O país do futebol e o confronto entre O Rei Pelé e o Pibe Maradona?

Por Hugo R. Lovisolo

*Esse texto é uma versão estendida e modificada do post publicado ontem.

Após a publicação do post “Porque os brasileiros torcem pela Alemanha” no dia 13 de julho, recebi vários comentários críticos, algum deles colocados no próprio blog, entre eles de pessoas que aprecio em termos pessoais e intelectuais. Apenas posso manifestar meu apreço incorporando seus comentários em minhas “especulações” provisórias, pois os conflitos com a Argentina se perdem na história de suas relações com os brasileiros. Trata-se principalmente de adensar a discussão sobre o torcer argentino e brasileiro.

Os comentários mais recorrentes e numerosos apontavam razões, talvez justificações, para o “torcer contra a Argentina”: os argentinos são mal educados, os argentinos nos invadiram, os argentinos sujam a cidade e andam sujos, os argentinos zoavam dos brasileiros (o que foi exacerbado após a derrota para Alemanha). E, por último e muito repetido, os argentinos são insuportáveis em sua mania de defender a Maradona como melhor que Pelé. Os brasileiros não reconhecem como também defendem Pelé e como zoam dos argentinos, sobretudo, nas propagandas veiculadas na televisão que zombam do próprio Maradona.[1] Não sei de nenhuma publicidade argentina na qual Pelé apareça como motivo de chacota.[2]

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Destaquemos uma matéria pública como introdução. Um autor de prestigio, Zuenir Ventura, na sua página do Globo (quinta feira, 17 de julho 2014) escreve tentando um mea culpa por participar das críticas às obras e organização da Copa sob a base de certa desvalorização, que sempre ressurge, do brasileiro. De fato, os arautos do fracasso pareciam desconhecer, de um lado, a experiência brasileira em obras de engenharia e organização de eventos e, do outro, confundir atrasos (cujo objetivo quase sempre é solicitar maior orçamento) com incompetência. Zuenir Ventura diz que não torceu pela Argentina por razões “geopolíticas”. Admitamos que se torça por identificações e/ou pertencimentos, torcemos por Brasil por sermos brasileiros e não por razões “geololíticas”. Também podemos torcer por um time de América Latina por identidade e pertencimento. Zuenir recusa a identidade e o pertencimento ao mesmo referente englobador que a Argentina ainda mantém vivo (Latino América). Com alguma culpa, descreve aquilo que admira da cultura argentina! Até declara que trocaria uma das cinco copas ganhas pelo Brasil por algum Premio Nobel argentino. Importa dizer que torceu por Alemanha para torcer contra Argentina! O argumento central que enunciei no artigo mencionado no início para explicar porque os brasileiros torcem pelo Brasil guiou-se pelo preceito: o adversário de meu adversário é meu aliado de forma absolutamente descontextualizada. Contudo, continuarei a ser um leitor do Zuenir!

Os comentários positivos para “o torcer contra Alemanha” eram de variações do mesmo tema: a admiração pelo futebol alemão e sua gestão e, mais tarde, o marketing altamente positivo realizado pela Alemanha ao longo da Copa e antes. Reconheço que partilho a admiração pelo futebol alemão e sua organização e mais ainda, tenho profunda admiração pela cultura alemã em suas variadas dimensões. Porém, nem por isso torceria por ela se a final fosse contra o Brasil ou contra Colômbia, Chile ou Costa Rica. Poderia, entretanto, ficar à margem da obrigação tão brasileira de torcer e desejar que ganhe o melhor em benefício do espetáculo do futebol. Isto não significa um papel ativo de palavras e gestos para transferir energia para o escolhido, pois, antes do jogo, é difícil saber com certeza quem será o melhor. Se fosse por admiração deveríamos torcer pelos Estados Unidos?. Veja que campanha que fez com pouco tempo de vida como esporte reconhecido nos Estados Unidos! De fato, os mexicanos e brasileiros adultos que escolhem morar em USA por razões bem práticas de condições de vida não torcem pelo time americano no futebol.

O núcleo do marketing alemão parece que esteve centrado em dois objetivos: transmitir o reconhecimento e valorização do Brasil e manifestar a vontade de contribuir com ele (ver como exemplos, além das variadas declarações na televisão, o blog de Rafael Casé e o artigo “O segredo de outro sucesso: como a Alemanha criou empatia com o Brasil”, disponível em globo.com, 15/07/2014). Os alemães se tornariam, além de virtuosos do futebol, simpáticos, alegres, receptivos, enfim, quase brasileiros. Pasmem! Até flamenguistas! Contudo, já na segunda feira pós Copa começaram a aparecer vídeos e textos, em blogs, sítios e jornais que apontavam que os alemães estavam zoando do Brasil e da Argentina. Parecia que o marketing, talvez do politicamente correto da Alemanha, começou a fazer água nos festejos pelo tri. Circula uma foto fantástica de Kroos mordendo um distintivo da policia brasileira e danças dos jogadores imitando a entrada em campo dos brasileiros. O fantástico do futebol é que o herói Kross tem o mesmo preço no mercado que o jovem colombiano James (O Globo, 17/07/2014)!

Contudo, esses motivos positivos foram aparecendo após a derrota contra Alemanha (esta afirmação é pouco controlada, embora consultasse a varias pessoas sobre a mesma, não tenho dados sistemáticos), porém pode ser confirmada, de forma indireta, pelos títulos do Lance “somos alemães desde garotinhos” ou coisas semelhantes aparecidos depois da derrota e na participação ativa da mídia brasileira. O torcer contra a Argentina, no entanto, já se manifestava no jogo com a Bósnia. Teria Zuenir torcido pela Bósnia?

