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Ronaldo e o fardo da idolatria

Ao anunciar sua despedida do futebol, Ronaldo tentou mostrar que por detrás do “Fenômeno” existe um homem comum, com dores, que tem dificuldades de subir escadas e que sofre de um distúrbio de saúde. Uma das marcas da sociedade contemporânea é justamente a tensão entre seres ordinários – a massa – e singulares – os ídolos. Ronaldo parecia querer mostrar que fazia parte dos primeiros. Não faz. Sua entrevista e seu choro foi capa nos principais jornais do mundo. Inclusive no Olé, da Argentina, que se utilizou de uma frase significativa no país: “un viejo adversario despide a un amigo”. Frase dita por um político no funeral de Perón – um mito na Argentina – em 1974. O choro de Ronaldo é humano, mas sua carreira é excepcional, assim como foi a vida política de Perón no país vizinho.

A trajetória de Ronaldo rumo ao posto de herói começa, para os brasileiros, paradoxalmente, na França, em 1998, quando o atleta teria sucumbido na final às pressões nele depositadas. Na queda do ídolo, presenciamos sua humanização. Ao invés do Ronaldo, o fenômeno, descobrimos Ronaldo, o homem. Nesta inversão, abriu-se o caminho para a trajetória heróica de Ronaldo no país. O super-homem das histórias em quadrinhos, por exemplo, nos fascinou justamente por viver entre nós sob as falsas vestes do jornalista Clark Kent. Conforme análise de Umberto Eco em Apocalípticos e Integrados, Clark Kent é um tipo “aparentemente medroso, tímido, de medíocre inteligência, um pouco embaraçado e míope” e, por isso mesmo, através de um processo de identificação, qualquer um pode “nutrir secretamente a esperança de que um dia, das vestes da sua personalidade, possa florir um super-homem capaz de resgatar anos de mediocridade”. Paralelamente, é como se o problema sofrido por Ronaldo aproximasse o ídolo dos fãs, iniciando uma nova trajetória do candidato a herói da seleção.

A narrativa clássica do herói fala de superação de obstáculos, redenção e glória. Até a Copa de 1998, a trajetória do atleta tinha sido iniciada como mito. Ronaldo era jovem, rico, eleito por duas vezes consecutivas o melhor do planeta, o atleta mais festejado pela mídia internacional. Até então não tínhamos presenciado fenômeno semelhante de narrativa mítica, iniciada de forma tão meteórica e espetacular, sem que o ídolo esportivo tivesse superado obstáculos e provações no caminho e nem ao menos tivesse conquistado um triunfo para dividir com a comunidade – no caso específico, com os brasileiros.

Desta forma, o fracasso na final da Copa de 1998, lançou as bases para uma nova narrativa. A trajetória iniciada como mito, ganhou um contorno mais humano. O “fenômeno” saiu de cena e deu lugar a um atleta com problemas físicos e uma “dívida” a pagar. A derrota denunciava o conteúdo humano que se encontrava embutido na figura do ídolo e destacava o duelo entre a fragilidade do homem e o peso da capa de herói.

Da final contra a França até a Copa de 2002, o atleta passou por inúmeras provações. Primeiro as contusões, depois os questionamentos de que “não era tudo aquilo que a mídia dizia ser”. Logo após a classificação para a Copa do Mundo de 2002, o anúncio de que o técnico Luís Felipe Scolari iria convocá-lo gerou questionamentos. Será que valeria a pena escalar um jogador que estava recuperando-se de séria lesão no joelho e ao mesmo tempo deixar de fora Romário, o “herói do tetra”, e que, apesar da idade avançada para a prática do futebol, vinha marcando gols nas partidas que disputava?

Após ter marcado os dois gols da vitória por 2 a 0 contra a Alemanha, Ronaldo tomou conta do noticiário e confirmou a hipótese de que sua saga seria contada tendo sempre como início a final contra a França, já que foi ali que ocorreu o processo de humanização do mito, fundamental para estreitar a identificação com os fãs. A conquista da Copa de 2002 foi narrada de forma mítica, como um emblema de provações superadas “espetacularmente” pelo atleta. Dotado de um talento excepcional que o torna singular, Ronaldo pautou a mídia durante este Mundial e “escreveu” sua história como herói da seleção.

De 2002 em diante, Ronaldo passou por várias lesões, caiu e se levantou, até que em 2009 foi parar no Corinthians e passou a ter sua história narrada também como jogador de um clube no seu país. Foi campeão paulista e da Copa do Brasil no mesmo ano, fez atuações dignas de um fora de série, marcou gols excepcionais, mas depois vieram as lesões. A eliminação precoce do Corinthians da Libertadores precipitou sua despedida do futebol. O anúncio da despedida, em tom emocionado, encerra um capítulo em sua vida de ídolo futebolístico. Mas a tentativa de fazer parte do rol dos “ordinários” dificilmente será bem-sucedida. Ronaldo tem algo que não se explica e o diferencia e o singulariza dos mortais, incluindo aí seus colegas de profissão: um talento excepcional para a prática do futebol. Assim como Perón, humanizado por meio da morte – Deuses não morrem – Ronaldo terá que viver para sempre com o drama de ser dois: o homem e o mito.

 

Artigo originalmente publicado (em versão reduzida) no Globo Online.

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