Entrevista com Roberto Assaf: As Ditaduras e o futebol na América Latina

sexta-feira, dezembro 19, 2014 Deixe um comentário

A utilização do futebol como instrumento legitimador  dos regimes autoritários, na tentativa de legalizar atos cometidos pelos militares na América Latina durante o período de exceção.

 

Jota Silvera

Até os regimes autoritários precisam de reconhecimento, legitimação, e, da associação do regime com a nação – onde governo e pátria se tornem uma coisa só –  para tal se fazem necessários símbolos, símbolos estes, que também remetam a nossa identidade.

Por intermédio  do carnaval, samba, alegria, cachaça e futebol somos identificados e nos identificamos como brasileiros. Destes elementos todos, o futebol, como qualquer outra atividade lúdica e cultural, tem somada a força de ser envolvente e emocionante, força esta amplificada  ao se tratar da Seleção Nacional.

Getúlio Vargas percebeu este potencial, profissionalizou  o futebol tornando-o símbolo da identidade nacional, onde negros e mestiços, além de participarem, se tornam destaques, isto reforça a ideia da mestiçagem ou uma democracia racial  – segundo tese de Gilberto Freyre –  em soma, o alicerce  da constituição de nossa brasilidade.

O futebol como esporte coletivo, onde “todos juntos”,  sem distinção de raça, credo ou ideologia, com disciplina e amor a camisa tornariam o Brasil grande, moderno, imbatível, transformando a imagem das vitórias futebolísticas  no campo internacional, na própria imagem do sistema, sistema este capaz de produzir um povo ordeiro, vencedor, civilizado e avesso a todos os conflitos do mundo; religiosos, raciais ou mesmo sociais.

Nas décadas de 1960 a 1980, o uso político do futebol, se tornaria comum nos países da América Latina submetidos a um regime totalitário como Argentina, Chile e Uruguai.

O jornalista esportivo Roberto Assaf analisa o fenômeno.

 

As ditaduras militares têm se valido do esporte, especialmente do futebol, mas sobretudo em época de Copa do Mundo, como instrumento propagandístico do seu sistema autoritário. A partir de que momento isso se torna  visível?

 Se torna mais visível a partir do ato institucional  Nº 5, em 1969, mas, já em 1933, durante o Estado Novo, Getúlio Vargas  profissionaliza o futebol, marcando a primeira interferência significativa do Estado no esporte.

Outra intervenção, esta maior, foi em 1941 durante a ditadura Vargas (1937 a 1945) com a criação do CND – Conselho Nacional de Desportos – órgão normativo, com estatuto redigido nos moldes do da Alemanha de Hitler e da Itália de Benito Mussolini.  O objetivo de estabelecer as bases de todos os esportes no Brasil, e com isto ter o controle absoluto sobre toda e qualquer competição realizada, seguindo o exemplo dos países comunistas da Europa, que após a segunda grande guerra, têm a premissa de que um país com esporte forte dá a ideia também de um Estado forte, com um povo unido, civilizado e  disciplinado. Até 1930 os esportes no Brasil eram muito precários, para ter uma ideia não existiam piscinas no país, as competições de natação eram disputadas nos rios Tiete e Pinheiros em São Paulo, e as do Rio em mar aberto.

Com a realização da Copa do Mundo no Brasil em julho de 1950, aparece a oportunidade de mostrar ao mundo que, apesar de ser um pais subdesenvolvido tinha condições de sediar um evento dessa magnitude fora e dentro de campo. Segundo todos os jogadores da Seleção que entrevistei, o técnico repetiu exaustivamente o pedido de jogar limpo, mostrando disciplina e ganhando pura e exclusivamente pela superioridade técnica da equipe. Quem sabe uma falta antiesportiva tivesse evitado a troca de passes entre Júlio Perez e Alcides Ghiggia , o segundo gol,  e a consequente vitória do Uruguai nessa trágica final, já que o empate, dava o titulo a seleção brasileira.

 

É na Copa do México em 1970,  quando Brasil se torna o primeiro tricampeão mundial que este instrumento  se faz mais presente ?

Em 31 de agosto de 1969, durante a partida final das eliminatórias, contra o Paraguai no Maracanã, onde este recebeu o maior número de público pagante da história, (apesar de transmitida ao vivo pela Tevê inclusive para o Rio de Janeiro), a junta militar estava reunida no Palácio Guanabara elaborando a segunda Constituição do período ditatorial. E  comunicou  ao povo na mesma noite, na Resenha Militar em cadeia de radio e televisão em meio aos festejos do povo pela classificação.

Esse governo tinha ampla certeza da qualidade da seleção, considerada a melhor de todos os tempos até o momento, e do poder do futebol como divertimento de massas. Só faltava uma tecnologia de comunicações moderna que cobrisse todo o território nacional. E  construíram assim,  um novo complexo de comunicações, entre eles a rede nacional de tevê, onde programas como Jornal Nacional e Amaral Neto O Repórter se tornaram a voz oficial do sistema.

Cientes do potencial da seleção naquele ano e com uma rede nacional de televisão, poderiam capitalizar o interesse e a união nacional em beneficio do próprio sistema, algo que fizeram com incontestável competência. A música Pra frente Brasil de Luís Gustavo, cantada  por todo o país na euforia ufanista gerada pela transmissão ao vivo da Copa é mais uma prova disso.

 

O episódio Joao Saldanha tem a ver com a interferência militar ou Zagallo tinha mas competência para dirigir a esquadra canarinho ?

