LEME organiza seu 1º Seminário Internacional

O Laboratório de Estudos de Mídia e Esporte (LEME) está organizando seu primeiro seminário internacional que terá o seguinte tema: “Copa do Mundo, Mídia e Identidades Nacionais”. O evento acontecerá nos dias 24, 25 e 26 de setembro na Faculdade de Comunicação Social da UERJ.

Estarão presentes pesquisadores estrangeiros e brasileiros, além de uma mesa com jornalistas experientes que discutirão a cobertura midiática da Copa no Brasil. Teremos também um fórum aberto a pesquisadores que tenham interesse em apresentar seus trabalhos, bem como serão ministrados minicursos sobre jornalismo esportivo.

Para conferir mais informações sobre o seminário e conferir a programação completa acesse o site http://labmidiaesporte.weebly.com/

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O vilão de sete vidas: da “tragédia de 1950″à “vergonha de 2014″

terça-feira, julho 29, 2014 Deixe um comentário

Somente 2 técnicos retornaram à seleção sem terem sido campeões mundiais em Copa: Telê Santana (1982-1986) e Dunga (2010 – 2014). Com uma diferença fundamental entre ambos. Enquanto Telê Santana não foi considerado vilão da tragédia de Sarriá e gozava de grande prestígio e popularidade em seu retorno à seleção, para a Copa de 1986, o mesmo não podemos dizer de Dunga que saiu da Copa de 2010 como o grande vilão da eliminação da seleção.

Dunga é o vilão de sete vidas. E seu retorno aponta para possíveis mudanças tanto na forma de se narrar as derrotas da seleção em Copas quanto no que diz respeito a aspectos da organização do futebol brasileiro.

Além desse improvável retorno, há fenômenos absolutamente fascinantes de serem observados após a Copa de 2014.

Em primeiro lugar, chama a atenção o louvor ao futebol alemão feito por grande parte da imprensa esportiva. O futebol alemão que por tanto tempo foi tomado como sinônimo de antifutebol foi compreendido como o exemplo a ser seguido pelo futebol brasileiro, tanto em termos de organização esportiva como no que diz respeito aos aspectos técnicos e táticos.

Se pensarmos que há algum tempo atrás o estilo de futebol brasileiro se construiu em oposição ao futebol europeu, concebido como excessivamente pragmático e sem arte, é de se causar certo espanto todos os elogios lançados sobre os alemães.

Não há nada de negativo nessa postura, desde que feita sem recorrer a concepções estereotipadas e em opiniões pouco fundamentadas.

A Copa de 2014 foi surpreendente também por proporcionar eliminações precoces de grandes seleções e ótimas atuações de times com pouca tradição no futebol mundial.

Mas a Copa de 2014 nos deu também a oportunidade de testemunharmos a maior goleada sofrida pela seleção brasileira nos seus cem anos de existência. Goleada sofrida no torneio mais importante de futebol, torneio que tem o Brasil como o país cuja seleção tem o maior número de títulos de campeã.

Alemanha 7 x 1 Brasil foi o resultado final de um jogo recebido por grande parte da imprensa esportiva como a maior vergonha da longa trajetória da seleção nacional.

Algumas capas de jornais do dia seguinte ao jogo Alemanha X Brasil traziam a palavra vergonha estampada. O jornal Lance! publicou uma capa em branco e na parte inferior dizia-se: “indignação, revolta, dor, frustação, irritação, vergonha, pena, desilusão… diga o que estão sentindo e faça você mesmo esta capa do Lance!” (9/07/2014). A mesma tática de não publicar uma capa foi usada pelo jornal popular Meia Hora que dizia “Não vai ter capa. Hoje não dá pra fazer graça, a gente ficou com vergonha. Amanhã nós voltamos” (9/07/2014). Já O Globo estampou em sua primeira página a foto de Davi Luiz chorando e acima a manchete: “Vergonha, vexame, humilhação” (09/07/2014).

Outra constante na recepção da imprensa foi o acionamento da derrota de 1950, algo que já era de se esperar. Esse acionamento foi feito em grande medida com o objetivo de demonstrar que a eliminação da seleção da Copa de 2014, com uma goleada, havia sido uma derrota que redimiria aquela sofrida diante dos uruguaios, em 1950.

Podemos ver esse aspecto nas palavras de José Roberto Torero em sua crônica “Obrigado, diria o técnico da seleção de 1950 a Felipão (Folha de São Paulo, 09/07/2014) ou nas de Thiago Salata que escreveu em sua coluna no Lance!: “Tragédia de 50 perde espaço para a vergonha de 14 nos livros de história” (09/07/2014, p.13)

Esse viés interpretativo se fez notar de maneira incisiva nos jornais Extra Diário de Pernambuco.

