Brasil, o país do futebol?

terça-feira, abril 14, 2015 Deixe um comentário

Segundo o pensador Heráclito, “nada é permanente, exceto a mudança”. Esta afirmação é de grande valia para se avaliar a questão da formação de imaginários e de representações sociais. Há alguns anos, se afirmava que o melhor futebol do mundo era praticado por jogadores brasileiros, não necessariamente no Brasil, mas por brasileiros. Por essa razão era comum que no panteão de ídolos futebolísticos de um determinado período estivessem presentes jogadores do Brasil.

Como descrevem Mário Filho, em “O Negro no Futebol Brasileiro”, e João Máximo e Marcos de Castro, em “Gigantes do Futebol Brasileiro”, isto também abria portas para que equipes nacionais realizassem turnês internacionais para mostrar sua arte e faturar algum trocado. Contudo, de alguns para cá parece ter iniciado uma mudança na geografia do imaginário do velho esporte bretão, e os jogadores brasileiros perderam protagonismo no universo do futebol profissional.

O brasileiro com maior destaque no futebol atual é o atacante Neymar, admirado por muitos, mas que ainda não tem o mesmo destaque de atletas como o português Cristiano Ronaldo e o argentino Lionel Messi. Assim, se as estrelas que mais cintilam já não estão no Brasil, é natural que o torcedor brasileiro passe a voltar o seu olhar para fora.

Nesta terça tem início a disputa das quartas de final da Liga dos Campeões da Europa. Há alguns anos, a cobertura da competição, considerada por alguns como o principal torneio de clubes do mundo, se limitava a veículos de comunicação especializados, como emissoras fechadas e sites. No entanto, o panorama mudou, e esta e outras competições disputadas em gramados internacionais recebem maior destaque nos meios de comunicação brasileiros. Um exemplo é a Rede Globo, que aumentou o espaço em sua grade de programação para transmitir partidas da Liga. A próxima quarta, por exemplo, é dia de Barcelona e PSG.

O que se deseja evidenciar aqui não é uma simples mudança na grade de programação esportiva de emissoras brasileiras, mas sim a transformação do imaginário do torcedor brasileiro sobre o futebol. Como dito anteriormente, se até alguns anos atrás as atenções se concentravam no futebol nacional, hoje o olhar se volta para fora.

Um exemplo aparece na reportagem “Paixão estrangeira: jovens têm escolhido cada vez mais clubes de fora”, publicada pela revista “Placar” no final de 2014. A matéria mostra a crescente filiação de jovens torcedores brasileiros a times europeus e apresenta um dado interessante: de cada 10 camisas de times de futebol infantis vendidas na maior loja de artigos esportivos do Brasil, 6 são de equipes do Velho Continente.

Crianças do Colégio Santa Maria (SP) optam por camisas do Manchester United e do Real Madrid na hora do futebol.

Crianças do Colégio Santa Maria (SP) optam por camisas do Manchester United e do Real Madrid na hora do futebol.

Entre as razões apresentadas para a ocorrência deste fenômeno se destaca o desejo dos pequenos torcedores brasileiros de se vincularem a grandes equipes do futebol mundial, que, segundo eles, protagonizam os melhores jogos (espetáculos) e que contam com os craques do momento.

Como destacado no início, a possibilidade de mudanças é algo que perdura, o que pode fazer com que em um futuro próximo o Brasil volte a ser visto como o detentor do melhor futebol do mundo. Entretanto, desde já as narrativas em torno do imaginário do futebol brasileiro se apresentam como um interessante objeto de estudo para os pesquisadores que trabalham com a tríade comunicação, esporte e cultura.

Adestrando torcedores: imprensa, violência e espetáculo.

terça-feira, abril 7, 2015 Deixe um comentário

Segundo grande parte da imprensa brasileira, o futebol nacional passa por uma grande crise que se tornou inegável após o 7 x 1 contra a Alemanha. Essa crise teria como causas fatores como:  a ausência de bons jogadores atuando no Brasil, a falta de investimento nas categorias de base, o modo ultrapassado de gestão dos clubes e os casos de violência envolvendo torcedores etc [1].

Particularmente, a questão da violência nas torcidas virou, nos últimos meses, um tema frequentemente debatido pela imprensa esportiva. Debatido entretanto, de modo superficial, onde as ideias são calcadas no senso comum, na falta de argumentos melhor fundamentados, num desfile de estereótipos e, sobretudo, na vontade de defender um modelo ideal e desejado de torcedor que atenda às demandas de um futebol considerado moderno e “civilizado”.

Nesse processo as torcidas organizadas foram configuradas como as grandes vilãs da história, sendo responsabilizadas pela violência e o esvaziamento dos estádios. Elas são geralmente qualificadas como agrupamentos que se opõem aos “verdadeiros” torcedores que seriam aqueles que vão aos jogos e se comportam de modo ordeiro.

Estamos diante de mais uma luta simbólica pelos “significados do torcer” (TOLEDO, 1999), em que novamente a imprensa toma para si o papel de defender quem seriam os legítimos torcedores que podem ocupar as arquibancadas dos estádios. Para essa defesa, o que se percebe atualmente é uma exaltação de políticas repressivas, meramente punitivas e que frequentemente beiram à arbitrariedade e ao autoritarismo.

Como já demonstrou Ronaldo Helal desde já nas décadas de 1970 e 1980, a imprensa fez constantes referências a crise no futebol brasileiro, crise esta que se fazia notar na “queda de público, a perda do prestígio internacional do nosso futebol, a desorganização administrativa, a fragilidade financeira dos clubes (…)” (1997, 58) [1].

