Memórias sobre o 7 a 1

quarta-feira, julho 22, 2015 Deixe um comentário

O futebol é um esporte singular, seja por sua popularidade, pela imprevisibilidade de seus jogos ou pelas histórias que são contadas sobre ele, ou a partir dele. Em meio às narrativas sobre o universo do futebol, que envolvem jogadores, equipes e partidas, destaca-se um elemento – a memória.

Nas últimas semanas a força da memória pôde ser vista especificamente nas narrativas da imprensa sobre um episódio, a derrota de 7 a 1 do Brasil para a Alemanha em jogo válido pelas semifinais da Copa do Mundo de 2014. Contudo, em de julho de 2015, a imprensa esportiva relembrou um dos episódios mais marcantes do passado recente da seleção brasileira – o “Mineirazzo” – popularmente conhecido como o 7 a 1 da Alemanha.

Este revés, que foi narrado pela imprensa brasileira, incialmente, como uma vergonha, uma humilhação ou uma tragédia, assume novos significados na atualidade. Ao retornar a 9 de julho de 2014, um dia após o jogo, pode-se observar que o jornal O Globo qualifica este episódio na sua manchete como “vergonha, vexame, humilhação”. Já no subtítulo desta manchete a publicação localiza este evento da seguinte forma: “seleção sofre em casa a maior derrota de sua história”.

Capa de O Globo após o 7 a 1

Capa de O Globo após o 7 a 1

No mesmo dia, a Folha de São Paulo define o evento assim: “Seleção sofre a pior derrota da história”. E este foi o entendimento que a imprensa, de uma forma geral, teve do episódio. O objetivo parecia ser, em um momento inicial, o de localizar esta derrota na história da seleção brasileira. Para isto, uma memória foi constantemente acionada, a da derrota do Brasil para o Uruguai por 2 a 1 em jogo decisivo da Copa de 1950.

Folha de São Paulo destaca o "Mineirazzo"

Folha de São Paulo destaca o “Mineirazzo”

Um ano após o revés de 2014 a imprensa não se limita apenas em qualificar esta derrota, mas usa as memórias da mesma para avaliar o atual momento do futebol brasileiro, que vive em meio a muitas críticas, especialmente após uma campanha abaixo da média na Copa América de 2015. Em a Folha de São Paulo o colunista Tostão diz, por exemplo, que “passado um ano do vexame, o futebol brasileiro está no mesmo lugar, sem identidade, perdido”.

No mesmo dia, em O Globo, o jornalista Lauro Neto publica uma reportagem com a intenção de apresentar formas de resgatar o futebol brasileiro, a qual ele chama de sete pecados capitais: como a preguiça, que deve ser transformada em garra para correr em campo, e a ira, que deve virar jogo limpo. Ao observar as narrativas sobre o 7 a 1 publicadas em 2014 e em 2015 o que mais chama a atenção é o uso feito das memórias. Nas duas oportunidades elas funcionam como elementos que colaboram com o processo de construção de imaginários.

Se um dia após a derrota a maior preocupação parece ser a de localizar o 7 a 1 dentro da história da seleção brasileira e, para isso, são acionadas memórias de outros momentos da equipe, um ano depois o maior objetivo parece ser o de evidenciar a existência de uma crise no futebol brasileiro, crise esta que se materializa no revés de 7 a 1.

Nós evoluímos!

terça-feira, julho 14, 2015 Deixe um comentário

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E quem disse que não evoluímos quando o assunto é futebol? Que não aprendemos com os nossos próprios erros? Quem disse que não somos inteligentes? Que não temos a capacidade de nos adaptarmos para evitar a repetição das grandes tragédias?

Pois a Seleção Brasileira se mostrou atenta. Leitora do mundo moderno, antenada com as surpresas e armadilhas que nossos rivais montam contra nós. É, enfim, um time moderno! E se você discorda ou acha absurdo tudo isso, eis os fatos: em 2014, há um ano, o Brasil com um time bisonho e despreparado poderia ter sido eliminado da Copa do Mundo já nas oitavas de final, nos pênaltis, para o Chile. E isso não seria pouco, evitaria, por exemplo, que o “7 a 1” viesse a acontecer.

7 a 1 2

A derrota para o Chile não aplacaria a tristeza nacional, não evitaria os questionamentos e também não impediria que se percebesse que o país não é mais o mesmo. Entretanto, evitaria a tragédia. O sufocamento definitivo, a pancada seca dos alemães contra um time de tontos e de chorões.

Eis que o Brasil passa naqueles pênaltis. Avança contra a Colômbia e abre o caminho para a desonra na famosa semifinal de um ano atrás. Logo, um ano depois, as pessoas acham que nada mudou, que o Brasil segue sendo o mesmo, com os mesmos erros de sempre se repetindo.

Estão errados. Os tontos ainda existem, claro, e são muitos, porém, ao menos eles hoje são menos irresponsáveis. Antes, passavam de fase e preparavam o cenário ideal para a tragédia coletiva. Para a desconstrução da identidade nacional e para a perversidade que poucos impõem a milhões. Agora não. O Brasil é uma seleção melhor atualmente, ao menos no que diz respeito a conhecer seus próprios limites. Não comete os mesmos erros e não permite que o cenário para as tragédias sejam novamente moldadas.

Antes de enfrentar a Argentina e sofrer uma irremediável goleada na Copa América recentemente encerrada, perdeu logo para o Paraguai, nos pênaltis, numa competição das mais desprezíveis para o esquete nacional. Ops… Escrete. Claro que a “não derrota” para a Argentina não aplaca a tristeza nacional, não evita os questionamentos e também não impede que se perceba que o país não é mais o mesmo. Entretanto, isso não é pouco, evita a tragédia. O sufocamento definitivo, a pancada seca dos argentinos, neste caso, até mais devastadora que fora a dos alemães.

