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Posts Tagged ‘Racismo’

SOMOS TODOS MACACOS? NÃO, NÃO SOMOS: “eu já fui preto e sei o que é isso”

quarta-feira, maio 14, 2014 4 comentários

O acontecido com o jogador Daniel Alves pode parecer um tema já desgastado. Entretanto não me parecer correto pensar assim, pois essa atitude nada mais seria do que a repetição de uma típica postura de parte do Brasil em relação ao tema do racismo.

O Brasil às vezes nos passa a impressão de que é um país que não se vê como um local onde não existe racismo, o que gera como consequência uma ausência de debates a respeito dessa  questão e que faz pairar no ar uma certa atmosfera de hipocrisia quando se fala sobre esse assunto.

Em pesquisa realizada na USP (Universidade de São Paulo), em 2009, 97% dos entrevistados disseram não ter preconceito, entretanto 98% afirmaram conhecer pessoas que demonstram alguma forma de discriminação racial.

Sobre esse resultado Lilia Moritz Schwarcz, uma historiadora com importantes livros sobre o racismo no Brasil, afirmou que ele fazia o Brasil parecer uma ilha de democracia racial cercada de racismo. Afinal ninguém se assume como portador de preconceito racial, mas ao mesmo tempo afirma conhecer um grande quantitativo de gente que sofre desse tipo de discriminação.

Ao se considerar uma ilha de democracia racial, como foi dito, muitas vezes perde-se a oportunidade de reflexões críticas acerca de assunto tão caro a nossa sociedade. Essa ausência se fez refletir na entusiasmada recepção dada por grande parte da imprensa ao ato de Daniel Alves, no jogo do Barcelona.

Não é proposta desse breve escrito fazer algum tipo de juízo avaliativo sobre o ato de Daniel de comer a banana que lhe foi lançada. Afinal se trata de um ato realizado no calor da hora.

Mas cabe analisar a recepção dessa atitude, sobretudo no que diz respeito a imprensa de um modo geral e, especialmente da imprensa esportiva.

Sem nenhum tipo de reflexão, grande parte da imprensa celebrou o ato de Daniel Alves, aderindo apressadamente a campanha “somos todos macacos” iniciada pela foto postada por Neymar que ao lado de seu filho, comia uma banana.

Certamente que tal campanha ganhou contornos de marketing e rapidamente ganhou a adesão de artistas, assim como rapidamente se converteu em uma série de produtos como camisas, souvenires e tantos produtos derivados desse ato a princípio espontâneo de Neymar. Todo esse ciclo é típico da cultura contemporânea, altamente mercadorizada e espetacularizada.

Mas seria interessante refletirmos sobre essa tão imediata de adesão.

Há de lembrarmos que estamos na semana do dia 13 de maio, dia em que a Lei Áurea foi assinada pela princesa Isabel. Também precisamos lembrar que estamos em 2014, ano de Copa e ano em que o clássico O negro no futebol de Mário Filho, completa 50 anos.

 

Eu já fui preto e sei o que é isso

Há um importante artigo com o título homônimo dessa frase acima citada. Trata-se do texto de autoria de Cesar Gordon Jr que faz uma análise do livro de Mário Filho.

“Eu já fui preto e sei o que é isso”, foi uma frase que segundo Mário Filho teria sido dita por Robson um jogador do Fluminense. Robson estava sendo levado de carro, junto com Orlando, por Benício Ferreira para o clube tricolor do Rio de Janeiro. De repente um casal de negros atravessou a rua sem olhar para os lados o que fez com que Benício fosse forçado a frear bruscamente. Irritado Benício gritou para o casal “seus pretos sujos imundos”. Orlando também irritado ameaçou reagir, quando o jogador Robson tentando acalmá-lo diz: “Não faz Orlando, eu já fui preto e sei o que é isso”.

Trata-se de uma frase que evidencia o preconceito em relação aos negros e especialmente aos negros que não tinham boas condições sociais. A frase  “eu já fui preto”, indicava que Robson já não se sentia como um indivíduo de cor, já que além de ser jogador de futebol, trabalhava na Imprensa Nacional e era dono de uma alfaiataria.

Devido a uma condição financeira favorável Robson havia “embranquecido”, deixando de se sentir preto.

Isso demonstra que  no Brasil o racismo vem anexado ao preconceito de ordem social, já que apenas minimizado quando o negro “embranquece” ao adquirir condições boas financeiras.

Sendo assim embora Daniel Alves e tantos outros jogadores como Balotelli sofram atos racistas o peso do preconceito recai sempre com mais força e com consequências mais sérias sobre aqueles que não desfrutam da atenção da mídia e muito menos das altas cifras que cercam o mundo daqueles atletas.

Por isso se faz necessário refletir sobre a frase “somos todos macacos”

 

Não, não somos todos macacos

A história pode ser veículo fundamental para que não sejamos seduzidos de maneira tão fácil pela cultura espetacularizada que nos cerca.

É preciso voltarmos no tempo e buscarmos de onde vem essa anexação do negro com o macaco.

É importante lembrarmos que ao aproximar o negro do macaco desejava-se antes de tudo demonstrar que o negro afastava-se dos critérios de humanidade. Em 1906 o pigmeu Ota Benga, por exemplo, foi exposto ao lado de macacos no jardim zoológico do Bronx, em Nova York.

ota

Portanto é bastante temeroso aceitarmos de modo tão fácil a ideia de “somos todos macacos” ou comermos uma banana achando que assim estamos protestando contra os atos racistas.

Em grande medida é fácil agir desse modo quando se tem todos os holofotes a seu favor ou quando se é branco. Não sem motivos no Brasil alguns astros da TV como Luciano Huck, Angélica e Claúdia Leite imediatamente foram fotografados comendo banana.

Mais interessante ainda foi ver o atual presidente do São Paulo, Carlos Miguel Aidar, abrir sua coletiva com a mesa cheia de bananas, uma das quais comeu. Esse mesmo Aidar que tentava mostrar sua solidariedade com o antiracismo, afirmou dias antes, em entrevista, que se pudesse traria o jogador Kaká novamente afinal ele tem a cara do clube já que “ É alfabetizado, tem todos os dentes na boca, bonito, fala bem…” declaração bastante preconceituosa.

Também chama a atenção alguns programas esportivos terem começado com seus jornalistas comendo banana.

É fácil comer banana,  porém difícil é uma discussão crítica séria que questione por exemplo porque quase não vemos jornalistas, comentaristas enfim formadores de opinião negros. Por que as mesas redondas no Brasil em sua ampla maioria são formadas por gente branca?