Há, portanto, uma tendência de adestramento do público torcedor. Soluções rápidas, sem mediações, sem diálogos são a base das medidas propostas por grande parte da imprensa esportiva no Brasil que constantemente clama pela implantação do “modelo inglês” de segurança nos estádios, sem sequer mostrar conhecimento mais profundo sobre suas estrutura e implicações.

Sendo assim, o tipo de abordagem que a imprensa esportiva costuma adotar em relação ao tema da violência no futebol praticamente não oferece oportunidade de se promover uma discussão pública que de fato contribua para soluções construídas através do diálogo com os torcedores, considerando-os em seus direitos civis.

Podemos também levantar a hipótese de que o tipo de abordagem dada ao tema da violência, amplifica e alimenta uma atmosfera de medo em torno de alguns jogos, em grande medida porque a mesma violência que é condenada transforma-se em espetáculo nas páginas esportivas, assim como nas telas de TV.

As lutas pelos significados do torcer

Em seu texto “A invenção do torcedor de futebol: disputas simbólicas pelos significados do torcer”, Luiz Henrique de Toledo demonstra que desde seus anos inicias, no Brasil, os cronistas de jornais costumavam relacionar a presença da participação das camadas populares nos jogos como um dos fatores que provocavam o aumento da violência:

(…) a crônica da época da época denunciava a falta de educação esportiva dessas assistências, passando a não noticiar, deliberadamente, a violência que reinava entre os próprios sócios e sportmendos clubes de elite (TOLEDO, 1999, 148).

Com o aumento gradativo da participação popular nas arquibancadas também aumentavam as manifestações de preocupação com o comportamento da massa. Um dos modos de controle foi encontrado nas Torcidas Uniformizadas, criadas na década de 1940. Tais agrupamentos eram formados em sua maioria por sócios dos clubes, oriundos da classe média e sua presença nos jogos costumava ser comemorada pela imprensa da época, já que eles desempenhariam:

(…) um papel dirigente capaz de integrar e regular e até mesmo manter a ordem na assistência dos espetáculos esportivos. Estas torcidas nasceram inspiradas e bastante delineadas pelas fortes motivações ideológicas da época, cuja sensibilidade política estava alicerçada e difundida em torno das ideias de raça, nação, ordem e, sobretudo, juventude. De algum modo, como pode ser notado, estas primeiras organizações torcedoras evocam tais aspirações nacionalistas com grande anuência e chancela dos setores da elite que ocupavam os cargos dirigentes no âmbito dos esportes, os meios de comunicação e parte dos aparelhos dos Estados (TOLEDO, 1999, 150).

No final da década de 1960, outro modelo de torcer surge no cenário futebolístico. As torcidas organizadas que diferentemente das uniformizadas, eram formadas por indivíduos de diversos setores e estratos sociais, oferecendo, portanto, uma maior complexidade em sua estruturação. As organizadas nascem em um contexto politicamente turbulento no Brasil em que os direitos civis estavam correndo o risco constante de serem cerceados pela ditadura militar. A Gaviões da Fiel foi o primeiro desses novos agrupamentos:

Surgidos em fins da década de 1960, à sombra de uma nova etapa de expansão do futebol profissional e do estabelecimento de um torneio de alcance nacional, que se potencializava com o advento da televisão na emissão ao vivo das partidas, Os Gaviões da Fiel constituíam um embrionário agrupamento que estabelecia as bases para um novo tipo de associação e organização no interior do futebol. Inicialmente distanciados e dissidentes do clube, reclamavam a si o direito de representatividade, de participação e de pressão sobre uma administração considerada autoritária(HOLLANDA, 2008, 22).

Embora tenham uma formação mais hibrida, esses agrupamentos são compostos por um grande contingente de jovens do sexo masculino e oriundos de zonas periféricas. A partir do final dos anos de 1980, uma série de episódios violentos envolvendo as torcidas organizadas contribuem para que elas passem a ser vistas como anomalias do futebol. Essa imagem negativa se agravaria com a morte de Cleofa Sóstones Dantas da Silva,  então presidente da Mancha Verde, em 1988, em frente à sede dessa torcida. Em 1995, também foi um ano marcante já que nele ocorreu a chamada “Batalha campal do Pacaembu” que consistiu em um confronto entre torcedores do Palmeiras e do São Paulo, ocorrido após uma invasão de campo e que resultou na morte de um jovem [2].

Esses episódios marcaram uma intensificação na representação das torcidas organizadas como grupos formados em sua maioria por marginais, jovens desocupados que fazem do futebol uma mera oportunidade para praticar vandalismo e cometer crimes. Fez-se surgir um clamor pelo banimento da presença das organizadas nos estádios, o que de fato ocorreu em São Paulo que proibiu a entrada da Torcida Mancha Verde.

A proximidade da Copa do Mundo de 2014, fez crescer o coro contra as organizadas, sobretudo, após a briga ocorrida entre torcedores do Vasco da Gama e Atlético Paranaense, pela última rodada do Campeonato Brasileiro de 2013. Destaco as avaliações feitas por dois colunistas que se mostraram bastante preocupados com os eventos e a chegada da Copa do Mundo:

É evidente que além de fichar e encarcerar os baderneiros, é preciso punir também – e rigorosamente – os clubes (…) corremos o risco de ver cenas dantescas como as da Arena Joinville até mesmo durante a Copa do Mundo, ano que vem (Grifos meus, O Globo, 10/12/2013, p. 39) [3].

É esta a vergonha para todo país – dois dias depois do sorteio dos grupos da Copa do Mundo e a seis meses do início da Copa (O Globo, 09/12/2013) [4].

