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O futebol na era do politicamente correto. Um mal que se alastra dentro e fora das quatro linhas

Por Rafael Casé Editor-chefe do Observatório da Imprensa e professor da Faculdade de Comunicação Social da Uerj


Há muito tempo atrás, reza a lenda que em 1958, surgiu o grito de “Olé” nos estádios. O primeiro registro oficial, pelo menos para nós brasileiros, se deu em uma partida amistosa entre Botafogo e River Plate, da Argentina, em um torneio no México. Acostumados com as touradas, herdadas da colonização espanhola, os mexicanos presentes àquela partida se encantaram a tal ponto com a atuação de Garrincha, que a cada novo drible qua aplicava sobre os seus marcadores, passaram a gritar o bordão apregoado nas arenas de touradas.

O grito pegou por aqui. Só que, de uns tempos para cá, o “Olé” passou a ser visto como uma ofensa; um desrespeito ao colega de profissão. Não raro se vê a reação raivosa do adversário que decide revidar , não na bola, mas na sola. E o pior é que logo surge uma voz em sua defesa, com argumentos do tipo: “O jogador perdeu a cabeça, porque se sentiu provocado”.

Não que não existam provocações, muitas delas ficaram famosas. Em 99, embaixadinhas feitas pelo atacante Edilson, em jogo entre Corínthians e Palmeiras gerou uma pancadaria generalizada e resultou no corte do jogador, que disputaria a Copa América com a Seleção.

Mas os casos não são tão claros assim. Por exemplo, poderíamos considerar provocação o gol marcado por Túlio contra o Universidad Católica do Chile, em 1996, no Maracanã? Nesse jogo o Botafogo vencia por 3×1 quando, no último minuto a bola sobrou para o artilheiro, quase em cima da linha, com o goleiro já batido.  Ele virou-se de costas para o gol, levantou a bola e a tocou de calcanhar para as redes, o que deixou os jogadores chilenos revoltados. O goleador fez pouco caso da repercussão e respondeu: “Na hora só pensei no espetáculo, no show. Não foi provocação. Foi irreverência”.

 

O drible, entre a cruz e a espada.

Se o futebol é um jogo onde o objetivo é você levar a bola até dentro da meta do adversário, sem permitir que este a retome, o drible é uma ferramenta fundamental para qualquer jogador que pretenda vencer uma partida. Mas o drible, coitado, nem sempre é bem aceito; principalmente quando aplicado com um quê de criatividade e uma boa dose de habilidade. Os zagueiros botinudos que o digam.

Quase todos gostam de ver um belo drible. Estão aí craques que comprovam esta teoria, como Ronaldinho Gaúcho ou Robinho, só para citar dois exemplos brasileiros mais atuais. Os “malabarismos” logo ganham destaque na internet e nas redes de TV, como exemplos de genialidade, como prova inequívoca de que o chamado “futebol-arte” ainda respira. Mas, mesmo assim, a imprensa esportiva, afetada pelos sintomas do vírus da postura politicamente correta, não deixa de questionar, sistematicamente, alguns tipos de lance. É como se ficasse divida entre o belo e o eficaz, entre o atrevimento e a seriedade, entre o talento e o profissionalismo.

Uma clara demonstração sobre o que fato acima se deu quando um jovem jogador do Cruzeiro, de Belo Horizonte, chamado Kerlon, começou a aplicar um tipo de finta que a mídia passou a denominar de “drible da foca”. O jogador chegou à conclusão de que de passasse por seu marcador equilibrando a bola com toques de cabeça, este dificilmente conseguiria tirá-la de seu domínio sem fazer falta. A jogada, inusitada, logo recebeu a desaprovação de jogadores. Uma desaprovação, aliás, que foi bem além da teoria. Em uma partida entre Atlético e Cruzeiro, no Mineirão, Kerlon tentou o lance e foi agredido acintosamente pelo lateral-direito Coelho. A punição do jogador não passou de cinco partidas. Entrevistado após a sentença, o lateral disse que o meia cruzeirense acabou privilegiado pelo incidente, já que virou notícia e tornou a sua jogada ainda mais famosa: “O Kerlon virou estrela depois disso. Além disso, não dá para comparar a jogada dele com a de outros craques. Ele está longe de ser um Garrincha” – criticou.

