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Justiça e Ética no Brasileirão

Por Ronaldo Helal e Hugo Lovisolo

Na reta final do Campeonato Brasileiro muito se tem discutido a respeito da fórmula dos pontos corridos, uma demanda antiga de parte considerável da imprensa à época dos confrontos mata-mata entre os oito primeiros colocados. A demanda se apoiava no argumento de justiça, já que muitas vezes o time de melhor campanha se via eliminado tão logo se iniciava o mata-mata, ainda que estivesse com 12 ou mais pontos à frente de seu oponente. Atendida a reivindicação, o campeonato Brasileiro passou a ser disputado no sistema de pontos corridos até o final. Eis que, desde o campeonato de 2009, a discussão sobre a melhor forma de disputa volta à tona por conta de declarações de dirigentes e atletas de que jogariam “desmotivados” uma partida em que o resultado pudesse favorecer o rival local.

As palavras estão carregadas de sutilezas. Talvez por isso não tenhamos claro, por exemplo, as diferenças entre campeonato, torneio, certame e competição. As definições das três primeiras não aparecem nem no Google. Diante do problema temos que operar sem definições. O campeonato consagra uma equipe campeã e isto significa ocupar o primeiro lugar. O torneio, o certame e a competição também fazem isso, mas por caminhos distintos. Os “futeboleiros” não se preocupam por suas diferenças semânticas, contudo, se preocupam pela organização básica do campeonato ou torneio: pontos corridos ou mata-mata? Qual das duas seria mais justa no Brasileirão?

Os defensores dos pontos corridos apontam que a justiça está nesta forma, pois o futebol pode apresentar resultados injustos sob o ponto de vista do desempenho dos times em apenas duas partidas. Um mata-mata ao final da competição igualaria o que, por méritos dos competidores, não deveria ser igualado. Em outros termos, o de pior campanha pode ganhar e levantar a taça. Assim, o campeonato de pontos corridos promoveria a oportunidade de justiça. Os defensores do mata-mata, por sua vez, têm apontado que a fórmula anterior tem promovido o ato antiético, porque, por vezes e, principalmente, do ponto de vista do torcedor, seria bom perder para não favorecer o adversário tradicional, aquele  que inflama mais os torcedores. O mais grave é quando atletas tendem a compartilhar esta opinião de torcedores. O mata-mata, então, impediria este comportamento antiético. Joga-se para ganhar ou se cai fora.

Aparentemente os dois valores são valiosos. Ocorre que não são conciliáveis: não temos como aumentar a justiça e ao mesmo tempo reduzir as condutas antiéticas. Se admitirmos a não conciliação e o valor de ambas as promoções, o que faremos?

A fórmula de pontos corridos parece ser a mais justa – ou menos injusta -, mas não impede comportamentos que ferem o espírito esportivo. Então, o problema não estaria na fórmula e sim na conduta de alguns de seus participantes. Uma espécie de solução seria encontrarmos caminhos para coibir o ato antiético. Afinal, jogar sem pretender ganhar é abandonar o espírito esportivo. Regulamentos mais duros e incisivos, isto é, com caninos maiores, rápidos e afiados. A outra solução seria continuar discutindo o problema. Até porque ela não é uma solução ruim se considerarmos que o futebol e suas discussões são o melhor combustível de canalização de paixões. Em que nos ocuparíamos sem ele, neste país majoritariamente mono esportivo?

Matéria originalmente publicada no jornal O Globo do dia 01 de dezembro (clique aqui para vê-la).

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3 comentários em “Justiça e Ética no Brasileirão

  1. Esporte não tem que ser justo. Tem que dar emoção.
    Essa coisa de politicamente correto tá tornando o mundo mais chato.
    Se o time perdeu a disputa em duas partidas, é porque é pior que o outro.
    Dentro daquele contexto das duas partidas.
    Façamos então como o Basquetebol, em que as decisões se dão em melhor de 5.
    Pontos corridos é uma chatice.

  2. “Então, o problema não estaria na fórmula e sim na conduta de alguns de seus participantes” – Para mim esta frase resume tudo.

    A conduta anti-desportiva pode acontecer em qualquer fórmula de disputa. Foi assim em 1996 quando o Flamengo (possivelmente) facilitou para o Bahia ajudando a rebaixar o Fluminense. Não foi assim, mas poderia muito bem ter sido, quando o Vasco venceu o São Paulo no quadrangular semi-final de 1992 e levou o Flamengo à final contra o Botafogo. A manipulação de resultados vai acontecer em qualquer uma das fórmulas de disputa.

    No mata-mata, nada impede que um time perca de forma intencional a última rodada para escapar de um confronto, em tese, mais difícil.

    Particularmente, eu prefiro o mata-mata. Exclusivamente por conta da emoção. No entanto, o futebol brasileiro não pode abrir mão dos pontos corridos. Os clubes perderiam muito dinheiro, a qualidade e a organização dos torneios cairia. Além disso, já pensou seu time não classificado para os “playoffs” e parando de atuar em setembro? No futebol de hoje seria inviável. Muito me chama a atenção o fato de que esse debate ressurge com força quando dois cariocas, em anos seguintes, são protagonistas.

    Uma sugestão seria valorizar a Sul-Americana e reduzir o número de vagas brasileiras de oito para quatro. Se tivermos menos vagas, a briga por elas tende a acontecer até a última rodada e todos terão algo a disputar.

  3. Talvez uma solução intermediária seja fazer uma final entre os vencedores do primeiro e do segundo turnos. Com isso, mantem-se a importância do mérito e da regularidade, mas se introduz um elemento de emoção e de alta performance na forma de uma finalíssima entre os dois melhores times do campeonato.
    Um abraço e parabéns pelo blog.
    Cesar Gordon

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