O interessante de se perceber é que ao mesmo tempo em que se condena a violência, ela é mostrada com todas as cores, num espetáculo com closes de rostos sangrando, de chutes e outras manifestações corpóreas de agressão.

A briga ocorrida nas arquibancadas da Arena Joinville, durante Vasco X Atlético Paranaense foi narrada durante a transmissão do jogo. Embora o narrador diga que “são cenas de uma batalha campal que não gostaríamos de estar registrando num domingo de futebol”, o fato é que as imagens– muitas das quais bastante fortes –foram mostradas ao vivo, como um espetáculo [5]. Chama a atenção os closes dados pelas câmeras de TV no momento em que um dos torcedores leva uma sequência de chutes na cabeça. [6] No dia seguinte as manchetes dos jornais impressos também davam ênfase a essa mesma cena.

Capa de O Globo, 09/12/2013.

Imagem 1. Capa de O Globo, 09/12/2013.

Imagem 2.

Imagem 2.

O mesmo tipo de abordagem se viu na “Batalha do Pacaembu” também mostrada ao vivo [7] e repetidas vezes em matérias posteriores.

Imagem 3.O Estado de são Paulo, 21/08/1995.

Imagem 3. O Estado de são Paulo, 21/08/1995.

O discurso adotado por parte da imprensa mistura recriminação e clamor por punição, mas, essa mesma imprensa não cessa de mostrar imagens fortes de pancadarias nas telas de TV e nas páginas impressas, fazendo da violência mais um espetáculo a ser mostrado, visando atrair a atenção do público receptor [8].

Para falar sobre e mostrar a violência, a imprensa vale-se da “crença socialmente compartilhada na utilidade da notícia, o jornal e, por extensão, o jornalista, dispõem atualmente, de uma autoridade específica que lhe permite participar, à sua maneira, da discussão dos problemas sociais e, mais que isso, da definição de sua prioridade (SILVA, 2010, 154).

Fazendo uso dessa autoridade, tornou-se recorrente os pedidos da imprensa por punição e banimento dos “vândalos” que manchariam o espetáculo esportivo e provocariam o afastamento do “verdadeiro” torcedor dos estádios. Esse aspecto fica evidente na coluna de Fernando Calazans, publicada após a prisão de mais 100 torcedores envolvidos em brigas ao redor do Estádio Engenhão durante o clássico Fluminense X Vasco, em fevereiro de 2015:

A luz que se acende, ainda de forma tímida, é a prisão de 118 torcedores, os maiores de idade transferidos para o complexo penitenciário de Bangu, os menores encaminhados à Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente. Os primeiros vão ser indiciados por formação de quadrilha. Infelizmente é o que se deve fazer (O Globo, 25/02/2015) [9].

Discursos como esses são comuns de serem lidos e ouvidos da boca de muitos jornalistas, comentaristas e cronistas esportivos, sendo raras as vozes dissonantes. A punição é entendida como o único caminho a ser seguido caso se queira combater os casos de violência envolvendo torcedores. E com poucos questionamentos, se evoca o exemplo inglês como modelo a ser adotado no Brasil, concebendo-o como mais eficaz já que teria livrado os estádiosda Inglaterra da ação dos hooligans.

Entretanto, cabe ressaltar que o modelo inglês – e outros semelhantes adotados em algumas partes da Europa – de combate à violência no futebol vem sendo questionado por estudiosos já que se fundariam em ações repressivas que se limitam a vigiar e controlar indivíduos considerados suspeitos ou de risco, muitas vezes a partir de critérios pouco claros para tais definições: “lutar contra os sintomas do hooliganismo, enfim, acabou por focalizar as políticas de controle sobre o único objetivo de proteger a ordem pública em detrimento da ordem democrática” (TSOUKALA, 2014, 29).

Tem-se chamado atenção para dados que indicam que o Brasil é “a nação que mais mata por causa de futebol em todo o planeta”. Mas esquece-se que o Brasil é um dos países onde mais se mata no mundo.  Portanto, é preciso analisar os casos de violência no futebol como fenômeno que não é restrito a esse universo esportivo, mas ao contrário é parte integrante da violência que perpassa a sociedade brasileira como um todo.

E mandar para a cadeia não se mostra a melhor solução, afinal apesar do grande número de prisões, o Brasil é um dos países mais violentos do mundo, segundo o Informe da Anistia Internacional/2014/15. O estado dos direitos humanos no mundo. Esse documento conclui que parte dessa violência também é derivada de excessos e abusos cometidos pela polícia, como os que ocorreram nos protestos que antecederam a Copa do Mundo:

Os protestos adquiriram uma dimensão sem precedentes, quando centenas de milhares de pessoas participaram de extensas manifestações em dezenas de cidades de todo o país. Em muitas ocasiões, a resposta da polícia à onda de protestos em 2013 e 2014, inclusive durante a Copa do Mundo, foi violenta e abusiva. A polícia militar usou gás lacrimogêneo de forma indiscriminada contra os manifestantes, inclusive dentro de um hospital, atirou com balas de borracha em indivíduos que não apresentavam qualquer ameaça e espancou as pessoas com cassetetes (…) Outras centenas foram cercadas e detidas de forma indiscriminada, algumas com base em leis de combate ao crime organizado, sem a menor indicação de que estivessem envolvidas com atividades criminosas.