Em todos os setores da sociedade a junta introduziu militares nos cargos de maior hierarquia. No futebol não seria diferente, o chefe da delegação brasileira era o brigadeiro Gerônimo Bastos e toda a comissão técnica também era constituída de militares,  com exceção de João Saldanha, consagrado comentarista esportivo aclamado pelas massas como “o comentarista que o Brasil consagrou”, e reconhecidamente homem de esquerda. Mas  não cabia dividir os louros da vitória com um comunista. Os militares aproveitaram as críticas de alguns órgãos de imprensa descontentes com o esquema tático 4-2-4 considerado ultrapassado, e com o desempenho da seleção nas eliminatórias. Apesar de classificada, não teve oponentes de peso à altura de Inglaterra, Checoslováquia  e Romênia, rivais do Brasil na primeira fase da Copa, e demitiram Saldanha, chamando Zagallo para ocupar o cargo.

 

Após a conquista do tricampeonato mundial ficou claro que o governo militar capitalizou essa vitória?

A delegação foi recebida pelo presidente Emilio Garrastazu Médici nos jardins do Palácio da Alvorada (ele acertou o placar da final 4 x 1) e na coletiva de imprensa, lançou o bordão “ninguém segura este país”. No embalo da conquista do tri, os militares vão interferir diretamente no futebol, criando um campeonato nacional (dentro do lema integrar para não entregar) a partir de 1971, embrião do campeonato brasileiro de hoje.

 

 

A Copa de 1974, na Alemanha não teve participação relevante dos países da América do Sul.  Somente em 1978 as ditaduras volveram a agir?

Alguns episódios emblemáticos aconteceram na primeira metade da década de 1970, o Chile de Salvador Allende , Uruguai e Argentina  que viviam regimes democráticos foram vítimas também de golpes militares entre 1973 e 1976. O golpe do general Pinochet no Chile transformou o Estadio Nacional num campo de concentração, onde ficaram presos mais de cinquenta mil presos políticos de diversas nacionalidades, majoritariamente sul-americanos. Centenas deles foram sumariamente executados por fuzilamento dentro do própio estádio. O Chile viria  a se classificar para a copa de 1974 na Alemanha pela desistência da  Uniao Sovietica; negou-se a viajar a Santiago para disputar a partida de volta, em repúdio à ditadura. A Copa de 1978, apesar dos protestos de organizações de direitos humanos, especialmente dos países da Europa, contra as atrocidades cometidas pelos militares,  se realiza na Argentina. Para isto foi fundamental o apoio da FIFA que, inacreditavelmente era presidida por um brasileiro. João Havelange fora eleito em 1974, para surpresa de todos,  após peregrinação pela maioria dos países do mundo, fazendo promessas de tornar o futebol universal. Promessas que cumpriu, transformando o esporte em um negócio extraordinário.

A Argentina, nos moldes do que o Brasil realizara em 1970, utilizou a copa  de 78 para legitimar o regime. A copa vencida pela Argentina teve o famoso jogo contra o Peru que levanta suspeitas ate hoje.

Depois, em 1980, a ditadura uruguaia tentaria com o Mundialito, torneio que reuniu todos os campeões mundias, legitimar também suas ações. Marcando um mês antes um plesbicito para alterar a Constituição e tornar válidas todas as arbitrariedades  cometidas durante o regime. Esta tentativa foi frustada com o não da população, e a expulsão  das bandas militares do campo do Estádio Centenário no apito final da partida em que o Uruguay derrotou o Brasil por 2 a 1 sagrando-se campeão. Um fato marcante, que determinaria o inicio do fim da ditadura no Uruguay, foi a volta olímpica em sentido anti horário,  aos gritos de vai passar, vai passar a ditadura militar”, entoada ao uníssono pela massa.

 

quem sabe uma falta antiesportiva tivesse evitado a troca de passes entre Júlio Perez e Alcides Ghiggia , o segundo gol,  e a consequente vitória do Uruguai nessa trágica final, já que o empate, dava o titulo a seleção brasileira

Até 1930 os esportes no Brasil eram muito precários, para ter uma ideia não existiam piscinas no país, as competições de natação eram disputadas nos rios Tiete e Pinheiros em São Paulo, e as do Rio em mar aberto.

*Publicado originalmente na revista Ponto & Virgula da Facha (1o semestre de 2013)

Adeus ano novo. Feliz ano velho. De novo!

terça-feira, dezembro 16, 2014 Deixe um comentário

Uma das obrigações que chegam junto com o mês de dezembro é a de fazer um balanço do que foi o ano. Avaliar o que deu certo e traçar planos para corrigir ou colocar em prática tudo o que você adiou por doze meses. Em regra, somos tomados por um otimismo sem sentido que nos inspira a acreditar que desta vez vamos conseguir tirar tudo papel.

No começo de 2014, escrevi para o blog sobre o pessimismo que se abatia sobre o futebol brasileiro. Apesar da Copa do Mundo, a perspectiva era controversa. Dentro de campo, as críticas à qualidade do futebol apresentado no Brasil não paravam de crescer. Fora das quatro linhas, antigos problemas continuavam nos assombrando.

Ariano Suassuna, que morreu em julho (anote aí mais um motivo para lamentar 2014), se definia como um “realista esperançoso”. No entanto, acho que, quando se fala do futebol brasileiro, até ele teria dificuldades para encontrar motivos para sorrir. O ano que passou foi sombrio. Talvez a única coisa que tenha aumentado foi o número de programas esportivos nas TVs por assinatura. São pelo menos seis emissoras e muitas delas com mais de um canal. Uma pena que essa overdose de programação ao vivo não consiga apresentar soluções ou ao menos influenciar na melhoria do nosso futebol.

