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O trauma do vice

Domingo dia 1º de maio, os torcedores do Vasco e – provavelmente os jogadores também – entraram no Engenhão perseguidos por um fantasma. O fantasma do vice-campeonato. Os vices do Vasco não costumavam chamar tanta atenção dos rivais e nem mesmo da imprensa. O divisor de águas foi a primeira perda do Campeonato Mundial Interclubes em 1998. Naquele ano, o Vasco disputou com o Real Madri de Raul, um inédito título. E saiu da partida derrotado. E os adversários, sobretudo os torcedores do Flamengo – que chegaram a criar a FlaMadri – festejaram a derrocada do time da cruz de Malta. Em 2000 veio mais um vice-campeonato mundial, desta vez perdido frente ao Corinthians. Duas grandes quedas que passaram a anexar ao time da cruz de malta o estigma de vice-campeão.

Toda angústia sentida pelo torcedor vascaíno e toda pressão pela qual passa o jogador também se fundamenta em um momento histórico que teve certa influência no imaginário brasileiro futebolístico e transformou o vice-campeonato em uma conquista absolutamente desprezível. No Brasil, no que diz respeito ao futebol, às vezes é melhor ficar em último. Essa aversão ao vice-campeonato é herdeira direta daquela que é considerada a mãe de todas as derrotas: a perda da Copa de 1950 em pleno estádio do Maracanã.

Na verdade, o horror ao vice é fruto não somente do resultado concreto em campo, mas das leituras e releituras do dia 16 de julho de 1950 que inseriram aquela derrota em uma dimensão trágica, conferida, sobretudo a partir de algumas crônicas de Mário Filho publicadas na década de 1950, na Revista Manchete Esportiva. Dimensão conferida também por autores como Nélson Rodrigues que, por exemplo, afirmou que a perda da Copa em1950 teria representado para o brasileiro uma espécie de Hiroshima. O território do trágico é o território do irremediável, é aquele onde o ser humano se depara com o limite de sua atuação no mundo, mirando “a estrada para o que poderia ter sido e a estrada para o que será”, como propõe o crítico Nortoph Frye.

Sobre a derrota de 1950 recaíram culpabilizações e a sensação de desamparo trágico expressos, por exemplo, nas palavras desoladas do escritor José Lins do Rego: “E de repente, chegou-me a decepção maior, a idéia fixa que se grudou na minha cabeça, a idéia de que éramos mesmo um povo sem sorte, um povo sem grandes alegrias das vitórias, sempre perseguido pelo azar, pela mesquinharia do destino” (JS, 18/07/1950).

A derrota de 1950 representou uma espécie de morte social como propôs o Antropólogo Arno Vogel, pois que compreendida como um verdadeiro rebaixamento do prestígio da nação brasileira dentro do cenário mundial. Por isso, quando a seleção tornou-se campeã em 1958, foi publicada no jornal O Globo uma propaganda do Guaraná Antártica que mais parecia um desabafo: “Vice agora são os outros!” (17/06/1958). Nesse mesmo ano, a Folha da Tarde dizia: “Passados oito anos, explodiu a alegria contida desde 1950” (30/06/1958). Com essa glória presente e as futuras, o vice-campeonato se consolida no Brasil como uma morte social que gera vergonha. Foi o que vimos no vice-campeonato da seleção em 1998 que teve como manchete principal do jornal O Dia a frase “Saída pelos fundos”.

Esse horror ao vice-campeonato é fenômeno que precisa ser compreendido não como uma regra inerente à dinâmica dos esportes nem mesmo ao futebol. É necessário conferir certa dimensão histórica aos acontecimentos. Em 1938, por exemplo, o terceiro lugar obtido pela Seleção Brasileira na Copa da França fez com que os jogadores fossem recebidos por uma multidão que tomou as ruas do Rio de Janeiro. Uma multidão que exaltava o nome de Leônidas da Silva. Sim, é verdade que o terceiro lugar vem em decorrência de uma vitória. Porém, será que hoje em dia um terceiro lugar provocaria tanta empolgação no Brasil?

As constantes chacotas e o estigma de vice-campeão do Vasco da Gama se inserem na dinâmica histórica do futebol brasileiro e de um país que faz questão de lembrar o dia 16 de julho como uma lição traumática a ser aprendida. É claro que era possível que nos acostumássemos novamente com os fracassos caso eles continuassem. Entretanto, as conquistas dos campeonatos de 1958, 1962 e o de 1970 consolidaram um imaginário de vitórias em que o vice-campeonato não cabe.

Ao Vasco cabe arcar com o ônus da história que em parte ele mesmo contribuiu para manter. A maioria dos jogadores da seleção de 1950 vinha justamente do time da Cruz de Malta. Destino? Não. História. Por isso, sempre passível de mudança.

Leda Costa

Doutora em Literatura Comparada

Pesquisadora do NEPESS – Núcleo de Pesquisas e Estudos sobre Esporte e Sociadade.

E torcedora do Vasco.

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