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01capa_610_1Ambos usaram a mesma foto em que se mostra o goleiro Barbosa caído após o gol de Ghiggia e ao fundo Bigode com as mãos na cabeça. O primeiro jornal diz “Parabéns, aos vice-campeões de 1950 que sempre foram acusados de dar o maior vexame do futebol brasileiro. Ontem conhecemos o que é vexame de verdade” (9/07/2014). E o Diário de Pernambuco estampou: “Barbosa descanse em paz.” em referência ao goleiro da seleção, o principal vilão eleito da Copa de 1950. Segundo o jornal se a derrota de 1950 parecia até então “Uma decepção que, pensava-se, jamais seria repetida. Infelizmente aconteceu e foi pior. A goleada de ontem envergonhou a nação, mas redimiu Barbosa” (09/07/2014).

É possível que a goleada sofrida pela seleção brasileira na Copa de 2014 possa lançar alguma perspectiva diferente em relação a derrota de 1950.

Mas na verdade, a recepção da Copa de 2014, realizada no Brasil, demonstra que houve consideráveis mudanças ocorridas no modo de se narrar a derrota da seleção brasileira, o que torna possível considerar que a aproximação de 1950 e 2014 se faz por laços tênues, pois há diferenças importantes a serem levadas em consideração.

Tais diferenças se fazem presentes tanto em termos narrativos assim como se explicita em alguns acontecimentos perceptíveis no campo esportivo.

 

1950: A DERROTA MÍTICA E O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO

A derrota de 1950 é única. A derrota de 1950 é mítica. E dificilmente perderá seu caráter aurático, devido a uma série de aspectos que pouco provavelmente se repetirão novamente.

Primeiramente é preciso destacar que a derrota para o Uruguai em 1950, extrapolou e muito as quatro linhas do campo, sendo compreendida como uma derrota da nação. Como a antropóloga Simoni Guedes já observou, é notável, em alguns momentos da história do país, a passagem “da análise de uma derrota no terreno futebolístico para a análise do povo brasileiro como um todo (Guedes, 1998, p.21). Essa transposição marcou a recepção da derrota de 1950 e esse aspecto fica claro na crônica de José Lins do Rego, publicada no Jornal dos Sports:

Vi um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o Estádio Municipal como se voltasse do enterro de um pai muito amado (…) E, de repente, chegou-me a decepção maior, a ideia fixa que se grudou de que éramos mesmo um povo sem sorte, um povo sem as grandes alegrias das vitórias, sempre perseguido pelo azar, pela mesquinharia do destino (JS, 18/07/1950).

Apesar de a derrota para o Uruguai ter sido recebida com intolerância, forte descontentamento e tenha provocado discussões, é importante frisar que houve, ao mesmo tempo, uma clara e insistente tentativa de amenizar o impacto daquele fracasso. As manchetes das primeiras páginas dos jornais que tratavam da perda do título para o Uruguai podem causar espanto para nós contemporâneos, acostumados a conhecer aquela derrota pela denominação “tragédia do Maracanã”. O Jornal dos Sports – um dos mais importantes periódicos esportivos do país na época – escreveu em sua primeira página a frase: “Uruguai campeão de fato, mas o Brasil, melhor team do mundo” (18/07/1950). O Globo, por sua vez, conseguiu ser um pouco mais direto: “Campeão o Uruguai” (17/07/1950). Outro importante periódico esportivo, Esporte Ilustrado, escreveu: “Atuando com grande entusiasmo e espírito de luta, a representação uruguaia vence o IV campeonato mundial de futebol” (27/07/1950). Embora tenha havido claras acusações aos jogadores, também foi perceptível a tentativa de minimizar a decepção causada pela derrota, o que se fez notar nas manchetes principais de alguns importantes jornais.

Diferentemente de 2014, em 1950, dias antes do jogo decisivo contra o Uruguai havia a quase certeza de que a seleção brasileira seria campeã mundial, o que se faz notar nas páginas da imprensa esportiva nas quais criou-se um clima de grande otimismo em torno da vitória diante dos uruguaios, como demonstrava a “profética” manchete de a Gazeta Esportiva: “Venceremos o Uruguai” (apud, Perdigão, 1986, 69). Ou então podemos citar a famosa manchete do jornal “Estes são os campeões do mundo” estampada no jornal O Mundo (apud Perdigão, 1986, 68).

A derrota sofrida contra o time uruguaio soou surpreendente, não apenas porque a seleção precisava apenas de um empate, mas também, porque a Celeste Olímpica fez uma campanha modesta vencendo de modo apertado adversários que o Brasil tinha goleado.  Em 1950, pela 1a vez a conquista do mais importante campeonato de futebol deixava de ser um sonho distante e se tornava algo não apenas possível, mas até mesmo certo. A seleção brasileira em campo jogava bem, recebia elogios de jornalistas brasileiros e estrangeiros.

