Entrevistas

O futebol como um drama da vida social no Brasil

Segundo a visão de Édison Gastaldo, de longe o futebol é o esporte mais importante no contexto social brasileiro

Por: Graziela Wolfart

Para o antropólogo e professor Édison Gastaldo, na entrevista que concedeu, por telefone, para a IHU On-Line, o futebol “é um caminho potencial para descobrirmos verdades profundas sobre a nossa cultura, sobre quem somos. Dentro de um campo de futebol, dramatizam-se valores e aspectos fundamentais do que significa ser brasileiro”. Para Gastaldo, a Copa do mundo é o momento mais importante de celebração da nacionalidade brasileira. E explica: “isso aparece no índice de audiência das partidas do Brasil na Copa que tradicionalmente, ao longo de décadas, vem representando as maiores concentrações históricas de audiência midiática de todos os tempos. Uma partida do Brasil na Copa do Mundo concentra normalmente de 97 a 98% dos televisores ligados. Nenhum outro evento concentra tanta gente na frente da TV para ver a mesma coisa. É a hora em que todo mundo se veste de verde e amarelo, em que todo mundo canta o Hino Nacional, em que todos se abraçam, choram, vibram. Um jogo do Brasil na Copa do Mundo é o fato social total brasileiro. Concentram-se multidões de pessoas no mesmo lugar, em torno de um único valor: nós contra os outros. Por isso a Copa é tão importante. É o momento de ver quem somos frente aos outros, expresso na metonímia de que 11 pessoas são o Brasil”.

Édison Luis Gastaldo é antropólogo. É professor no Departamento de Letras e Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. É autor dos Cadernos IHU Ideias número 10, intitulado Futebol, mídia e sociedade no Brasil: reflexões a partir de um jogo, e do número 43, intitulado Futebol, mídia e sociabilidade. Uma experiência etnográfica.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é o significado antropológico e social do futebol no Brasil?

Édison Gastaldo – Quando falamos de esporte no Brasil, estamos falamos de futebol. De longe, o futebol é o esporte mais importante no contexto social brasileiro. Por muito tempo, as Ciências Sociais consideraram o futebol como um fato de menor importância. Quando muito, concediam ao futebol um estatuto de alienação. Encerravam a questão dizendo que o futebol era o ópio do povo, servia para mistificar as classes trabalhadoras e afastá-las daquilo que deveria ser o seu verdadeiro motivo de preocupação. Com isso, deixava-se de lado toda a importância e a riqueza conceitual do esporte. O futebol, no início do século XX, foi visto por muitos intelectuais importantes, inclusive Graciliano Ramos  e Villa-Lobos , como um estrangeirismo inconcebível, como um modismo estrangeiro, que não tinha nada a ver com a cultura brasileira. Tem até um texto famoso do Graciliano Ramos que se chama “Futebol é fogo de palha”, que dizia que era uma moda, como o ioiô e o bambolê. Ele dizia que o futebol tinha vindo, mas ia passar, pois “o verdadeiro esporte brasileiro é a rasteira, de preferência pelas costas”. Desde os anos 80, a Ciência Social brasileira tem desenvolvido uma nova perspectiva bem mais avançada sobre o futebol, sem preconceito, uma perspectiva mais antropológica do esporte. O marco dessa perspectiva é a publicação, em 1982, do livro Universo do futebol (Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982), organizado pelo antropólogo Roberto da Matta . Ali o futebol é apresentado sob uma nova luz, pensado como um fato social em si mesmo e interpretado por da Matta e seus outros colegas que participaram do livro como uma espécie de drama da vida social no Brasil. Segundo essa perspectiva, num campo de futebol, dramatizam-se elementos profundos da cultura brasileira. Não só não é alienação, como ele é um caminho potencial para descobrirmos verdades profundas sobre a nossa cultura, sobre quem somos. Dentro de um campo de futebol, dramatizam-se valores e aspectos fundamentais do que significa ser brasileiro. Isso se exemplifica na rejeição unânime das torcidas ao juiz e o próprio fato de, no Brasil, chamarmos o árbitro de juiz. Essa rejeição unânime à pessoa do juiz pode ser interpretada como uma reação do povo contra a tirania do Estado. O juiz não deixa as pessoas fazerem o que querem, é um sujeito a favor do Estado, e não do povo. O juiz no campo de futebol expulsa o meu jogador, anula o meu gol, marca o impedimento do meu ataque. Então o juiz é ladrão. A certeza dos torcedores de que o juiz está roubando expressa a desconfiança do povo brasileiro com seu Estado.