Não.

Não somos todos macacos.

Eu pelo menos não quero ser.

Não quero fortalecer uma analogia tão perniciosa a nossa história e que recai com toda sua força obre aqueles que são assim ofendidos no seu dia a dia, aqueles que não vimos – e que são a grande maioria dos casos e que humilhados muitas vezes se cala.

Não tenho nada contra as bananas e muito menos contra os macacos.

Mas somos humanos, tão humanos que nos cabe desconfiar de campanhas as quais se adere de modo tão fácil e irreflexivo.

Trata-se de um momento importante para pensarmos os limites das rápidas propagações da mídia digital que tem seu lado positivo, mas que precisam encontrar outras vozes que ofereçam canais de mediação.

E um desses canais poderia ser a imprensa esportiva.

 

O futuro de Michael Sam

quarta-feira, março 5, 2014 Deixe um comentário

Recentemente houve nos campos de futebol claras manifestações de racismo. Em jogo válido pela Copa Libertadores, o jogador Tinga ao tocar na bola ouvia gritos que imitavam os sons emitidos por macacos. Esses gritos vinham de parte da torcida do Real Garcilaso, time peruano. O evento ganhou repercussão no Brasil e fora e Tinga foi alvo de diversos gestos de solidariedade que se espalharam pelo Brasil afora.

anelkaObviamente que não poderia ser diferente, afinal a intolerância racial não deve ser alimentada de modo algum, devendo mesmo ser devidamente punida como foi o caso do jogador Nicolas Anelka que após fazer gesto considerado antissemita foi suspenso pela Federação Inglesa por cinco partidas e multado em 97, 300 Euros.

O futebol e os esportes de um modo geral ainda estão longe de ser um território democrático e igualitário. Isso porque estão longe de poderem ser considerados como esferas à parte da dinâmica social e cultural que os cerca. E essa dinâmica ainda comporta diferentes formas de intolerância.

Uma dessas formas de intolerância diz respeito à diversidade sexual. As entidades esportivas, o público, a imprensa etc., ainda pouco contribuem de modo mais enfático para que os esportes sejam territórios mais tolerantes no que diz respeito à opção sexual de seus atletas.

Os esportes ainda são potentes produtores de valores e símbolos associados a masculinidade hegemônica. Essa ênfase explica toda dificuldade que as mulheres tiveram – e ainda têm, sobretudo em algumas modalidades – para se inserirem no campo esportivo. E essa ênfase também explica as várias formas de rejeição ao homossexualismo. No futebol, por exemplo, desde os cânticos das torcidas, passando pelo discurso dos jogadores e da imprensa, é perceptível que se trata de um território em que a masculinidade precisa ser afirmada constantemente.

Mas o futebol NÃO é uma exceção no que diz respeito a homofobia. Poderíamos sem muito exagero afirmar que os esportes de um modo geral ainda representam um espaço que exalta comportamentos compreendidos como masculinos e alimentam formas por vezes violenta de rejeição a homossexualidade

Como propõe Eric Anderson em seu livro In the Game: Gay Athletes and the Cult of Masculinity:

I have grown to understand the complex role that sport plays, particular in the production of a violent homophobic formo f masculinity (…) the structure of sport in society influences many boys to develop such narrow sense of masculinity, as well as a Strong hatred for homossexuality (p.4)

Há alguns dias atrás, a promessa do futebol americano Michael Sam, jogador universitário, se declarou gay em entrevista concedida simultaneamente ao jornal The New York Times e à ESPN americana. Michael disse “Sou Michael Sam: jogador de futebol americano e gay”.

Michael Sam

Jogador de futebol americano Michael Sam

Antes dessa declaração, Sam tinha sua entrada na NFL praticamente garantida, mas é de se pensar e desconfiar o que ocorrerá daqui para frente. Michael recebeu apoio de diversas celebridades, incluindo Michele Obama, apoio que certamente lhe será um auxílio fundamental.

Mas será que o apoio das celebridades e o inicial apoio da NFL se fará refletir entre seus colegas de time e adversários? Será que esse apoio persistirá no vestiário local onde segundo Wagner Camargo propõe: “funciona como um espaço de “regulação” de corpos e produtor de subjetividades “obedientes”, consonantes com o mundo heterossexual (masculino).” (Por uma “etnografia dos vestiários”: do futebol e outros esportes na sexualização dos espaços. 36º Encontro Anual da ANPOCS, 2012)

O futuro de Michael Sam no futebol americano ainda está incerto e talvez esse futuro não dependa apenas de suas habilidades atléticas já demonstradas na liga universitária.

#fechadocomotinga

terça-feira, fevereiro 18, 2014 Deixe um comentário

Por Tatiane Hilgemberg

1914. O jogador mestiço Carlos Alberto tinha de usar maquiagem para disfarçar sua cor. Durante uma partida do Campeonato Carioca o suor que lhe escorria do rosto revelou sua cor não branca, o rival não perdoou e lhe atribuiu o apelido de “Pó-de-Arroz”. O uso de maquiagem era necessário na época porque o futebol, esporte de elite, marginalizava atletas negros, mulatos e pobres.

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2014. O jogador do Cruzeiro, Tinga , é convocado pelo técnico e entra no segundo tempo da partida contra Huancayo, no Peru, em jogo válido pela Copa Libertadores da América. Quase 100 anos após o episódio do “Pó de Arroz”, Tinga não precisa esconder sua negritude. Mas cada vez que recebia e dominava a bola, uma sonora vaia formada por gritos que imitavam o som de macacos vinha das arquibancadas peruanas, cessando em seguida, assim que outro jogador pegava na bola.

São inúmeros os exemplos de racismo no futebol nos últimos 100 anos. O citado é apenas o mais recente. O que aconteceu com o Tinga, infelizmente, não é novidade para ninguém, essa não foi a primeira nem a última vez. Durante a semana ouvi e li muitos comentários sobre o caso, e o que mais me chama a atenção é que muitos demonstraram apoio ao jogador, muitos repudiaram e condenaram o ocorrido (entre eles o presidente do Peru, Ollanta Humala, e a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff), investigações foram exigidas, medidas solicitadas, mas o que foi feito de concreto, e principalmente, de diferente de todos os outros casos, NADA.

cbf

Algo precisa ser feito para que situações como essa não se repitam. E vamos ser francos e realistas, esperar que a Conmenbol, Fifa ou CBF tomem uma atitude, que vá além de liberar notas oficiais de repúdio, é uma ilusão.