A esse aspecto soma-se as circunstâncias do jogo, sobretudo o gol tomado aos 33min30s do segundo tempo, depois de uma bola chutada por Ghiggia. Bola cuja trajetória formava um ângulo com a linha de fundo de cerca de 20 a 25 graus, segundo informou Paulo Perdigão (1986, 145). Condições essas pouco favoráveis a um chute direto, o que fazia parecer impossível que a bola entrasse. Mas ela entrou.

Mas como sabemos a seleção perdeu o jogo decisivo e como Mario Filho disse em crônica “A ameaça da derrota veio no pior dos momentos: quando a vitória se esperava assegurada.” (Jornal dos Sports, 18/07/1950, p.5).

Parecia coisa do destino ao qual José Lins do Rego fez referência. Destino que colocava em xeque não apenas o futebol brasileiro, mas seu próprio país. Aquele mau resultado foi, muitas vezes, tomado como um sinal de que o Brasil era uma nação cujo perfil se desenhava sombrio e marcado pelo fracasso. Tratava-se da encenação de uma questão antiga que se relacionava à “deficiência da raça brasileira, temática que se prolongava desde a época do Estado Novo” (VOGEL, 1982, 99).

A derrota de 1950 transformou-se em uma “tragédia” constantemente relembrada, o que em parte também se relaciona à presença de uma “cultura da memória” na contemporaneidade como propõe Andreas Huyssen. Nessa cultura “nem sempre é possível traçar uma linha de separação entre passado mítico e passado real” (2000, p. 16).  Continuando o diálogo com Huyssen a derrota da seleção brasileira em pleno Maracanã tomado por 200 mil pessoas, assim como ocorreu com o naufrágio do Titanic, também foi apropriado pelo “entretenimento memorialístico” (200, p. 14) e não sem motivos a cena do gol de Gigghia pode ser assistida na sala intitulada “Rito de Passagem” do Museu do Futebol em São Paulo.

A derrota de 1950 consolidou a figura do vilão como personagem fundamental às narrativas da derrota da seleção, vilão que foi paradigmaticamente encarnado pelo goleiro Barbosa. Vilão paradigmático porque – mesmo que não seja justa sua culpabilização – a imagem do goleiro jamais conseguiu desvincular-se da derrota de 1950. E a derrota de 1950 jamais conseguiu ser contada sem que no centro de sua narrativa estivesse Barbosa.

 

A pouca tecnologia e a ausência das transmissões de TV, com suas inúmeras câmeras, facilitaram a emergência de relatos diversos. Ao longo dos anos histórias vividas e imaginadas compuseram a trama da “tragédia de 1950” que com o tempo se converteu em um momento absolutamente fundamental na composição narrativa da história da seleção brasileira, já que representou a queda trágica, típica aos grandes e que, posteriormente, foi superada pelas vitórias.

1950 é uma espécie de mito fundador do futebol brasileiro.

 

Alemanha 7 x 1: não há tragédia, há vergonha e o retorno do vilão

Em 2014 o contexto é absolutamente outro.  Nele ocorre o que há muito tempo não se via no discurso da imprensa esportiva: o reconhecimento a superioridade do adversário da seleção brasileira e que, portanto, a derrota era algo possível. Essa expectativa negativa se alimentava sobretudo por conta da ausência do principal jogador da seleção brasileira da Copa do Mundo. Nas quartas de final, em jogo contra a Colômbia, Neymar fraturou uma vértebra após sofrer uma falta violenta do jogador colombiano Zúñiga e foi cortado do mundial.

Para agravar a situação, nesse mesmo jogo, Thiago Silva foi punido com cartão amarelo, o terceiro, fato que o suspendia da próxima partida. Sem Neymar e sem o capitão e principal zagueiro, as expectativas de vitória da seleção foram fortemente diminuídas, fazendo surgir a preocupação com as possíveis soluções táticas para fazer a seleção brasileira jogar e ganhar mesmo com a ausência desses dois importantes jogadores.

Na véspera do jogo, Renato Maurício Prado pergunta “Qual será, afinal, o time do Brasil sem Neymar” dúvida que perpassou grande parte das páginas da imprensa esportiva até mesmo porque o técnico Luiz Felipe Scolari não anunciou quem seriam os jogadores que iriam a campo. A ausência de seu mais importante jogador gerou forte preocupação, o que se pode notar em matérias que demonstravam a dificuldade que a seleção enfrentaria. Por isso, segundo a Folha de São Paulo “Sem Neymar, seleção abandona discurso de favoritismo …” (D4, 08/07/2014).

Além dessas ausências, é importante considerar que de um modo geral as atuações da seleção brasileira não foram capazes de despertar muitos elogios da imprensa esportiva, o que reforçou a desconfiança de que a seleção brasileira talvez não conseguisse sair vitoriosa do jogo contra a seleção alemã.