A tragédia do Mineirão dificilmente será esquecida. E, pior que isso, parece não ter sido compreendida. Ainda não descobrimos onde erramos. O placar de 7×1 talvez só tenha servido para explicar que um vexame de um país sede nada tem a ver com o vice-campeonato brasileiro, em 1950.

Temos uma penca de estádios novos, mas eles continuam vazios na maior parte dos jogos. A violência entre torcedores não foi contida. Já a alegria e a espontaneidade das arquibancadas está quase sendo proibida. A CBF trocou de dono, mas nada mudou. Suspeitas de corrupção continuam e a velha forma de comandar permanece. Nenhum clube brasileiro disputou a final dos principais torneios sulamericanos. Para completar, Eurico Miranda está de volta.

Durante todo o ano, casos de racismo no mundo esportivo foram registrados aos montes. Mas talvez aí esteja escondida uma boa notícia. O aumento de casos reflete necessariamente pelo aumento das denúncias. Vítimas se calam menos. E se devemos lamentar que nossa sociedade ainda seja obrigada a conviver com essa prática nefasta, pelo menos estamos começando a encarar o tema de frente. O que certamente é melhor do que ignorá-lo.

Para os torcedores esperançosos, é a hora de torcer para que aquela sonhada contratação se concretize. Para os realistas, é o momento de fazer as contas e ver o que vai ser possível realizar no curto período de doze meses. Arrumar a casa pode ser um bom começo.

Hierarquia e impessoalidade no futebol brasileiro

sexta-feira, dezembro 12, 2014 1 comentário

Nunca deixo de me surpreender com a capacidade que o futebol tem de produzir textos culturais antagônicos. Praticamente ao mesmo tempo em que o Atlético/MG conquistava a Copa do Brasil e o Cruzeiro se sagrava bicampeão consecutivo do Brasileirão, Eurico Miranda era novamente eleito para três anos de mandato como presidente do Vasco. Se o feito da dupla mineira foi narrado pela mídia como o triunfo da boa governança e da eficiente gestão, a eleição de Eurico causou certa estranheza pelo retrocesso que representa, não apenas para o Vasco, mas para o futebol brasileiro.

Remetendo ao título desse post, faço referência às reflexões de Roberto DaMatta (contidas principalmente no livro Carnavais, Malandros e Heróis), que classificava o Brasil como um país dividido entre códigos pessoais e impessoais. A esfera da pessoalidade se manifestaria em atitudes como o “você sabe com quem está falando” (recentemente atualizado no notório caso da querela entre o juiz e a agente da lei seca), o famoso “jeitinho brasileiro” e as hierarquias sociais ainda vigentes. Por outro lado, a impessoalidade nos remete ao “todos são iguais perante à lei”. Enquanto a pessoalidade traduz resquícios de uma sociedade tradicional, a impessoalidade seria um imperativo das sociedades ditas modernas.

Em relação a Eurico, ficaram evidentes na representação midiática de seu último mandato seu caráter intransigente (por exemplo, o caso da expulsão de Roberto Dinamite das cadeiras sociais do clube) e o viés autoritário (censura ao trabalho da imprensa em São Januário, proibição dos jogadores de conceder entrevistas). Ademais, o Vasco ficou quase seis anos sem patrocinadores, o que colaborou para a formação de elencos de qualidade duvidosa e a conquista de apenas um título (o Estadual de 2003).

 

A despeito disso, é interessante como Eurico pode representar tanto a modernidade (impessoalidade) quanto à tradição (pessoalidade). Como vice-presidente de futebol do clube nas décadas de 1980 e 1990, Eurico foi extremamente vitorioso, tanto pelos títulos no futebol quanto pelos investimentos em outros esportes (em especial, o basquete e o futsal), e soube capitalizar as conquistas para si – não à toa muitos torcedores esquecem que o presidente à época era Antônio Soares Calçada. Aliás, na década de 1980, Eurico perdeu por duas vezes consecutivas as eleições presidenciais para Calçada, fato este pouco lembrando pela mídia e pelos vascaínos. Essa oscilação entre um lado, digamos, modernizador e outro apegado às tradições parece se manifestar novamente em 2014. Ao mesmo tempo em que assume a presidência afirmando que equacionará as dívidas do Vasco e ampliará a capacidade do estádio de São Januário (promessa que vem desde sua última gestão), Eurico compra briga com o Fluminense e com o Consórcio Maracanã pela preservação da tradição do “lado vascaíno” no Estádio do Maracanã. Além disso, extingue o cargo de gerente de futebol – um dos símbolos da administração moderna do futebol –, ocupado até então por Rodrigo Caetano.

A influência política também é uma faceta da pessoalidade que cerca o dirigente vascaíno. Se ao final de seu último mandato, Eurico era execrado por personalidades vascaínas, dias após eleito, em 2014, ele já aparecia em foto com o presidente da CBF e a mesma instituição o parabenizava pela vitória. É igualmente notória a relação de amizade entre o novo mandatário do Vasco e o presidente da Federação de Futebol do Rio. No dia de sua posse, estavam presentes o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o Ministro do Esporte, Aldo Rebelo.