No clássico “O Negro no Futebol Brasileiro”, o jornalista e cronista esportivo Mario Filho, relata uma história que nos faz entrever uma nova e possível solução para diversas questões do futebol. Em 13 de Novembro de 1927, cinquenta mil pessoas se comprimiram nas arquibancadas e geral do estádio do Vasco para assistir o jogo entre o escrete carioca e o escrete paulista. Marcado um pênalti para o Rio de Janeiro o jogo sofreu uma paralisação. Presente no estádio, o presidente Washington Luís, que não entendia nada, mandou da tribuna que a partida prosseguisse. Feitiço, mulato, centroavante do Santos na época, conhecido por suas cabeçadas e gols de bico, não gostou da interferência e embora não fosse o capitão do escrete paulista, liderou a equipe em sua retirada de campo. Feitiço, que de acordo com Mario mal sabia rabiscar o nome na súmula, era o símbolo de uma nova postura do atleta negro, e mostrou que o Presidente Washington Luís mandava lá em cima – na tribuna de honra – cá em baixo – no campo – quem mandava era ele.

Feitiço

Jogador Feitiço

Quem sabe esteja faltando um pouco de Feitiço em Tinga e em tantos jogadores que sofrem com o racismo. Até mesmo me arrisco a dizer que falta um pouco de Feitiço em mim e em você caro leitor, para levantar o queixo, estufar o peito e sair da posição de letargia.

Agir é a palavra, ação dos jogadores, que deixem o campo no primeiro sussurro racista vindo das arquibancadas, ação minha e sua, espectadores de futebol, que exijam a saída dos seus times de coração de competições em que tais fatos ocorram. Mas é claro que existem razões comerciais e financeiras para permanecer na Libertadores, por exemplo, mas até quando o dinheiro vai sobrepujar o ser humano?

O próprio Tinga declarou que abriria mão de todos os títulos para vencer essa luta. Que tal começarmos a efetivamente agir contra a ignorância e o desrespeito?

 

Desrespeito, Racismo, Violência e Tapetes voadores: Imagina depois da Copa!

quinta-feira, dezembro 12, 2013 Deixe um comentário

Vou começar este tragicômico post relatando o que aconteceu comigo na final da Copa do Brasil: desrespeito. Desde 1983 estive presente em quase todas as finais que o Flamengo disputou no Maracanã.

Ao longo de 30 anos presenciei vitórias épicas como a própria conquista da Copa que uniu o legítimo futebol brasileiro em cima do Internacional em 1987, o tricampeonato sobre o Vasco da Gama com gol de Petkovic ou a Copa do Brasil com gols do folclórico Obina e derrotas acachapantes como o gol do Cocada, a barrigada do Renato Gaúcho e a humilhação diante do  Santo André.

No último 27/11, mesmo com um superfaturado ingresso na mão fui impedido de entrar no intervalo para assistir mais uma final rubro-negra. Tive que chegar após o início da partida, pois estava aplicando provas finais em uma universidade próxima ao Maracanã, mas a cega paixão pelo clube me levou a comprar o abusivo direito de ir para o estádio, independentemente do horário. Só não imaginava o constrangimento que passaria junto com vários outros torcedores, dentre eles até o jornalista Sérgio Bocage. Simplesmente fomos impedidos de entrar no Maraca, mesmo com o tíquete na mão, sem que nenhuma autoridade do consórcio, da polícia ou do Flamengo desse qualquer satisfação.

Rasgaram a Lei.10.671/03 que equipara o torcedor à consumidor e abusaram da boa fé de cidadãos que ainda acreditam que o espetáculo futebolístico transcende as mazelas político administrativas dos nossos dirigentes. Sobre o assunto ver o link.

Nenhum dano moral repara a perda de não assistir ao vivo os gols do título do seu time de coração, pois, como afirmou o filósofo alemão Kant, a justiça é subjetiva visto que faz parte do mundo dos sentidos e cada um tem  a sua visão do que é justo e injusto, certo e errado, feio ou belo.

E por falar em beleza, infeliz coincidência ocorreu no pitoresco sorteio de grupos realizado em “terra brasilis” na última sexta-feira. Enquanto o mundo homenageava o mártir da luta contra a discriminação racial Nelson Mandela, destarte o discurso presidencial e os dez segundos dedicados por Blatter ao estadista, foi o decote da BBB (Bela, Branca, Brasileira) Fernanda Lima que chamou mais atenção que as bolinhas frias ou quentes, as imagens estereotipadas da miscigenação do povo brasileiro nos telões e os artistas e ex-jogadores convidados.

A suposta substituição do belo casal afrodescendente Camila Pitanga e Lázaro Ramos, divulgada nas mídias digitais nas semanas anteriores, pela vistosa dupla gaúcha arianíssima acabou sendo olvidada diante da dona de divinas e siliconadas tetas. Racismo padrão FIFA ou violência velada tupinquim? Saiba mais aqui.

Seguramente, ostensiva violência foram as chocantes cenas da partida realizada em Joinville entre Vasco e Atlético Paranaense que pautam o noticiário nacional esta semana. Mais uma vez o Estatuto do Torcedor foi claramente descumprido. Seria o estatuto mais uma lei fadada a ineficácia devido a omissão do poder público em aplicá-la? Estaria este importante diploma legal passando pelo temeroso misoneísmo? Segue abaixo a definição do termo pelo Desembargador Sérgio Cavalieri Filho:

Misoneísmo como se sabe, é aversão sistemática às inovações ou transformações do status quo, o que em nosso país constitui na realidade uma forte causa de ineficácia da lei. Velhos hábitos, costumes emperrados, privilégios de grupos, impedem que a lei seja aplicada ou mesmo elaborada. Às vezes porque há grandes interesses políticos, econômicos ou religiosos em jogo; outras vezes por mero comodismo da autoridade que não levou a sério a aplicação da lei. Por mais estranho que possa parecer, costuma-se dizer que a lei não pegou (2012, p. 113-114 )

Se a Lei 10.671/03 ainda não pegou, pois a violência nos estádios não é devidamente coibida, os direitos dos torcedores não são respeitados, outra discussão legal envolta em velhos e sórdidos hábitos retorna após a última rodada do Brasileirão. Enquanto escrevo estas linhas “tapetes estão voando” revestidos de uma armadura de legalidade digna das interpretações mais duras e herméticas dos regulamentos disciplinares do egrégio reino de indicações políticas, o STJD. Não existe concurso público para este órgão da “Justiça” do nosso país, pois conforme assinala o jurista Heraldo Luis Panhoca:

Como é sabido, em cada Tribunal (STJD, TJD) haverá uma comissão disciplinar composta por cinco membros (antigamente denominada auditores) que não comporão os Tribunais, mas por estes serão indicados. Nesta indicação, não há segmentação a ser observada. O colegiado escolhe à livre arbítrio, desde que os indicados preencham os requisitos legais (maioridade civil, notório saber jurídico desportivo e ilibada reputação (2003, p. 49).