Nesse contexto, a derrota era algo que se fazia possível no horizonte de expectativas de torcedores e de parte da imprensa esportiva. Não apenas possível como até mesmo desculpável. Nos dias que antecedem a partida, a atenção se volta para a contusão sofrida por Neymar, fato extensamente dramatizado pelo discurso da imprensa e pela exibição do vídeo veiculado pela CBF em que o jogador chorando afirma que “Me tiraram o sonho de disputar uma final de Copa do Mundo. Mas o sonho de ser campeão mundial, ainda não acabou”. As máscaras com o rosto de Neymar produzidas pela campanha “somos todos Neymar”, criada por uma agência publicitária, mostra a atmosfera de comoção em torno de sua ausência, sentimento amplamente fomentado por diversas instâncias.

Perder nesse contexto, era algo compreensível. Aspecto incomparável com 1950, quando a vitória era tida como certa.

Em 2014, o que surpreendeu e tornou a derrota inaceitável foi o seu tamanho: 7 x 1. Esse placar elástico, pouco típico em jogos de Copa do Mundo, sobretudo em se tratando da seleção brasileira, é que transformou a perda na semifinal em “Vergonha, vexame, humilhação” (O Globo 09/07/2014).

Em relação a ênfase na palavra “vexame” e “humilhação” é válido frisar que essas palavras frequentemente usadas para se definir o resultado Alemanha 7 x Brasil 1, são palavras que fazem referência ao abalo de uma hierarquia, pois têm como pano de fundo o glorioso histórico da seleção brasileira em Copas do Mundo.

Porém, diferentemente de 1950, a derrota em campo, não foi compreendida como uma derrota da nação. Esse tipo de análise seria pouco provável nos dias atuais por diversos motivos entre os quais se destaca a questão de que há um gradativo enfraquecimento da relação entre futebol e identidade nacional, o que significa dizer que “as narrativas em torno da seleção brasileira de futebol já não tratam de forma homogênea o futebol como metonímia da nação” (HELAL,2003, 2) . Portanto, a derrota para a Alemanha não foi compreendida como uma derrota do país, mas como um vexame de ordem esportiva.

Outro fator diferenciador fundamental diz respeito ao recurso às novas tecnologias, especialmente, das mídias eletrônicas. Se em 1950 havia uma carência de imagens e a possibilidade de um discurso mais homogêneo em torno da seleção, hoje em dia, esse fenômeno é bastante dificultado pelas diversas vozes dissonantes que surgem em blogs, sites de relacionamento e diversas outras ferramentas disponibilizadas pela internet.

E nos usos dessas ferramentas destacam-se apropriações humoradas da derrota da seleção brasileira para a Alemanha e os inúmeros memes surgidos, ainda enquanto o Brasil jogava com a Alemanha:

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Até mesmo a imprensa recorreu ao humor:

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Esse tipo de apropriação da derrota de forma humorada é algo pouquíssimo notável em 1950 quando imperou um tom sério e cerimonioso à perda do jogo para o Uruguai.

Embora seja compreensível que incialmente tenha se recorrido à comparação entre 1950 e 2014, é preciso ressaltar que em primeiro lugar essa comparação somente faria sentido se a seleção de 2014 tivesse chegado à final. Dessa forma teríamos patamares comparativos mais pertinentes. O que não foi o caso. A seleção de 2014 foi eliminada em uma semifinal, o que tem um peso bem menor do que se a derrota ocorresse em uma final de Copa.

Além dessa diferença fundamental, a derrota da seleção em 2014 – na verdade, as derrotas somando-se a da disputa do terceiro lugar – marca uma guinada na história dos vilões das derrotas da seleção e aponta para aspectos preocupantes do futebol brasileiro.

 

O reinado dos vilões
Se a derrota de 1950 provocou uma série de mudanças na seleção brasileira, o que inclui até mesmo a aposentadoria do uniforme branco que foi substituído pelo agora tradicional uniforme canarinho, as derrotas de 2014 tiveram consequências razoavelmente surpreendentes e que aguardam análises futuras.

Em termos narrativos é possível afirmar que embora tenha sido tomada como vexatória, a derrota de 2014 para a Alemanha não teve um vilão como protagonista. Em grande medida isso ocorreu porque o placar elástico evidenciou que seria no mínimo inverossímil culpar apenas alguns jogadores ou mesmo somente o técnico.

Luiz Felipe Scolari chegou a ser amplamente questionado pela imprensa esportiva, mas não houve um discurso mais incisivo que deixasse em evidência que a responsabilidade da derrota era dele.

Culpabilizou-se a CBF, o atraso do futebol brasileiro, a falta de investimento nas categorias de base e pediu-se mudanças urgentes na estrutura do futebol brasileiro. Pediu-se constantemente por renovação.

Geralmente as pressões vindas da imprensa costumam gerar consequências imediatas, sendo a primeira delas a troca do treinador perdedor. Geralmente essa mesma imprensa costuma recorrer ao respaldo da voz popular trazendo à cena pesquisas de opinião pública. Entre os dias 15 e 16 de julho, em 233 municípios brasileiros, com 5.377 entrevistados, o Datafolha buscou saber qual técnico seria o preferido pela torcida brasileira. Em primeiro lugar com 24% da preferência surgiu o nome de Tite, ex-técnico do Corinthians. A maioria dos entrevistados também disseram ser contra a presença de um técnico estrangeiro à frente da seleção.