Um garçom do bairro me diz: “levaram sete no rabo e agora torcem pela Alemanha!” Eu quando escrevi partilhava a mesma suspeita que o garçom. Observem, na sua afirmação ele se exclui do ser brasileiro.

A oposição Pelé/Maradona teve destaque nas explicações do “torcer contra”, e embora apresentada como motivo do “torcer a favor de Alemanha”, era para mim um de seus principais motivos para o “torcer contra a Argentina”. O segundo, talvez fosse a esperança da Argentina levar oito pepinos dos alemães. Estou quase convencido de que se isso tivesse ocorrido o marketing alemão teria muito menor importância nas justificativas.

maradona

Durante a Copa do Mundo que acaba de finalizar, a televisão mostrou a presença do Rei Pelé no Maracanã. Galvão Bueno, nosso ícone do jornalismo esportivo, comentou que é necessário que os brasileiros mostrem em relação ao Pelé o tipo de atitudes que os argentinos têm em relação a Maradona. Falou com um tom de pena que reforçava o “é necessário”. Galvão Bueno durante bastante tempo promoveu a oposição com Argentina. Na sua visão, os argentinos eram catimbeiros e desenvolviam um jogo sujo em oposição ao jogo bonito, brasileiro, tão admirado na Argentina. Ultimamente foi modificando sua posição e, durante a Copa, em várias oportunidades salientou o jogo limpo, com poucas faltas, nos confrontos da Argentina. Ganhou em equanimidade. Sua afonia após a transmissão da final o fazia mais humano e simpático. O defeito, pelo qual pediu desculpas, enaltece seu desempenho aproximando-o dos comuns mortais. Assim, Galvão Bueno, deu a pista de que era necessário, para aumentar o entendimento do torcer contra Argentina, focar na oposição entre Pelé e Maradona.

È importante um esclarecimento em parágrafo à parte. Não participo da discussão sobre quem é o melhor, pois para mim carece de sentido e de possibilidades de solução. Dito de forma difícil: há desempenhos que são incomensuráveis em todos os campos! Tenho uma impossibilidade radical em responder a questões do tipo: “quem é melhor Machado de Assis ou Graciliano Ramos”. Acho que a pergunta é insolúvel, irrelevante e pouco produtiva. Considero a ambos mestres em suas modalidades. E disto se trata: Pelé e Maradona, e muitos outros, construíram modalidades de desempenho no futebol que os tornaram cânones esportivo. Contudo, não escolher é optar por conservar o valor da diversidade de modalidades de desempenhos de excelência a partir de suas condições de desenvolvimento. Escolher a alguém superior apenas porque é nosso resulta de um nacionalismo patético e pode levar à imitação desmedida. Já Einstein tinha salientado que se sua teoria estivesse equivocada, os alemães diriam que ele era inglês e, os ingleses, que era alemão.

Faz alguns anos, em artigo escrito a quatro mãos com Ronaldo Helal,[3] apontamos na existência de uma inversão nas relações parte/todo quando tomamos como referência Brasil e Argentina e Pelé e Maradona. Brasil sempre foi apresentado como a nação exuberante, alegre, cordial, produto da miscigenação, singular e inqualificável e que dança alegremente na beira do abismo. Dissemos, no artigo, que as construções sobre as imagens do Brasil estavam claramente imbuídas de um caráter dionisíaco. Em contrapartida, a Argentina aparecia como o país europeizado, talvez de forma prematura. Em vários sentidos, da geografia ao tango, aparecia, sobretudo para os brasileiros, como um país apolíneo.[4]

Agora bem, quando nos deslocamos para a parte, e para seus maiores heróis do futebol, o Rei e o Pibe (o moleque) as caracterizações se invertem: o Rei é apolíneo e o Pibe dionisíaco. Pelé tem o entorno, a superioridade e a distância do Rei; Maradona a proximidade familiar do Pibe. Nas descrições jornalísticas os caracteres apolíneos ou dionisíacos sempre estão presentes. Sobre Pelé reiteradamente se destaca sua completitude física e técnica; de Maradona se marcam as incompletudes, falta de domínio bilateral, por exemplo. Pelé parece ocultar as complicações de sua vida e Maradona as enfrenta sem recusar seu caráter público.

A relação de carinho, respeito e proximidade dos argentinos com Maradona é natural, embora não necessária. A relação de distância e respeito dos brasileiros com Pelé também é natural e talvez não fosse necessária. Quando Maradona entra, começa a festa e a expectativa sobre o que fará o dirá permeia o ar. Quando o faz Pelé, entra a aura e o tratamento protocolar, embora com sorrisos de satisfação no rosto.

Além de sua carreira de atleta, Maradona marca o cotidiano argentino com suas condutas privadas e dizeres públicos. Quando Maradona adoece, os argentinos rezam e fazem vigília por ele. Recentemente Pelé teve que se submeter a uma cirurgia para colocar uma prótese e a informação saiu em pequenas notas, ninguém fez vigília ou encarregou missa pela recuperação do Rei, embora se deixasse entrever de que andava triste ou deprimido.