 

O que seria de Garrincha nos nossos dias?

Todo mundo já viu, pelo menos uma vez, as poucas imagens de Mané Garrincha que estão disponíveis nas emissoras de TV do país. São fintas e mais fintas que rebaixam o “drible da foca” de Kerlon a mera estripulia. O camisa 7 do Botafogo construiu sua fama e sua horda de admiradores  justamente por causa de seus dribles mirabolantes. Ao deixar um, dois, três marcadores no chão, Mané arrancava um sorriso até mesmo do torcedor adversário que só não aplaudia por que corria o risco de tomar uns safanões de algum companheiro mais esquentado.

Mas como é que os marcadores de Garrincha reagiam às diabruras do ponta? Será que levavam as investidas e os rodopios de Mané como uma ofensa pessoal?

De acordo com o documentário que está sendo produzido pelo jornalista e cineasta André Felipe de Lima, a relação entre o atacante e os principais defensores daquela época era outro. No filme “Simplesmente passarinho”, André apresenta os depoimentos dos ex-laterais-esquerdos Jordan (Flamengo), Coronel (Vasco) e Altair (Fluminense). Em todos eles, um misto de admiração e de respeito pelo colega.

“Se você desse um pontapé nele, estava ferrado. Ele driblava e, ao invés de ir para o gol, esperava você voltar para driblar novamente”, recorda Altair.

O que mudou no futebol atual? De acordo com o sociólogo e antropólogo Hugo Lovisolo, “Parece que hoje existe uma pressão igualitarista. No tempo de Pelé, Garrincha ou Maradona, havia um consenso de que eles eram superiores. É como se fizéssemos uma associação com o artista e o artesão. O artesão não tem o talento do artista. Mas agora existe essa pressão igualitarista. Como o artista vai provar que é mais talentoso que o artesão, se ao tentar fazer isso o acusam de querer impor sua superioridade? Acho que antigamente isso era aceito com naturalidade. As pessoas não se sentiam inferiores por isso, porque eram poucos os que eram realmente superiores. E o que parece é que agora as pessoas não querem mais aceitar isso”.


Nem o gol é mais o mesmo

Já dizia o título de um velho programa da TV Bandeirantes que o gol se trata do grande momento do futebol, mas até essa máxima parece ser incapaz de suplantar a praga do politicamente correto no futebol atual.

Não sei ao certo quem foi o primeiro jogador a não comemorar um gol por ter algum tipo de vínculo afetivo com o clube adversário, mas o fato é que a atitude sempre tão louvada pela mídia esportiva não para de ganhar adeptos.

Será que há este verdadeiro sentimento ou alguns jogadores descobriram que isso faz bem à imagem deles, que uma atitude como aquela o coloca em um patamar diferenciado dos demais e que, ao menos lhe garante uma porta aberta caso queira voltar um dia ao clube que o dispensou?

Na vitória de 4×1 sobre o Flamengo, no segundo turno do campeonato brasileiro de 2010, o atacante Obina, apesar de marcar seu gol pelo Atlético Mineiro, preferiu não comemorar. O discurso para os microfones, ao final da partida já estava na ponta da língua: “Foi em respeito à torcida e ao clube que me deu uma projeção muito grande”.

Ou seja, comemorar um gol contra um time pelo qual o jogador já atuou passou a ser desrespeito. Haja melindres.

A falta de comemoração até pode ser notícia, mas quando surge algum tipo de provocação após um gol, a mídia esportiva se vê diante de um prato cheio.

Um dos nomes que usou e abusou deste tipo de comemorações foi o centro-avante Viola. Estava sempre pronto a inventar uma nova coreografia, sendo que algumas delas tinham a ver com seus adversários. A mais marcante foi durante as finais do campeonato paulista de 1993. Ao marcar contra o Palmeiras, o atacante corinthiano ficou de quatro e chafurdou no gramado imitando um porco, símbolo do time rival. A repercussão foi enorme, mas isso não impediu que Viola, três anos depois, vestisse a camisa do Palmeiras e nem que fosse campeão mundial pela Seleção em 94.