De fato Luiz Felipe Scolari deixou o cargo de técnico.

Entretanto… o “novo” técnico da seleção escolhido foi Dunga.

Somente 2 técnicos retornaram à seleção sem terem sido campeões mundiais em Copa: Telê Santana (1982-1986) e Dunga (2010 – 2014). Com uma diferença fundamental entre ambos. Enquanto Telê Santana não foi considerado vilão da tragédia de Sarriá e gozava de grande prestígio e popularidade em seu retorno à seleção, para a Copa de 1986, o mesmo não podemos dizer de Dunga que saiu da Copa de 2010 como um dos vilões da eliminação da seleção.

Após aquela derrota era de se esperar que Dunga nunca mais voltasse a comandar a seleção, ou como disse a manchete de O Globo, seria “O fim (definitivo) da era Dunga” (03/07/2010).

Mas ele voltou. Sem ser redimido por uma vitória, o vilão retornou ao mais alto posto da seleção brasileira.

Embora os vilões sejam personagens das narrativas da derrota da seleção em Copas e carreguem consigo uma dimensão simbólica cujo alcance tem suas claras limitações, é preciso estar atento ao fato de que tais personagens dialogam com dimensões concretas do futebol.

Após 1950 Flávio Costa comandou diversos times importantes, mas jamais voltou a dirigir a seleção brasileira. O mesmo ocorreu com vários outros técnicos cujo insucesso em Copas do Mundo mancharam suas carreiras de tal modo que seu retorno à seleção brasileira se tornou inviável.

Mas com Dunga tudo foi surpreendentemente diferente.

Ele é o vilão de sete vidas, representante de uma nova era. Não sei se exatamente a era Dunga

E seu retorno nos faz pensar quais mudanças estão ocorrendo no território futebolístico nacional.

Mudanças preocupantes, pelo visto, pois os vilões de hoje estão ganhando força, deixando de ser somente um personagem fruto de concepções idealizadas em torno do futebol brasileiro e que tinham como função sobretudo dramatizar os efeitos narrativos de uma derrota.

Os vilões de hoje são arrogantes, se inserem e circulam graças a laços políticos escusos de um futebol cada vez mais permeado por interesses particulares.

Mas essas questões carecem de análises futuras mais detidas.

 

Referências

GUEDES, Simoni Lahud. O Brasil no campo de futebol. Rio de Janeiro: EdUFF, 1998.

HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.

HELAL, Ronaldo e SOARES, Antônio Jorge. O Declínio da Pátria de Chuteiras: futebol e identidade nacional na Copa do Mundo de 2002. In: Associação Nacional Dos Programas De Pós-Graduação Em Comunicação, XII, 2003, Recife. Compós. Congresso: Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, 2003.

VOGEL, Arno. O momento feliz, reflexões sobre o futebol e o ethos nacional. In: DAMATTA, Roberto et ali. Universo do futebol. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982.

 

Debate em 2 Tempos: A Fantasmagoria da Derrota, o Futebol como Metáfora

O IEA-USP, instigado pelas consecutivas derrotas do time brasileiro na Copa do Mundo, iniciou uma discussão interna sobre o tema e decidiu trazer especialistas no assunto para uma mesa-redonda amanhã, 25 de julho, às 10 horas. O Debate em 2 Tempos: A Fantasmagoria da Derrota, o Futebol como Metáfora abordará o papel do futebol na identidade nacional e o quanto a derrota afeta a autoestima da nação e a imagem do país, nacional e internacionalmente, não só no futebol, mas principalmente nas esferas sociopolíticas, econômicas e culturais.

Contaremos com a participação de Bernardo Sorj, Daniela Alfonsi, Fernando Mires, Germán Labrador Méndez, Lorenzo Mammì, Luiz Carlos Ribeiro, Massimo Canevacci e Ugo Giorgetti. O debate será conduzido por Renato Janine Ribeiro.

Contamos com a sua presença. O evento também será transmitido online.
Caso queira, envie perguntas e/ou comentários antecipadamente (ieacomunica@usp.br).
Quando: 25 de julho de 2014  | 1° tempo  10:00 às 12:00 / 2° tempo 14:00 às 16:00
Onde: Sala Ruy Leme (E-203), Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP
Av. Prof. Luciano Gualberto, 908, Cidade Universitária, São Paulo, SP
Mais informações: http://www.iea.usp.br/eventos/debate-em-2-tempos-a-fantasmagoria-da-derrota-o-futebol-como-metafora.