Hoje, por exemplo, no jornal digital de O Globo (globo.com) aparecem as opiniões de Maradona, vertidas em seu programa televisivo venezuelano, La Zurda (a tradução literal futebolera deveria ser A Canhota e na da política, A Esquerda), sobre o mundial e a final. Por volta das sete horas da manhã aparecia Maradona trajado e a notícia era cabeça da página. Depois desapareceu e no início da tarde voltou com menos destaque e com foto dele e de Rivelino mostrando camisetas. Um gesto de aproximação? Espero que sim.  Na segunda versão, a notícia destaca a crítica de Maradona do prêmio dado pela FIFA ao Messi, uma jogada de marketing segundo ele, reproduzindo os elogios à participação da seleção argentina. Suas posições nem sempre são provocadoras, tanto em relação aos times emergentes que destaca, como Costa Rica, quanto nas atuações frustrantes (Inglaterra, Itália e Espanha). Maradona ainda coloca a James, o jovem jogador colombiano, como o melhor da COPA, enquanto por aqui foram mencionados alguns alemães, Robben e Rodriguez e talvez outros que não registramos. O James deve ter ficado muito feliz e é possível que valorize mais o reconhecimento de Maradona que o premio da FIFA, dado a Messi, com muitas dúvidas sobre seu valor.[5] Messi nem deve ter ficado confortado apesar dos elogios também realizados. Mas, Maradona, diz o que pensa e ainda defende o valor de sua verdade e também da capacidade crítica diante do desempenho do atual ídolo argentino. O Pibe é valente para seus admiradores! Sua contraditória vida privada é discutida em público, mas, também suas relações com Cuba e Venezuela e suas entrevistas a Fidel Castro. O Rei, entretanto, continua ausente e distante. O Rei deve ser protegido, embora uma parcela dos brasileiros critique sua falta de envolvimento na luta contra o racismo e a favor dos negos e também os eventos de sua vida privada, enfatizando a falta de relação orientadora com os filhos. No caso do Rei, vida privada e desempenho público formam espaços que devem estar separados. No caso do Pibe, os limites entre os espaços estão sempre sendo transbordados por jornalistas,  torcedores e ele mesmo.

O intelectual é uma figura que faz que sua vida privada e a suas opiniões se tornem parte do debate público. No caso de Ortega y Gasset, até as gravatas chocantes que usava podiam ser discutidas no parlamento e na imprensa de Espanha, além de sua herança intelectual valiosa para pensarmos o presente. Seu estilo, de diferentes pontos de vista, também era dionisíaco. Talvez por isso não chegasse a formular um sistema como o faria Heidegger. Nossa geração olhava atentamente para as vicissitudes das relações entre Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, intelectuais por excelência, e ninguém aceitaria chamar de mexerico os comentários que fazíamos sobre elas.

Chegamos a nossa hipótese: Maradona, sob a base de sua atuação destacadíssima para o futebol argentino e mundial, tornou suas condutas e opiniões insumos para o debate público no campo do esporte, da política, da ética e da vida cotidiana.  O Pibe é o maior intelectual popular da Argentina sem considerarmos o valor político, social ou cultural de suas “apresentações”. Não estamos tratando disso. O moleque pode fazer um gol com a mão, mas ganhar um mundial com tamanha malandragem (picardia) apenas Maradona, diz a consciência nacional argentina. O herói popular dionisíaco pratica a arte da malandragem, sabe simular e se aproveita das confusões que monta. O título familiar de Pibe o aproxima, ele senta-se à mesa do bar, se introduz nas conversas da família, dos amigos e, sobretudo, dos futeboleiros. Em uma medida talvez menor, Romário faz parte da mesma estirpe de intelectuais populares e suas condutas e opiniões entram nas conversas públicas em relações jocosas e afetuosas. Os dois tentam se distinguir do Rei e por vezes o alfinetam mediante a ironia. Pelé acaba calado em sua majestade. Romário: Pelé calado é um poeta. O malandro é Maradona.

A intenção de Galvão Bueno poder ter sido boa. Contudo, ela reconhece que o Rei tem significados frios e talvez impostos por repetição de outros ou pelo mantra de que ele foi e ainda é o melhor. Mantra que forma uma fita de Moebius com a cara do Brasil país de futebol. Ambos os lados se demandam para fazer uma superfície contínua. Será que por isso os brasileiros aparecem suscetíveis à defesa argentina de Maradona como o melhor? Será que estão por cair juntos, a parte e o todo? Ou seja, se Brasil é o Pais do Futebol (o todo) como pode um argentino (a parte) ser o melhor! O país do futebol deve ter o melhor jogador, seu questionamento, ainda que seja por argentinos, arranharia as bases da identidade brasileira? Se a resposta é afirmativa, a suscetibilidade diante do debate pelo melhor quase se explica sozinha.

O apolíneo está mais próximo da figura do eterno e se distancia da morte e do transitório no mármore atemporal. O dionisíaco parece estar sempre em contato com ela, desafia e a cutuca com o passe inesperado da dança e a ironia transitória. Pelé diz que Edson Arantes de Nascimento diz que Pelé é o melhor.  Maradona diz que sua mãe afirma que ele é o melhor.

Nunca pensamos que poderíamos assistir a renúncia de um Papa nem a da de um Rei. E isto ocorreu diante de nosso olhar espantado. O Edson poderia renunciar ao papel do Rei, deixar o manto sagrado e se misturar nas conversas do povo? Seria menos enreizado, mas, talvez, mais querido? Apenas um mortal: Pelé. Sem ser o Rei poderia falar e agir com menores constrangimentos e, talvez, até fazer poesia quando fala. Reconhecer que há muitos reis e que determinar o melhor é uma tarefa ingrata, talvez impossível e, sobretudo, tonta. Talvez por ser tonta seja tema do jornalismo esportivo e de suas perguntas que geram debates infindáveis e insolúveis que jamais se solucionam apenas se abandonam.

