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Futebol, Jornalismo e Ciências Sociais: breve história da consolidação do campo acadêmico – Parte 1

A literatura acadêmica sobre o futebol brasileiro começou a se constituir alguns anos após a publicação, em1982, do livro Universo do Futebol: esporte e sociedade brasileira, organizado por Roberto DaMatta. Até este momento, os estudos eram escassos e havia uma tendência a se utilizar de uma perspectiva “apocalíptica”, nos termos de Umberto Eco em Apocalípticos e Integrados, que considerava o futebol uma poderosa força de alienação dos dominados. O trabalho de Roberto Ramos Futebol: Ideologia do Poder seria o exemplo mais emblemático desta perspectiva.

Mais adiante, esta perspectiva deu lugar a outra que pretendeu entender o fenômeno esportivo sob a perspectiva dos que sentem paixão pelo esporte, conforme colocou Hugo Lovisolo em “Sociologia do Esporte: viradas argumentativas” nos Anais do XXVI Encontro Anual da Anpocs. Caxambu, 2002. E, nesta virada, o livro organizado por DaMatta foi preponderante. Hoje, podemos dizer que o descaso inexiste e que proliferam estudos e grupos de trabalhos em congressos científicos que tratam do tema.

Quando o campo já se reconhecia e era reconhecido por outras áreas como “campo” surge um debate crítico sobre a validade de testemunho histórico do livro do jornalista Mário Filho, O Negro no Futebol Brasileiro. Debate este que está estreitamente relacionado à questão futebol e identidade nacional. O ponto de partida para a discussão foi o fato de que os pesquisadores da década de 1980 até meados da década de 1990 sempre que tratavam de estudar o futebol brasileiro sob o ponto de vista histórico iam buscar no livro de Mario Filho, as fontes para suas análises.

Esta perspectiva sofreu críticas de Antonio Jorge Soares em Futebol, raça e nacionalidade no Brasil: releitura da história oficial, sua tese de doutorado defendia no Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Universidade Gama Filho em 1998 e em seu artigo “História e a invenção de tradições no campo de futebol”. Soares, em uma análise sobre os trabalhos acadêmicos que se nutriam de forma acrítica do livro de Mario Filho, iniciou uma polêmica que fez o campo avançar nas formas de se estudar os processos de construção do “nacional” por meio do futebol.

Para Soares, o livro de Mario Filho não deveria ser considerado uma fonte fidedigna da história, mas um romance jornalístico. Tendo como referência teórica o trabalho de Wladimir Propp em Morfologia do Conto Maravilhoso , Soares demonstra que na obra de Mario Filho, “constrói-se” uma narrativa mítica em torno do “herói negro” que, com seu estilo, teria marcado nosso futebol. Soares observa ainda que Mario Filho introduziria modificações na segunda edição de 1964, apesar de escrever no prefácio que teria mantido o texto na íntegra, apenas incluindo dois novos capítulos, atualizando a narrativa. Soares mostra que trechos sobre o “poder democrático do futebol e o fim do racismo foram suprimidos na segunda edição (…)” e que “as supressões dos textos, que indicam a realização da democracia racial na primeira edição (de 1947), poderiam ser interpretadas como uma releitura de Mario Filho sobre o racismo brasileiro”. A partir de uma análise de O Negro no Futebol Brasileiro, nas suas duas edições, Soares conclui que o mesmo deve ser apreendido pelas ciências sociais como um “romance de tipo realista que pode fornecer o clima ou certa visão da sociedade traduzida em termos de arte”, insistindo na necessidade de os pesquisadores acadêmicos buscarem outros documentos e fontes primárias, para se evitar a promoção de um “discurso romântico de construção de nação”.

Ronaldo Helal e Cesar Gordon em “Sociologia, História e Romance na Construção da Identidade Nacional Através do Futebol” questionam a “dureza” no tratamento dado por Soares ao valor de “testemunho histórico” da obra. Além disso, Helal e Gordon partem do princípio de que as dramatizações de um fato são, do ponto de vista sociológico ou da teoria da comunicação, frequentemente mais relevantes do que o “fato em si”, na compreensão da produção de sentidos oriundos das narrativas jornalísticas.

O debate foi publicado originalmente na revista Estudos Históricos, número 23, da Fundação Getúlio Vargas, em 1999 e, mais adiante, no livro A Invenção do País do Futebol: mídia raça e idolatria, organizado justamente por Helal, Soares e Lovisolo, pela Editora Mauad em 2001, com segunda reimpressão em 2007. A discussão repercutiu nos estudos acadêmicos que lidavam com a historiografia do futebol brasileiro. Inclusive, na quarta edição do livro de Mário Filho, editada pela Mauad em 2003, o cientista político Luis Fernandes, quem assina o prefácio, faz uma menção à uma das criticas de Soares publicada no livro A Invenção do País do Futebol.

Resumidamente, o debate tratava, em última instância, das formas de se entender os mecanismos utilizados por agentes sociais (da imprensa, do meio acadêmico, da política) para integrar o país utilizando-se da força aglutinadora do futebol, principalmente da seleção brasileira em períodos de Copas do Mundo.

Post-Scriptum

Este artigo será complementado com a publicação de sua segunda e última parte.

Caso você queira comprar algum dos livros citados no post, acesse os links abaixo:

  1. Universo do Futebol: esporte e sociedade brasileira (Roberto DaMatta)
  2. Apocalípticos e Integrados (Umberto Eco)
  3. Futebol: ideologia do poder (Roberto Ramos)
  4. O Negro no Futebol Brasileiro (Mário Filho)
  5. Morfologia do Conto Maravilhoso (Wladimir Propp)
  6. A Invenção do País do Futebol: mídia raça e idolatria (Ronaldo Helal, Antônio Jorge Soares e Hugo Lovisolo)
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3 comentários em “Futebol, Jornalismo e Ciências Sociais: breve história da consolidação do campo acadêmico – Parte 1

    1. O espaço não é comercial. Apenas tentamos ser gentis com os leitores que podem ter interesse em adquirir algum livro das referências bibliográficas. Mas agradecemos sua observação e esperamos ter dirimido sua dúvida quanto as verdadeiras intenções desse importante espaço informativo.
      Muito obrigado,
      Ronaldo

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