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Wimbledon: Onde estão os “gatos do dia”?

Por Prof. Dr. Hugo R. Lovisolo (UERJ) e Profa. Dra. Tânia Mara Tavares da Silva (UNIRIO)

Dentre os esportes, o tênis e seus torneios se caracterizam por uma tradição de charme e elegância que se reflete na assistência, nas roupas e em suas tradições. Roland Garros e Wimbledon ganharam um tremendo destaque  e são lugares sagrados. Os torneios abertos abrangem a participação masculina e feminina, além de duplas de homens e de mulheres e duplas mistas.

Podemos afirmar que são eventos “para ver e ser visto”. A transmissão foca as personalidades do tênis presentes entre os espectadores e também, artistas ou pessoas reconhecidas em diversos campos. Um lugar destacado de localização para ver o espetáculo, e também nas transmissões de TV, é dado a equipe técnica dos atletas e a parentes diretos, de modo dominante pais e irmãos. Equipe técnica e família do tenista estão presentes e no caso dos tops se tornam figuras conhecidas como os pais de Federer, os de Nadal e os de Nole (apelido de DjoKovic), só para ficar nos três atuais melhores do ranking da ATP.  O mesmo se repete com as famílias diretas das tenistas.

A família Willians é imagem habitual, como o era o pai da Sharapova ou a mãe da Jankovic. Aliás, assistir as transmissões, pelo menos no Brasil, resulta em saber tanto sobre o jogo quanto sobre os que assistem principalmente no chamado “momento Candinha” quando as histórias da vida privada dos tenistas emergem várias vezes, assim como a dos espectadores ilustres. Ao término do dia a página de esportes de um grande jornal elege a “gata” do dia que pode ser tanto uma tenista quanto a mulher, noiva ou namorada de um tenista.  E os gatos, onde ficam?

Ao lado dos pais aparece o parentesco de aliança (esposos e esposas), e o parentesco de futuro provável, isto é, namoradas e noivas. Um observador atento poderá constatar que a presença de esposas, noivas e namoradas de tenistas homens é de uma freqüência muito superior à presença de maridos, noivos ou namorados de tenistas mulheres.

A sociologia do gênero poderia usar a diferença entre a presença de esposas e namoradas dos tenistas homens com a presença das mesmas relações entre as tenistas mulheres. Qual a razão para que os homens tenistas levem suas esposas e namoradas, e elas sejam focadas inúmeras vezes, e que isto seja raro entre as tenistas mulheres? Onde estão os “gatos do dia”?

A diferença de freqüência não significa ausência total de esposos e namorados das tenistas. O marido de Kim Cljster, basquetebolista, aparece quase sempre com sua pequena filha. No último torneio de Roland Garros a italiana Schiavone, sagrada vice-campeã, estava com sua mulher ou namorada, que foi focada em diversos momentos do jogo final. Digamos, de passagem, que a tenista é muito querida e não parece sofrer de preconceitos “homofóbicos”.

Em Wimbledon, torneio atualmente em curso, foi focado um namorado da Sharapova, também dito esportista.  Contudo, podemos considerar estas presenças como excepcionais ou altamente reduzidas quando comparadas com o caso dos tenistas homens onde abundam esposas, namoradas e noivas, já conhecidas pelos apreciadores do tênis por serem focadas e classificadas.. As namoradas são candidatas firmes “a gata” do dia.

Quais seriam as razões da desproporcionalidade?

Não temos evidências nas quais nos apoiar e, portanto, qualquer explicação teria um caráter meramente hipotético ou orientador de pesquisas que permitissem construir evidências. Assim, o que será argumentado deve ser visto nesse sentido: apenas como hipóteses de trabalho.

No esforço de formular hipóteses, logo passamos a sentir que era muito difícil elaborar qualquer uma que fosse alternativa às que poderiam ser formuladas a partir de perspectivas de gênero. Vejamos exemplos.

1.- A vida das tenistas é muito mais difícil e exigente que a dos homens e, por isso, tem maiores dificuldades em casar ou em ter namorados ou noivos oficiais. Um exemplo seria a tenista Cljster que deixou de jogar por quase dois anos para ter sua filha. Matrimonio e crianças exigem muito mais das mulheres do que dos homens. O próprio namoro estaria dificultado pelo ritmo das atividades (treinos, viagens e competições) o que tornaria complicado manter a relação.

2.- Os homens teriam dificuldades em estabelecer uma relação permanente com mulheres autônomas e ativas que andam pelo mundo e convivem com variados círculos sociais. O tipo ou estilo de vida dificultaria até o namoro público.

3.- O fato de que os tenistas levem mulheres e namoradas aos torneios é visto com naturalidade. Ninguém se pergunta quem paga os gastos, da mesma forma que esta pergunta não é feita para os parentes diretos, pais e irmãos, especialmente. Será que se as tenistas levassem seus namorados para as competições, perguntas maliciosas sobre gastos, seguida de comentários irônicos não passariam a estar na pauta dos comentários sobre as imagens em foco?

Convidamos o leitor do blog a elaborar outras hipóteses. Ressaltamos, para concluir, que deveríamos repensar a perspectiva de gênero que parece tanto funcionar de modo positivo, sugerindo hipóteses, porém, também de modo negativo; inibindo a formulação de alternativas. Estaria a perspectiva de gênero se tornando um modo natural de pensar e, em algum sentido, um ramalhete de preconceitos?

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