Não! Ao menos o Brasil aprendeu com seus erros. Colocou na cabeça, ao menos provisoriamente, que é um time medíocre. Aquém de sua história, que há tempos não mete medo e que não tem mais o direito de ser protagonista. Perde nas fases iniciais, se apequena, mas ainda assim evita a morte lenta dos saudosistas e dos que ainda celebram o bom futebol do passado. Deixe-se o Paraguai passar. Deixe-se que ele seja domado na roda de bobinhos contra a Argentina. Eles já estão acostumados a ser pequenos. O Brasil não, pois ainda vive a fase de transição para o obscurantismo inevitável.

Não! Esta geração do Brasil definitivamente aprendeu com seus erros. Saiu de cena antes que fosse tarde demais.

Esporte é entretenimento. E Jornalismo? É esporte?

sexta-feira, julho 10, 2015 Deixe um comentário

A saída do apresentador e editor-chefe do Globo Esporte São Paulo, Tiago Leifert, nesta última semana, traz uma reflexão sobre o estilo idealizado por ele e que diversos meios de comunicação aderiram. Fazer jornalismo esportivo é fazer entretenimento? Esporte, na sua concepção, seria mais – e apenas – divertimento e lazer? Jornalismo combina com humor? Confesso que penso diferente do que vi nesses últimos anos no telejornal da Rede Globo. Talvez esteja eu errado, já que a mudança de linguagem veio justamente no desgaste do formato anterior – mais sisudo, frio, sério, de bancada e que despencou a audiência.

Não sou dessa nova geração, mesmo que tenha “apenas” 34 anos, sinto-me velho diante das novidades de linguagem do Jornalismo Esportivo. Sou da época de esperar o Fernando Sasso dar a sua lição de moral diária, com a saudosa “palavrinha final”, no Globo Esporte Minas. Um opinativo rápido, sem graça, mas contundente. Isso era o máximo. Hoje, vejo que algumas reportagens são exageradas no humor. Sinto falta de mais informação. O artigo “Padrão Globo de Jornalismo Esportivo”, de Mariana Corsetti Oselame, coloca algumas questões sobre a mesa que sempre levo para as salas de aula. Segundo a autora, os riscos de se assumir esse estilo são a banalização da notícia, o descaso com as técnicas jornalísticas, a exacerbação do humor, reinterpretação do conceito de criatividade, o empobrecimento do texto e a tendência a transformar o jornalista em notícia. Se analisarmos os vídeos selecionados pelo apresentador, Tiago Leifert, na página do Globo Esporte, como os favoritos nesses anos a frente do programa, concluímos que um ou dois, no máximo, trabalham a notícia, valorizam informação e as técnicas jornalísticas. Tudo isso apenas serve para aproximar o telespectador.

Não concordo, Leo Batista não era estrela, personagem principal das reportagens, mas,  mesmo assim, conquistou minha confiança. Passa credibilidade. Não quero saber se o Mauro Naves é galã, quero entender como foi a partida, o dia a dia do meu time. Programas “especiais” sobre música como o Globo Esporte de Ouro, são puro humor.  Além de piadas com Richarlysson, Barcos e Valdívia desrespeitosas, perdendo a ética em alguns momentos. Sempre ficava encucado com uma situação: como seria a cobertura, se em um programa que faz toda uma edição sobre mentira, como a do dia 1º de abril de 2011, ainda que de brincadeira e no dia seguinte tivesse que noticiar a prisão do presidente da CBF, na época Ricardo Teixeira? Teixeira não chegou de fato a ser preso, mas Marín sim. E aí? Como fica a credibilidade do seu telejornal?

Ao pedir um programa de radiojornalismo como trabalho aos alunos da disciplina de Jornalismo Esportivo, na Universidade Federal de São João del-Rei, me deparei com um grupo que apresentou um conteúdo puramente humorístico. Sem informação, só com graça. Eles não têm culpa. Estão apenas, como dizem hoje, “seguindo o fluxo”. Sempre fazemos isso: nos espelhamos nos modelos que mais acompanhamos. Por todas essas nuances, digo: não é fácil fazer, nem ensinar Jornalismo Esportivo. “Futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes”. Sim, o esporte no Brasil é modelador de identidade, elemento fundamental da nossa cultura. As derrotas marcam “síndromes”, seja do “vira-lata” ou do 7×1. As vitórias nos tornam o país do futebol, ao som do tema de Senna, nos colocam como melhores em algo perante as demais nações do mundo, motivo de orgulho a cada vinheta “BRA-SIL-SIL-SIL!”.

O “esporte visto como espetáculo” e entretenimento que – a meu ver – leva o jornalismo a entrar numa cilada que pode apagar suas virtudes, desmerecer os profissionais e levar uma editoria que historicamente brigou para sair do cantinho da redação a ser novamente alvo de preconceito. “Morreu o jornalismo!”, bradam alguns. Não, ele está vivo. E alimentado em reflexões como essa. Obrigado, Tiago, por nos apresentar algo novo e nos fazer repensar a nossa relação com essa área que envolve tantos jornalistas e tanta paixão de grande parte do país. Concorde comigo ou com Leifert e assim o Jornalismo Esportivo sairá fortalecido – Tiago Leifert se emociona em despedida do Globo Esporte São Paulo.