 

Equipe de Comunicação
Instituto de Estudos Avançados

O país do futebol e o confronto entre O Rei Pelé e o Pibe Maradona?

sábado, julho 19, 2014 1 comentário

*Esse texto é uma versão estendida e modificada do post publicado ontem.

Após a publicação do post “Porque os brasileiros torcem pela Alemanha” no dia 13 de julho, recebi vários comentários críticos, algum deles colocados no próprio blog, entre eles de pessoas que aprecio em termos pessoais e intelectuais. Apenas posso manifestar meu apreço incorporando seus comentários em minhas “especulações” provisórias, pois os conflitos com a Argentina se perdem na história de suas relações com os brasileiros. Trata-se principalmente de adensar a discussão sobre o torcer argentino e brasileiro.

Os comentários mais recorrentes e numerosos apontavam razões, talvez justificações, para o “torcer contra a Argentina”: os argentinos são mal educados, os argentinos nos invadiram, os argentinos sujam a cidade e andam sujos, os argentinos zoavam dos brasileiros (o que foi exacerbado após a derrota para Alemanha). E, por último e muito repetido, os argentinos são insuportáveis em sua mania de defender a Maradona como melhor que Pelé. Os brasileiros não reconhecem como também defendem Pelé e como zoam dos argentinos, sobretudo, nas propagandas veiculadas na televisão que zombam do próprio Maradona.[1] Não sei de nenhuma publicidade argentina na qual Pelé apareça como motivo de chacota.[2]

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Destaquemos uma matéria pública como introdução. Um autor de prestigio, Zuenir Ventura, na sua página do Globo (quinta feira, 17 de julho 2014) escreve tentando um mea culpa por participar das críticas às obras e organização da Copa sob a base de certa desvalorização, que sempre ressurge, do brasileiro. De fato, os arautos do fracasso pareciam desconhecer, de um lado, a experiência brasileira em obras de engenharia e organização de eventos e, do outro, confundir atrasos (cujo objetivo quase sempre é solicitar maior orçamento) com incompetência. Zuenir Ventura diz que não torceu pela Argentina por razões “geopolíticas”. Admitamos que se torça por identificações e/ou pertencimentos, torcemos por Brasil por sermos brasileiros e não por razões “geololíticas”. Também podemos torcer por um time de América Latina por identidade e pertencimento. Zuenir recusa a identidade e o pertencimento ao mesmo referente englobador que a Argentina ainda mantém vivo (Latino América). Com alguma culpa, descreve aquilo que admira da cultura argentina! Até declara que trocaria uma das cinco copas ganhas pelo Brasil por algum Premio Nobel argentino. Importa dizer que torceu por Alemanha para torcer contra Argentina! O argumento central que enunciei no artigo mencionado no início para explicar porque os brasileiros torcem pelo Brasil guiou-se pelo preceito: o adversário de meu adversário é meu aliado de forma absolutamente descontextualizada. Contudo, continuarei a ser um leitor do Zuenir!

Os comentários positivos para “o torcer contra Alemanha” eram de variações do mesmo tema: a admiração pelo futebol alemão e sua gestão e, mais tarde, o marketing altamente positivo realizado pela Alemanha ao longo da Copa e antes. Reconheço que partilho a admiração pelo futebol alemão e sua organização e mais ainda, tenho profunda admiração pela cultura alemã em suas variadas dimensões. Porém, nem por isso torceria por ela se a final fosse contra o Brasil ou contra Colômbia, Chile ou Costa Rica. Poderia, entretanto, ficar à margem da obrigação tão brasileira de torcer e desejar que ganhe o melhor em benefício do espetáculo do futebol. Isto não significa um papel ativo de palavras e gestos para transferir energia para o escolhido, pois, antes do jogo, é difícil saber com certeza quem será o melhor. Se fosse por admiração deveríamos torcer pelos Estados Unidos?. Veja que campanha que fez com pouco tempo de vida como esporte reconhecido nos Estados Unidos! De fato, os mexicanos e brasileiros adultos que escolhem morar em USA por razões bem práticas de condições de vida não torcem pelo time americano no futebol.

O núcleo do marketing alemão parece que esteve centrado em dois objetivos: transmitir o reconhecimento e valorização do Brasil e manifestar a vontade de contribuir com ele (ver como exemplos, além das variadas declarações na televisão, o blog de Rafael Casé e o artigo “O segredo de outro sucesso: como a Alemanha criou empatia com o Brasil”, disponível em globo.com, 15/07/2014). Os alemães se tornariam, além de virtuosos do futebol, simpáticos, alegres, receptivos, enfim, quase brasileiros. Pasmem! Até flamenguistas! Contudo, já na segunda feira pós Copa começaram a aparecer vídeos e textos, em blogs, sítios e jornais que apontavam que os alemães estavam zoando do Brasil e da Argentina. Parecia que o marketing, talvez do politicamente correto da Alemanha, começou a fazer água nos festejos pelo tri. Circula uma foto fantástica de Kroos mordendo um distintivo da policia brasileira e danças dos jogadores imitando a entrada em campo dos brasileiros. O fantástico do futebol é que o herói Kross tem o mesmo preço no mercado que o jovem colombiano James (O Globo, 17/07/2014)!