Neste sentido, a subjetividade das decisões dos tribunais desportivos brasileiros transcendem a própria filosofia kantiana e o que foi decidido em campo no último domingo, pode ser “legalmente” modificado. Mas apesar da estreita relação entre Direito, Moral e Ética, nem tudo que pode ser interpretado como ilegal e punível é condizente com a ética esportiva ou com o “fair play” dos gramados. Espero que prevaleça o bom senso, agora entre os ilustres juristas de ilibada reputação “indicados”, para que seja mantido os resultados do âmbito da bola, independentemente das interpretações herméticas possíveis na linha “dura Lex, sed Lex” como anda solenemente declarando nas mídias o Sr. Procurador Desportivo Paulo Schmit.

Clamo assim, segundo o princípio mais lídimo do futebol que é a bola na rede, pela manutenção de um mínimo de dignidade e credibilidade do torneio, que, destarte rivalidades clubísticas e subjetividades jurídicas, as equipes rebaixadas na relva disputem a segunda divisão.

Durante a Copa seguramente como definiu o embaixador Ronaldo o “jeitinho” brasileiro vai funcionar e maquiar os problemas e como rogou por nós Zeus Blatter, Deus, Alá e a mão invisível do mercado vão ajudar. Mas do jeito que as coisas vão, imagina depois da Copa!

REFERÊNCIAS

Aidar, Calos Miguel. Curso de Direito Desportivo. São Paulo: Ícone, 2003.

Cavalieri Filho, Sérgio. Programa de Sociologia Jurídica. 12.Ed. Rio de Janeiro: Forense, 2012.

Podearroz: grito de racismo ou de desigualdades sociais

sexta-feira, junho 1, 2012 1 comentário

Os supostos casos de atos racistas no futebol brasileiro são, de modo geral, hilariantes e se derivam, quase todos, dos escritos de Mário Filho, especialmente de sua obra O negro no futebol brasileiro. Inclino-me a pensar que Mario filho era um grande contador de causos com uma tremenda queda para o humor. O piadista contador de causos ou o contador de causos humorista é uma figura conhecida na paisagem brasileira. Eu diria que forma parte de sua cultura embora não seja uma propriedade exclusiva, não configurando uma singularidade nacional ou regional. Todavia, temos que reconhecer que existem estilos ou tipos de humor, todos parecem pertencer à natureza do “animal que ri”.

Um dos casos de racismo exemplar mais mencionado é o de “pó de arroz” que, nos tempos de Mario filho, grafava-se “pó-de-arroz”. De tão repetido ele ganhou o estatuto de nome próprio e, então, seria melhor escrever Podearroz. É isso que fiz no título como homenagem ao talento de Mario Filho.

O caso de Carlos Alberto, do Fluminense. Tinha vindo do América, com os Mendonças, Marcos e Luis. Enquanto esteve no América jogando no segundo time, quase ninguém reparou que ele era mulato. Também Carlos Alberto, no América, não quis passar por branco. No Fluminense foi para o primeiro time, ficou logo em exposição. Tinha que entrar em campo, correr para o lugar mais cheio de moças na arquibancada, para um instante, levantar o braço, abrir a boca num hip, hip, hurrah.[1]

Dou uma paradinha na citação para apontar alguns dados que creio formam parte do contexto de interpretação. O caso na citação se inicia com um título que ressaltei em negrito. Mario Filho coloca o América, juntamente com Fluminense, Botafogo e Flamengo como os grandes times. Também realizou descrições da vida social do Fluminense com a participação das famílias ricas nas arquibancadas e dando especial ênfase à participação das moças que iam admirar e se relacionar com os atletas. Isto não ocorria nos clubes do subúrbio, como o Bangu, nos clubes dos pobres (Mario filho não informa qual era o costume no América). As mulheres do Fluminense, ele conta, iam muito bem vestidas e supomos que também maquiadas. O pó de arroz era naquela época usado como base, alguém me diz que ainda se usa, isto é, para deixar a pele mais homogênea, com menos marcas, enfim, mais bonita e mais jovem, pois algumas marcas vêm com os anos e indicam que a juventude se foi.

Era o momento que Carlos Alberto mais temia. Preparava-se para ele, por isso mesmo, cuidadosamente, enchendo a cara de pó-de-arroz, ficando quase cinzento. Não podia enganar ninguém, chamava até mais a atenção. O cabelo de escadinha ficava mais escadinha., emoldurando o rosto cinzento de tanto pó-de-arroz.

Carlos Alberto em destaque

Observe-se que Mario Filho tem o poder de entrar na cabeça ou na alma de Carlos Alberto, em seus temores e lhe atribui, então, a cobertura com o pó-de-arroz, embora “não podia enganar ninguém”. Carlos Alberto sofreria de racismo internalizado? O causo de Mario Filho afirma isso, dado que seria o único motivo para o pó de arroz. Depois de tudo, ele já estava jogando no Fluminense e, se fosse mulato, era de domínio público e aceito.

O que Mario filho está contando tem a estrutura típica da piada sobre o negro burro, análoga às piadas sobre os portugueses contadas pelos brasileiros ou sobre os “gallegos” contadas pelos argentinos que, também, fazem piadas sobre si mesmos, talvez por influência da tradição judaica. De fato, Carlos Alberto tinha que ser pouco inteligente para fazer um ato que não podia enganar a ninguém e que era de natureza cômica: homem usando pó de arroz. Veja só!

Se há racismo é o de Mario Filho no julgamento da conduta, tão pouco inteligente, inventada de Carlos Alberto.

O próprio Mario Filho apresenta outra versão da expressão: ela era aplicada ao Fluminense, como Flamengo é urubu, River Plate “gallina” e os torcedores de Boca são identificados como “bosteros”. O apelido é tão comum no futebol que resulta difícil rejeitar o entendimento de Carlos Alberto:

Quando o Fluminense ia jogar com o América, a torcida de Campos Sales caía em cima de Carlos Alberto:

Pó-de-arroz! Pó-de-arroz.

A torcida do Fluminense procurava esquecer de que Carlos Alberto era mulato. Um rapaz muito fino.