Uma moral se impõe: Talvez Pelé seja um Rei com pés de barro. Maradona é um Pibe com barro até o pescoço. Um pode cair, o outro pode se afogar. Nós, os do povo, podemos escolher o modelo. O custo são as diferenças no tratamento. Os argentinos escolheram Maradona por unanimidade. O baixo desempenho de Messi ajudaria a manter o lugar de Maradona? Que seria desse lugar se Messi tivesse feito dois gols contra Alemanha e ganhasse a Copa? Os argentinos, como consequência,  carregariam os custos de elaborar a nova situação. Maradona já tinha declarado que, se algo assim ocorresse, ele mesmo estenderia o tapete vermelho para Messi. Cederia seu lugar de melhor.

Os brasileiros ainda duvidam entre o apolíneo Pelé quando comparado aos dionisíacos Garrincha e Romário e talvez, em futuro próximo, Neymar seja o polo da comparação. Mas, manter Pelé como o melhor é uma questão de honra e vamos torcer contra os de fora, os argentinos, que pretendem mudar essa ordem! Uma invasão de tal envergadura em nosso imaginário deve ser rejeitada de forma prática. Vamos a torcer pela Alemanha!

 

[1] Ver a entrevista de R. Helal para a Folha (http://www1.folha.uol.com.br/esporte/folhanacopa/2014/07/1484416-copa-mostra-acirramento-da-rivalidade-brasil-argentina-afirma-sociologo.shtml).

[2] Ver a entrevista de R, Helal no Estado de São Paulo (http://tv.estadao.com.br/videos,BRASIL-ME-DIGA-O-QUE-SENTE-DESCONSTRUINDO-A-RIVALIDADE-ENTRE-BRASILEIROS-E-ARGENTINOS,245762,0,0.htm)Em seus trabalhos Helal destaca: 1) a anterioridade temporal do zoar ou do deboche brasileiro sobre o argentino até no campo publicitário. 2) a transformação das relações jocosas da rixa futebolística em intolerância em relação aos argentinos. 3) a passagem do “odiamos amar os brasileiros”, originalmente posto como sentimento dos argentinos,  em o “amamos odiar os argentinos”, sentimento brasileiro original. 4) os jornais “sérios” brasileiros levam em consideração o pasquim esportivo Olé e minimizam a seus colegas de classe.

[3] “Pelé y Maradona: el periodismo y las contradicciones entre los héroes y las sociedades.” Lecturas Educación Física y Deportes (Buenos Aires), v. 139, p. 1-7, 2009.

[4] O antropólogo Gustavo Lins Ribeiro trabalhou sobre tal caracterização. Ver Ribeiro, Gustavo Lins, “Tropicalismo e Europeísmo: modos de representar o Brasil e Argentina” In Frigerio, Alejandro e Riberio, Gustavo Lins (orgs.) Argentinos e Brasileiros: encontros, imagens e estereótipos. Petrópolis, Vozes, 2002.

[5] As notícias jornalísticas indicam que o jovem jogador James registrou o maior aumento de valor profissional. Se isto for certo, seu desempenho, medido pelo mercado, foi superior.

O Rei deveria renunciar?

sexta-feira, julho 18, 2014 2 comentários

Hugo R. Lovisolo

Durante a Copa do Mundo que acaba de finalizar, a televisão mostrou a presença do Rei Pelé no Maracanã.  Galvão Bueno, nosso ícone do jornalismo esportivo, comentou que é necessário que os brasileiros mostrem em relação ao Pelé o tipo de atitudes que os argentinos têm em relação à Maradona. Sua afonia após a transmissão da final o fazia mais humano e simpático. O defeito, pelo qual pediu desculpas, enaltece seu desempenho aproximando-o dos comuns mortais.

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Faz alguns anos, em artigo escrito a quatro mãos com Ronaldo Helal,[1] apontamos a  existência de uma inversão nas relações parte/todo quando tomamos como referencia Brasil e Argentina e Pelé e Maradona. Brasil sempre foi apresentado como a nação exuberante, produto da miscigenação, inqualificável e que dança alegremente na beira do abismo. Dissemos, no artigo, que as construções sobre as imagens do Brasil estavam claramente imbuídas de um caráter dionisíaco. Em contrapartida, a Argentina aparecia como o país europeizado, talvez de forma prematura. Em vários sentidos, da geografia ao tango, aparecia, sobretudo para os brasileiros, como um país apolíneo.

Agora bem, quando nos deslocamos para a parte, e para seus maiores heróis do futebol, o Rei e o Pibe (o moleque) as caracterizações se invertiam: o Rei é apolíneo e o Pibe dionisíaco. Pelé tem o entorno, a superioridade e a distancia do Rei; Maradona a proximidade familiar do Pibe. Nas descrições jornalísticas os caracteres apolíneos ou dionisíacos sempre estão presentes. Sobre Pelé reiteradamente se destaca sua completitude física e técnica, de Maradona se marcam as incompletudes, falta de domínio bilateral, por exemplo. Pelé parece ocultar as complicações de sua vida e Maradona as enfrenta sem recusar seu caráter público.

A relação de carinho, respeito e proximidade dos argentinos com Maradona é natural, embora não necessária. A relação de distancia e respeito dos brasileiros com Pelé também é natural e talvez não fosse necessária. Quando Maradona entra, começa a festa. Quando o faz Pelé, entra a aura e o tratamento protocolar.

Além de sua carreira de atleta, Maradona marca o cotidiano argentino com suas condutas privadas e dizeres públicos. Quando Maradona adoece, os argentinos rezam e fazem vigília por ele. Recentemente Pelé teve que se submeter a uma cirurgia para colocar uma prótese e a informação saiu em pequenas notas,  ninguém fez vigília ou encarregou missa pela recuperação do Rei.