Essa tensão entre certa visão amadora (de amor ao clube, respeito às tradições, etc.) e uma vertente mais profissional, contudo, não é nova nem exclusiva da persona Eurico. A dualidade remonta, pelo menos, à década de 1920 no futebol brasileiro; nessa época, as ligas amadoras e profissionais disputavam a hegemonia da prática futebolística. Quando da fundação do Clube dos 13, em 1987, a “crise do futebol brasileiro” também podia ser interpretada por essa ótica dicotômica – Ronaldo Helal documentou criticamente esse processo em sua tese de doutorado, posteriormente publicada no livro Passes e Impasses.

Não desejo aqui imputar um julgamento de valor ao novo mandato de Eurico Miranda no Vasco, afinal ele foi eleito democraticamente pelos sócios-torcedores vascaínos, ainda que sob denúncias de “compra de votos”. O que busquei salientar foi a oscilação entre uma narrativa que prega a modernização do futebol brasileiro, que nos colocaria no mesmo patamar das ligas europeias, tanto em organização quanto em qualidade dos jogadores; e, por outro lado, nos mantemos apegados àqueles que exaltam um discurso da tradição e do saudosismo. O lema da campanha da chapa de Eurico não poderia ser diferente: “Volta, Vasco! Volta, Eurico!”. A pergunta que fica é: qual Eurico está voltando? Estará o Vasco apto a disputar o Brasileirão 2015 em “pé de igualdade” com os “clubes-modelo” que mencionei no início desse texto? A nós, amantes do futebol, nos resta apenas aguardar o desenrolar de mais uma edição do embate entre tradição e modernidade.

Os mexicanos não são bons de bola (segundo eles mesmos).

terça-feira, dezembro 9, 2014 Deixe um comentário

Estou no  México. As imagens do país me tocam e desejo saber mais sobre sua história e situação atual. Em uma livraria de sebo da Av. Centenário, Coyoacan, compro vários livros sobre o México, dentre eles “Mañana o pasado: El misterio de los mejicanos” (2011, Ed. Aguilar), escrito por Jorge G. Castañeda, um intelectual político e um político intelectual destacado em ambos os campos.[i] Castañeda me atrai pelo título tanto do seu livro como do primeiro capítulo: “De por qué los mexicanos rechazan los rascacielos y son malos para el futbol”.  Deve existir alguma coisa por baixo que nos permita relacionar a rejeição aos arranha céus com a falta de qualidade para o futebol. A relação, que logo se revela, é em princípio misteriosa. O Brasil também é um mistério ou os brasileiros o são. Pareceria que todos tendem a destacar a complexidade da própria Nação sob a forma de mistério, daí que o “Brasil não seja para principiantes” e que a Argentina seja um mistério, sobretudo, para as teorias do desenvolvimento.

Que os mexicanos sejam “maus para o futebol” me atrai, mais quando isso é dito por eles mesmos. Castañeda se baseia em Juan Villoro que por sua vez teria se baseado em Alan Riding, carioca nascido em 1943, filho de pais britânicos dos quais herdara sua nacionalidade inglesa. Riding foi do direito e da economia para o jornalismo e atuou vários anos no México pelo New York Times. Um resultado de sua atuação foi a obra Vecinos distantes. Un retrato de los  mexicanos (1985).[ii] Na interpretação de Riding, os mexicanos seriam ruins para o futebol por não serem jogadores de equipe ou associativos. Seus destaques apenas estariam nos esportes individuais como, por exemplo, o boxe. Segundo Castañeda, Villoro teria posto em dados empíricos a percepção de Riding sobre o individualismo e o desempenho dos mexicanos na sua seleção, além de tomar o esporte como matéria de intervenções jornalísticas e obras literárias de qualidade. O artigo mencionado é Era para Hoy?, publicado em 2008, e do qual estou atrás sem resultado positivo, embora existam listas de artigos e crônicas publicadas por Villoro na internet.

Para Castañeda, seguindo a história corriqueira, o futebol teria chegado ao México da mesma forma que a Argentina, ao Brasil e ao Uruguai: mediante a divulgação por estrangeiros dentre os quais se destacaram os trabalhadores ingleses e as escolas religiosas. As diferenças entre os países “bons de bola”, os três mencionados, e o México estariam dadas pela formação da base institucional do futebol, cujo surgimento seria apenas de equipes de futebol. No México –ao contrário dos bons de bola, Argentina, Brasil e Uruguai– teriam tido por base clubes sociais e esportivos, campo sobretudo de interação social, de melhores condições para a prática esportiva e lugares nos quais podia se desenvolver a autoajuda, em princípio, entre os imigrantes fundadores. A base institucional e melhores condições teriam ocorrido recentemente e a duras penas no México.[iii]

Contudo, a explicação seria insuficiente se não se leva em conta que “os mexicanos não gostam de socializar coletivamente. Preferem ver as partidas em casa (…). Se retrocedemos à época pré-colombiana, aparece um antecedente desta tendência individualista” (42). A história do futebol no México coloca um jogo pré-colombiano com bola. É difícil identificar esse jogo com a linhagem do futebol, sobretudo, se levarmos em consideração que o resultado implicava um ato de real canibalismo: comer ou ser comido. Contudo, o significativo é que enfatiza seu “individualismo”.  Para Castañeda nem o movimento zapatista conseguiu quebrar com a tradição individualista mexicana (76-77).  Marcos teria se convertido em mais um simples chefe carismático. O individualismo estaria também presente na rejeição aos arranha-céus.