(“…) Carlos Alberto sem se dar por achado, como se não fosse com ele, como se fosse com o Fluminense.

Mario Filho entra na cabeça da torcida, sabe quais são suas intenções, e  continua entrando na de Carlos Alberto de novo “um rapaz, embora muito fino,” muito burro, pois “nem se tocava com o grito da torcida, achava que era com o Fluminense”. Depois (sem nenhuma evidência sobre o antes e o depois) ele afirmara que o Fluminense passou a ser chamado de pó de arroz a partir do ato de Carlos Alberto. Contudo, Mario filho continua com o racismo de apostar na burrice de Carlos Alberto que nem sacava que o grito do apelido era para ele.

O contexto indica que o Fluminense era chamado de “Podearroz” pela sua formação social e pela participação das mulheres na torcida. Se supusermos que Carlos Alberto, filho de um fotógrafo de formaturas, que “entrara nas boas rodas” e era cativante com uma “delicadeza de quase moça” não era um idiota total, o ato, de se fazer passar por branco, enganando, mediante o bendito pó, não faz o menor sentido.

O sentido aparece apenas quando o consideramos burro ou quase irracional, condição da piada. Se abandonarmos esta leitura da mente feita por Mario Filho, teremos que concluir que o grito ‘Podearroz’ era contra o Fluminense e que Carlos Alberto estava certo em não se tocar. Ou, talvez, supondo que alguma vez usou pó de arroz, foi para dizer as moças: olhem, eu também estou aqui, eu também sou “alvo”! Se alguma vez usou pó de arroz teria sido para fazer uma piada e não para parecer branco? É bem possível, tão possível quanto Mario Filho aproveitar uma piada para fazer outra.

Creio que minha reconstrução ganha em coerência e consistência. Perde, entretanto, o humor. É deste mundo e muito lógico entender, pelos dados fornecidos pelo próprio Mario Filho, que gritaram “Podearroz”! contra o Fluminense. O que não é deste mundo nem lógico é o poder de Mario Filho de entrar na cabeça dos indivíduos e da multidão e saber quais são os motivos de suas condutas e seus sentimentos. De fato, se Mario Filho é um defensor dos negros e mulatos, dos afro brasileiros, diríamos hoje, ao mesmo tempo, não perdeu a oportunidade de fazer uma piada racista, filha do preconceito que considera os negros ou mulatos pouco inteligentes e enganadores ou simuladores A piada racista, paradoxalmente, parece que se encaixou como uma luva na superação do racismo e na denuncia do preconceito. Sua piada foi e ainda é citada como expressão de racismo e preconceito. Pois, teria sido o preconceito interiorizado que levou a Carlos Alberto a se cobrir com pó de arroz para parecer branco ou menos mulato ou mais branco….

O problema que resta é se perguntar sobre as razões que levaram tantos jornalistas e cientistas sociais a tomar o grito como sinônimo de racismo quando, de fato, o racismo está na própria piada e, o grito, no campo das relações entre ricos e pobres, entre clubes de ricos e de pobres. Creio que o motivo é simples, o causo seria uma suposta prova do “racismo internalizado”, sem dúvidas o pior dos racismos para uma identidade que aspira a ser  potência maior unida nas diferenças (para pior ou para melhor como já foi salientado em repetidas oportunidades). Esta interpretação joga fora a outra possível: o grito Podearroz era um símbolo de relações entre pobres e ricos, uma emergência das desigualdades no futebol. E isto foi apagado pelo preconceito de uma piada racista que, paradoxalmente, pretende desnudar o racismo.


[1] Todas as citações são da página 60. Estou usando a 4º edição, Rio de Janeiro, FAPERJ/MAUAD, 2003.

O elegante mulato de Bangu: Francisco Carregal

sexta-feira, maio 25, 2012 Deixe um comentário

Mário Filho

Mario Filho, para construir sua história do reconhecimento e valorização do negro no futebol brasileiro, persegue e nos persegue com causos de, sobretudo, mulatos, que fazem coisas (usam pó de arroz ou esticam o cabelo carapinho) para serem aceitos como produto do racismo interiorizado. De fato, sua argumentação implica que os mulatos são simuladores ou enganadores, pois, mediante artifícios, tentam parecer aquilo que não são, portanto, agem como animais miméticos, com a diferença de que seus agires são intencionais.[1]

Para isso, Mario entra nas mentes, nas intenções, nos motivos dos causos que narra. Jamais explicita quais são as fontes de seu conhecimento, das intenções ou motivos, embora declare de modo geral e introdutório que usou fontes escritas e depoimentos, jamais responde às questões de quem diz, em qual contexto, o que diz e sobre quem diz. Suas evidências e testemunhas estão quase sempre ausentes.

Francisco Carregal em destaque

Um causo típico é o do mulato Francisco Carregal, jogador do Bangu, filho de pai português branco e mãe brasileira preta. Não lembro de nenhum causo inverso narrado por Mario Filho, ou seja, pai negro e mãe branca. Na verdade, ele poderia ter escrito sobre a ascensão da mulher negra mediante o casamento com um branco que, nos casos de Mario Filho, geralmente é estrangeiro ou não brasileiro. A atração da negra e da mulata foi, e talvez ainda seja, tão forte que Noel Rosa pedia a volta da escravidão para comprar “aquela mulata” que era sua paixão. Contudo, podemos supor que também podiam existir dificuldades no mercado matrimonial para os estrangeiros mesmo quando acomodados (preconceito?), criando um mercado preferencial ou protegido de aliança matrimonial para a mulher preta.

The Bangu Athletic  Club nasceu em 1904, quatro anos antes que Mario, que é de junho de 1908. Dois meses depois o clube tinha um time de futebol. O “verdadeiro time do Bangu”, relata Mario, apenas nasceria um ano depois com cinco ingleses, três italianos, dois portugueses e um brasileiro mulato, Francisco Carrregal. Mario Filho afirma que “chama atenção a diferença entre o apuro no vestir de Francisco Carregal, preocupado em não fazer feio, e o pouco se me dá de Willian Procter, que não ligava para essas coisas” .

“Francisco Carregal, talvez por ser brasileiro e mulato, o único brasileiro, o único mulato do time, caprichou na maneira de vestir. Era o mais bem vestido dos jogadores do Bangu. Um verdadeiro dândi em campo” (p.32).

Mario Filho se deleita descrevendo uma fotografia do time, de 1905, dando ênfase aos bigodes, aos modos de se vestir. Os ingleses, nos diz, não prestavam muita atenção aos detalhes e eram mais descuidados que os italianos e os portugueses. Aqui estaríamos no campo das diferenças entre culturas nacionais?.