Hoje, por exemplo, no jornal digital de O Globo aparecem as opiniões, vertidas em seu programa televisivo venezuelano, La Zurda,  de Maradona sobre o mundial e a final. Por volta das sete horas aparecia Maradona trajado e a notícia era cabeça da página. Depois desapareceu e no inicio da tarde voltou com menos destaque e com foto dele e de Rivelino mostrando camisetas. Na segunda versão, a notícia destaca a crítica de Maradona do premio dado pela FIFA ao Messi, uma jogada de marketing, destacando os elogios à participação da seleção argentina. Suas posições, como quase sempre, são originais, tanto em relação aos times emergentes que destaca, como Costa Rica, quanto nas atuações frustrantes (Inglaterra, Itália e Espanha). Maradona ainda coloca a James, o jovem jogador colombiano, como o melhor da COPA, enquanto por aqui foram mencionados alguns alemães, Robben e Rodriguez e talvez outros que não registramos. O James deve ter ficado muito feliz e é possível que valorize mais o reconhecimento de Maradona que o premio da FIFA, dado a Messi, com muitas dúvidas sobre seu valor. Messi nem deve ter ficado confortado. Mas, Maradona, diz o que pensa e ainda defende o valor de sua verdade e também da capacidade crítica diante do desempenho do atual ídolo argentino. O Pibe é valente! O Rei, entretanto, continua ausente e distante e os jornalistas mudam os destaques das matérias. O Rei deve ser protegido.

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Não vimos matérias jornalísticas ou argumentos nos debates sobre a fratura de vértebra de Neymar. Embora a crítica ao ato “maldoso” de Zuñiga fosse o eixo -e as melhores considerações foram as do próprio Neymar que surpreende positivamente com suas opiniões abertas sobre a seleção – como é possível que ninguém tenha levantado hipóteses sobre a probabilidade de seu tipo de fratura ocorrer ou sobre as condições que as tornam reais? Os especialistas foram convocados para esclarecer e discutir sobre o assunto?  Neymar se protege pouco? Seus ossos são saudáveis? Qual a probabilidade de acidentes dessa natureza se repetirem? Parece que vigora um pacto entre os jornalistas esportivos: não falar do tema para proteger Neymar.

Ortega y Gasset apontou que o intelectual é uma figura que faz que sua vida privada e a suas opiniões se tornem parte do debate público. No seu caso, até as gravatas chocantes que usava podiam ser discutidas no parlamento e na imprensa de Espanha. Seu estilo, sob diferentes pontos de vista, também era dionisíaco. Talvez por isso não chegasse a formular um sistema como o faria Heidegger, embora nos legou aproximações que ainda devem ser aproveitadas.

Chegamos a nossa hipótese: Maradona, sob a base de sua atuação destacadíssima para o futebol argentino e mundial, tornou suas condutas e opiniões insumos para o debate público no campo do esporte, da política, da ética e da vida cotidiana.  O Pibe é o maior intelectual popular da Argentina. O moleque pode fazer um gol com a mão, mas ganhar um mundial com tamanha malandragem apenas Maradona. O herói popular dionisíaco pratica a arte da malandragem, sabe simular e se aproveita das confusões que monta. O título familiar de Pibe o aproxima, ele senta-se à mesa do bar, se introduz nas conversas da família, dos amigos e, sobretudo, dos futeboleiros. Em uma medida talvez menor, Romário faz parte da mesma estirpe de intelectuais populares e suas condutas e opiniões entram nas conversas públicas em relações jocosas e afetuosas. Os dois tentam se distinguir do Rei e por vezes o alfinetam mediante a ironia. Pelé acaba calado em sua majestade. Romário: Pelé calado é um poeta.

A intenção de Galvão Bueno poder ter sido boa. Contudo, ela reconhece que o Rei tem significados frios e talvez impostos por repetição de outros ou pelo mantra de que ele foi e ainda é o melhor. Mantra que forma uma fita de Moebius com a cara do Brasil país de futebol. Ambos os lados se demandam para fazer uma superfície contínua. Será que estão por cair juntos?

O apolíneo está mais próximo da figura do eterno e se distancia da morte e do transitório no mármore atemporal. O dionisíaco parece estar sempre em contato com ela, desafia-la e a cutuca com o passe inesperado da dança e a ironia transitória. Pelé diz que Edson Arantes de Nascimento diz que Pelé é o melhor.  Maradona diz que sua mãe afirma que ele é o melhor.

Nunca pensamos que poderíamos assistir a renúncia de um Papa nem a da de um Rei. E isto ocorreu diante de nosso olhar espantado. O Edson poderia renunciar ao papel do Rei, deixar o manto sagrado e se misturar nas conversas do povo. Seria menos enreizado, mas, talvez, mais querido. Apenas um mortal: Pelé. Sem ser o Rei poderia falar e agir com menores constrangimentos e, talvez, até fazer poesia quando fala. Reconhecer que há muitos reis e que determinar o melhor é uma tarefa ingrata, talvez impossível e, sobretudo, tonta. Talvez por ser tonta seja tema do jornalismo esportivo e de suas perguntas.

Uma moral se impõe: Pelé é um Rei com pés de barro. Maradona é um Pibe com barro até o pescoço. Nós, os do povo, podemos escolher o modelo. O custo são as diferenças no tratamento. Os argentinos escolheram Maradona por unanimidade. Os brasileiros ainda duvidam entre o apolíneo Pelé e os dionisíacos Garrincha, Romário e, talvez, Neymar.

[1]Pelé y Maradona: el periodismo y las contradicciones entre los héroes y las sociedades.” Lecturas Educación Física y Deportes (Buenos Aires), v. 139, p. 1-7, 2009.