IHU On-Line – Qual a importância de discutir academicamente a Copa do Mundo?

Édison Gastaldo – A Copa do Mundo é um momento extraordinariamente importante no estudo do futebol como um elemento de identidade nacional no Brasil. É o momento mais importante de celebração da nacionalidade brasileira. Isso aparece no índice de audiência das partidas do Brasil na Copa que tradicionalmente, ao longo de décadas, vem representando as maiores concentrações históricas de audiência midiática de todos os tempos. Uma partida do Brasil na Copa do Mundo concentra normalmente de 97 a 98% dos televisores ligados. Nenhum outro evento concentra tanta gente na frente da TV para ver a mesma coisa. É a hora em que todo mundo se veste de verde e amarelo, em que todo mundo canta o Hino Nacional, em que todos se abraçam, choram, vibram. Um jogo do Brasil na Copa do Mundo é o fato social total brasileiro. Concentram-se multidões de pessoas no mesmo lugar, em torno de um único valor: nós contra os outros. Por isso a Copa é tão importante. É o momento de ver quem somos frente aos outros, expresso na metonímia de que 11 pessoas são o Brasil.

IHU On-Line – O futebol tornou-se um importante elemento constitutivo das relações
internacionais que já não podem ser resumidas a questões diplomáticas entre Estados? Como se dão essas relações através do futebol?

Édison Gastaldo – É preciso ter cautela nessa aproximação. O futebol representa as nações só em metáfora, nas figuras de linguagem. Aqueles onze jogadores não têm a bandeira do Brasil no peito. Eles têm o emblema da CBF. A FIFA não é a ONU. O futebol não é uma instância diplomática. Quem tem a dimensão da diplomacia internacional é a ONU. A FIFA organiza federações nacionais de práticas futebolísticas. Quando falamos que o Brasil vai jogar com a Argentina, temos que ter em mente que está jogando o time da CBF contra o time da AFA (Asociación del Fútbol Argentino). Tem um efeito simbólico de que aqueles ali somos nós. Mas eles são os jogadores do Ricardo Teixeira. Ele que escolhe o técnico, e este é quem escolhe os jogadores. E a CBF, como as outras associações de futebol, não prestam contas a governos, não representam o Brasil em termos práticos. Em termos simbólicos, sim. E essa metonímia é muito lucrativamente explorada pela FIFA, pela CBF e por todas as outras associações futebolísticas do mundo. As pessoas dizem que o futebol para as guerras, resolve os conflitos, e isso não é verdade. Às vezes isso pode acontecer, mas é uma circunstância especial de fatores. Por exemplo, a Coreia do Sul e a Coreia do Norte estão à beira de uma guerra. A Coreia do Norte afundou um barco sul-coreano e provocou uma forte tensão militar na fronteira dos dois países. E a Copa do mundo não amenizou em nada essa situação.

IHU On-Line – Quais são as articulações econômicas e diplomáticas que se fazem em torno do futebol? Existe uma visão política do futebol?