Francisco Carregal, um simples tecelão que chegaria a mestre,

comprou tudo de novo: as botinas travadas e as meias de lã, os calções. A camisa, quem dava era o clube. William Procter, o mestre eletricista, mandou travar umas botinas velhas, cortou com uma tesourada uma calça branca que não servia mais, nem comprou as meias de lã que custavam oito mil reis na Casa Clark. Enfiou o PE numa meia comum, que lhe ia somente até  o meio da perna, e deixou-se fotografar de ligas pretas (p. 33).

Procter, sugere Mario filho, podia ser descuidado por orgulho de raça superior.

As ligas pretas chegam a ferir os olhos na perna branca de William Procter. Parece até que ele não acabara de se vestir, que viera correndo lá de dentro, para a pose fotográfica, sem calças, de cuecas. Principalmente porque está ao lado de Francisco Carregal, todo vestidinho, entre Francisco Carregal e James Hartley, que, além das meias de lã, botou, cobrindo as pernas, as caneleiras. Caneleira era coisa rara, não havia por aqui, só vindo da Inglaterra, como um verdadeiro requinte (p. 33).

Em oposição a Procter, o “Descuidado”, Francisco Carregal não podia ser descuidado. “No meio de ingleses, de portugueses, de italianos sentia-se mais mulato, queria parecer menos, quase branco. Passava perfeitamente. Pelo menos não escandalizava ninguém” (p. 33, sublinhado do autor). Temos, então, a intenção: parecer menos mulato.

Tudo o que Filho conta ocorreu antes de ele ter nascido. Tudo parece surgir de sua leitura da fotografia. Mario já escolheu o Willian Procter para ser comparado com o Francisco. Ele não escolheu o James Hartley, pois é muito requintado. Necessita de um inglês sem requinte, mais ainda, esculachado, diríamos hoje, para criar o efeito de distância que lhe permite colocar o racismo interiorizado como motivação. O ponto central é o da intencionalidade de Francisco Carregal ser cuidadoso para parecer branco. Alguém terá contado sobre essa intencionalidade a Mario Filho? Se assim for, com qual intencionalidade contou-se sobre a intencionalidade? Na superfície, temos um elogio à elegância de Carregal, por baixo, uma explicação depreciativa: queria parecer menos mulato, quase branco! Ou seja, o causo se fundamenta no preconceito de que os mulatos preferem ser brancos ou pelo menos parecer!

O jogo de sempre: Mario Filho sabe quais são os sentimentos e os motivos de qualquer um, sobretudo, se ele é mulato, no caso não há dúvidas: é para se sentir menos mulato, quase branco. Conhecer os motivos dos personagens é uma virtude do romancista, do autor. A fotografia sobre a qual o enredo das interpretações se constrói tinha sido tirada em 1905, Mario Filho se inicia como repórter esportivo em 1926. O Negro no futebol brasileiro é de 1947. Assim, Mario sabe dos sentimentos e motivos, jamais nos informa como, entre 21 e 42 anos depois, evidências e testemunhas entram no jogo de sua construção.

Faz algumas décadas tive a oportunidade magnífica de participar de um grupo de trabalho com Milton Santos e outros destacados colegas da área no marco do Projeto Nordeste (assim o identificavam). Uma figura importante entre os organizadores era o saudoso Prof. José Arapiraca. Ambos eram negros. Milton Santos um intelectual de prestígio internacional que foi criativamente além do marco habitualmente enquadrado na geografia. Enquanto José Arapiraca se vestia corretamente para sua função de professor universitário, com cuidado, mas não cuidadosamente, Milton Santos era um dândi, sua elegância era inatacável e até motivo de inveja, pois não se trata apenas de recursos, há um conhecimento ou saber estético considerável na produção da elegância. Suas roupas combinavam e não se repetiam; seus sapatos brilhavam ainda nas escuras sombras das mangueiras dos jardins do Refúgio de São Francisco, onde costumávamos nos reunir para trabalhar. Eu estava fascinado pela figura de Milton Santos e pela sua forma de raciocinar e expor seus pontos de vista. Eu tinha a impressão de que Milton era um perfeccionista intelectual e estético solidamente estabelecido a partir de seus saberes amplos e profundos.

Milton Santos

Jamais passou pela minha cabeça que seu dandismo podia ser produto de parecer menos negro. Ao contrário, minha sensação era, e ainda é, de que ele estava perfeitamente instalado dentro da cor de sua pele. Um negro intelectualmente brilhante e elegante podia ser um problema para os outros, não para ele: simplesmente, Milton Santos era assim. Talvez também fosse assim, em termos de elegância, Francisco Carregal.

Eu igualava, na minha imaginação, os cuidados em se vestir de Milton com os do “Morocho del Abasto”, Carlos Gardel. E isto é um elogio que nada tem a ver com racismo, admiro pessoas elegantes, ocidentalizadas ou não, sejam da raça, gênero ou nacionalidade que forem.

Aplicar a reiterada hipótese de Mario Filho, ao longo do seu livro, de que negro ou mulato que se embeleza é para ser menos negro ou mulato não faz nenhum sentido para mim. Os cuidados estéticos, como os intelectuais, forma parte do cultivar-se, de se tornar mais culto. Milton Santos foi um representante da cultura e, mais ainda, quando exercia o sentido crítico.

Francisco Carregal, um tecelão, creio que podia sentir o mesmo impulso de cuidar-se esteticamente. Não para ser menos negro ou mais branco, apenas para ser mais cultivado, para se sentir melhor e, porque não, para se admirar no espelho. Willian Procter, mestre eletricista, do qual creio que pouco ou nada sabemos, como o Dr. House do seriado, que se admira e satisfaz quando soluciona o enigma médico, podia ter outras formas de se cultivar e admirar.

Talvez um negro ou uma negra elegante seja duas vezes mais negro ou mais negra, em contra de todas as imputações de sentimentos e motivos inventadas por Mario Filho, que, podia se sentir muito bem, quando fazia uma construção que encaixava direitinho na história que pretendia narrar. .

Contudo, se pensamos que o nicho de circulação no Brasil está determinado pela posição social (renda e educação, principalmente) e pela posição racial (brancos, negros e mulatos) estar no topo de algum dos eixos aumenta o nicho de circulação. Tanto um negro pobre quanto um branco pobre terão dificuldades para estacionar em um restaurante de elite. Eu, embora branco e quase louro, não tentaria de chinelo, shorts e camiseta com publicidade (prendas típicas dos pobres brasileiros) entrar num teatro ou num restaurante da Zona Sul. Alguma reação existirá: ou não me deixariam entrar ou fingiriam que não existo.