“O meu lugar é onde quero estar”. Reflexões a partir de uma entrevista com a Gerente de futebol do São Cristóvão

sexta-feira, julho 3, 2015 Deixe um comentário

Fazia algum tempo que estava à espera da oportunidade de assistir a um jogo do São Cristóvão e, desse modo, incrementar meu currículo futebolístico, o que seria ótimo tanto em nível pessoal quanto para a minha vida de pesquisadora.

A oportunidade surgiu este ano. De posse da tabela do Campeonato Carioca da série B e de uma caneta marca texto, fui assinalando as partidas do São Cristóvão e, entre várias, escolhi uma a ser por mim visitada. Saudades do estádio da Rua Bariri, em Olaria, somada a disponibilidade de tempo, me levaram a escolher o jogo entre São Cristóvão x Gonçalense, realizado, dia 30/05/2015, naquela mesma praça esportiva, já que o estádio da Figueira de Melo está impedido de receber público.

Como preparativo para esse encontro, fui buscar informações sobre o São “Cri Cri”, como carinhosamente costuma-se chamar o clube que foi campeão carioca em 1926 e que está perto de completar 117 anos. Folheando e vagando pelas páginas impressas e virtuais de alguns jornais e sites havia uma constante nos noticiários relativos ao São Cristóvão: a referência a Silvani Maria, gerente de futebol do clube e que foi considerada por algumas reportagens como a primeira mulher a exercer tal cargo no Rio de Janeiro.

O fato de ser mulher parece ter sido elemento importante para despertar a atenção de veículos de comunicação como o jornal Extra, Folha de São Paulo e o portal FutRio, entre outros, que publicaram matérias em que se enfatizavam os desafios de Silvani para desenvolver seu trabalho em um ambiente tão machista como é o futebol. Mulheres atuando no território futebolístico se adéquam aos critérios de noticiabilidade, já que se trata de um acontecimento não muito comum, em especial, no Brasil. Por outro lado, não ser comum aponta para um problema: a pouca presença da mulher no território futebolístico.

Embora a mulher venha, ao longo dos anos, conquistando espaço e reconhecimento no futebol, é de se lamentar que ainda há muito a ser feito para tonar esse esporte menos desigual no que se refere às relações de gênero. E o tradicional São Cristóvão de algum modo tem dado positivas contribuições nesse aspecto. Desde o ano passado, quem gerencia o futebol do clube é a já mencionada Silvani Maria, a quem decidi entrevistar, unindo, desse modo, dois temas que me despertam grande interesse enquanto pesquisadora: 1) A relação entre mulher e futebol 2) A história de clubes que estão fora do circuito principal do futebol brasileiro.

Entrevistar a gerente de futebol do São Cristóvão e dialogar com suas experiências no futebol, me pareceu a oportunidade ideal de conseguir material relevante para tecer reflexões acerca desses temas que, nos últimos meses, se cruzam na Rua Figueira de Melo. Porém, antes de começar a falar sobre a entrevista, é interessante fazer algumas considerações sobre as matérias publicadas, buscando analisar de que modo foi narrado, por parte da imprensa, o fato de uma mulher ser gerente de futebol de um tradicional clube carioca.

A “Capitão Nascimento” do São Cristóvão

No dia 08 de março de 2015 a Folha de São Paulo publicou no Caderno de Esportes a matéria “Poderosas, mas poucas”, na qual são mostrados casos de mulheres que exercem função de comando em clubes de futebol. Segundo o jornal, em São Paulo, dentre os 140 clubes inscritos na Federação, apenas Monte Azul e Tupã FC são presididos por mulheres, sendo que ambas possuem vínculos familiares com seus fundadores ou ex-presidentes (Folha de São Paulo, Caderno de Esportes, D4, 08/03/2015).

Saindo de São Paulo, chega-se ao Rio de Janeiro, onde se destaca Silvani Maria que já na chamada da matéria tem seu perfil traçado como alguém de pulso forte: “No Rio, gerente de futebol cria cartilha e intimida boleiros” (Folha de São Paulo, Caderno de Esportes, D4, 08/03/2015). Essa figura “durona” é enfatizada ao longo do texto, sobretudo, a partir dos depoimentos colhidos. O primeiro deles é o de um torcedor que a chama de “nosso Capitão Nascimento” (Folha de São Paulo, Caderno de Esportes, D4, 08/03/2015) e o segundo é o diretor do clube, Marcos Barcellos, que faz a seguinte afirmação: “Ela é nossa xerife. Escolhemos a Silvani porque acreditamos que uma mulher é capaz de organizar melhor o trabalho e intimida os boleiros”. (Folha de São Paulo, Caderno de Esportes, D4, 08/03/2015).

A mesma referência à figura do Capitão Nascimento – personagem do filme Tropa de Elite – é mencionada pelo jornal Extra na matéria “Gerente de futebol do São Cristóvão, Silvani Maria, é chamada de Capitão Nascimento e Margaret Thatcher pela mão de ferro”. Dessa vez, quem a denomina de Capitão Nascimento é o diretor administrativo, Renato Campos que tece uma série de elogios a Silvani porque “exige disciplina, os coloca nas normas do regime militar. Por isso é nossa Capitão Nascimento (risos). Para eles, ainda é estranho, mas ela chegou bem para comandar, organizar. É uma pessoa muito fácil de trabalhar” (Fonte: http://extra.globo.com/esporte/campeonato-carioca/gerente-de-futebol-do-sao-cristovao-silvani-maria-chamada-de-capitao-nascimento-margatet-thatcher-pela-mao-de-ferro-15396954.html)