A nossa Copa do Mundo

quarta-feira, julho 16, 2014 Deixe um comentário

A Copa do Mundo acabou. Só nos resta juntar os cacos. Há muito o que comemorar, afinal o Brasil conseguiu realizar o evento com dignidade e arrancar suspiros da maioria dos gringos que aqui estiveram. Mas para os brasileiros que são realmente fãs de futebol, o gosto amargo do massacre alemão vai demorar a passar. Para piorar, voltar a viver nosso futebol ordinário será doloroso, ainda mais tendo na memória a atmosfera inesquecível que vivemos nas últimas semanas.

As contradições estão na mesa e talvez este momento não seja o melhor para tirarmos conclusões. Diferente do que a imprensa especializada tem tentando, ainda não é possível compreender tudo o que aconteceu por aqui. Talvez seja melhor esperar o “defunto esfriar”. Acredito que precisaremos de um intervalo apropriado, tanto para entender o fracasso da seleção quanto para decifrar a importância do megaevento. Ainda estamos envenenados pelo sabor da derrota no campo e embriagados pela linda festa que fizemos.

Não me distanciei o suficiente dessa Copa do Mundo para fazer um relato ponderado sobre o que vivemos. Fui a jogos, colecionei álbum de figurinhas e copos de cervejas com bandeirinhas, tirei férias, viajei pelo país. Assisti a jogos da Costa Rica, Nigéria, Irã e Grécia! Tirei fotos, gravei vídeos, fiz selfies. Acreditei no Felipão, lamentei pelo Neymar, cantei o hino e depois crucifiquei o treinador.

A dor da derrota para a Alemanha nos deixou especialmente atordoados. No entanto, apesar dos lamentos, parece que esta dor se dissolveu mais rapidamente. Acredito que isso seja reflexo da intensidade com que vivemos tudo na atualidade. Lendo a opinião de centenas de amigos nas redes sociais, em menos de uma hora, forma-se uma opinião coletiva mais rápida. Criamos uma noção (muitas vezes equivocada) do que aconteceu e chegamos às nossas conclusões rapidamente. Ao mesmo tempo que nos confortamos mutuamente, ficamos cheios de certezas e isso pode ser perigoso.

Acredito que seja nesse ponto que se amplie a importância da pequisa em Comunicação e Esporte. A imprensa esportiva parece incapaz de lidar com as tragédias que ocorrem dentro de campo. Ela procura culpados, amplia nossos ódios, mas explica pouco. Colocamos nossos algozes em locais até superiores do que de fato merecem.

Em 2011, num texto para este blog <link:http://comunicacaoeesporte.com/2011/08/09/repetir-os-erros-corrigindo-os-acertos/>, após a eliminação da Seleção Brasileira na Copa América, mostramos como o discurso da imprensa esportiva era precipitado e cruel. Além de decretar a morte de uma geração (protagonizada por Neymar, Ganso e Pato), os jornais não se envergonharam em alterar o discurso construído ao longo do tempo de acordo com os resultados. Uma mesma característica, que era valorizada em algum momento como uma qualidade, passa a ser um defeito ou o principal responsável pelo fracasso, depois que a derrota está consolidada. A mídia não será capaz de, sozinha, nos fazer compreender o momento do futebol brasileiro, quem sabe a Academia não possa ajudar

Saldo positivo

Algo que me entusiasmou durante esta Copa do Mundo foi enxergar na pauta do noticiário esportivo várias questões que já foram tema de pesquisa deste grupo. Fica a impressão de que conseguimos antecipar alguns debates e, portanto, estamos no caminho certo. A imprensa se preocupou com o racismo no esporte, o comportamento das torcidas e como as mudanças nos estádios impactaram essa mudança de comportamento. Aspectos históricos foram levados em conta com um pouco mais de cuidado. Também a rivalidade Brasil x Argentina mereceu da mídia uma discussão menos rasteira que a habitual. Todos estes temas nos preocupam há tempos e agora também fazem parte das páginas dos jornais.

Brasil me diga o que sente: desconstruindo a rivalidade entre brasileiros e argentinos

Ronaldo Helal participou desse curto vídeo produzido pelo jornal Estadão. A matéria aborda a rivalidade entre brasileiros e argentinos. Quanto há de provocação e seriedade nessa relação? Por que os argentinos são o nosso Outro? Como ficará essa rivalidade agora, depois da Copa? Qual o papel da mídia nessa construção? Assista o vídeo abaixo.

Ronaldo Helal participa de programas na TV Brasil e na Rádio CBN

Veja abaixo o link para as entrevistas concedidas pelo professor da Uerj e membro desse blog.

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Porque os brasileiros torcem pela Alemanha

Hugo R. Lovisolo

Manhã do domingo antes da final da COPA. Estou um tanto irrequieto e procurando o que fazer para diminuir o tempo que falta. Há uma questão que me persegue: quais as razões para a maioria ou pelo menos 50% dos brasileiros torcerem a favor da Alemanha, time favorito na mídia? A qualificação de “maioria” ou de 50% não pretende ser estatisticamente válida. A questão continuaria válida com 40% pois, como é sabido, alemães e descendentes no Brasil, que naturalmente poderiam torcer por Alemanha, não fazem tal percentual.

A partir da goleada da Alemanha sobre o Brasil que provocou vergonha e humilhação, o esperado para uma lógica simples é que os brasileiros torceriam contra Alemanha. A complexidade brasileira não permite o exercício fácil da lógica. Este é um argumento que os brasileiros adoram esgrimir e os argentinos também e, talvez, a maioria das culturas quando se enfrentam com outra. Em definitivo, como alguma vez criticou Merton, os de dentro estão sempre com a razão e os de fora entendem pouco ou nada. Esta dialética entre os de dentro e os de fora deve ter seu fundamento no romantismo coletivista que impregna as ciências sociais. Mas, voltemos ao ponto.