Temos, então, o individualismo mexicano como condição ou força atuante no mau desempenho da seleção nacional. De fato, Castañeda segue a tradição da comparação dos individualismos: o associativo, na linha descritiva e interpretativa traçada por Tocqueville, e um individualismo não associativo que seria o mexicano. A recorrência a um individualismo insuficiente ou peculiar estaria na base de muitas explicações sobre o que não fomos ou poderíamos ser. Embora conceituar o individualismo não seja fácil, seja variável sua valorização e tremendamente difícil construir indicadores empíricos não contraditórios.

O fantástico, para mim, é que Oliveira Vianna, em artigo escrito para a coletânea organizada por Lecínio Cardoso, Às margens da história da República, afirmava interpretações muito semelhantes em relação ao individualismo brasileiro nas primeiras décadas do século XX. Creio que podemos interpretar que nos diz que sem individualismo associativo a república seria uma ideia fora de lugar no Brasil. E talvez o futebol fosse “fogo de palha” como afirmava Graciliano Ramos, sendo o único esporte válido a luta pelo poder que abria as portas para outros benefícios. [iv]

Para Castañeda, Riding e Villoro seria o futebol um esporte fora de lugar no México apesar do fervor que desperta? Fervor que recentemente observamos na torcida mexicana durante a Copa no Brasil.

Se levarmos em consideração que existem quase cem anos de distância entre o texto de Vianna e o de Castañeda temos duas opções: a) reconhecemos que  os problemas são os mesmos ou b) pensamos que o “tipo de individualismo” continua sendo central para nossas explicações imaginárias do passado e das formas de enfrentar o amanhã, núcleo problemático de Castañeda. Ou seja, como o caráter mexicano estaria adequado às tarefas demandadas pela complexidade do futuro já presente. O individualismo egoísta apareceria como obstáculo para enfrentá-lo criativa e exitosamente.

Na virada do século XIX para o XX o individualismo “egocêntrico” foi colocado como fator do baixo desenvolvimento do futebol brasileiro.[v] Poucas décadas depois, em 1938, Freyre estaria elevando as qualidades do “futebol mulato” enquanto paradigma do futebol. Na nossa realidade, o futebol coletivo ou de força, o futebol de equipe, cuja principal metáfora seria o inglês, não teria sido totalmente apropriado pelo dito “futebol arte” ou “futebol bonito”. Teria ficado ao lado do seu caminho. Ainda mais, o craque individual e a jogada pessoal tiveram e continuam tendo valor de referência para nós, tanto quanto o destaque conferido pelas páginas mexicanas a Pelé em 1970 e a Maradona em 1986. Juan Villoro tem um artigo que que tem como protagonista Hugo Sanchez, talvez o maior craque do futebol mexicano. Nesse artigo, o individualismo ou desparece ou a falta de cooperação, de jogar em equipe, é absorvida pelas qualidades pessoais do maior futebolista mexicano e aluno do curso de odontologia da UNAM.  Quem percorre a história do Estádio Azteca, totalmente disponível na internet, poderá constatar o valor conferido à individualidade, contudo, não parece existir muita diferença em relação às elaborações feitas por aqueles que se afirmam como “os bons de bola”.

O México parece sentir-se tocado na fibra futebolista por avançar pouco nas copas e por perderem dos times africanos. No entanto, nenhum desses times africanos aparece como primeiro ou segundo nas Copas do Mundo. Mais ainda, se temos 20 copas e 40 posições, entre primeiro e segundo, apenas 12 times rodam ocupando essas posições. O primeiro lugar foi ganho 13 vezes por apenas 3 times e eles também ganharam várias vezes o segundo lugar. Ou seja, tudo indica que estamos diante de um oligopólio competitivo. Tudo indica que é um monopólio difícil de quebrar. A Espanha demorou a entrar para a lista dos 12 vencedores e tivemos sinais de que parece difícil que repita o feito. A incógnita, depois de tudo, é o fermento do entusiasmo pelo futebol.

Eu me pergunto: se o México ganhar a Copa de 2018, mesmo por acaso, as teorias sobre o peso do individualismo ou da incapacidade para jogar de forma associativa ou cooperativa continuariam sendo reiteradas ou seriam rapidamente substituídas?

Atrever-me-ia a responder de forma negativa à pergunta. Neste caso, seria muito bom interrogarmos sobre o papel que desempenham as teorias do individualismo não associativo em nossas construções sobre o passado e o futuro.

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[i] Castañeda ocupou o cargo de Secretario de Relaciones Exteriores, Chanceler creio que se diria por aqui, foi candidato a presidente e leciona em universidades dos Estados Unidos. É um dos entrevistados pela GloboNews nessa semana. O programa ainda está no ar.

[ii] Descobri sem saber que usei o mesmo título que Riding, Vizinhos distantes, para um livro meu editado pela Eduerj, “Vizinhos distantes: comunidades científicas em Argentina e no Brasil”. Tenho a meu favor, como desculpa, de que em 1999 a internet nada informava.

[iii] Observo que Mario Filho escreveu entre 1915 e 1920 vários artigos jornalísticos salientando as positivas condições dos clubes argentinos quando comparados pelos brasileiros.

[iv]  Lovisolo H. R. e  Soares , A. J. Fogo de palha: a profecia de G. Ramos. Pesquisa de Campo. , v.5, 1997.

[v] Veja-se Soares, A. J. e Lovisolo, H. R., Futebol: A construção histórica do estilo nacional, RBCE, v.25, n.1, p.129-143, set de 2003, Mostramos no artigo como nos inícios do futebol, primeiras décadas do século XX, abundavam as críticas ao individualismo egoísta no futebol e os elogios ao jogar para a equipe.