Na sequência, a matéria envereda para lugares comuns da representação das mulheres, ao comentar que “A dureza no comando fez a fragilidade passar longe de Silvani. A gerente não se mostra nada mulherzinha. Não usa maquiagem, veste calças e camisas soltas e só demonstra sua feminilidade nas unhas pintadas e na mala rosa, que ela nunca dispensa” (Fonte: http://extra.globo.com/esporte/campeonato-carioca/gerente-de-futebol-do-sao-cristovao-silvani-maria-chamada-de-capitao-nascimento-margatet-thatcher-pela-mao-de-ferro-15396954.html)

O reforço à menção aos índices estereotipados de feminilidade como unhas pintadas, a cor rosa, a maquiagem, a maternidade etc., é recurso comumente utilizado pela imprensa e outros meios para a representação de mulheres que atuam em profissões consideradas masculinas. E nas matérias esportivas isso não é diferente. Recentemente durante a transmissão do jogo Brasil X Austrália, pelo Mundial Feminino de Futebol, podia-se ouvir do locutor da partida frases como “nunca havia visto tanta mulher bonita”. Comentários como esse mostra o quanto é difícil desassociar a mulher da beleza e, desse modo, considerar somente seu desempenho profissional.

No caso do futebol quesitos relativos à boa aparência chegaram mesmo a constar nas regras do campeonato feminino organizado pela Federação Paulista, em 2001, tendo como justificativa a necessidade de se vender uma imagem “feminina” do futebol (COSTA, Leda. Beuty, effort and talent: a brief history of Brazilian women’s soccer in press discourse. In: CURI, Martin. Soccer in Brazil. Soocer & society, Vol. 15, Janeiro de 2014). Além dos quesitos de beleza, persiste a vinculação entre mulher e as tarefas da vida doméstica. Ao vencer a final do Torneio Internacional, em dezembro de 2014, disputada contra os Estados Unidos, algumas jogadoras da Seleção Brasileira foram premiadas com um kit de produtos de limpeza, patrocinado por uma conhecida empresa do ramo no país. Difícil imaginar algo mais constrangedor e difícil imaginar que o mesmo tipo de tratamento fosse dado aos atletas masculinos.

Trata-se de uma abordagem fundada nas tradicionais exigências de ser “bela, feminina e maternal”, expressão que tomo de empréstimo do livro de Silvana Goellner (Bela, maternal e feminina: imagens da mulher na Revista Educação Physica. Ijuí: Unijuí, 2003). Nessa obra, a autora demonstra que grande parte das dificuldades encontradas por mulheres, no início do século XX, para se tornarem praticantes de algumas modalidades esportivas, relacionava-se ao medo socialmente compartilhado de que os esportes – especialmente os considerados mais brutos – as desviassem de sua “natureza”, ao masculinizá-las e afastá-las dos domínios do espaço da casa.

Certamente muita coisa mudou e, embora, as expectativas em torno do feminino persistam, é importante reconhecer que hoje em dia as mulheres possuem maior autonomia e domínio sobre sua composição indenitária. Se beleza e maternidade continuam a ser índices importantes para o imaginário em torno da feminilidade, na cultura contemporânea – pelo menos em alguns países – pode-se dizer que as mulheres têm mais possibilidade de elas mesmas gerenciarem suas identidades do modo que melhor lhes convir.

Silvani Maria decidiu se embrenhar nas trilhas do futebol. E em busca do diálogo com essa experiência fui ao encontro de Silvani Maria, curiosa em saber se ela faz jus à alcunha de “Capitão Nascimento”. Temendo por um sim, rumei até a Rua Figueira de Melo, onde se localiza o simpático clube São Cristóvão.

Chegando à Figueira de Melo

 Tive sorte no dia em que fui fazer a entrevista. Cheguei à Rua Figueira de Melo por volta das 15h, do dia 02 de junho, e no campo do clube ocorria um treino entre equipes mirins do Vasco da Gama.  Aproveitei a chance para visitar o estádio que foi inaugurado em 1916. O estádio Figueira de Melo pouco lembra o que já foi um dia, especialmente quando ostentava uma bela arquibancada de madeira, que na década de 1943 foi derrubada por causa de um incêndio.

Hoje, mesmo que ao longe se possa ver o Cristo Redentor, o Figueira de Melo foi um tanto que engolido pela Linha Vermelha e pelas edificações ao entorno. É mais um dos estádios que busca sobreviver em meio às especulações imobiliárias e aos problemas financeiros do futebol carioca.

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

A frase “Aqui nasceu o fenômeno” tornou-se uma espécie de marca do clube pelo qual jogou Ronaldo, nas categorias de base. A lembrança desse momento se faz presente em diversos locais.

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Após esse breve passeio por parte das dependências do São Cristóvão, fui à procura de Silvani e já pelos murais dos corredores vi indicativos de sua presença.

 

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

 Seguindo as indicações das placas, encontrei a sala onde ela trabalha.

FOTO5

Arquivo pessoal. 

Para mais informações sobre o rosa do escudo do São Cristóvão acesse:  https//:www.caravanadeboleiros.com.br

Bati, pedi licença e entrei na sala da Gerente do São Cristóvão. Após breve apresentação e uma breve conversa começamos a entrevista que foi por diversas vezes interrompida, seja por ligações de celular, pela visita do Presidente do clube ou por outras pessoas que também buscavam Silvani. Essas interrupções deram mostras do quanto deve ser agitado o cotidiano da Gerente, o que pude experimentar um pouco. E, convenhamos, para quem gosta de futebol como eu, não há por que reclamar por ter compartilhado desse burburinho.

O meu lugar é onde quero estar

Após ter ouvido de um treinador adversário a frase “lugar de mulher é na cozinha lavando cueca de marido”, Silvani não hesitou em respondê-lo à altura, fazendo uso dos inevitáveis xingamentos, mas completando-os com a frase “o meu lugar é onde quero estar” (02/06/2015).