Édison Gastaldo – Não vamos sobrevalorizar o futebol. Seu grande valor como fato social está no campo simbólico, no que ele significa para as pessoas. Como um instrumento de ação política, ele tem valor relativo. Coincidentemente, todo ano de eleição para presidente no Brasil é ano de Copa do Mundo. Todo ano vem algum jornalista me perguntar se a Copa é de propósito em ano de eleição e se ela influencia no resultado das votações. A resposta é sempre a mesma: não. A Copa do Mundo não influencia o resultado da eleição. É preciso relativizar o tal “poder” do futebol, que é de reunir uma audiência absurdamente grande em frente a uma tela de TV e de que, naquele momento, as pessoas se sentem mais brasileiras do que em qualquer outro. A política do futebol é um pouco pior do que a política normal. Na política normal, temos chance de votar a cada quatro anos. No futebol não temos chance de votar para nada. Os sócios de um clube têm uma participação ínfima na vida política de seus clubes. Os clubes de futebol no Brasil e a própria CBF são entidades fechadas em termos de participação política. Por mais que os torcedores que resolvam pagar para ser sócios dos seus clubes gostariam de influir nos destinos da instituição, eles não podem. Dentro de cada clube, de cada federação e de cada confederação, existem vários mecanismos de barreira para intervenção política. Não é por outro motivo que Ricardo Teixeira  está, há décadas, no comando do futebol brasileiro. Ninguém vai conseguir tirar ele de lá enquanto ele não quiser sair. Ricardo Teixeira é genro do João Havelange , que foi, durante 28 anos, presidente da FIFA e, antes do Ricardo Teixeira, era ele o presidente da Confederação Brasileira de Desportos – CBD. Tanto é pequena a participação política que o sujeito foi presidente por décadas da CBD, saiu diretamente para a presidência da FIFA e deixou no seu lugar o seu genro. Ou seja, é uma questão de família.

IHU On-Line – Então podemos dizer que na política do futebol a democracia passa longe?

Édison Gastaldo – Muito.

IHU On-Line – Até o momento, qual sua avaliação da seleção de Dunga?

Édison Gastaldo – Vimos pouco ainda. Cada jogo é um jogo, essa é a máxima do futebol. O primeiro jogo não serviu direito de parâmetro. É preciso pegar um time forte para vermos essa seleção jogando. A Coreia do Norte se colocou muito bem em campo. Considerando que estava enfrentando o Brasil, eles colocaram oito jogadores na defesa. Onde um jogador brasileiro estava, tinha sete ou oito coreanos em volta. Foi um congestionamento na área deles que impediu o Brasil de mostrar seu futebol. Não vi o time brasileiro jogar, por mérito da Coreia, que soube amarrar o jogo. Eles entraram para deixar o placar em zero a zero. Se o jogo terminasse assim, poderíamos ter dito que a Coreia venceu de zero a zero, porque eles entraram em campo para não deixar o Brasil fazer nenhum gol. Tanto é que o primeiro gol do Brasil foi sair quase na metade do segundo tempo, numa jogada pelo lado, que não entrou pelo meio, foi um chute que deveria ter sido um cruzamento em qualquer lógica do futebol. O goleiro estava no meio do gol esperando um cruzamento. Se fosse assim, a Coreia dominaria a bola e chutaria para fora da área. Como ele fez algo inesperado, surpreendeu a defesa da Coreia. Uma vez que abriu o placar, a Coreia teve que sair mais para o jogo, para empatar. E daí abriu espaço para o Brasil fazer o segundo gol. Foi um jogo atípico. Para saber do que o time do Brasil é capaz, precisamos vê-lo jogar contra um time grande.

Publicado originalmente na Revista do Instituto Humanitas Unisinos.
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3 comentários em “O futebol como um drama da vida social no Brasil

  1. Fiz esse teste nessa copa: saí de casa durante os jogos do Brasil. Achava que não teria ninguém na rua (RJ), mas não foi o que aconteceu. Vi caminhão de lixo trabalhando, alguns (poucos) Ônibus, muitos táxis e carros. O país, ao menos a parte da cidade que vi (do centro da cidade até Niterói e São Gonçalo), NÃO PAROU pra ver os jogos. Na partida entre Portugal e Brasil, então… quase uma rotina de domingo “normal”… muito em face da falta de importância do jogo (ambas as equipes já classificadas). Acredito que as seleções nacionais estejam perdendo sua capacidade de concentração, de sedução do público.

  2. Tenho que discordar. Pelo menos no centro do Rio, quando ia para o estágio após os jogos, estava bem vazio – um cenário quase apocalíptico. As pessoas que lá estavam ou assistiam ao jogo ou voltavam para o trabalho como eu. Aqui na Freguesia então…quando saía de casa durante os jogos não tinha um ser vivente na rua. Acredito que até os animais acompanhavam a nossa seleção.

  3. Centro do Rio é deserto qualquer dia… ninguém quer estar lá, só vão por obrigação.
    Experimente ir ao centro da cidade qq dia da semana após as 21 horas…
    ou num domingo à tarde…
    Mais deserto que cidade do interior.

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