A partir da goleada passei a perguntar sobre as razões que os brasileiros teríamos para torcer por Alemanha. Fui recolhendo tentativas de explicações que resumo de forma imperfeita.

1)      De fato os brasileiros não torcem a favor de Alemanha. Torcem a favor ou contra a Seleção Argentina. A rixa com a Argentina domina o “torcer por” Alemanha. Assim, hoje à tarde a seleção latina será a única a relacionar-se com a torcida. O homem cordial, fruto de amores e ódios, no caso do ódio, seria a base da conduta. Claramente esta hipótese deriva de uma aplicação popular de Sergio Buarque de Holanda.

2)      Os brasileiros torcem por Alemanha porque usaram cores, vermelho e preto, no jogo com o Brasil criando identidade com os torcedores flamenguistas e de outras equipes que usam as mesmas cores. Me recuso a aceitar esta explicação por duas razões: a) os brasileiros não podem ser tão tontos para  ser cooptados por um gesto banal de marketing; b) os anti vermelho e preto talvez sejam tão numerosos como os torcedores dessas cores. Se esta de fato for a explicação correta a sociologia do esporte pode fechar suas cátedras no Brasil e deixar apenas funcionando a de sociologia do humor.

3)      Os brasileiros que torcem pela Alemanha não têm a menor ideia do que seja solidariedade com os irmãos latino-americanos nem com os vizinhos. Não dão bola com o que é próximo e apenas se relacionam com distante. Disto pode decorrer a dificuldade do Brasil ocupar um lugar de liderança tanto na América do Sul quanto na América Latina.

4)      Há um tremendo pertencimento em comum: alemães e brasileiros adoram a cerveja e as mulheres brasileiras. Esta hipótese seria forte se os torcedores por Alemanha fossem proporcional e significativamente mais homens que mulheres (embora o gosto pela cerveja e pelas mulheres pareça ser crescente entre as brasileiras).

5)      Os brasileiros não são bons de cálculo, uma prova é a falha de seus orçamentos e cronogramas, como foi visto na preparação da Copa, e, então, não entendem que se Alemanha leva o Caneco Brasil terá um feroz dobermann e um mastim napolitano disposto a conquistar o quinto e igualar-se. Assim, se tornará difícil manter a vantagem no número de Copas ganhas.

6)      A tradição do futebol brasileiro foi construída a partir de seus heróis, isto é, de seus grandes jogadores. Em cada Copa ganha se destacam seus craques. Assim, Feola, diz a lenda, nem precisava treinar o time. E será que o técnico da maravilhosa seleção de 1970 era algo a mais que um companheiro? Desde Garrincha ao Ronaldo, passando pelo Rei Pelé, e tantos outros, são suas mágicas que explicam os êxitos. Perdendo de goleada para Alemanha se abandona a tradição em favor da racionalidade, da organização, da máquina, do treino e do treinador. Vejam, estávamos muito contentes com o modo brasileiro de fazer a infraestrutura da Copa, tão criticado por vozes internas e externas. A alegria parece que durou pouco, logo da derrota passamos a valorizar argumentos dos críticos contra a tradição. Até nossa Presidenta virou esperta em futebol e tem suas propostas de racionalização e planejamento (parece que não se trata, no principal, de trazer jogadores de fora, como no caso dos médicos cubanos, mas de não deixar sair, via estímulos suponho, aos que estão dentro).

7)      Uma explicação direta é popular diz que o brasileiro não gosta de perder em nada. Então, é melhor torcer por Alemanha já que o coro dos contentes afirma que é a seleção com maior probabilidade de levantar a Copa. O outro lado da moeda é a mania nacional de “torcer por”. Ou seja, se é obrigatório torcer a lógica seria sempre torcer por aquele que pode ganhar? Sabemos os males que poderia estar causando essa preferência pelo ganhar no campo da política, alguns já afirmaram que as pesquisas de opinião política deveriam ser proibidas porque definiriam o jogo em favor do candidato majoritário. E ninguém gosta de perder!

8)      Há uma hipótese técnica e empírica que gostaria de testar para o fracasso do Brasil. Ela diz: a seleção brasileira formada por jogadores que atuam no exterior tem uma dominância de atletas de banco que, por diferentes razões, não têm ritmo de jogo. O grande Carlos Alberto Torres, ontem, em programa partilhado por grandes craques, disse que devem jogar os que estão jogando melhor e não os que jogaram bem no passado ou poderiam chegar a jogar muito bem no futuro, suponho que depois de uma recuperação Scolari. O homem além de craque parece sensato em todas as medidas que sugeriu. O brasileiro poderia estar torcendo por Alemanha, pois pretende que na seleção, no convívio dos jogadores em campo e na gestão sejamos como a alemã? Diante desta escolha, se Alemanha perde para Argentina, como ficariam os argumentos? Não, Alemanha não pode perder e mais ainda deveria ganhar por goleada para servir aos interesses nacionais sobre o futebol, se for possível de 8 a 0.

 

PS. Dada a trajetória Argentina desde 1990 em Copas do Mundo a Argentina já ganhou muito indo para a final. Se por vontade dos deuses ganhar no Maraca, ganhará, pelo menos, 3 vezes.

Rio de Janeiro, 13 de julho 10:30.