Diante de questões como essas, é bastante temeroso, celebrar a prisão de mais de 100 torcedores, envolvidos em brigas, a partir do enquadramento penal de formação de quadrilha, sobretudo sabendo-se da falta de uma investigação comprobatória. Além disso, é válido lembrar que o Brasil já tem uma das maiores populações carcerárias do mundo, e nos últimos 15 anos o país prendeu 7 vezes mais que a media mundial. As cadeias estão superlotadas e povoadas de indivíduos que cometeram delitos cuja pena poderia ser cumprida de modo alternativo. Prender por envolvimento em brigas está longe de ser a melhor solução. Ao contrário, devido as suas condições precárias as cadeias no Brasil são uma escola de formação de marginais.

Outra questão quase sempre esquecida pela abordagem da imprensa diz respeito ao despreparo do policiamento realizado nos estádios e seu entorno. Esse despreparo se faz notar na truculência usada em relação aos torcedores:

Quem chega a um estádio de futebol em dia de um jogo minimamente importante tem a impressão de chegar a uma praça de guerra (…) Embora haja centenas de policiais espalhados em volta do estádio, todavia, eles não garantem um mínimo de respeito ao direito dos torcedores (…) É que no Brasil ‘segurança’ tem um significado perverso: ela é usada como sinônimo para policiamento e até mesmo para a violência pura e simples. Sendo assim, desprezam-se fatores essenciais constitutivos da segurança pública nos estádios (ALVITO, 2014, 41).

E como uma batalha alguns jogos são noticiados pela imprensa, como foi o caso de Flamengo X Botafogo, válido pelo campeonato carioca de 2015. A matéria intitulada “Segurança máxima. Tudo pela paz” afirma que “uma operação de guerra é montada para o clássico de domingo, entre Botafogo e Flamengo, válido pela sétima rodada do Campeonato Carioca e comemorativo do aniversário de 450 anos do Rio” (Grifos meus, O Globo, 27/02/2015, p.32).

Para ir a um jogo assim representado é necessário que ele seja decisivo ou contenha algum elemento especial, como foi o caso de Flamengo X Botafogo, em que se comemorava os 500 anos do Rio de Janeiro e era a partida pela qual o jogador Léo Moura atuaria pela última vez em um clássico, antes de sua transferência para os Estados Unidos.

Ao invés de se oferecer uma atmosfera de segurança, a presença de policiais armados e munidos de cassetetes nos passa a sensação de desconforto, afinal qualquer mínimo indício de tumulto pode gerar uma reação desmedida por parte do policiamento. Às vezes dá medo torcer:

Imagem 4. Vasco da Gama X Fluminense, 22/02/2015. Foto minha

Imagem 4. Vasco da Gama X Fluminense, 22/02/2015. Foto minha.

Enquanto isso, louva-se a inciativa de setores com torcida mista, como ocorreu no clássico Gre-Nal – e pede-se que a família volte a frequentar os estádios, sendo que por trás desse termo “família” costuma-se ocultar uma série de pressupostos moralizantes e de adestramento [10].

Público ordeiro e bonito de se ver é aquele buscado pelas telas de TV e pelas câmeras de fotografia:mulheres segurando crianças, beijando os maridos, ou namorados. Amigos se abraçando, idosos e idosas presentes nas arquibancadas etc.  Enfim, pessoas consideradas “civilizadas” que sabem torcer e que contribuem positivamente para o espetáculo futebolístico.

O papel desempenhado por grande parte da imprensa esportiva é o de não oferecer – ou oferecer precariamente – uma análise dos fenômenos a partir de uma perspectiva que proporcione um diálogo que viabilize uma discussão séria de um dos problemas que certamente aflige o futebol brasileiro. E precisamos estar atentos para as limitações das abordagens da imprensa:

Quando se tenta operar analiticamente com noções como violência, crime e corrupção, percebe-se que permanecemos muito próximos dos problemas e alternativas imediatas das políticas públicas e da denúncia crítica politicamente correta, mas sob o preço, sempre muito alto para a exigência de objetividade, de favorecer o chamado ‘pensamento único’ (…) Ao contrário de favorecer a compreensão do que se passa, corremos o risco de apenas participarmos de sua reprodução (MISSE, 1999, apud SILVA, 2010, p. 23)

As soluções não podem ser concebidas de modo superficial. Reduzir o problema da violência no futebol à ação das organizadas indica:

  • Acreditar que somente indivíduos vinculados a esses grupos são capazes de cometer atos violentos, hipótese, aliás, bastante questionável.
  • Esquecer que a grande maioria das organizadas não possui um cadastro completo de seus membros e que é muito fácil comprar uma camisa ou objetos com os símbolos desses agrupamentos sem nunca tê-los frequentado.

Reduzir os casos de violência no futebol à ação das organizadas e pedir seu banimento também é esquecer que se tratam de atores sociais muito importantes na história do futebol nacional. Atores que, aliás, tiveram participação relevante para o ambiente festivo e emocionante tão valorizado pelas notícias esportivas. Com isso, perde-se a oportunidade de buscar estratégias de segurança pública, fundadas não somente no enfrentamento.

Muitos casos de violência envolvendo torcedores podem ser plenamente cobertos pelo Código Civil tornando desnecessária a criação de leis específicas para o futebol. Quem mata alguém durante algum confronto de torcedores, deve ser punido por homicídio como previsto em Lei. Assim como quem promove arruaça ou outras formas de agressão também devem arcar com as consequências legais desses atos.

Para que haja prisão é preciso antes de tudo de provas concretas obtidas a partir de investigação e não de modo arbitrário. E se a imprensa de fato quiser contribuir para a diminuição da violência no futebol, é importante que ela atente para uma série itens que também estão diretamente relacionados à segurança: a dificuldade de compra dos ingressos, assim como seus altos preços; os péssimos serviços oferecidos nos estádios (preços abusivos de comida e bebida, sujeira, filas gigantescas para se entrar no estádio etc.); a ausência de um esquema de transporte público que possibilite a chegada e retorno dos torcedores, entre tantos outros problemas.

