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Largadas e chegadas na Meia do Rio

A Meia Maratona do Rio de Janeiro é uma competição que tem significativa importância na minha vida como jornalista. Foi a primeira prova de grande repercussão da Globo em que eu fui a produtora responsável. E, agora, no retorno à redação, novamente ela, a mais charmosa prova do Brasil – pelo menos para aqueles que não correm – foi o primeiro desafio no trabalho como repórter do site.

Mas, não é interesse deste post contar minha experiência pessoal, já que, na verdade, a minha relação com a Meia e tudo que vivi trabalhando nessa prova são apenas algumas de tantas outras milhares de histórias, muito mais interessantes e empolgantes. E se a corrida de rua não é um esporte massificado pela televisão e tem menos apelo midiático que outros, isso não tira dela a sua capacidade de ser uma modalidade muito democrática. Na verdade, eu diria até a mais democrática.

Pierre Bourdieu em seu texto sobre o campo esportivo fala da separação entre leigos e praticantes e, a partir daí, da divisão entre a prática profissional, com pessoas integralmente dedicadas a essa atividade, e os que simplesmente acompanham o esporte, possibilita que se consolide a busca do ‘sensacional’ em cada movimento esportivo.

Claro que no campo da corrida também há essa divisão, com os atletas de elite, extremamente bem treinados, e os amadores. Mas, diferentemente do nosso esporte-padrão, o futebol, os amadores de elite são muito mais que leigos apaixonados pelo esporte. Muitos deles nem consomem o esporte midiático, muitos sim. Mas a busca pela alta performance, os treinos pesados diários, a marcação das férias aliada a uma boa competição pelo mundo são ações que, ao meu ver, vão muito além dos viciados em peladas e no consumo do futebol profissional. Os corredores não vão para assistir a uma maratona de Nova Iorque como um apaixonado pelo futebol paga caro por um jogo da Champions League. Eles vão para correr a Maratona, para buscar a tal meta abaixo de três horas, considerada um marco para aqueles que não são da elite.

Há, sim, uma busca por profissionalismo, mesmo que não seja um deslocamento conceitual, considerando que eles não tem por objetivo viver do esporte. E por que isso pode ser considerado um motivo para a corrida de rua ser democrática? Simplesmente, por que para correr, na prática, basta querer – somado a um investimento no tênis. A corrida não é esporte de rico ou de pobre, ela não exige que muitos se comprometam, como num jogo coletivo, também não requer lugar especial para sua prática e nem horário determinado. Se você de fato quiser correr, com calma, começando devagar, você vai correr.

Na Meia Maratona, prova que reuniu em 2011 19 mil pessoas, sendo que, dessas, menos da metade era do Rio, era clara a existência de todos os tipos de pessoas, com objetivos mais que diversos, mas, várias muito bem treinadas. A hora da largada, que sempre me emociona, é possível ver os primeiros do pelotão da geral acelerando que nem loucos “para pegar os quenianos”.

Os amadores de elite, digamos assim, treinam todos os dias, eles assumem uma rotina que se não é de profissional é de quem vai muito além do papel de leigo. A corrida não é apenas uma fonte de lazer, uma partidinha de vôlei na praia com amigos ou aquela pelada que termina com um churrasco. Os treinos são específicos, vão na base do esporte, treinam-se os fundamentos para fazer bonito na hora da competição.

A Meia do Rio este ano trouxe muita alegria para grande parte dos inscritos, e até mesmo para a elite. O tempo agradável, nublado, com temperaturas amenas, possibilitou que os corredores baixassem suas marcas. A alegria da chegada era visível, todos olhando para o cronômetro, gritando, agradecendo a Deus, a familiares, ao treinador, a sensação de dever cumprido, do belo gol de bicicleta marcado.

Mas eu falei que a corrida era um esporte democrático e nele não estão apenas os amadores que buscam o alto rendimento, que fizeram a prova abaixo, alguns bem abaixo, de duas horas. Tinha gente de mais de 70 anos, gordinhos, famílias inteiras chegando de mãos dadas, pessoas chorando no final da prova. Pessoas que correm para manter a forma, mas também outras tantas que buscam o esporte para provar algo, para si, sentindo a emoção de vencer um desafio, ou para os outros, quando homenageiam pessoas queridas ou vão como representantes de uma causa – são várias, desde paz no mundo até atenção para o caso dos bombeiros. Corredores que estão ali mostrando que a doença que lhes acometeu só os fortaleceu e que eles também podem correr.

A cidade do Rio não se mobiliza para a corrida. Poucas pessoas do meu círculo de amizade sequer sabiam que a corrida aconteceria domingo passado. Mas os que sabiam foram às ruas saudar os atletas e amadores e essas pessoas que ficam ali, em volta do percurso, são sempre lembradas por quem está na prova como ponto de apoio em momentos tensos da corrida.

Eu sei que muitas pessoas repetem discursos que não são delas e que diversos dos meus entrevistados falam da corrida como a forma que parece ser a certa: ‘mudou minha vida’, ‘sou uma outra pessoa’, ‘nunca me senti tão bem’. Mas, no dia da Meia, isso pôde ser visto em prática, pelo menos naquelas duas horas e meia todas essas palavras foram vistas em ação e, não há como negar, é emocionante.

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