A tradição de exportar commodities e importar manufaturados está instalada no melhor futebol do mundo

sexta-feira, dezembro 5, 2014 Deixe um comentário

Por Juan Silvera 

A indústria do entretenimento teve uma mudança  fantástica nos últimos 50 anos. A qualidade dos espetáculos e dos artistas apresentados,  se  observados por qualquer perspectiva, refletem essa evolução.

A tecnologia tem sido fundamental, criando instrumentos e ferramentas, mas o estudo de técnicas e a profissionalização dos atores em qualquer área foram fundamentais para esta evolução.

Para exemplificar, podemos citar  alguns fatos rapidamente percebidos: o som do cinema nacional de três décadas passadas e o calor insuportável dos antigos  ginásios fechados (Maracanãzinho, Mineirinho etc.).

O som e a acústica dos shows ao vivo de bandas de rock ou MPB  – se comparadas ao som do disco da mesma banda na época, ouvido em casa, deixavam muito a desejar,  sem falar no som dos desfiles das escolas de samba que influía até na harmonia da escola, muitas vezes prejudicando o andamento, atravessando o samba.

No futebol do Brasil, esta evolução só é sentida no que tange à parte da produção do espetáculo. Arenas de primeiro mundo, cadeiras confortáveis, praças de alimentação, telões de alta definição estrategicamente posicionados, interação online dos espectadores, enviando mensagens via celular  para os mesmos etc.

Os preços também são de primeiro mundo, tanto para o espetáculo como para os serviços prestados no interior das arenas.

Quem não se lembra da geral do Maraca, da venda de almofadas para sentar no concreto, das filas intermináveis para acesso aos sanitários normalmente encharcados após o primeiro tempo, muitas vezes sem torneiras… enfim, melhoramos e muito nesses termos.

Mas, o espetáculo em si, a arte que pagamos para assistir verdadeiramente não acompanhou a evolução do resto.

Hoje temos uniformes térmicos com tecidos sem costuras, chuteiras inteligentes que adaptam a altura das travas ao gramado, e que mais parecem uma luva, bolas (ou esferas perfeitas) fabricadas com tecnologia de ponta, com peso e pressão atmosférica pré-determinados,  gramados que absorvem a água mesmo com chuva durante o espetáculo.

O corpo de árbitros de uma partida consta de 6 ou 7 profissionais trabalhando em conjunto, intercomunicados via rádio, e os bandeirinhas alertam o juiz principal enviando a ele um sinal  vibratório no braço quando ela (a bandeirinha) é acionada ou levantada.

Apesar de toda essa parafernália tecnológica, os atores não têm acompanhado esse profissionalismo, pelo contrário.

Estes atores ou “boleros”, que deveriam brindar um espetáculo de 90 minutos, têm propiciado 52,45  minutos de bola rolando em média, segundo a estatística do último campeonato brasileiro[1], batendo recordes de passes errados e faltas. A FIFA recomenda um mínimo de 60 minutos para considerar um bom espetáculo.

Na análise desta estatística são vários os motivos deste tempo roubado do espectador, invariavelmente por causa da falta de comprometimento e profissionalismo dos atores diretamente envolvidos: jogadores e árbitros; devemos fazer justiça e esclarecer que os gandulas tem feito a reposição de bola com celeridade.

Os primeiros pela demora (cultural)  na reposição da bola, após uma interrupção  do jogo, por diversos motivos:  faltas (média de 58 por jogo), simulação de falta, reclamações ao árbitro, escanteios, laterais (nunca cobrados desde o lugar exato) ou tiros de meta demorados para serem executados.  Os segundos (os árbitros) porque permitem que isto aconteça, não aplicando o regulamento, desrespeitando as regras da FIFA.

Por exemplo, a regra diz que o tempo extra adicional deve corresponder ao tempo perdido em bola parada, o que vemos é uma padronização deste tempo: normalmente os árbitros dão de 1 a 2 minutos na primeira etapa, e de 3 a 4 minutos no segunda etapa. Isto para não prejudicar os tempos empenhados pelas emissoras de televisão na transmissão dos eventos.

Seria esperado de parte da CBF, que é a maior autoridade sobre o futebol no país,  cobrar da arbitragem uma postura profissional que iniba todas as transgressões às regras do esporte; e de parte dos clubes, uma orientação profissional desde as categorias de base, forjando profissionais à altura do espetáculo,  para atender ao consumidor  por aquilo que paga.

Em ultima instância: respeitar os espectadores. Já imaginou comparecer a um show   de um grande astro da música pop e o mesmo tocar a metade das músicas previstas porque errou a letra, mudou de guitarra, trocou um amplificador ou porque um microfone pifou ?

Somente  podemos comparar nosso espetáculo com os europeus, sob a ótica das arenas, da bola, dos uniformes  e dos preços. Os atores são outros… o tempo de bola rolando… o número de faltas… passes errados…número de espectadores pagantes…consequentemente a saúde financeira dos clubes.

Não é sem motivos que a gente exporta os atores (commodities), e eles exportam o espetáculo (manufatura)  e os “nossos atores exportados” em fim de carreira. Numa análise mais crua, os melhores atores são exportados e nós, consumidores, pagamos o mesmo preço por um espetáculo de segunda categoria mais uma taxa de pay-per-view, para ter acesso ao espetáculo deles, com nossos  atores.