Como já demonstrou Reis (2010) o Estatuto do Torcedor não é devidamente cumprido e poucos são os torcedores que conhecem seus direitos previstos nesse documento. Isso em grande medida ocorre porque as Leis no Brasil são feitas por um pequeno grupo de especialistas e somente por eles compreendida e dominada. Tratam-se de leis impostas de cima para baixo, sem interlocução pública:

Já no Brasil, ao contrário, o sistema jurídico não reivindica uma origem ‘popular’ ou ‘democrática’. Ao contrário alega ser produto de uma reflexão iluminada, uma ‘ciência normativa’ que tem por objetivo o controle de uma população sem educação, desorganizada e primitiva. Os modelos jurídicos de controle social, portanto, não tem nem poderiam ter como origem ‘a vontade do povo’ enquanto reflexo do seu estilo de vida, mas são resultados dessas formulações legais especializadas, legislativa ou judicialmente (KANT DE LIMA, 1999, 24).

Por isso, é preciso incorporar o diálogo com os torcedores e não criminalizá-los para que se busque soluções para as violências no futebol brasileiro, entendendo que os torcedores podem ser “atores capazes de desenvolver mecanismos de autorregulação ou capazes de se erigir como interlocutores valiosos aos olhos dos tomadores de decisão” (TSOUKALA, 2014, 29).

Não há uma única forma de torcer, não há o “verdadeiro torcedor”, por mais que a imprensa esportiva queira construir essa imagem idealizada e que obedece às demandas de um futebol que se deseja “civilizado”, um espetáculo higienizado para se mostrar. Afinal, torcer não é crime.

[1] Como já demonstrou Ronaldo Helal desde já nas décadas de 1970 e 1980, a imprensa fez constantes referências a crise no futebol brasileiro, crise esta que se fazia notar na “queda de público, a perda do prestígio internacional do nosso futebol, a desorganização administrativa, a fragilidade financeira dos clubes (…)” (1997, 58)

[2] A “Batalha campal do Pacaembu” foi um dos mais graves confrontos entre torcedores. O episódio ocorreu após o fim do jogo decisivo entre São Paulo x Palmeiras pela Super Copa São Paulo de Futebol Júniors, em 1995, no Estádio do Pacaembu. A briga resultou na morte de um torcedor e mais de 100 feridos. Muitos dos objetos usados noconfronto, como pedras e pedaços de madeira, foram pegos nos entulhos de uma obra que estava sendo feita no Pacaembu.

[3] Boçais e omissos. Renato Mauricio Prado

[4] Selvageria no país da Copa. Fernando Calazans.

[5] É comum que a imprensa transforme a violência em espetáculo, basta lembrarmos da cobertura do Caso Eloá e do sequestro do ônibus 174.

[6] Esse vídeo pode ser acessado no YouTube.

[7] O programa Fantástico fez uma matéria especial sobre esse acontecimento que pode ser visto no YouTube.

[8] É válido lembrar que há um público receptor ávido por imagens de violência. Sobre esse aspecto ver SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. Trad. Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. Sobre a participação do público não como mero receptor, mas também como produtor das mensagens ver MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2001.

[9] Fernando Calazans. Ódio em vez de paixão.

[10] A Conmebol em parceria com algumas emissoras de TV promove nos jogos da Taça Libertadores a inciativa Bem vinda a família. Segundo o site dessa instituição: “Bem-vinda Família” é uma campanha de responsabilidade social empresária pan-regional promovida pela CONMEBOL e FIC Latin America que tem por objetivo impulsionar o regresso das famílias aos estádios de futebol para desfrutar deste esporte em um ambiente sem violência. Cabe perguntar o que se entende por família.

 

Referências:

ALVITO, Marcos. A madeira de lei: gerir ou gerar a violência nos estádios brasileiros? In: HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de; REIS, Heloisa Baldy. Hooliganismo e Copa de 2014. Rio de Janeiro: 7Letras, 2014.

HELAL, Ronaldo. Passes e impasses. Futebol e cultura de massa no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1997.

KANT DE LIMA, Roberto. Polícia, justiça e sociedade no Brasil: uma abordagem comparativa dos modelos de administração de conflitos no espaço público. Revista de Sociologia e Política. N. 13: 23-38, Nov., 1999.

REIS, Heloisa Helena Baldy. O espetáculo futebolístico e o Estatuto de Defesa do Torcedor. Rev. Bras. Cienc. Esporte. Campinas, v.31, n.3, p.111-130, maio 2010.

SILVA, Edilson Márcio almeida da. Notícias da ‘violência urbana’: um estudo antropológico. Niterói: Editora da Universidade Federal Fluminense, 2010.

TOLEDO, Luiz Henrique de. A invenção do torcedor de futebol: disputas simbólicas pelos significados do torcer. In: COSTA, Marcia Regina da (et al). Futebol, espetáculo do século. São Paulo: Musa Editora, 1999.

TSOUKALA, Anastassia. Administrar a violência nos estádios da Europa: quais racionalidades? In: HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de; REIS, Heloisa Baldy. Hooliganismo e Copa de 2014. Rio de Janeiro: 7Letras, 2014.

O mito da caverna: o melhor futebol do mundo

sexta-feira, abril 3, 2015 Deixe um comentário

Uma das passagens mais clássicas da história da Filosofia me encorajou a escrever este ensaio, que metaforicamente pretende discutir o mito do “melhor futebol do mundo” ou pelo menos criar uma reflexão sobre a imprensa especializada e sobre a torcida que, num ato de fé apostólico romano, continua acreditando naquela (a imprensa) e na supremacia verde amarela; esta responde a interesses midiáticos, mascarando uma realidade cartesiana. O ranking da FIFA e os resultados obtidos pela seleção nacional nas últimas três Copas do Mundo são dados irrefutáveis.

