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O Justo, o Ético e o possível nos Campeonatos Brasileiros

O primeiro monumento a  Justiça da História da Humanidade é o famoso Código de Hamurábi, inscrição em grandes pedras  utilizada por um governante na antiga e revolucionária civilização Mesopotâmica, localizada entre os rios Tigre e Eufrates, e que tinha como norma básica o Princípio de Talião, conhecido coloquialmente como “dente por dente, olho por olho”.

Qual a relação deste princípio com o atual Campeonato Brasileiro de pontos corridos, tão aclamado durante muitos anos pela maior parte dos cronistas e “especialistas do futebol”,  porém colocado em cheque nos dois últimos campeonatos vencidos respectivamente por Flamengo e Fluminense nas competições mais emocionantes deste sistema?

O modelo europeu pinga-ponto, em um torneio em que todos jogam entre si em turno e returno, é visto quase unanimemente como paradigma de justiça esportiva, quem alcança mais pontos é o campeão, os quatro últimos são automaticamente rebaixados: dente por dente, olho por olho.

Porém o futebol, assim como o direito, que regulamenta a vida das sociedades não é monolítico, nem estatístico, e não pode esquecer a variável humana. Não podemos falar apenas de pontos, são pessoas jogando, interesses pessoais e econômicos de um jogo atualmente globalizado e espetacularizado. Torcedores fanáticos, juízes passíveis de erros ou “deslizes”, rivalidades exacerbadas que clamam a “vitoriosa” derrota contra o inimigo que pode ser campeão.

Neste momento entramos no proclamado campo da Ética. As discutidas “malas” coloridas que levariam as vitórias e comprariam futebol, colocaram os jogadores de algumas equipes em evidência na reta final do campeonato dos dois últimos  anos.  Numa sociedade capitalista que propagandeia o consumo e o acúmulo de capital, estão errados os atletas que aceitam incentivo para vencer? O capitão corinthiano William afirmou corajosamente em programa de televisão antes da rodada final que não vê problema em receber estímulo para vitória, primeiro pois o jogador profissional de sucesso, uma minoria, é um dos poucos privilegiados a exercer uma atividade  que dá prazer pessoal e cujo objetivo maior é a vitória. Em outro conhecido programa do mesmo canal de TV fechada, o meia Petkovic contestou o famoso apresentador Galvão Bueno ao afirmar que a “mala branca” é normal no futebol e que, na época, o Flamengo só não daria para o Goiás, adversário do São Paulo na penúltima rodada, pois não “tinha dinheiro”. Vejam os vídeos abaixo:

William, zagueiro do Corinthians, opina sobre a polêmica da mala branca.

Porém, é muito fácil vilanizar os jogadores, mas quem são os verdadeiros responsáveis por esta lógica? Uma instituição de direito privado que controla indiscriminadamente o que seria uma “paixão popular”. Empresários que fazem contratos ilegais, imorais e anti-éticos com crianças e acorrentam jogadores ao longo das suas carreiras, dirigentes que não tem palavra e, mesmo revolucionando o futebol brasileiro em 1987 na Copa União, contestam um título moral através de artifícios supostamente legais.[1]

Clubes que não pagam impostos e estimulam a “Lei de Gérson”: “devo não nego, pago quando puder.” Técnicos/empresários que levam sua mercadoria para seus novos clubes ou até seleções.  Presidente aceitando conluios como um convite para pular direto da terceira para a primeira divisão. É importante frisar que o atual campeão brasileiro venceu o título de 2010 com toda justiça e moral dignos da tradição do clube, mas, obviamente, tem seu passado recente maculado por atitudes anti-éticas de dirigentes que, apesar de contar  com a complacência dos dirigentes do clube dos 13, não tiveram a anuência da maior parte dos torcedores que conheço,.

Por falar nos consumidores do espetáculo, apesar da violência de torcidas organizadas e de muitos atos considerados incivilizados, estes são os que na maior parte das vezes têm a atitude mais ética devido a estarem unicamente alimentados  pela sua paixão. Segundo Aristóteles em Ética ao Nicômano,  a busca da felicidade pessoal faz parte da conduta ética desde que não prejudique física ou economicamente o outro. Torcer pela derrota do seu time visando o prejuízo de um grande rival não é o que faço, mas não vejo como anti-ético para o torcedor que quer regozijar com a frustração de outrem. O compromisso do torcedor é com a sua satisfação pessoal e não com o clube-empregador ou com os compromissos financeiros e políticos de uma instituição.