Seja branco ou negro para circular nos espaços brasileiros, e em outros países também, a aparência é fundamental. As pessoas se vestem segundo a ocasião. A pessoa elegante, bem arrumada, será melhor quista que seu oposto. Vamos da aparência à essência. O modo de se vestir, com suas agregações e padrões na moda aristocrática, burguesa, dândi ou boemia entre outras, sempre foi um passaporte positivo ou negativo para circular nos nichos socialmente regulados do espaço público. E não apenas a roupa, hoje o desdentado, negro ou branco, é vistos como tendo uma posição inferior. Mais ainda, os dentes tortos, embora fortes e funcionais, colocam a seu portador em um nível inferior. A prova é uma odontologia que vive da ortodontia, dos implantes e das próteses.

Ou seja, não se trata de deixar de ser negro ou mulato. Trata-se de, a partir da aparência, manejar os nichos nos quais se pode circular e “não pagar mico”. A aparência que indica a “essência”, ou a transformação do externo no reconhecimento social, não reside apenas na forma de se vestir, a forma de cumprimentar, o andar, o cheiro do corpo e do hálito, a forma de se maquiar e até o modo de olhar entram como dimensões significativas.

Creio que Milton Santos produzia alguma dissonância. A academia e o mundo intelectual brasileiro foram influenciados por ideias de resistência à aparência. Muitos colegas declaram que jamais usam uma gravata, mesmo quando se pense que seria adequado para a ocasião. Entre as mulheres, ainda parece dominar a vontade de se vestir segundo a ocasião. Contudo, existem traços de uma moda acadêmica e intelectual que qualquer nativo reconhece.

Franciso Carregal talvez não se tornasse menos mulato. Apenas com sua elegância criava uma circulação que não teria sem ela. Deixava de ser um mulato e se transformava em um “mulato elegante” e, talvez, bem posicionado socialmente. Sem dúvida, ascendia em termos de recepção e circulação enquanto cultivava sua pessoa mediante a elegância. E, talvez, diante do espelho, se sentisse um mulato bonito, e não menos mulato, como pretendia Mario Filho.


[1] As citações são de O Negro no Futebol Brasileiro, Rio de Janeiro, FAPERJ/MAUAD, 2003.

A associação entre os dois P. Homenagem a C.

sexta-feira, maio 18, 2012 Deixe um comentário

Conheci C após poucos meses de moradia no Rio de Janeiro, no final de 1976, quando ainda vigorava o poder militar e a AIDS começava a entrar em nosso cotidiano, afetando colegas e conhecidos. C. era um negro jovem, alto, espirituoso e bem humorado que trabalhava como datilógrafo da equipe de pesquisa à qual me incorporei. Diria que era um belo exemplar da espécie humana. Um dia me disse que ele era um “fodido”. Estranhado, perguntei o motivo. C. respondeu que ele era um 3 “P”. Sacou pela minha expressão que eu não tinha entendido, com meu português aprendido na marra,  e então esclareceu “eu sou preto, pobre e puto”. Ele morreu jovem, muito jovem, como dizem que ocorre com os escolhidos dos deuses.

C. parecia representar a condensação dos preconceitos no Brasil e em grande parte do mundo: juntando cor, pobreza e gênero. Na verdade, cada preconceito isoladamente tem força muito menor que quando associados, aqui também a união faz a força e as políticas afirmativas e de apoio, cujo caso notório seja a que se destina as mulheres pobres e negras.

Desconfia-se muito mais de um preto pobre que de um preto acomodado. O puto e pobre ocupa um lugar na escala social bem mais baixo que o puto e rico. Mais ainda, um preto rico parece que deixa de ser preto e um puto rico se torna até charmoso. (Foi uma ausência em Mario Filho que, por contexto histórico, não colocou em jogo o terceiro P).

Capa de “O negro no futebol brasileiro”

No capítulo 1 de sua obra, O Negro no futebol brasileiro,[1] quando narra as origens dos clubes de futebol no Brasil, opõe o clube de elite ou dos ricos (Paissandu, Fluminense e Botafogo, os mais mencionados, embora não sejam os únicos) ao clube dos operários e/ ou pobres (Bangu na cabeça, embora mencione vários). O futebol na origem está dividido entre torneios de ricos e de pobres (ainda que os ricos passem a jogar também no campo de Bangu, com os causos que relata de agressões dos torcedores pobres quando ganham os ricos):

“No fundo, luta de classe, sem ninguém dar por isso, é claro. Todos levavam a coisa mais para rivalidade entre o clube do subúrbio e o clube da cidade. (…) O que distinguia a Bangu do Botafogo, do Fluminense era o operário. O Bangu, clube de fábrica, botava operários no time em pé de igualdade com os mestres ingleses. O Botafogo e o Fluminense, não, nem brincando, só gente fina. Foi a primeira distinção que se fez, entre clube grande e pequeno, um o clube dos grandes, o outro, o clube dos pequenos”.  (Mario Filho, 2003, p.43).

“Grandes” são os clubes dos ricos, das elites. “Pequenos” são os clubes dos operários, dos pobres. Assim, no primeiro capítulo podemos encontrar vários parágrafos que parecem inspirados em um marxismo popular ou vulgar. Os times de subúrbios seriam formados por pobres ou pretos ou por pretos pobres ou pobres pretos. Seja o que for, em termos de raça, eles são operários, vivem preferencialmente do esforço e da habilidade do corpo. Os clubes da cidade e da elite são formados por brancos ou ricos e por brancos ricos ou ricos brancos. Eles não são operários e, portanto, não vivem preferencialmente do esforço físico nem da habilidade do corpo.

Foto de Mário Filho

O Vasco, time de base portuguesa, ocupa um lugar especial em Mário filho, na historiografia do futebol e nas autoconstruções do próprio clube, pois teria demonstrado que se ganha com bons jogadores, independentemente da cor da pele. O acentuamento da cor da pele por Mario Filho, sobretudo a partir de Garrincha e Pelé, e mais do último do que do primeiro, coloca em jogo o que A. J. Soares denominou como “freirismo popular” que sobrevive até hoje. Mario Filho, enfatizando que se ganha com negros bons de bola, não dá a mesma ênfase ao reconhecimento de que também se ganha com pobres (operários ou suburbanos) que joguem bem e, portanto, com pobres (brancos, mulatos e pretos que sejam bons de bola). Porém, este reconhecimento da experiência está associado com a emergência de um futebol competitivo, espetáculo e profissional. O futebol vai deixando de ser mera diversão e se torna profissão que se manifesta nos resultados. Se ganhar é o objetivo, os bons passaram a ser valorizados. Para nós, isto é tão óbvio que não podemos pensar que no passado tenha sido diferente.

