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Sobre o futebol brasileiro e a volta de seus ídolos

Nas tradicionais especulações de final de ano, o nome de Ronaldinho Gaúcho foi o mais “ventilado” na imprensa esportiva nacional (para mais informações ver o post do Álvaro). Em um verdadeiro leilão, ele chegou a ser cogitado no Corinthians, no Palmeiras, no Grêmio, no Flamengo e no América de Teófilo Otoni (MG). Até nas redes sociais o assunto virou notícia. Ao final, ele acabou acertando com o rubro-negro carioca.

Mas, afinal, qual seria a importância desse fato para nós, pesquisadores e amantes do futebol?

O futebol é hoje um negócio que movimenta bilhões de dólares em todo o mundo e é movido majoritariamente pela paixão dos torcedores por seus respectivos clubes. São eles o público consumidor das ações de marketing, das camisas do clube e dos jogos. Segundo um estudo do ano de 2002 da Fundação Getúlio Vargas (FGV), do Rio de Janeiro, a indústria esportiva é a que mais cresce no mundo. A indústria brasileira desse setor é a quarta do País, movimentando cerca de $ 31 bilhões por ano, estando à frente, inclusive, do setor publicitário. Ainda de acordo com estudo da FGV, o futebol mundial movimenta cerca de 250 bilhões de dólares por ano. Parte disso diz respeito aos salários dos jogadores, venda de camisas e produtos dos clubes e ingressos. Estima-se que um torcedor europeu gaste, em média, 20 dólares por ano com seu time do coração.

Também é importante pontuar que, no futebol contemporâneo, as partidas são verdadeiros espetáculos e os atletas, produtos em exibição. Assim como na TV e no cinema, onde os grandes atores atraem o público, no futebol, esse papel é preenchido pelos jogadores “fora-de-série”. É óbvio que, mesmo que seu clube do coração não conte com nenhum grande craque, você continuará indo aos seus jogos e dando seu apoio. No entanto, o ídolo atrai os torcedores por si só. Por exemplo, na simples apresentação de Ronaldinho Gaúcho ao Flamengo, mais de 20 mil rubro negros estavam presentes. Se pegarmos exemplos europeus, os números se multiplicam. Nos eventos de apresentação de Kaká e Cristiano Ronaldo ao Real Madrid, mais de 150 mil torcedores ao Santiago Bernabéu.

Isso nos leva a parte da resposta à pergunta feita inicialmente. Complementando a explicação, lembramos que a condição do futebol como um esporte de massa pressupõe a necessidade de ídolos. São os ídolos que atraem os torcedores ao estádio, mantendo viva a tão falada “magia” do esporte bretão. Torcedores, ídolos e clubes formam uma união simbiótica, em que um depende do outro para existir. Ronaldo Helal, em seu livro Passes e Impasses, já constatava que uma das possíveis causas da crise do futebol brasileiro na década de 1980 era o êxodo de jogadores para o exterior.  Associar o nome do clube ao de grandes atletas traz também retornos mercadológicos. Por meio da construção de uma marca forte e valiosa no mercado, o clube garante suas  mais importantes fontes de receita: contratos de publicidade; concessões e merchandising; patrocínios; direito de imagem; faturamento com venda de ingressos; e direitos de transmissão pela TV. Essa relação, aliás, não é exclusiva do futebol, mas comum a maioria dos esportes coletivos.

Nas Superligas masculina e feminina de vôlei, muitos dos atletas da seleção brasileira atuam por equipes nacionais. Essa estratégia gera retorno para o esporte em si, na medida em que atrai novos praticantes, para o atleta, que pode ficar mais perto de sua família e amigos, e para os clubes, que obtém maiores retornos com patrocínio e publicidade. Esse é um modelo que já começa a ser seguido pelos clubes de futebol brasileiro.

Um exemplo emblemático e bem sucedido dessa tendência de repatriamento é Ronaldo Fenômeno. A diretoria corintiana trouxe para o clube um fenômeno também de marketing. Quando de sua contratação, a notícia foi manchete em todos os meios de comunicação do Brasil e do exterior. Num mês em que o futebol está em recesso (dezembro/2008), o Corinthians obteve mídia espontânea somente por causa da vinda de Ronaldo Fenômeno.  A camisa com seu nome e número foi sucesso de vendas na loja oficial do clube. Só nas primeiras seis horas após o clube contratá-lo, a loja licenciada do Parque São Jorge vendeu 80 camisas do Fenômeno.

Em grande parte graças a contratação de Ronaldo Fenômeno, o Corinthians poderá ter o segundo maior patrocínio de camisa do mundo em 2011. Com R$ 62 milhões, o clube paulista perde apenas para o Barcelona, que estampa o Qatar Foundation em sua camisa pela bagatela de aproximadamente R$ 69 milhões (em 2008, o valor do patrocínio da camisa corintiana era de “apenas” R$ 18 milhões).

Na esteira de Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Deco, Rafael Sóbis, Fred, Roberto Carlos são alguns dos outros craques em ação no futebol nacional. Se incluíssemos os jogadores latino-americanos, a lista se estenderia ainda mais. Há algum tempo que não temos campeonatos estaduais tão “estrelados”. Os clubes brasileiros abriram os cofres nesse início de temporada e contrataram. O real valorizado ajudou e as empresas de investimento esportivo, que cada vez mais se apropriam do futebol brasileiro, também. Segundo estudo da Crowe Horwath RCS, a receita dos principais clubes brasileiros aumentou 140% em menos de uma década.

Assim, percebemos como a volta de Ronaldinho Gaúcho (e também de outros ídolos) ao Brasil, mencionada no início do post, será importante para o futebol nacional. Ronaldinho ganhará cerca de R$ 1,8 milhão no Flamengo, entre salários e porcentagens em ações de marketing. Cabe agora ao Flamengo saber tirar proveito desta contratação dentro e fora de campo.

Finalizando esse já extenso post, reitero a importância tanto simbólica quanto financeira do retorno de nossos ídolos ao futebol brasileiro. Com eles, com certeza, o Campeonato Brasileiro ganhará ainda mais destaque no futebol mundial.

Post-Scriptum

Para entender melhor essa temática de idolatria no futebol brasileiro, são bastante interessantes os artigos selecionados abaixo:

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3 comentários em “Sobre o futebol brasileiro e a volta de seus ídolos

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