O mito da caverna

Não é de ontem que a televisão a cabo (o solde Platão) nos mostra o desenvolvimento do futebol mundial, nos permite enxergar a verdadeira realidade; a UEFA Champions League, a Bundesliga e a Premier League, entre outras, onde uma legião estrangeira  multirracial (tem até mulatos e sua ginga) de gladiadores proporcionam belos espetáculos,partidas emocionantes e incontestáveis lucros financeiros que reforçam (num círculo virtuoso) a qualidade do espetáculo e todo seu entorno.

Todos os prisioneiros da caverna (Maracanã ou Mineirão ou Olímpico) somente observam às sombras dos craques, do melhor futebol do mundo, do mais difícil campeonato nacional do planeta (e mais deficitário também) e do futebol arte, com média de público inferior a quinze mil prisioneiros. Todos iluminados pela fogueira platônica travestida de TV aberta.

A expectativa era de que o “Mineiraço”, o prisioneiro libertado que trouxe a boa nova, fosse digno de credibilidade e iniciasse a desconstrução desse mito de “melhor do mundo”, que insiste em fazer prevalecer as imagens sobre os conceitos,  apesar dos dados.

Nesta reveladora partida, a supremacia da Alemanha não foi midiática e sim real (7 a 1), mostrando superioridade em aspecto tático, técnico, de conjunto e principalmente de equilíbrio emocional, despindo perante os olhos do mundo a realidade que atravessa o futebol brasileiro. O apagão generalizado foi o culpado da derrota segundo a comissão técnica, e, como aconteceu na alegoria da caverna, ninguém acreditou na realidade revelada pelo sol e enxergada pelo prisioneiro liberto. Este “apagão” vem iluminar a eterna prepotência e arrogância canarinha; nunca o adversário ganha, sempre é ela que perde.

Love money, hate ethics

sexta-feira, março 27, 2015 Deixe um comentário

Fornecedora oficial, desde 1970, da bola utilizada nas competições oficiais da FIFA, a Adidas cansou de colocar a bola dentro de campo. No entanto, agora resolveu colocar uma bola fora “homenageando” o atacante uruguaio Luís Suarez, não por seu desempenho profissional tanto na seleção uruguaia como no time do Barcelona, mas sim, pela extrema competência que o mesmo tem na antropofagia futebolística demonstrada em mais de uma oportunidade.

Esta prática é totalmente rejeitada pela entidade maior do futebol mundial, que não acredita no sentido etimológico da palavra, nem no sentido mágico religioso dessa prática, que exprime o respeito e o desejo de adquirir as características do “comido”. O Comitê Disciplinar, usando como base os artigos 48 e 57[1] do Código Disciplinar, aplicou uma suspensão ao praticante, vetando sua participação em toda e qualquer competição oficial da entidade por nove partidas.

love money 1

 

Esta sanção foi aplicada após a mordida que Luisito aplicou no defensor italiano Giorgio Chienelli, durante a partida entre Uruguai e Itália, valendo vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2014, realizada em Natal- RN; partida vencida pela seleção celeste por 1 a 0, com o gol de Diego Godin, aos 36 minutos da etapa final.

Apesar de o árbitro mexicano Marco Rodrigues ter ignorado o lance, as imagens geradas pela TV FIFA são bem claras e o artigo 77 do Código Disciplinar prevê a possibilidade de imposição de pena, mesmo sem a advertência do juiz.

love money 2

A campanha publicitária promovida pela Adidas, objeto deste artigo, responderá ao sugestivo nome de “Love and Hate” e será estrelada muito merecidamente pelo atacante uruguaio.

Após uma demorada análise do nome da campanha, não consegui decifrar por completo o título da mesma, logo ainda me resta saber a que ódio se refere; já o amor não deixa nenhuma dúvida, está falando de AMOR ao dinheiro por sobre toda a ética e códigos disciplinares.

[1]O art. 48 trata de conduta agressiva contra adversários durante as partidas, mais especificamente no item “c”, que prevê uma partida de suspensão por conduta antidesportiva em relação a um adversário; e o item “d”, que prevê dois jogos de punição por agressão. Já o artigo 57 prevê multa, advertência ou repreensão por conduta ofensiva e falta de fair play.

LEME divulga vídeos com o pesquisador e geógrafo Gilmar Mascarenhas

De modo a dar continuidade ao projeto de pesquisa desenvolvido pelo Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME), que conta com a colaboração de pesquisadores que se dedicam à área da Comunicação e do Esporte, estão aqui mais três vídeos que foram publicadas recentemente. A entrevista com o pesquisador e geógrafo Gilmar Mascarenhas foi dividida em três eixos: trajetória acadêmica do pesquisador, geografia histórica do futebol no Brasil e estádios no Brasil.

Estes vídeos têm como objetivos apresentar pesquisas acadêmicas concluídas ou em andamento na área das Ciências Sociais e  Humanas (em especial, da Comunicação), além de colaborar na criação de trabalhos acadêmicos, por graduandos ou pós-graduandos, que se inserem na mesma temática.

Todos os vídeos gravados pelo LEME podem ser assistidos em nosso canal no YouTube.