Maracanazzo, Imprensa e “vira-latas”

terça-feira, julho 8, 2014 1 comentário
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Gol da vitória uruguaia em 1950

16 de julho de 1950, 16 horas e 25 minutos, o Brasil se cala com o gol de Schiaffino. Era o empate uruguaio, que ainda nos permitia ser campeões, mas foi sentido de forma dura pelos jogadores e pela torcida, que ficou muda. Nos treze minutos seguintes as pessoas que lotaram o Maracanã, os jogadores e a população, que ouvia o jogo pelo rádio, começaram a conjecturar o que era impensável: o Brasil poderia perder a Copa. O momento de abatimento foi aproveitado pelos uruguaios que aos 34 minutos do segundo tempo fizeram o gol que os colocou em vantagem para vencer a Copa do Mundo de 1950, em pleno Maracanã. Este episodio é conhecido como Maracanazzo. O escritor Paulo Perdigão, no livro Anatomia de uma Derrota (1986) descreve que o choro e a comoção nacional com a derrota se assemelhou a perda de um ente querido. A partir deste jogo Nelson Rodrigues criou, às vésperas da Copa de 1958, a expressão “complexo de vira-latas”. Seu principal argumento é que o brasileiro não acredita em si mesmo, que “éramos um vira-latas entre as nações”.

Meu post inicialmente falaria das narrativas da imprensa nacional durante esta Copa, o que é um assunto muito rico, principalmente se relacionarmos ao complexo de vira-latas de Nelson. Como o escritor Ruy Castro bem definiu em uma entrevista recente: a “imprensa teve espírito de porco antes da Copa”. Foi realmente uma grande má vontade para investigar se tudo estava tão ruim como era anunciado. Preferiu-se o “senso comum”, o já estereotipado e perigoso “imagina na Copa”. No texto eu falaria da contínua arrogância do jornalista esportivo ao se achar realmente especialista em todos os quesitos. Tudo está errado, a organização, o treino, a tática, a música, o choro, até o tratamento médico de alguns jogadores, como se o doutor Runco, por exemplo, não soubesse nada de Medicina e aqueles senhores que mal leram um livro de anatomia ou de preparação física é que sabem o que deveria ser realmente feito, na base do mais puro, pobre e deprimente achismo, simplesmente por ter um microfone em suas mãos. Claro que também falaria das raras exceções, demonstrando que quem entende que o jornalismo necessita de investigação, e a investigação te dá pistas e não a prova inconteste de que você está certo e é o dono da razão, faz um bom jornalismo.

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Entretanto, eis que o Maracanazzo surge novamente em nosso país. Ao ser anunciado que nosso principal jogador está fora da Copa, o Brasil sentiu, quase 64 anos depois, o mesmo que nossos compatriotas viveram naquele dia. Como assim perdemos Neymar? Dia 4 de julho de 2014. A mesma comoção nacional, semelhante a perdemos um ente querido foi sentida. A torcida emudece e os jogadores sentem a perda do companheiro para os dois últimos jogos. Todavia, a pressão excessiva pela vitória, a cobrança de exibir um futebol bonito e de massacrar todos os adversários, por um momento se desfez. As costas do menino de apenas 22 anos que carregava toda essa pressão recebeu uma covarde, desleal e criminosa joelhada que desabou tudo isso. Neymar foi para o chão e com ela a nossa chance de sermos campeões? Era como se o Brasil levasse novamente o gol de empate que descrevi em 1950.

Entretanto, não temos apenas 25 minutos para colocar a cabeça no lugar e sermos campeões, temos mais um jogo, um prazo maior para curar a ressaca e o impacto desta notícia. Desta vez temos tempo para reverter o novo Maracanazzo. Uma pista que nos indica esta reversão é a aposta da imprensa na força da equipe, na união e na comoção que a lesão de Neymar causou como o maior combustível para o título. O futebol-arte e a obrigação de vitória deram lugar à superação. Em poucos momentos na história das Copas do Mundo a narrativa midiática abandonou uma cobrança excessiva pelo jogo bonito. Estaria a imprensa e aceitando o título na base da raça? Os discursos nos principais veículos de comunicação nos indicam que sim, afinal a Copa agora “é questão de honra”, “pelo Neymar”, “custe o que custar”.

Este fato já coloca Neymar no roteiro totalmente apropriado para se tornar o maior ídolo de nosso esporte. Jovem e com mais Copas pela frente passa por uma adversidade contundente, não por acaso do destino, ou azar e sim pela deslealdade de um oponente no “campo de batalha”, que não respeitou as regras do jogo e ao agredi-lo, perdeu sem honra. Sua trajetória de ídolo continuará e com grande chance de final feliz e de cumprir sua missão como heroi nacional. A vitória nesta Copa virá exclusivamente do coletivo, da união e da superação, diferente das narrativas anteriores em que o improviso e genialidade de nossos jogadores, hoje representada por Neymar, era a causa maior do nosso título.

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Sugiro que o novo Maracanazzo nos faz refletir que é possível vencer sem seguir a nossa identidade e nosso suposto estilo tradicional de jogo. Isso será aceito, diferentemente de 1994. Não somos mais capazes? Sim somos. Se em 1950, iniciamos nosso complexo de achar que não vamos conseguir por sermos inferiores, 2014 pode virar de vez esta página. Organizamos uma Copa fantástica, elogiada por todo o mundo e que vai deixar saudades. Fomos capazes de cumprir a missão que nos foi dada. O epílogo desta história tem um roteiro épico, agora dentro de campo, já que mesmo sem nosso maior jogador podemos vencer e provar que não somos um vira-latas entre as nações, em todos os sentidos, inclusive demonstrando para nossos jornalistas que o Brasil não é tão ruim quanto sugerem.

 

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