Contra a valorização por vezes exacerbada da qualidade do jogador preto, a experiência deve ter registrado que se ganha apenas com bons jogadores. Talvez a experiência hoje aponte para a categoria de “mestiço” sob a qual, de modo crescente, é penada nossa herança e identidade. Nos tempos de Mário Filho a categoria e o fato de sermos mestiços não gozava do apreço representacional nem do valor fatual que hoje lhe outorgamos. Hoje desejamos sermos “morenos”, seja como resultado natural da mestiçagem seja como produto de sol e cremes ou de bronzeamento artificial.

Não diríamos que o registro de que se ganha com a equipe formada por bons jogadores em interação com técnicos da experiência, o hiper caso do Barcelona.  Ninguém sustentaria que um time de jogadores ruins, e pior técnico, é melhor que um time formado por bons jogadores, embora se procurarmos na história do futebol poderiam encontrar alguns casos para sustentar tal estapafúrdio argumento. Contudo, os colocaríamos na caixinha do excepcional. Todavia, creio que reconheceríamos como preconceito a afirmação de que “um time de jogadores brancos é superior a um time de jogadores negros” e também reconheceríamos como preconceito a afirmação contrária. Diante de nossos olhos vemos desfilar no mundo e, sobretudo, na Europa, times formados por brancos, pretos, mulatos e até orientais, embora poucos até o momento, ou seja, o time pretende se formar com bons jogadores. Independentemente da cor, eu creio que a maioria dos jogadores tem sua origem nas camadas populares por delas serem a maioria de seus praticantes; são o celeiro do futebol. Na América Latina toda sabemos a origem do jogador quando abre a boca para os jornalistas, pois, ainda, as diferenças de classe se manifestam como diferenças de fala que resultam das diferenças de escolaridade. Contudo, hoje, um time bom é um time geralmente mestiço, misturado ou mixed e, isto, por condições e experiências.

O deslizamento de Mario Filho da ênfase sobre a conjunção ou associação preto e pobre para o qualificativo isolado de preto — onde tudo indica, inclui o mulato, embora este seja um mestiço– creio que levou a um abandono do marxismo popular e a sua substituição pelo freirismo popular, na temática do reconhecimento e integração do negro e do mulato (mestiço, para mim, como no caso paradigmático de Garrincha) no futebol, que domina até hoje na imagem de um futebol mulato que teria gerado o estilo brasileiro. [2]

Um problema de Mario Filho Freire é o de tentar explicar como há negros importantes para o quadro social e para o time de clubes de elite como Fluminense e Botafogo. Suas descrições salientam que eles são socialmente relevantes sob o ponto de vista da riqueza, do estudo ou da criatividade, como a do mulato Basílio Viana que fez o escudo do Botafogo. Ou o caso de Joaquin Prado, paulista preto do lado preto da família Prado, que era ilustre e rica.

Foto de Gilberto Freire

Se Mario Filho estivesse de forma estrita na linha teórica de G. Freire, não teria problemas para explicar a falta de segregação dos descendentes negros (ricos, prestigiosos ou criativos), dada a singularidade do racismo brasileiro que levava ao convívio das crianças das diferentes raças, segundo Freire.[3] Qual é a mágica de Mario Filho? Muito simples: esses negros teriam deixado de sê-lo ou não seriam vistos como tais. De fato, riqueza e ilustricidade quebram a associação que “fundia ou fodia” o saudoso C.

A afirmação do jogador negro Robson, que atuava no Fluminense no início dos anos cinquenta, “Eu já fui preto e sei o que é isso”, ganha destaque para confirmar a mágica da transformação social do preto ou mulato talvez em branco ou em alguém sem raça ou em branco preto ou em preto branco. Na verdade, o que ocorre é uma quebra da associação a partir de uma afirmação que parece mais uma piada ou uma boutade do que uma apresentação de evidência. O que fica é que no Brasil se pode mudar raça. A distinção entre alma e corpo é útil para isso, negro de alma branca ou branco de alma preta, mas, talvez, por detrás dessa distinção, o percurso social ascendente, com a resultante de reconhecimento e integração, seja o chão que suscita as elaborações justificadoras.

Freire nos diria que o racismo brasileiro é muito particular. Seus preconceitos são talvez “brandos”, no sentido de que não conseguem criar estruturas e práticas sustentáveis de segregação. Um racista americano usaria seus preconceitos, se pudesse para enforcar Robson, e nem aceitaria que o emblema de seu clube de elite fosse feito por um mulato, que até mentia sobre a escola na qual tinha estudado. A diferença explica a Guerra da Secessão nos Estados Unidos, os preconceitos eram pra valer e a integração do negro foi feita a sangue e fogo durante e depois da guerra. As evidências americanas sobre o racismo são fortes, muito fortes!

E as brasileiras? As apresentadas por Mario filho são bastante discutíveis e podem ter outras interpretações além das dadas por ele. Ainda está em questão, por exemplo, a acusação a três negros pela perda do Mundial de 1950. As evidências são altamente discutíveis, mais ainda quando se considera que do outro lado, do Uruguai, o herói também era negro.

O racismo “à brasileira” aparece como um problema que merece ainda ser discutido e que demanda evidência mais fortes que a delícia dos “causos”  narrados por Mario Filho ou os insultos em quadras e campos, registrados pela imprensa, quase obsessivamente, que associam a cor e a orientação sexual à qualificativos que, supostamente, denigram.


[1] As citações são de O Negro no Futebol Brasileiro, Rio de Janeiro, FAPERJ/MAUAD, 2003.

[2] Luis H. Antezama J., boliviano de Cochabamba, linguista, sociólogo e historiador, escreveu um estudo pioneiro sobre “el pajarito” Garrincha. No momento que escrevo não estou conseguindo encontrar o exemplar que gentilmente me dedicou quando o conheci pessoalmente em encontro da CLACSO, do grupo de Trabajo Esporte y Sociedad, no agradável Quito.. Luis é ele mesmo um passarinho físico e intelectual. Como ave intelectual percorre temas e gera movimentos surpreendentes. Minhas saudades.

[3] Veja-se de Freire “Tempos mortos e outros tempos”, memórias sobre seus anos de juventude e formação.

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