[1] http://globoesporte.globo.com/futebol/noticia/2014/07/em-90-jogos-ate-agora-brasileirao-so-tem-4-com-padrao-fifa-de-bola-rolando.html

“Torcer” Parte II – A missão

terça-feira, dezembro 2, 2014 1 comentário

Na postagem anterior , nosso comandante Ronaldo levantou uma questão que há tempos suscita diversos estudos e pesquisas no campo das Ciências Sociais por todo o mundo: O ato de apoiar a um clube esportivo ou atleta.

A   que se deve essa paixão por algo ou alguém cujo contato físico ou de proximidade muitas vezes é remoto ou impossível?

Nós, do Grupo de Comunicação e Esportes, não temos a pretensão de explicar esse tema, tampouco de trazer algo novo a tão debatido e controverso tema, porém apenas agregar nosso quinhão a essa acalorada discussão acadêmica que tantos frutos rende a todos (os próprios clubes e atletas, os jornalistas e seus veículos, os anunciantes etc etc etc).

Tenho certa aversão pelo verbo “torcer”. Não costumo usar esse termo a menos que se refira a tornozelos, roupas e afins, jamais aplicado ao apoio sentimental a algo. “torço pelo teu sucesso” ou “torçam por mim” (esta última podia ser de uma lavadeira às colegas, sobre as roupas molhadas no cesto). A origem desta distorção (sem trocadilhos) vem, como se sabe, das moçoilas à beira do campo, admirando a peleja dos varões e a (aí, sim, corretamente) “torcer seus lenços” em momentos de maior apelo, alegria ou angústia.

Deviam rever este termo. Uma grande oportunidade foi na última revisão da ortografia portuguesa, aquela que baniu o trema. Eu gostava tanto do trema! Como posso saber agora se o “u” de “lingüiça” é pronunciado ou não?!? Enfim…

No idioma nativo do football association, o inglês, o termo para esse tipo de apoio é “support” ou “cheer”. Nenhuma correlação com torcer, que é “twist” (por isso o vídeo acima, do twist mais famoso da história mundial), turn ou bend. Meu estrangeirismo se resume a inglês e um pouco de espanhol, então não sei como é o termo em francês (idioma que odeio), italiano, hindi, árabe, japonês, etc… Em espanhol sei que também não se aplica o malfadado verbo torcer… se diz “soy hincha de Boca Juniors”, “estoy alentando a El Real Madrid”. As “torcidas” se chamam “hinchadas”. Em Portugal já vi dizerem “sou adepto do Benfica”.

Deixando de lado a estranheza do verbo, e focando nas pesquisas acadêmicas, a maioria dos estudos, especialmente na área da psicologia, mira no sentido de pertencimento a um grupo, o que supera em muito os resultados esportivos de “vitória” ou “derrota”. Além disso distinguem uma forte correlação genético-familiar, com a tendência dos filhos seguirem a preferência esportiva de um dos pais (geralmente o pai). Em nossa capital, USA, existem fatores maiores por trás da paixão esportiva. Principalmente o fato das ligas universitárias serem muito fortes, e de haver basicamente uma única equipe de cada esporte nas grandes ligas (MLS, NFL, NHL, NBA, MLB) por cidade. Aqui em Pindorama ocorre justamente o inverso: inexiste o sentido de pertencimento a uma universidade ou a uma cidade, em termos esportivos. Também praticamente inexistem outros esportes com apelo, além do futebol.

Então, o sentido de pertencimento ao grupo é fator determinante, e todas as ações e classificações no tocante à esportes passa por esse filtro pessoal do apego a determinada afiliação esportiva. Isso é facilmente discernível. Chover no molhado.

A influência do público sobre o resultado esportivo foi alvo de uma das mais interessantes pesquisas acadêmicas a que tive acesso. Os autores estudaram a Bundesliga, liga de futebol profissional alemã, e concluíram que havia de fato uma correlação entre o mando de campo e os resultados atingidos pelas equipes. Neste e em outros estudos, constatou-se que os árbitros marcam mais penalidades a favor da equipe mandante, intimidados pela gritaria do público presente. Além disso, quando o resultado era desfavorável à equipe “da casa”, o tempo agregado era maior.

Um pesquisador, Dohmen, foi além e descobriu que os árbitros são mais influenciáveis em estádios em que o público fica mais próximo do gramado (os que não possuem pista de atletismo ou fosso). Aqui o primeiro estádio que me vêm à mente é “La Bombonera”. Uma pesquisa sobre os resultados do Boca Jrs em casa em partidas decisivas seria interessante.

Em ligas com maior histórico de violência também foi encontrado maior número de favorecimentos à equipe mandante.

Porque se gosta de um clube esportivo? Os resultados obtidos não determinam a paixão, ou o número de adeptos. O autor Mark Conrad estudou o clube Chicago Cubs, que não ganhou nada desde 1945, constatando que os adeptos continuam a apoiar o clube, a despeito dos pífios resultados. Algo parecido pode ser constatado com o Corinthians Paulista, entidade que ficou 23 anos sem ganhar títulos e continuou com um enorme número de seguidores (daí o nome de “fiel” corintiana). O mesmo ocorre com o Botafogo e com o alemão Schalke 04, que não conquista o campeonato nacional desde 1958 e tem uma legião de seguidores apaixonados.

Dann Wann e Robert Pssikoff, da Murray State University apontam como fatores fundamentais para a lealdade a uma entidade esportiva: Entertainment value, authenticity, fan bonding, team history and tradition, group affiliation, fairweather fans, die-harder fans.