E o que podemos fazer para minimizar esta histórica relação dual Justiça/Ética nos atuais campeonatos brasileiros? A volta do sistema mata-mata, nem que fosse o primeiro tendo vantagens  contra o segundo ou demais,  sofrerá críticas caso não ganhe aquele que somou mais pontos na competição.Não obstante, ainda acredito na sua viabilidade. A legitimação da “mala branca”, enquanto artifício possível dentro da sociedade neoliberal que vivemos, pode abrir precedentes éticos complicados, porém ela existe de fato  e já se constitui em prática transgressora  estabelecida. Legalizar ou fingir que não estamos enxergando? Mudar os maquiavélicos dirigentes[2], é uma utopia maior que a ilha de Thomas Morus.

Neste momento, só vislumbro uma forma de atenuar o problema ocorrido nas últimas rodadas do Brasileirão 2009 e 2010 sem mudar o sistema: apelar para a rivalidade clubística, com  as últimas rodadas sendo realizadas com os clássicos locais. Existe incentivo maior para a equipe do Flamengo do que tentar ganhar do Fluminense para ele deixar de ser campeão, ou o Palmeiras vencer o São Paulo para ele ser rebaixado. Acredito que os clásicos regionais tem de se concentrar nas últimas rodadas do returno. Gre-nal, Atle-tiba, Cruzeiro e Atlético, Figueirense e Avaí, Bahia e Ceará como clássico do Nordeste, além de duas partidas entre os paulistas e os clubes cariocas formariam nove confrontos inflamados no momento decisivo.

Não acredito que é uma solução definitiva, outros problemas surgirão, mas pelo menos grandes conquistas como as dos clubes cariocas em 2009 e 2010 não ficarão com uma aura de armação ou de imoralidade, como apontam principalmente aqueles jornalistas anti-éticos cujas equipes não se destacaram ou chegaram onde eles gostariam.

Os conspiradores de plantão vão ter que colocar as “barbas de molho”, pois conforme conversa informal com Ronaldo Helal e outros integrantes do grupo,  no final do campeonato alguns mitos foram quebrados: o Corinthians não foi campeão no ano do Centenário; o Flamengo, mesmo sem apoiar a C.B.F, não caiu para alegrar a Record; não teremos BA-VI na primeirona; e o Fluminense, que também não mantém boas relações com a oligarca instituição que controla o futebol nacional e cujo técnico  permaneceu eticamente no clube, sagrou-se merecidamente bicampeão Nacional.

Petkovic, jogador do Flamengo, afirma no programa Bem Amigos que a “mala branca” é normal no futebol.

[1] Para entender realmente os trâmites políticos do Campeonato brasileiro de 1987 ver o livro “Passes e Impasses” de Ronaldo Helal e o artigo “Por que Hexa” publicado tanto no Globo impresso quanto no online.

[2] Como em todos os segmentos profissionais, existem também dirigentes esportivos sérios e honestos, mas infelizmente os exemplos negativos acabam ofuscando a imagem dos “cartolas”.

Um comentário em “O Justo, o Ético e o possível nos Campeonatos Brasileiros

  1. Caro Álvaro:

    Concordo com a questão da “entrega” como uma característica ruim para o futebol, o que não desmerece em nenhum milímetro os títulos de Fla e Flu, recentemente. Todavia, discordo de que o mata-mata seria uma solução, pois diminuiria o interesse na fase classificatória e desmereceria o clube que investiu mais, que manteve o mesmo técnico, que se planejou, etc. Trazer os clássicos para a última rodada? É uma boa ideia, mas um campeonato pode já estar resolvido faltando 3 ou 4 rodadas para o seu término, com “entregas” na antepenúltima ou última rodada.

    Regras mais rígidas com penalidades para os clubes e os jogadores poderiam ser pensadas. Mas, por outro lado, não acredito qy

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