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O tijolo e a vidraça ou uma ave que cai

Essa postagem é, de certa forma, uma continuação do assunto que comecei a desenvolver numa postagem anterior, sobre os comentaristas esportivos (leia   aqui ). O que me motivou a retomar essa pauta foi a recente tentativa de um renomado comentarista esportivo de se estabelecer como treinador de futebol profissional. Isto é um fato raríssimo, ao menos no Brasil. Sem pesquisa prévia, relembrando de cabeça, só consigo lembrar de um caso anterior:

A passagem do radialista Washington Rodrigues, o popular “Apolinho”, pelo Flamengo, no ano de 1995 (veja mais sobre essa passagem AQUI ). O Apolinho dirigiu o time em 26 jogos e obteve 11 vitórias, 08 empates e 07 derrotas. Aproveitamento de 52,56% (dados: flapedia ).

Um episódio contrário, também raro, foi o do jogador do Flamengo Júnior ‘capacete’, que, após pendurar as chuteiras virou treinador, dirigente e finalmente comentarista esportivo.

Eu só lembrava desses, mas o programa Redação Sportv relembrou os comentaristas que viraram técnicos: João Saldanha (antes de 1970), Apolinho Washinton Rodrigues (1995) e Caio Júnior (atualmente dirigindo o Botafogo).

 

No mesmo programa ouvi algumas frases interessantes:

 “nossa função aqui é informação, jornalismo, opinião, é muito diferente de você dirigir um time… Tem que ter um conhecimento esportivo que a gente não tem”. André Rizek (apresentador)

um jornalista só pode ser jornalista. Ele não pode ser treinador”. Lédio Carmona (comentarista)

Esse novo caso é bem parecido com a passagem do Apolinho pelo Flamengo, com as ressalvas de que o experimento de 2011 foi feito por um ex-jogador e ídolo do clube, o que teoricamente lhe garantiria mais conforto e um certo salvo-conduto. Ocorre, porém, que não foi isso o que se viu na prática.

O caso em questão é a aventura de Paulo Roberto Falcão, ex-volante do Internacional, do Roma e da Seleção Brasileira e posteriormente comentarista da Rede Globo de Televisão, como treinador do Inter. Falcão já havia tido uma experiência ruim ao dirigir a Seleção Brasileira. Naquela época, assumiu no lugar de Sebastião Lazaroni, que caíra na Copa do Mundo de 1990. O time fora eliminado eliminado pela Argentina com o célebre gol de  Caniggia, após passe de Maradona. Ainda voltou a tentar a carreira de treinador no América do México em 1991. Após breve pausa, chegou ao Internacional em 1993, primeira passagem, obtendo os seguintes resultados à frente da equipe:

São Paulo 3×2 Inter
Inter 1×0 Botafogo
Inter 1×1 Bragantino
Corinthians 2×0 Inter
Inter 1×0 Bahia
Flamengo 3×0 Internacional
Inter 3×0 Cruzeiro
Bragantino 3×3 Inter
Bahia 0x1 Inter
Inter 1×1 Corinthians
Inter 2×0 Flamengo
Botafogo 2×0 Inter
Inter 1×1 São Paulo
Cruzeiro 4×1 Inter

Com essa campanha (14 jogos: 4 vitórias, 4 empates e 6 derrotas, 42,8% de aproveitamento), o time foi eliminado na 1ª fase do Brasileiro.

Após o insucesso no Beira-Rio, foi para o Japão mudar de ares. Lá, treinou a seleção nacional em 1993-1994. Desistiria então de ser treinador, optando pelo  aconchego e segurança dos microfones globais. Essa reclusão terminaria no começo de 2011, quando foi novamente “convocado” para ajudar seu clube, o Internacional, que passava por dificuldades no campeonato gaúcho (o Inter fora eliminado nas quartas de final pelo Cruzeiro-RS e assistiu das arquibancadas o ‘rival’ Grêmio conquistar o primeiro turno). Estreou numa partida decisiva, já nas quartas-de-final do returno (Taça Farroupilha), com uma vitória de 1 X 0 sobre o Santa Cruz-RS. Esse resultado levou o Inter para a semifinal, no morro, contra o Juventude de Caxias do Sul. Venceu por 2 X 1 e enfrentou o Grêmio na final do returno, precisando ganhar para evitar o título antecipado do tricolor. Com um ídolo em cada banco de reservas (Renato Gaúcho como treinador do Grêmio e Falcão no Inter), o clássico ‘pegou fogo’. Na primeira partida, empate por 1 X 1, e pênaltis. Alguns dizem que pênalti é loteria. Se assim for, Falcão acertou na loteca, conquistou o segundo turno e o direito de enfrentar o Grêmio mais duas vezes. O Inter acabou sagrando-se campeão, novamente nos pênaltis.

O título gaúcho, porém, não foi suficiente para evitar a queda do comentarista-treinador após insucesso na Copa Libertadores da América e três derrotas seguidas no Campeonato Brasileiro. Falcão foi demitido pelo presidente do clube, após 99 dias no emprego. A gota d’água fora uma derrota de 3 X 0 para o São Paulo.

O que essa interessante experiência nos mostra é o mesmo que já vimos antes em espaços como a política, por exemplo: é sempre mais fácil ser tijolo do que ser vidraça.

Concordo com o apresentador André Rizek: para ser treinador tem que ter um conhecimento esportivo que a gente não tem.

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