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E lá se vão dez anos…

terça-feira, março 17, 2015 Deixe um comentário

Em 2005 escrevi um dos meus primeiros textos sobre a cobertura midiática dos Jogos Paralímpicos. Esse ano, então, comemoro dez anos de pesquisa na área, de lá para cá pouca coisa mudou, principalmente a necessidade de gerar sentimento de pena. Esse sentimento não é exclusivo da cobertura esportiva, ela está presente também na indústria fílmica, na publicidade e em nas páginas dos jornais, em diversas editorias, quando o assunto é deficiência. As imagens perpetuadas são, geralmente, aquelas que nos dão a ideia de superação de limites. O fato é que o esporte gira em torno de superação de limites, de tempo, de esforço, recordes, o problema é que no esporte paralímpico a superação cinge-se à deficiência. Parece ser algo inerente ao ser humano, sentir pena e ao mesmo tempo sentir-se inspirado por aquele que decidiu viver, mesmo em condições desfavoráveis, o que pode gerar o estigma da deficiência. Esse estigma é grave, uma vez que transforma essas pessoas em seres incapazes, improdutivos, indefesos, sempre deixados em segundo lugar na ordem das coisas. Ou seja, as pessoas com deficiência enfrentam duplamente os efeitos da vulnerabilidade social. Primeiro, por não serem reconhecidas socialmente como sujeitos produtivos, e com consequente dificuldade de inserção no mercado. E segundo, mesmo pela impossibilidade de garantirem sua autonomia econômica, social e simbólica, resultando em exclusão e isolamento ao não fazerem parte da sociedade produtiva. O sujeito com deficiência, torna-se reduzido a essa deficiência, o que o impede de exercer seu papel social de indivíduo. Em nossa sociedade somos, cada vez mais, impelidos a atingir o ideal corporal imposto, a atingir o sucesso em um ambiente educacional altamente competitivo, a acumular o máximo de saúde, status e independência nos locais de trabalho, e tornarmo-nos pessoas desejáveis através da imagem, vestuário, papéis desempenhados, e habilidades. Assim dentro dessa cultura narcisista, faz algum sentido que as partes de nós que não se enquadram nessas expectativas tornem-se inaceitáveis para nós.

Paratleta Fernando Fernandes na Revista Sport Magazin, da Aústria.

Paratleta Fernando Fernandes na Revista Sport Magazin, da Aústria.

Atualmente as cirurgias estéticas, depilação, personal trainers, dietas e uma série de tratamentos de saúde e beleza, são caminhos utilizados pelo sujeito moderno para corrigir “falhas” em sua aparência. Na sociedade contemporânea atomizada, o corpo é, para muitas pessoas, uma das poucas áreas de controle e auto expressão remanescentes, uma vez que se não se tem controle sobre a complexidade da sociedade, pelo menos se consegue controlar, em alguns casos, algumas características corporais como forma e tamanho.  O corpo é, assim, cada vez mais, usado como marcador de distinção e como uma entidade que está em processo de tornar-se; um projeto que deve ser trabalhado e realizado como parte da identidade do indivíduo. Contudo, as pessoas com deficiência funcionam como um lembrete desconfortável de que nós podemos não estar totalmente no controle de nosso destino e que nossos corpos e mentes estão vulneráveis.

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Novas tecnologias da Era Digital: seria uma das causas da fraca seara no celeiro de craques no futebol brasileiro

sábado, março 7, 2015 Deixe um comentário

A revelação de jogadores fora de série atravessa um forte declínio na última década no Brasil; nesse período somente 2 jogadores foram eleitos como melhores do mundo: Ronaldinho Gaúcho, em 2005, e Kaká, em 2007. Na década entre 1994 e 2004, o Brasil emplacou a eleição de 4 jogadores em 6 oportunidades: Romário, em 1994, Ronaldo, em 1996, 1997 e 2002,   Rivaldo, em 1999, e Ronaldinho Gaúcho, em 2004, selando o fim da hegemonia de craques do futebol brasileiro. Estes números correspondem a um universo de mais de 2 milhões de atletas.

Por outro lado, o Brasil ganhou o seu último titulo mundial Sub-17 em 2003, na Finlândia, prenúncio de novas gerações sem muito brilho.

É inegável que as novas tecnologias na era digital têm promovido uma revolução no esporte. O uso destas tecnologias tem propiciado um trabalho multidisciplinar em prol de avanços significativos nas várias perspectivas que os esportes em geral englobam. Desde a medicina (enquadrando aqui, diagnóstico médico, nutricionista, fisiologista e fisioterapeuta) à preparação física (agora tem preparador de goleiro, de defesa e de ataque) passando pelo material esportivo usado para a prática do esporte em si; pelas comunicações, que têm determinado o ritmo e até alterado regras específicas e a globalização econômica e midiática, todos, sem exceção, têm realizado intervenções indeléveis e nem sempre positivas. Estas são aplicadas no mundo do esporte profissional, onde assistimos dia após dia à falta de craques. Normalmente, temos jogadores medíocres que são incapazes de  acertar fundamentos, desconhecem as regras oficiais e fazem do jogo um possível trampolim a herói ou a uma transferência para o Velho Mundo ou à China…; em última instância uma ascensão social via um empresário marqueteiro.