Essa frase gritada com raiva pela gerente do São Cristóvão e repetida com calma durante a entrevista que me foi concedida, é uma espécie de síntese do que Gilles Lipovetsky afirmou acerca da condição feminina na cultura contemporânea: “en la actualidad, un nuevo modelo rige el lugar e el destino social de la mujer. Nuevo modelo que se caracteriza por su autonomización en relación com la influencia que tradicionalmente han ejercido los hombres sobre las definiciones y significaciones imaginário-sociales de la mujer” (La tercera mujer. Permanencia y revolución de lo femenino. Barcelona: Anagrama,1999, p.218)

Em outras palavras “o meu lugar é onde quero estar”, o que inclui um campo de futebol. Sabemos que não é tão simples assim. Ainda há uma série de entraves à plena atuação das mulheres especialmente em ambientes considerados como masculinos. Dados obtidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) mostram que, em 2012, o rendimento total das mulheres equivale a 73% do rendimento dos homens. E a diferença salarial aumenta na medida em que o grau de escolaridade cresce. (Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/diferenca-salarial-entre-homens-e-mulheres-aumenta-conforme-grau-de-escolaridade-4679.html)

No futebol não é diferente. A brasileira Marta lidera o ranking das mais bem pagas, de acordo com levantamento feito pela revista The Richest. A jogadora ganha por ano cerca de 800 mil Reais, enquanto o português Cristiano Ronaldo pode chegar a faturar mais de 50 milhões durante o mesmo período. (Fonte: http://www.therichest.com/sports/soccer-sports/top-9-highest-paid-female-soccer-players-of-2014-americas/9/)

É certo que em termos financeiros o futebol é feito para poucos de um modo geral, já que podemos contar nos dedos os detentores das cifras milionárias. No Brasil, por exemplo, temos 30.784 jogadores registrados sendo que 82% recebem até dois salários mínimos. (Fonte: http://extra.globo.com/esporte/triste-realidade-no-brasil-82-dos-jogadores-de-futebol-recebem-ate-dois-salarios-minimos-6168754.html)

Essa desigual distribuição de renda acaba fazendo-se mais aguda, no caso das mulheres, especialmente no Brasil, país que ainda apresenta sérios problemas na organização dessa modalidade esportiva. Poucas competições, equipes formadas às pressas e do mesmo modo desfeitas, tudo isso se resumindo no amadorismo que faz com que muitas meninas tenham que trabalhar em outras profissões que não a de atleta. Logo, estar no “lugar onde quero estar”, quando esse lugar é o futebol, pode significar o enfrentamento de muitos obstáculos, especialmente se decidirem atuar como jogadoras.

Silvani até que chegou a jogar futebol, o que, aliás, fez com bastante disposição chegando mesmo a “sair escoltada de um jogo” (02/06/2015) por revidar agressão sofrida por uma adversária. A carreira durou até o nascimento do filho que hoje tem 18 anos. Após o casamento, Silvani passou a administrar um buffet e um restaurante. Continuou a acompanhar o futebol apenas como torcedora, mas depois de se separar do marido, investiu na formação em Gestão, especializando-se na área esportiva.

Começou a carreira no Santa Cruz, time da terceira divisão do Carioca, ficando nele por 5 anos. Depois foi para o Magaratibense, hoje na série B, voltou ao Santa Cruz, até chegar ao São Pedro, na série C. Em um dos jogos entre São Pedro X São Cristóvão, o presidente do último, após observar a atuação de Silvani, resolveu convidá-la para trabalhar no clube da rua Figueira de Melo que naquele ano subiu para a segunda divisão. De acordo com Silvani o convite veio porque o presidente do São Cristóvão percebeu que ela mostrava “agilidade e facilidade” no trabalho.

Embora as reportagens citadas acima enfatizem o fato de Silvani ser mulher, há um aspecto que precisa ser considerado: o estilo de trabalho por ela adotado, estilo esse marcado pelo modo organizado e enérgico de desenvolver sua função. Desse modo, o que mais costuma lhe causar problemas não é exatamente a sua condição feminina, mas sua postura profissional, por isso ela comenta: “todo clube que eu chego, inicialmente tenho certo tipo de problema” (02/06/2015).

É muito provável que o fato de se estar diante de uma mulher, em ambiente tão masculino, provoque bastante estranhamento e, até mesmo, problemas. Contudo, a esse aspecto se soma um tipo de conduta que à primeira vista não costuma ser bem recebido, não somente no território futebolístico, mas em outras esferas do cotidiano, no Brasil. A cordialidade, como já mostrou Sérgio Buarque de Hollanda, é marca da sociedade brasileira, o que provoca certa resistência às leis e formas de ordenação impessoal. E pelas palavras de Silvani, ela gosta justamente de “de ter regras, de criar dinâmica de trabalho, criar uma prática e que aquilo seja seguido” (02/06/2015).

Ao mesmo tempo em que há uma resistência a esse tipo de procedimento, esse perfil também costuma ser desejado no futebol, sobretudo por tratar-se de um ambiente em que a concepção de profissionalismo esbarra em noções como talento, dom, assim como esbarra no fato de que os empregados, no caso, os jogadores – os empregados – ganharem mais do que muitos daqueles que os comandam – os empregadores.

O São Cristóvão, por exemplo, tem uma folha salarial de 70 mil reais, sendo que 50 são destinados ao pagamento de jogadores. As dificuldades de se gerenciar o São Cristóvão são muitas, desde a obtenção de patrocínio e outros tipos de verbas que possam ser usadas na montagem e manutenção do time. Nesse aspecto chama a atenção o fato de Silvani mostrar-se muito crítica em relação à situação dos chamados “pequenos”. Ao invés de adotar uma perspectiva vitimizada, percebi na fala da Gerente que, se de um lado a Federação de Futebol pouco faça para ajudar, por outro, muitas pessoas envolvidas diretamente com os clubes chamados pequenos, não mostram “comprometimento”.

