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Os sentidos do moderno

As imagens em torno do mundo moderno sempre foram carregadas de um caráter ambíguo. Junto ao fascínio vinha a desconfiança e o medo dos possíveis perigos trazidos pelo novo. A dupla face do moderno marca os escritos de Walter Benjamin sobre Paris e suas vitrines invadoras e convidativas ao consumo.

A vida moderna foi exaltada pelos Futuristas no início do século XX que em seu manifesto ergueram uma espécie de louvor a todos os signos do moderno, como a velocidade, a máquina e tudo que lembrasse o movimento e, portanto, a mudança. O antigo precisava ser superado, ou melhor, aniquilado pela força dos “jovens os fortes e os vivos futuristas!” como afirma Filippo Marinetti.  Mas a vida moderna também foi alvo de crítica, sobretudo, no que diz respeito aos possíveis excessos que ela carrega consigo. Em relação a esse aspecto é inevitável mencionarmos Max Weber e a bela metáfora do “cárcere de ferro” que aprisionaria o indivíduo moderno.

O futebol é um exemplo interessante para pensarmos os sentidos do moderno.

Um interessante fenômeno tem me chamado a atenção. Uma breve busca pela internet e facilmente encontramos uma espécie de palavra de ordem adotada por alguns grupos de torcedores que nas arquibancadas e em blogs pregam o “ódio ao futebol moderno”. Se Marinetti, no início do século XX, pregava o ódio ao passado, esses torcedores fazem justamente o oposto e denunciam o estágio atual em que o futebol se encontra, caracterizado pela forte mercadorização que tem elitizado esse esporte e o transformado em prática corrompida pelo dinheiro. Por isso pede-se o retorno do “futebol de antigamente” e demarca-se uma clara  fronteira entre o “antes” e o “depois”. Assim podemos ler: “Antes, futebol era relação direta entre clubes e torcidas. A renda do estádio era a grande fonte de receita dos clubes. Hoje, o clube depende financeiramente de patrocinadores, redes de TV, dirigentes, empresários, políticos, governo erc. Antes era pura paixão. Hoje, puro negócio. Antes, estádio era cheio e ingresso barato (veja mais aqui).

Toda contestação ao “futebol moderno” é válida sobretudo se calcada na justa acusação direcionada a alguns excessos que podemos obsevar no futebol brasileiro, e mundial, e que tem afetado sobretudo aos torcedores: ingressos caros, estádios que sob a justificativa de modernização tem tido sua capacidade diminuída, sendo tomado de cadeiras e sem espaços para se torcer em pé. Empresários e dirigentes unicamente interessados em lucrar mesmo que à custa do endividamento de clubes. Dirigentes que estão há anos no poder impedindo a possibilidade de renovação e mudanças. Isso sem mencionar os perigos dos altíssimos patrocínios destinados a pouquíssimos clubes do país aumentando o abismo entre os chamados “grandes”e “pequenos”.

Por outro lado, é muito importante que não se entenda o “moderno” de modo fechado sem incorporar suas ambiguidades e contradições.

É preciso tomar cuidado com a os perigos do “saudosismo”, pois como já afirmou Hugo Lovisolo: “O saudosista adere ao mito de que as coisas são puras e plenas quando nascem, e depois começa a deterioração”[1]. Esse aspecto é bastante claro nos discursos em torno do “ódio ao futebol moderno” que pressupõem um “antes” e um “depois”. Esse tipo de concepção geralmente parte de noções que naturalizam algo que é historicamente construído.

É importante lembrar que nos primeiros anos, o futebol foi no Brasil o símbolo de civilização e modernidade, sendo rapidamente adotado graças aos ares de sofisticação que o cercavam, graças justamente ao fato de ser considerado moderno.  Na década de 1920 podia-se ouvir as vozes de saudosistas defensores do “futebol de antigamente” que segundo muitos corria o risco de perder-se frente ao enfraquecimento do amadorismo e gradativa popularização do esporte bretão. Sim, os saudosistas já foram a favor de um futebol elitizado.  No final da década de 80 e início de 90, por sua vez, eram fortes os clamores pela modernização do futebol brasileiro tida como única solução para salvá-lo de uma crise que se fazia ver nas arquibancadas vazias e em um campeonato inchado de clubes e mal organizado.

Enfim há vários sentidos que o moderno pode adquirir, o que significa que a concepcão de moderno pode ser revestida de diferentes concepções de acordo com diferentes necessidades. Essa percepção é importante para que se evite posicionamentos que polarizem o mundo da bola entre os que amam e os que odeiam, entre os antigos e os modernos, o antes e o depois, o autêntico e o inautêntico. A história do futebol nos mostra o contrário e não nos permite cair nas armadilhas do saudosismo.


[1]Saudoso futebol, futebol querido: a ideologia da denúncia”. In: Invenção do país do futebol. Rio de Janeiro: Mauad, 2007.


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