinta de manhã, tive de retornar ao Rio de Janeiro, pois o trabalho e o lar me chamavam. Não foi possível ficar até o final do evento que durou até sábado, o que é chato, mas as obrigações ensejaram meu retorno.

Minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro. Chego em casa feliz com o sentimento do dever cumprido e na hora do clássico contra o Corinthians. Pena que o Liédson me trouxe para a realidade aos 43 minutos do segundo tempo. Sexta de manhã, trabalho não- acadêmico. Aulas em colégio das 8h às 17h30. Cansado, mas com o espírito renovado para os adolescentes e a labuta do dia a dia. Parodiando Camões: Viajar é preciso, viver não é preciso”.

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