De acordo com Silvani, os clubes “deveriam se organizar melhor” (02/06/2015) evitando deixar tudo “para cima da hora”, o que pode ser fatal se considerar que estamos tratando de um clube que não possui a mesma facilidade de arrecadação daqueles que frequentam a elite do futebol. Esse perfil não vitimizado, também, se faz notar em sua fala no que se refere ao fato de ser mulher. Segundo Silvani, o futebol é “pra quem ama” porque trabalhar nesse ambiente significa abdicar dos finais de semana, de datas comemorativas e de uma série de outros momentos em família, mas isso ocorre com qualquer pessoa que de fato se dedique à profissão, sendo, portanto, algo que “independe do sexo” (02/06/2015).

Essa entrega ao trabalho é, na perspectiva de Silvani, fator fundamental para ter conseguido o respeito dos seus colegas e dos jogadores. Embora seja metódica, ela não se limita a delegar tarefas, sendo muitas vezes levada a fazer trabalhos que não lhe cabem, mas que os realiza se for necessário. Isso, entretanto, não livra Silvani de passar por momentos de preconceitos como já foi dito acima. Preconceitos contra os quais, costuma rebater perguntando: “Tem algum lugar escrito que o cargo gerente de futebol tem que ser único e exclusivamente exercido, por homem? Não” (02/06/2015).

Embora já tenha havido limitações legais à prática do futebol feminino na década de 1940, nos dias atuais não há nenhuma restrição escrita desse tipo, assim como não há restrições imposta às mulheres, para o exercício da arbitragem e de tantas outras funções no futebol. De fato, não há documentos que estipulem que futebol é domínio exclusivo dos homens, tanto que o filho de Silvani, não gosta desse esporte. Porém, se não há empecilhos legais e escritos, há diversos em nível simbólico que certamente ainda atrapalham uma mais consistente inserção e legitimação da mulher no território futebolístico.

O que me chamou a atenção no caso da Silvani, gerente de futebol do São Cristóvão, foi ver o cruzamento de duas problemáticas do futebol brasileiro: uma mulher exercendo cargo de chefia em um clube tradicional, clube este que há algum tempo enfrenta sérios problemas por estar fora do circuito principal do futebol nacional. Na conversa que tive com Silvani me pareceu clara a tentativa de a gerente guiar-se pela vontade de desenvolver sua função com profissionalismo, o que segundo sua percepção é algo que independente de sua condição feminina. Isso não exclui a consciência de que o futebol é um universo, muitas vezes, interpretado como lugar para homens.

Politicamente é importante a luta pelo reconhecimento de direitos mais igualitários entre homens e mulheres, em diversas instâncias da sociedade, o que inclui a esfera do trabalho, afinal dados – como os acima mostrados – demonstram que a desigualdade entre os gêneros é algo concreto no cotidiano. Por outro, lado faz-se necessário que o fato de ser mulher não seja critério predominantemente usado para desmerecer ou superdimensionar seus trabalhos.

Não tive tempo de saber se concordo em chamar Silvani de “Capitão Nascimento” e confesso que tenho pouca simpatia pelo personagem. Prefiro pensar nela como exemplo de uma “profecia” feita por Virgínia Woolf, que na década de 1920 proferiu duas conferências perante a Sociedade das Artes, no Newnham College e no Girton College, ambas as escolas para mulheres fundadas na Universidade de Cambridge.

Nas palavras de Virgínia Woolf:

Dentro de cem anos, pensei, alcançando minha porta de entrada, as mulheres terão deixado de ser o sexo protegido. Logicamente, participarão de todas as atividades e esforços que no passado lhes foram negados. A babá carregará carvão. A dona da loja dirigirá uma locomotiva (…). Retirem-se-lhes essa proteção, exponham-nas aos mesmos esforços e atividades, façam-nas soldados e marinheiros e maquinistas e estivadores, e as mulheres não morrerão tão mais jovens – e tão mais depressa – que os homens (…) Tudo pode acontecer quando a feminilidade tiver deixado de ser uma ocupação protegida” (Um teto todo seu. São Paulo: Vozes,p.54).

Façam-nas soldados, marinheiros e maquinista e complementando Virgínia, façam-nas jogadoras de futebol, árbitras, etc. e gerentes de futebol.

Eu e Silvani Maria, sob a proteção do São Cristóvão.

Eu e Silvani Maria, sob a proteção do São Cristóvão.

Obrigada Silvani pela entrevista que resultou neste post.

Será que 15 anos depois os “ lobos/hienas da bola” continuarão a gargalhar?

terça-feira, junho 23, 2015 Deixe um comentário

Segundo o jornalista Carlos Azevedo em depoimento ao livro CBF-NIKE que relatou todas as investigações da pioneira CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito)  escancarando os subterrâneos da cartolagem do futebol brasileiro:

No início de 1999, Aldo Rebelo começava a colher assinaturas para a CPI para analisar a regularidade do contrato entre a CBF e a Nike. A iniciativa foi recebida com gargalhadas na “Embaixada da CBF” em Brasília. A “Embaixada” fica numa mansão alugada pela CBF  e que custou R$660.000,00 em despesas aos cofres da entidade só no ano de 2000. Ali em partidas de futebol society, festas concorridas bem servidas de comidas, bebidas e outras atrações, parlamentares e cartolas confraternizavam e punham-se ao dispor do magnata da CBF. Desde 1998 era a sede da “bancada da bola”.