Não traduzi pra que cada um tenha acesso aos termos usados pelos próprios autores.

O estudo de Passikoff revelou que, em 2000, o baseball era o esporte mais popular dos Estados Unidos, com a NBA (basquetebol) em segundo, depois a NFL (football) e NHL(hockey). Aqui em Pindorama os resultados seriam previsíveis: em primeiro a CBF, com 95% dos votos válidos, em segundo a CBV, com 2%, seguida pela FIA, Stock Car e outros.

Eu assisto a eventos esportivos há décadas, in loco ou mediado, e jamais, repito, jamais, nem uma única vez sequer, vi alguém “torcer” o que quer que seja, camisa, bandeira, lenço, etc.

Pra concluir… Uma vez XXXX, sempre XXXX… no Brasil o individuo muda de mulher, de casa, de carro, de país, só não muda de time. E parece que os clubes estão finalmente aprendendo a capitalizar esse poderoso ativo… o público fiel (não, torcedor, jamais!)

Torcida

Torcedor

Várias formas diferentes de torcer

Torcida enorme

Audrey J. Murrell, Beth Dietz. Sport Psychology Fan Support of Sport Teams: The Effect of a Common Group Identity.  JSEP Volume 14, Issue 1, March.

Anne Anders, John E. Walker.Is Home-Field Advantage Driven by the Fans? Evidence from Across the Ocean.Seton Hall University, 2014.

Mark Conrad (2006). “What Makes Sports a Unique Business?”. The Business of Sports: A Primer for Journalists.

Matthew D. Shank (2004). Sports Marketing: A Strategic Perspective

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Torcer

terça-feira, novembro 25, 2014 2 comentários

Por que torcemos por um time de futebol? Por que ficamos alegres quando nosso time ganha e tristes quando ele perde? Por que gritamos, xingamos e até choramos diante da televisão ou em um estádio? Estas são questões que quase nunca nos fazemos, os que torcem por algum time, mas que provavelmente são levantadas por aqueles que não se ligam a nenhum time, os que não gostam de futebol.

De fato, o torcedor é sempre um fanático no sentido amplo do termo. No sentido estrito, o fanatismo fala de intolerância com a comemoração do adversário e do sujeito que regula sua vida pelos resultados de seu time. Mas torcer se contorcendo e, muitas vezes, distorcendo a realidade, se sentindo prejudicado pela arbitragem, mídia, CBF etc., faz parte deste universo de emoções exacerbadas. Estranhas emoções para aqueles que não a sentem. Naturais emoções para os de dentro, os nativos, os torcedores de futebol.

Talvez pudesse servir como um exercício interessante de antropologia a tentativa de transformar estas emoções “naturais” em algo “estranho”. Ou melhor dizendo, em “antropologuês”, transformar o familiar no exótico. Este exercício, ainda que difícil, poderia ser um primeiro passo para responder as questões colocadas acima.

O intelectual alemão e professor da Universidade de Stanford, Hans Ulrich Gumbrecht, tentou explicar o fascínio que o esporte exerce nas pessoas em seu livro Elogio da Beleza Atlética, ao mesmo tempo em que afirma que “em geral os prazeres não precisem de tal legitimação“ ou explicação. Uma das “explicações” colocadas por ele surgiu a partir de uma declaração de um atleta de natação, vencedor de três medalhas de ouro nas Olimpíadas de 1984 e 1992, Pablo Morales. O atleta teria falado sobre o sentido de “se perder na intensidade da concentração” como a motivação que o levou a praticar esporte de alto rendimento.

Este perder-se na “intensidade da concentração” ou na “intensidade focada”, conforme expressão utilizada por Gumbrecht em outra ocasião, poderia ser uma das explicações para se entender o fascínio que o esporte pode exercer nos atletas e nos torcedores. Sim, os torcedores também sentem este “perder-se” durante uma partida dramática. Mas ainda assim, isto careceria de uma pergunta anterior: por que se perder nesta intensidade?

A beleza dos corpos em movimento, o sentido e o valor estético de uma competição, seriam outras das razões enumeradas por Gumbrecht para que possamos entender o fascínio exercido pelos esportes em muitas pessoas. Porém, ainda aqui, quando falamos de torcidas de futebol, será que o valor estético, o tal do bom futebol ou futebol bem jogado, conforme os ditos populares e da imprensa, é mesmo um capital fundamental para esta paixão por um clube? O que sente um torcedor em uma partida em que seu time faz um gol, digamos “sem muito apelo estético”, no último minuto, gol este que garante a classificação ou título da equipe? Será que o entusiasmo e a euforia seriam maiores se fosse um gol de alto valor estético em uma partida em que a vitória valesse menos?

Enfim, estes questionamentos devem ser mais bem pensados, elaborados e pesquisados, se considerarmos a possibilidade de um dia podermos entender este ato de torcer, se contorcer e distorcer a realidade praticado por torcedores ao redor do mundo.

Enquanto não partimos para este tipo de estudo, seguimos na nossa conduta de estudar o esporte como um meio para entender a cultura, mais do que como um fim em si mesmo. Conduta esta muito importante e que tem nos ajudado a entender um pouco mais a sociedade, suas relações e seus dilemas. Até porque não sabemos se conseguiremos um dia entender as razões para o tal fascínio.

 

Artigo publicado originalmente no jornal O Globo no dia 23 de novembro de 2014:

Infoglobo – O Globo – 23 nov 2014 – Page #15

 

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