No Brasil, 82% dos atletas recebem até 2 salários mínimos e 2% recebem acima de 20 salários mínimos – indicador sutil desta mediocridade. Porém, não quero focar este artigo nessa área, me interessa trazer à tona uma inquietude sobre o elemento mais importante da pratica esportiva: o nascimento do jogador de futebol. Qual o processo de formação destes futuros atletas, o que mudou nesse processo nas últimas décadas para plasmar a decadência técnica/criativa hoje observada.

novas tecnologias no esporte 1

Obdulio Varela

Lendo o livro “En la Cumbre de lãs Hazanhas”, do escritor uruguaio José Eduardo Picerno, sobre a vitória da Celeste Olímpica contra o Brasil na final da  Copa do Mundo de 1950, me chamou muito a atenção uma declaração em 1951 de Obdulio Varela, capitão da seleção uruguaia. Ao ser questionado sobre a procedência da qualidade dos jogadores uruguaios, que detinham 4 títulos mundiais de futebol entre 1924 e 1950, ele afirmava que as ruas do bairro e os times de bairro eram os maiores formadores de jogadores de futebol, processo parecido ao qual encontramos no Brasil em um período posterior.

Os “futuros jogadores” tinham à disposição ruas sem trânsito e terrenos baldios facilmente adaptados numa quadra de futebol. Além dessa disponibilidade do território, o mais importante era ter tempo livre para brincar. As crianças das décadas de 1910 até 1960 tinham tempo livre após a escola, o que permitia a prática do esporte durante 3 horas por dia em média, tal era o prazer que a atividade lúdica proporcionava.

Sem contar que outros elementos como a TV-computador, celular e vídeo games estavam atrelados à ficção científica – que não era um equipamento comum nos lares dos trabalhadores, de onde provém a grande maioria dos jogadores, não disputavam tempo com o futebol. Estas horas de brincadeiras em terrenos irregulares cheios de obstáculos, com bolas de borracha ou trapo e normalmente com roupa e calçados inadequados para a prática de esportes, dotavam às crianças de um vasto domínio da bola, técnico e dos fundamentos. Cabe ressaltar que as habilidades desenvolvidas eram fruto de uma atividade lúdica sem maiores obrigações que a de se divertir e brincar, aguçando a criatividade.

novas tecnologias no esporte 2

novas tecnologias no esporte 3

Por se tratar de uma atividade auto-regulamentada, os mais velhos (estavam no comando) ensinavam aos mais novos as regras, os posicionamentos, como passar, driblar e chutar, as malandragens, e o mais importante, o respeito e a lealdade (já que uma queda no asfalto devido a uma falta desleal seria o fim do jogo). Mesmo se houvessem? Somente poucos jogadores para uma partida desenvolviam outras atividades que auxiliavam de forma imperceptível a adquirir a técnica e o domínio da bola. Entre estas atividades contamos: torneio de embaixadas, bobinho e linha de passe entre outras, aonde a associação da criatividade com o futebol se dava de forma lúdica.

Quando adolescentes, abandonavam o futebol de rua – a Polícia era intransigente com o jogo de bola na rua, mais ainda se tratando de “marmanjos”- iam jogar no time do bairro, portando uma bagagem de vários anos, brincando várias horas por dia, com domínio da bola e dos fundamentos. Sempre eram dirigidos por técnicos amadores, na sua grande maioria ex-atletas, que exerciam a atividade sem fins de lucro material; normalmente o prestigio e a tradição do bairro de ter o melhor time era o mais importante. O próximo passo dos que se destacavam nos torneios entre bairros era a indicação para um clube profissional, aonde chegava com um knowhow consistente, requerendo só uma lapidação.

Sem saudosismo, e simnovas tecnologias no esporte 4 fazendo uma analogia entre o processo relatado e a realidade da formação contemporânea, numa tentativa de encontrar quais as mudanças e seu grau de interferência no processo atual, que justifique a queda na geração de craques apesar dos avanços tecnológicos. Hoje, as crianças não dispõem de ruas tranquilas, nem de terrenos vazios; mas têm à disposição material esportivo de última geração, quadra de grama sintética, juiz, iluminação e vestiário nas escolinhas de futebol. Normalmente as crianças frequentam 2 aulas de 1 hora por semana.

O interesse é pura e exclusivamente material, onde a criança paga para correr atrás da bola durante 1 hora duas vezes por semana, brincando de “profissional”, onde o aprendizado deixa de lado o espirito lúdico e se torna quase uma obrigação. Alguns times de futebol profissional como o Flamengo tem uma “escolinha de futebol”; melhor dito, o clube tem franquias da escolinha pelo Brasil afora. A sua administração, por exemplo, é comandada por uma empresa terceirizada – Time Forte Marketing Esportivo – especializada em escolas de futebol desde 1994.

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Consta no site escolinhafla.com.br, que a franquia abarca 150 unidades em vários Estados e mais de 9.000 alunos em todo Brasil, o que lhe confere o status de “maior rede de escolas de futebol do Brasil”. Segundo o mesmo site, os alunos são submetidos a uma bateria de testes (ferramentas científicas) com o propósito de otimizar o controle e prescrição do treinamento, complementando a avaliação através da observação do “potencial genético” e qualidades físicas exigidas para a prática do esporte, aumentando inclusive as possibilidades de inclusão social. O site, no entanto, não revela o número de alunos que tenham sido aproveitados nas divisões de base do clube, nem o número de gratuidades de alunos com bolsa.

O próximo passo destes adolescentes “formados” nas escolinhas, são as divisões de base dos clubes profissionais, que há muito tempo deixaram de ser celeiros de craques para se tornarem celeiros de lucro. Observamos que muitos jogadores da base e até profissionais, além de desconhecer as regras do jogo são carentes de fundamentos – erram passes, não tem a mínima noção de posicionamento espacial e nem conseguem levantar a cabeça para ter uma melhor leitura do momento do jogo. Enfim, a única conclusão que chego perante este cenário é que criatividade, conhecimento empírico e técnica refinada não são certamente frutos de nenhuma nova tecnologia, mas fruto da prática constante, e, o mais importante, tudo desenvolvido num ambiente lúdico.

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