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Clássicos e os conspiradores de plantão

Semana intensa. Os clássicos regionais e internacionais ocupam os noticiários esportivos, as mesas dos bares, os bancos das praças, os recreios escolares e até o comum bate-papo entre passageiros e taxistas.

Vasco x Flamengo, antigamente chamado o clássico dos milhões, decidindo a Taça Rio, semifinais em São Paulo, com o popular Palmeiras x Corínthians e o tradicional Sansão (Santos x São Paulo), Gre-Nal decidindo o segundo turno no Rio Grande do Sul, Bavi em terras soteropolitanas e o global Barça-Real na capital espanhola. Ao mesmo tempo que invadem o imaginário coletivo dos torcedores brasileiros, que aguardam os espetáculos esportivos ao longo da semana, esses clássicos estimulam os conspiradores de plantão a saírem de suas tocas e proferirem suas grandiosas verdades absolutas com um ar de sapiência politizada. Eles estão por toda parte e conhecem as “forças profundas” que controlam a “paixão nacional”.

Para essa seita de adoradores das “armações”, domingo, com certeza, dará Vasco. “Os times não vão perder a renda de mais dois jogos”. Não obstante o fato do dinheiro dos arquibaldos não representar mais muita coisa na receita do time, e no ano passado o Botafogo ter sido campeão dos dois turnos evitando os confrontos finais com o Flamengo, a incrível máxima da entrega para dar renda retorna fortemente em discursos até de rubro-negros.

Um grande amigo, que foi um dos fundadores da maior torcida do clube, me ligou após o Ronaldinho isolar um pênalti que, caso convertido, levaria o Flamengo a enfrentar o Olaria ao invés do tricolor. Disse-me que estava tudo armado para ter uma final, que craque não perde um pênalti assim. Apenas retruquei, e o Baggio e o Platini, para não falar do maior ídolo rubro-negro, também não perderam penalidades durante as Copas? O Thiago Neves também não decidiu a partida contra o Fluminense, pois participaria de um suposto conluio? Façam-me o favor.

No Campeonato Carioca, muito se fala nesses assuntos. Um conhecido humorista, pseudo-comentarista e, claramente, anti-flamenguista ao escrever em um jornal de grande circulação do estado já afirmou categoricamente mais de uma vez que “está tudo armado para o Flamengo ser campeão”. Será que o Vasco da Gama, equipe em clara ascensão, e que não conquista um título desde 2003 não quer sair da fila? Os jogadores do Fluminense correram os noventa minutos na semifinal e foram para os pênaltis esperando a derrota? O juiz confirmou um gol impedido do adversário para ajudar o Flamengo? E a tão decantada nos blogs da vida, FLAPRESS, a Polícia secreta varguista da imprensa esportiva, realmente existe e entra em campo para fazer gols?

Na Paulicéia, muitos afirmam que o torneio foi todo preparado para os quatro grandes chegarem nas semis. Mudaram o regulamento, e deu tudo certo. Combinaram com a Portuguesa, Mirassol, Oeste e todos os demais times que disputaram o Paulistão. As equipes não chegaram pelo seu mérito e por terem elencos melhores. Estava tudo armado desde o início.

E, no Gre-Nal, Renato Gaúcho vai pedir a seus jogadores que entreguem a final para o maior rival para, assim como no Rio de Janeiro, os times conseguirem mais renda? Foi tudo acertado entre ele e o Falcão num churrasco no restaurante Barranco na Avenida Protásio. Obviamente, é difícil acreditar nisso. Quem já pisou uma vez na antiga República do Pitratini sabe que, pior que a rivalidade chimango/maragato, é o Colorado x Azul.

O que falar do aclamado clássico espanhol que vai inclusive ser transmitido em televisão aberta? O terceiro a se realizar em menos de duas semanas. Foi uma mera coincidência ou os dirigentes da UEFA também arquitetaram a tabela para que os dois super-times se enfrentassem. Se tudo no futebol hoje é “business”, esses times não podiam ficar de fora para a felicidade dos patrocinadores da Champions League. Porém esqueceram de combinar com o surpreendente Schalke 04 e o imortal artilheiro Raúl. Com certeza a presença da atual campeã do Mundo, a Internazionale de Milão, seria bem mais lucrativa para os organizadores do evento.

Enfim, podem me considerar ingênuo, mas, sinceramente, não acredito nessas mega-conspirações que envolveriam os resultados e definiriam os caminhos dos torneios de futebol. Talvez por ter sido atleta de Pólo Aquático durante minha adolescência e por tentar até hoje jogar futebol no relvado sintético da Abaeté em Vila Isabel, acredito no “animus” da vitória e não me seduzo com as teorias dos conspiradores de plantão.

A maior de todas bobagens é o acordo Adidas e Nike para a França ser campeã em 1998. Poucos lembram que a equipe da casa era forte, o Brasil não vinha tão bem e ainda perdeu sua referência no ataque. Acreditar que um ou dois jogadores podem ser subornados, tudo bem, mas uma equipe inteira? Campeões mundiais que buscavam o bicampeonato?

Tudo isso me lembra um mitológico livro, ao qual fui apresentado durante minha graduação em História por um colega como se fosse a “verdade absoluta”, pois explicaria todas as relações de poder existentes no planeta na contemporaneidade. “Os protocolos dos sábios do Sião” mostrariam como os judeus se organizavam para dominar todo o mundo. Pura teoria da conspiração misturada com anti-semitismo racista. No caso dos plantonistas das armações no futebol, não se trata de racismo, mas de uma chatice paranóica doentia e masoquista. Pois se eles estão com a razão e tudo é controlado pelas “forças profundas” dos bastidores dos clubes e dos interesses econômicos dos patrocinadores, fatos que obviamente também existem, para que torcer ou sequer falar sobre futebol?

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2 comentários em “Clássicos e os conspiradores de plantão

  1. Se não existem armações no futebol, como explicaria os seguintes fatos:

    Argentina X Perú na copa de 1978 (lembra?)
    Escândalo de resultados armados na Itália em 2004/2005 (juventus rebaixado)
    Jogadores tentam agredir Tuta por fazer o gol da vitória no Venezia (1999)
    Jogos armados por apostadores no campeonato Alemão (2009)
    Jogos armados cancelam partidas do brasileirão (2005 – Corintians campeão armado)
    etc
    etc
    etc…

    Aguardo sua resposta.
    diez

  2. Caro Álvaro:

    Concordo com você. Apesar de sabermos da existência de resultados arranjados em vários momentos da história do esporte e especificamente do futebol, também não sou adepto da teoria da conspiração, que dita as regras do esporte de acordo com determinados interesses.

    Isto não quer dizer que em muitos casos, vários jogadores entram em campo sob a pressão da própria torcida e sob o desânimo de um jogo que só vale para o adversário. Como você deve estar pensando, me refiro ao Brasileirão dos últimos anos. Mas, como já estamos cansados de saber, e de estudar, quem disse que o esporte é o local da ética, da pureza e das regras estabelecidas?

    Um abraço,

    André Alexandre

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