Contudo, esses motivos positivos foram aparecendo após a derrota contra Alemanha (esta afirmação é pouco controlada, embora consultasse a varias pessoas sobre a mesma, não tenho dados sistemáticos), porém pode ser confirmada, de forma indireta, pelos títulos do Lance “somos alemães desde garotinhos” ou coisas semelhantes aparecidos depois da derrota e na participação ativa da mídia brasileira. O torcer contra a Argentina, no entanto, já se manifestava no jogo com a Bósnia. Teria Zuenir torcido pela Bósnia?

Um garçom do bairro me diz: “levaram sete no rabo e agora torcem pela Alemanha!” Eu quando escrevi partilhava a mesma suspeita que o garçom. Observem, na sua afirmação ele se exclui do ser brasileiro.

A oposição Pelé/Maradona teve destaque nas explicações do “torcer contra”, e embora apresentada como motivo do “torcer a favor de Alemanha”, era para mim um de seus principais motivos para o “torcer contra a Argentina”. O segundo, talvez fosse a esperança da Argentina levar oito pepinos dos alemães. Estou quase convencido de que se isso tivesse ocorrido o marketing alemão teria muito menor importância nas justificativas.

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Durante a Copa do Mundo que acaba de finalizar, a televisão mostrou a presença do Rei Pelé no Maracanã. Galvão Bueno, nosso ícone do jornalismo esportivo, comentou que é necessário que os brasileiros mostrem em relação ao Pelé o tipo de atitudes que os argentinos têm em relação a Maradona. Falou com um tom de pena que reforçava o “é necessário”. Galvão Bueno durante bastante tempo promoveu a oposição com Argentina. Na sua visão, os argentinos eram catimbeiros e desenvolviam um jogo sujo em oposição ao jogo bonito, brasileiro, tão admirado na Argentina. Ultimamente foi modificando sua posição e, durante a Copa, em várias oportunidades salientou o jogo limpo, com poucas faltas, nos confrontos da Argentina. Ganhou em equanimidade. Sua afonia após a transmissão da final o fazia mais humano e simpático. O defeito, pelo qual pediu desculpas, enaltece seu desempenho aproximando-o dos comuns mortais. Assim, Galvão Bueno, deu a pista de que era necessário, para aumentar o entendimento do torcer contra Argentina, focar na oposição entre Pelé e Maradona.

È importante um esclarecimento em parágrafo à parte. Não participo da discussão sobre quem é o melhor, pois para mim carece de sentido e de possibilidades de solução. Dito de forma difícil: há desempenhos que são incomensuráveis em todos os campos! Tenho uma impossibilidade radical em responder a questões do tipo: “quem é melhor Machado de Assis ou Graciliano Ramos”. Acho que a pergunta é insolúvel, irrelevante e pouco produtiva. Considero a ambos mestres em suas modalidades. E disto se trata: Pelé e Maradona, e muitos outros, construíram modalidades de desempenho no futebol que os tornaram cânones esportivo. Contudo, não escolher é optar por conservar o valor da diversidade de modalidades de desempenhos de excelência a partir de suas condições de desenvolvimento. Escolher a alguém superior apenas porque é nosso resulta de um nacionalismo patético e pode levar à imitação desmedida. Já Einstein tinha salientado que se sua teoria estivesse equivocada, os alemães diriam que ele era inglês e, os ingleses, que era alemão.

Faz alguns anos, em artigo escrito a quatro mãos com Ronaldo Helal,[3] apontamos na existência de uma inversão nas relações parte/todo quando tomamos como referência Brasil e Argentina e Pelé e Maradona. Brasil sempre foi apresentado como a nação exuberante, alegre, cordial, produto da miscigenação, singular e inqualificável e que dança alegremente na beira do abismo. Dissemos, no artigo, que as construções sobre as imagens do Brasil estavam claramente imbuídas de um caráter dionisíaco. Em contrapartida, a Argentina aparecia como o país europeizado, talvez de forma prematura. Em vários sentidos, da geografia ao tango, aparecia, sobretudo para os brasileiros, como um país apolíneo.[4]

Agora bem, quando nos deslocamos para a parte, e para seus maiores heróis do futebol, o Rei e o Pibe (o moleque) as caracterizações se invertem: o Rei é apolíneo e o Pibe dionisíaco. Pelé tem o entorno, a superioridade e a distância do Rei; Maradona a proximidade familiar do Pibe. Nas descrições jornalísticas os caracteres apolíneos ou dionisíacos sempre estão presentes. Sobre Pelé reiteradamente se destaca sua completitude física e técnica; de Maradona se marcam as incompletudes, falta de domínio bilateral, por exemplo. Pelé parece ocultar as complicações de sua vida e Maradona as enfrenta sem recusar seu caráter público.