 

Nada de novo no front

Talvez por conta desta sede de notícias, por conta desta exposição exacerbada dos profissionais da bola, eles estejam cada vez mais entregues à “mesmice” em suas entrevistas. As declarações de técnicos e jogadores à imprensa parecem seguir algum tipo de manual. Um guia de respostas padronizadas. Uma apologia à falta de conteúdo. E o que é pior, nossa mídia esportiva não está nem aí e aceita qualquer resposta, qualquer palavreado, por mais disparatado que possa perceber.

Chega a ser curioso, mas o único tipo de reação que a mídia esportiva apresenta é quando se depara com alguém que resolva falar. O técnico Muricy Ramalho foi diversas vezes de “marrento” por fugir deste padrão. Com seu jeito mal humorado, o treinador diverge de jornalistas, questiona a razão de algumas perguntas e não poupa críticas à postura de alguns profissionais. Nessa hora surge um corporativismo midiático que beira o non sense. A “ovelha negra” é levada ao pelourinho midiático e açoitado com ironias e palavras duras.

Acabaram-se as declarações polêmicas. As provocações sadias, como a que o goleiro Manga fazia com os jogadores do Flamengo na década de 60. O arqueiro botafoguense sempre dizia, na semana antes dos jogos contra o rubro-negro, que a mulher dele podia fazer as compras pedindo fiado, pois o “bicho” de domingo já estava garantido.

 

Uma praga globalizada

Mas, não pensem vocês que esta onda do politicamente correto é um privilégio do futebol brasileiro. Em outras partes do planeta também é assim.

Recentemente estive na Espanha e acompanhei uma entrevista coletiva do badalado treinador José Mourinho, do Real Madrid e o que se viu foi algo bem semelhante ao que acontece aqui. Fora a bela estrutura para os jornalistas oferecida pelo centro de treinamento do clube madrilenho, tudo mais era igual: repórteres com perguntas burocráticas e um treinador, de cima de seu pedestal, falando o óbvio.

Porém, o que mais me chamou a atenção neste meu périplo futebolístico espanhol foi uma jogada que ocorreu na partida entre Real Madrid e Atlético de Madri , no estádio Santiago Bernabeu. No final do segundo tempo, com a partida já decidida para o time da casa, uma bola alta veio em direção a Cristiano Ronaldo. Ao ver que estava adiantado, ao invés de recuar, deixou que ela batesse em suas costas e deu um passe inusitado para o companheiro. Para mim e para as pessoas que estavam no estádio, aquilo não passou de uma jogada curiosa do português. Mas, para seus adversários, não.

Me espantei ao ver, no noticiário do dia seguinte, que aquele lance bobo havia gerado uma grande celeuma. Um canal de TV flagrara jogadores do Atlético ofendendo Cristiano por ter feito a jogada. Nas primeiras páginas dos jornais Ás e Marca, os dois principais diários esportivos da Espanha, mais lenha na fogueira. A jogada ganhou até um nome: “espaldinha”.

Os argumentos dos jogadores do Atlético eram os mesmos que os que são apresentados aqui, ou seja, de que Cristiano Ronaldo não faria um a jogada daquelas se o jogo estivesse 0x0.

O jornalista do Diário Marca, David Padilla saiu em defesa do portugês e em seu artigo perguntou: se o passe tivesse sido de peito, haveria tanta polêmica? Para o jornalista, Cristiano é um jogador especial que faz, sim este tipo de jogadas inusitadas seja qual for o adversário, seja qual for o resultado da partida. Para David, isso é bem melhor do que o craque se preocupar em revidar as botinadas que recebe de seus marcadores.

Em defesa de Cristiano Ronaldo também saiu o técnico José Mourinho: “Outros fizeram algo parecido antes e era fantástico, era magia espetacular. O que o Campeonato Espanhol precisa, o que o mundo do futebol gosta e o que as crianças sonham em fazer é esse tipo de coisa. Mas para alguns é fantástico e para outros, não.”

Mas será que se o lance fosse contra seu time, a postura seria a mesma? Ou ele tiraria o politicamente correto do banco e o mandaria para campo?

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