Consegui o esgotado/censurado livro sobre a polêmica CPI da Nike em 2003 quando coletava material para uma monografia de final de curso em Direito em que eu discutia a tese minoritária de possibilidade de fiscalização da C.B.F pelo M.P.U (Ministério Público da União). A referida obra dos relatores Aldo Rebelo e Sílvio Torres “curiosamente” não era encontrada em nenhuma livraria de pequeno, médio ou grande porte na cidade do Rio de Janeiro. Com muito custo e após me avisar que os exemplares tinham sido arrematados ou simplesmente recolhidos das prateleiras em poucos dias meu amigo Rodrigo, dono da clássica “Folha Seca” na Rua do Ouvidor 37 adquiriu um livro com um colega em São Paulo que guardo até hoje como se fosse um sobrevivente do “BUCHERVERBRENNUNG”, a trágica queima de livros do regime nazista em 1933.

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Uma CPI é regulamentada pelo artigo 58 parágrafo 3 da magna carta e tem como função investigar um “fato determinado” que pode ser encaminhado ao Ministério Público, órgão que possui a competência de denunciar criminalmente ou civilmente as ilegalidades ou arbitrariedades cometidas por um parlamentar, empresa ou cidadão:

Art. 58. O Congresso Nacional e suas Casas terão comissões permanentes e temporárias, constituídas na forma e com as atribuições previstas no respectivo regimento ou no ato de que resultar sua criação.

  • As comissões parlamentares de inquérito, que terão poderes de investigação próprios das autoridades judiciais, além de outros previstos nos regimentos das respectivas Casas, serão criadas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, em conjunto ou separadamente, mediante requerimento de um terço de seus membros, para a apuração de fato determinado e por prazo certo, sendo suas conclusões, se for o caso, encaminhadas ao Ministério Público, para que promova a responsabilidade civil ou criminal dos infratores.

A simples abertura da CPI da Nike na Câmara dos deputados e seu desdobramento na comissão do Senado conhecida como CPI do Futebol configurou em uma conquista devido ao contexto favorável aos interesses econômicos da instituição que administra o futebol pátrio e as alianças políticos que os seus dirigentes possuíam com a famigerada “bancada da bola”.

Independentemente da CPI ter sido arquivada devido aos mecanismos desiguais do procedimento legislativo “boleiro”, o fato do relatório ter sido mantido na íntegra, descrevendo sucintamente diversos crimes contra o sistema financeiro e a articulação das redes de poder corruptas que envolviam “amizades” nos três poderes se constituiu em uma grande vitória.

Ademais, apesar de eventuais resultados concretos na esfera civil e penal terem sido evitados pelo arquivamento da CPI, a importância simbólica dos depoimentos evasivos de Ricardo Teixeira e da repercussão midiática na opinião pública dos fatos investigados foram fundamentais para desvelar a aura intocável de legalidade e moralidade da empresa privada gestora da “paixão nacional”.

Neste sentido, e como “recordar é viver” urge a necessidade de acionar a memória das investigações feitas neste episódio justamente para que 15 anos depois, as novas/antigas – denúncias/fatos não sejam novamente arquivadas por herdeiros da microfísica parlamentar do poder no Congresso nacional, se transformando em novas bodas pueris.

Assim sendo, elenco abaixo resumidamente os “pontos sensíveis” apurados no nascimento da adolescente moça batizada CPI da Nike segundo seus relatores (CBF-NIKE, 2003.P26-28):

  1. Contrato CBF-NIKE – Ficou comprovada a supremacia de interesses econômicos da multinacional norte-americana em detrimento do futebol brasileiro e privilegiando os interesses pessoais dos dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol.
  2. Corrupção das Federações – As Federações se transformaram em “casas de negócios sujeitas ao continuísmo, nepotismo e corrupção, à ausência de calendários e outros desmandos.” (CBF-NIKE, 2003.P.27)
  3. Administração ruinosa da C.B.F – Gastos indevidos, doações políticas para parlamentares da “bancada da bola”, fraudes fiscais, etc.
  4. Empréstimos externos da CBF, evasão de divisas – Contratos de empréstimos com juros extorsivos no exterior no DELTA BANK, compra de ouro no exterior sem identificação dos beneficiados, remessa ilegal de dinheiro para a FIFA, etc.
  5. Remuneração ilegal da diretoria da CBF – A CBF segundo seu Estatuto, era uma empresa privada sem fins lucrativos gozando dos benefícios legais desta situação atípica, porém seus dirigentes recebiam altos salários. Após a CPI o Estatuto foi modificado.
  6. Ricardo Teixeira usa recursos da CBF para pagar contas dos seus advogados, restaurantes e agradar “amigos’ do Judiciário, Legislativo e Executivo.

Outros escândalos relatados no livro como o retorno da equipe tetracampeã ao país que ficou conhecido como “vôo da muamba”, o desvio de ingressos da final da Copa do Mundo de 1998 pela agência/parceira SBTR, o tráfico de jogadores com passaportes falsos ajudam a revelar a podridão da gestão de um dos maiores ícones do patrimônio cultural brasileiro.

Outrora lobos sagazes, arrogantes e intocáveis os dirigentes da CBF agora parecem hienas covardes cabisbaixas. Mas nenhum animal aceita abandonar a presa, mesmo que esta esteja se transformando em uma fétida carniça putrefata como o moribundo futebol brasileiro.

A famosa máxima hobbesiana de que “O lobo é o lobo do homem” infelizmente na gestão privada da C.B.F e da FIFA pode ser substituída pela metáfora de que a “bola é o lobo do homem”. Que os lobos temporariamente rebaixados à hienas continuem a rir de medo e não de deboche!

