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Brasil x França: o pesadelo que não acaba

Periodicamente, o confronto futebolístico entre brasileiros e franceses recebe as atenções da mídia mundial e, em especial, dos jornais (online e impressos) dos dois países envolvidos. Do lado  brasileiro, há o receio de que soframos mais uma derrota para nossa “carrasca”, rememorando antigos episódios, que dificilmente trazem alguma boa recordação. Os franceses, por outro lado, provavelmente já sabem que as partidas contra o Brasil são uma chance de dar moral a equipe. Por mais que a maioria dos jogadores franceses sejam reconhecidamente inferiores aos brasileiros, algo acontece quando as duas equipes se enfrentam.

Em 2011, após quase 5 anos sem se enfrentarem, Brasil e França disputaram um amistoso no Stade de France (mesmo palco da fatídica final de 98). Mesmo na casa do adversário e o jogo não valendo nada, a seleção canarinho sempre desperta a atenção dos brasileiros e é o assunto do dia de quase todos os periódicos. Sob o comando de Mano Menezes e com uma seleção renovada, cheia de grandes promessas e de jogadores ídolos em seus respectivos clubes, era dado certo favoritismo ao Brasil, mesmo com a derrota no amistoso anterior contra a Argentina.

Há tempos os brasileiros desejam superar a alcunha de “fregueses dos franceses”, que a cada nova derrota é ainda mais reforçada no imaginário dos torcedores. Logo, esse jogo “sem sal” poderia ser uma redenção das derrotas anteriores e um alento para os brasileiros. Infelizmente, não foi isso que aconteceu e novamente perdemos para os franceses. Inevitável comentar que o extraordinário mais uma vez se fez presente nesse clássico internacional. Hernanes, até então um dos jogadores mais disciplinados da seleção, foi expulso por uma falta grosseira e desnecessária. E, a partir daí, só nos restava torcer pelo empate ou por uma derrota não vergonhosa. Resultado Final: França 1×0 Brasil.

Os supersticiosos de plantão poderão dizer que essas desventuras em série começaram, ou tiveram seu ápice, com o conturbado episódio envolvendo Ronaldo Fenômeno na final de  1998 da Copa do Mundo da França. Mesmo admitindo que esse tenha sido um fato um tanto quanto estranho, a história, no entanto, nos traz outros dados. A série angustiante de derrotas do Brasil começou bem antes.

No total de confrontos em Copas do Mundo, foram três vitórias francesas (em 1986, 1998 e, recentemente, em 2006). Todas em partidas decisivas em fases finais da competição. A seleção brasileira só triunfou em um confronto, no longínquo ano de 1958 (ano, aliás, em que seria pela primeira vez campeã do mundo).

Em 21 de junho de 1986, na Copa do Mundo do México, o Brasil enfrentou a França pelas quartas de final do torneio. Antes dessa partida, as duas seleções já tinham se enfrentado outras 7 vezes. O retrospecto era positivo para os brasileiros: 4 vitórias, 2 derrotas e 1 empate. Sessenta e cinco mil espectadores assistiam ao jogo no estádio Jalisco em Guadalajara. Todos acompanharam o Brasil empatar com os franceses no tempo normal e ser sobrepujado nos pênaltis por 4×3. Nesse jogo, dois lances chamam particular atenção: o pênalti perdido pelo ídolo brasileiro Zico e o pênalti convertido pelos franceses (já na disputa de pênaltis), em que a bola bateu na trave, voltou nas costas do goleiro brasileiro Carlos e entrou no gol. Mais uma vez o extraordinário se faz presente em uma partida entre essas duas seleções. E mais uma vez o pêndulo pende contra o Brasil.

Até em Olímpiadas os franceses parecem nos perseguir. Em 1984, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles/EUA, o Brasil chegava pela primeira vez a uma final de futebol em Olimpíadas. Tudo ia bem com a nossa seleção, invicta na competição, até nos depararmos com os nossos algozes. Resultado: derrota na final por 2×0 e adeus ao sonho do título inédito. Interessante notar que o site da CBF negligencia essa derrota ao elencar o histórico dos confrontos entre Brasil e França.

Como podemos ver acima, apesar do retrospecto igual no total dos confrontos, os franceses são superiores a nós em quase todas as partidas decisivas disputadas. Após nossa vitória na semifinal da Copa de 1958, já mencionada acima, perdemos em 1986, 1998 e 2006.

Seguindo essa não linearidade narrativa, falarei rapidamente de 1998 e 2006. No primeiro, perdemos para a França na final, por esmagadores 3×0. O placar, a meu ver, poderia ter sido até mais elástico. Zidane desfilou toda a sua habilidade, enquanto os brasileiros se contentaram em olhar e aplaudir. Nossos craques não conseguiram brilhar nesse jogo e proporcionaram um dia de festa em Paris. Em 2006, a seleção francesa não era nem uma sombra da grande seleção de 1998, mas mesmo assim caímos diante deles nas quartas-de-final. Assistimos a um dos últimos lampejos da genialidade de Zidane, que deu até “chapéu” em Ronaldo Fenômeno. Azar o nosso que essa inspiração divina foi aparecer logo contra o Brasil. Na final contra a Itália, Zidane mostrou outro tipo de habilidade: sua cabeçada em Materazzi foi nada menos que certeira. Se a cabeçada de Zidane visasse a bola e o gol adversário, o resultado da partida poderia ter sido outro. Para reforçar meu argumento, terei de me repetir: nessas duas vez o extraordinário também jogou contra os brasileiros.

Apesar das tristezas, nem tudo está perdido. Mesmo que percamos a próxima partida para França e que essa partida seja uma final de torneio, ainda podemos nos vangloriar de algo essencial. A comemoração dos franceses após as vitórias futebolísticas nem de longe supera  às nossas. Afinal, como bem disse Luís Fernando Veríssimo em artigo no jornal Globo (13/02/2011):

[após a vitória em 1986] Os franceses faziam carnaval na rua. Só tínhamos um consolo: carnaval a gente faz melhor que eles.

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