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Trabalho do LEME é divulgado no boletim Fronteiras do Conhecimento

A primeira edição do boletim Fronteiras do Conhecimento apresenta em um de seus capítulos o trabalho elaborado pelo Laboratório de Estudos de Mídia e Esporte (LEME). Esta apresentação teve como principais bases as entrevistas concedidas por Ronaldo Helal (co-fundador e coordenador do LEME) e Filipe Mostaro (doutorando e integrante do LEME) ao núcleo de Estudos Avançados.

A equipe de comunicação da Coordenadoria de Estudos Estratégicos e Desenvolvimento (CEED) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) criou, a partir da organização do núcleo de Estudos Avançados e Desenvolvimento, o boletim Fronteiras do Conhecimento. A iniciativa tem como um dos principais objetivos apresentar projetos de estudos estratégicos científicos e tecnológicos de diversas partes do mundo.

Além disso, o boletim é uma publicação bimestral e pretende identificar e divulgar o trabalho promovido por grupos de pesquisas da própria UERJ de forma a atrelá-los à demandas das demais regiões e cidades do Rio de Janeiro integradas ao conhecimento científico, tecnológico, social e aos recursos humanos. Desse modo, é disponibilizado aqui a primeira edição do boletim, no formato de arquivo em PDF:

Boletim Fronteiras do Conhecimento – Junho de 2015 – Ano I, Edição Nº 1.

Uma Pirueta, Duas Piruetas…

terça-feira, junho 9, 2015 Deixe um comentário

palhaço

Eu sempre gostei de esporte, então quando entrei na Faculdade de Comunicação me pareceu natural aliar o esporte ao jornalismo, e eu então comecei a trabalhar com jornalismo esportivo dentro da Graduação. Quando comecei a me interessar pela pesquisa acadêmica, também me pareceu muito natural trabalhar a questão do esporte e de novo o jornalismo esportivo apareceu na minha vida.

Durante todo o período da Graduação, tanto meu trabalho no mercado quanto na pesquisa acadêmica estavam voltados para o jornalismo esportivo, e durante esse tempo eu estava mergulhada na área, acessava todos os sites, via todos os programas de televisão , ouvia programas radiofônicos,  possuía informações sobre todos os times e campeonatos de futebol e ficava sempre muito bem colocada no tradicional bolão da Rádio Universitária, hoje Rádio Facom, da UFJF.

Quando eu me formei tive a oportunidade de morar na Europa, e lá mantive os mesmos interesses e hábitos, sempre com muito carinho ao jornalismo esportivo. No continente europeu tive a chance de perceber que a área tão afeta ao meu coração é muito maior do que eu havia imaginado, e muito mais complexo do que o exercido no Brasil.

Durante meus estudos e pesquisas acadêmicas, aprendi que nos primórdios o jornalista que era designado para editoria de esportes tinha um status social, ou valor de trabalho, menor. Essa era uma editoria que se considerava não possuir tanta força política, social e econômica, e aquele jornalista que não possuía muita capacidade intelectual para trabalhar com as outras editorias, consideradas importantes, era relegado ao esporte. Com o passar do tempo o esporte cresceu e tornou-se um forte mercado, e a secção de esportes cresceu junto, ganhando força e importância dentro das redações (importância relativa, mas isso fica para outro post).

A questão é, com o esporte tornando-se mercado o jornalismo esportivo transformou-se em entretenimento.  E o que tenho visto é uma certa “palhaçalização” desse tipo de jornalismo. O que se tem nos programas de televisão e nos sites esportivos de notícia é, além da eterna restrição ao futebol (o que é uma crítica antiga, sobre a necessidade de se divulgar outros esportes), uma revisitação constante, sucessiva, ininterrupta aos jogos que aconteceram no dia, ou fim de semana, anterior no caso da televisão e nos acabados de acontecer por parte dos sites.  Os gols são reprisados ad infinitum, as jogadas são esmiuçadas, os lances polêmicos vistos em super-câmera-lenta, de todos os ângulos, entrevistas de jogadores e técnicos, que não acrescentam em nada são colocadas sob uma lupa. O jornalismo esportivo , então, perde novamente o seu valor, pesando o tripé em toneladas para o lado do entretenimento.

Piadas e brincadeiras, que sempre tiveram espaço, e que são muito válidas visto este tipo de jornalismo ser mais leve, tornam-se mais importante do que as informações e ganham espaço que poderia ser dado à divulgação de outros esportes, ou à investigação, ou ao esporte amador, ou a histórias de interesse social. Com a leveza em excesso o diagnóstico é simples, o jornalismo esportivo inflou-se de gás Hélio e está indo para o “espaço”.

Exemplo clássico dessa “palhaçalização” é o bloco de esportes do Fantástico, programa exibido aos domingos pela Rede Globo, que fecha essa revista eletrônica semanal, que tem se voltado cada vez mais para o entretenimento . Tadeu Schmidt que havia levado um diferencial ao bloco, com o “Bola Cheia” e “Bola Murcha”, e focando na alegria do futebol, tem “pesado na mão”, ficando circunscrito a isso.

Não se trabalha o jornalismo esportivo investigativo no Brasil, como se deveria. Fomos sede da Copa do Mundo em 2014, seremos sede dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos em 2016, e não vejo investigação ou, ao menos reportagens com mais densidade informativa. E quando esse tipo de investigação é feita, não são os jornalistas que trabalham efetivamente com o esporte os autores de tal façanha, e quando são divulgadas, essas matérias encontram-se dissociadas dos blocos, cadernos, secções do esporte.

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