A relação de carinho, respeito e proximidade dos argentinos com Maradona é natural, embora não necessária. A relação de distância e respeito dos brasileiros com Pelé também é natural e talvez não fosse necessária. Quando Maradona entra, começa a festa e a expectativa sobre o que fará o dirá permeia o ar. Quando o faz Pelé, entra a aura e o tratamento protocolar, embora com sorrisos de satisfação no rosto.

Além de sua carreira de atleta, Maradona marca o cotidiano argentino com suas condutas privadas e dizeres públicos. Quando Maradona adoece, os argentinos rezam e fazem vigília por ele. Recentemente Pelé teve que se submeter a uma cirurgia para colocar uma prótese e a informação saiu em pequenas notas, ninguém fez vigília ou encarregou missa pela recuperação do Rei, embora se deixasse entrever de que andava triste ou deprimido.

Hoje, por exemplo, no jornal digital de O Globo (globo.com) aparecem as opiniões de Maradona, vertidas em seu programa televisivo venezuelano, La Zurda (a tradução literal futebolera deveria ser A Canhota e na da política, A Esquerda), sobre o mundial e a final. Por volta das sete horas da manhã aparecia Maradona trajado e a notícia era cabeça da página. Depois desapareceu e no início da tarde voltou com menos destaque e com foto dele e de Rivelino mostrando camisetas. Um gesto de aproximação? Espero que sim.  Na segunda versão, a notícia destaca a crítica de Maradona do prêmio dado pela FIFA ao Messi, uma jogada de marketing segundo ele, reproduzindo os elogios à participação da seleção argentina. Suas posições nem sempre são provocadoras, tanto em relação aos times emergentes que destaca, como Costa Rica, quanto nas atuações frustrantes (Inglaterra, Itália e Espanha). Maradona ainda coloca a James, o jovem jogador colombiano, como o melhor da COPA, enquanto por aqui foram mencionados alguns alemães, Robben e Rodriguez e talvez outros que não registramos. O James deve ter ficado muito feliz e é possível que valorize mais o reconhecimento de Maradona que o premio da FIFA, dado a Messi, com muitas dúvidas sobre seu valor.[5] Messi nem deve ter ficado confortado apesar dos elogios também realizados. Mas, Maradona, diz o que pensa e ainda defende o valor de sua verdade e também da capacidade crítica diante do desempenho do atual ídolo argentino. O Pibe é valente para seus admiradores! Sua contraditória vida privada é discutida em público, mas, também suas relações com Cuba e Venezuela e suas entrevistas a Fidel Castro. O Rei, entretanto, continua ausente e distante. O Rei deve ser protegido, embora uma parcela dos brasileiros critique sua falta de envolvimento na luta contra o racismo e a favor dos negos e também os eventos de sua vida privada, enfatizando a falta de relação orientadora com os filhos. No caso do Rei, vida privada e desempenho público formam espaços que devem estar separados. No caso do Pibe, os limites entre os espaços estão sempre sendo transbordados por jornalistas,  torcedores e ele mesmo.

O intelectual é uma figura que faz que sua vida privada e a suas opiniões se tornem parte do debate público. No caso de Ortega y Gasset, até as gravatas chocantes que usava podiam ser discutidas no parlamento e na imprensa de Espanha, além de sua herança intelectual valiosa para pensarmos o presente. Seu estilo, de diferentes pontos de vista, também era dionisíaco. Talvez por isso não chegasse a formular um sistema como o faria Heidegger. Nossa geração olhava atentamente para as vicissitudes das relações entre Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, intelectuais por excelência, e ninguém aceitaria chamar de mexerico os comentários que fazíamos sobre elas.

Chegamos a nossa hipótese: Maradona, sob a base de sua atuação destacadíssima para o futebol argentino e mundial, tornou suas condutas e opiniões insumos para o debate público no campo do esporte, da política, da ética e da vida cotidiana.  O Pibe é o maior intelectual popular da Argentina sem considerarmos o valor político, social ou cultural de suas “apresentações”. Não estamos tratando disso. O moleque pode fazer um gol com a mão, mas ganhar um mundial com tamanha malandragem (picardia) apenas Maradona, diz a consciência nacional argentina. O herói popular dionisíaco pratica a arte da malandragem, sabe simular e se aproveita das confusões que monta. O título familiar de Pibe o aproxima, ele senta-se à mesa do bar, se introduz nas conversas da família, dos amigos e, sobretudo, dos futeboleiros. Em uma medida talvez menor, Romário faz parte da mesma estirpe de intelectuais populares e suas condutas e opiniões entram nas conversas públicas em relações jocosas e afetuosas. Os dois tentam se distinguir do Rei e por vezes o alfinetam mediante a ironia. Pelé acaba calado em sua majestade. Romário: Pelé calado é um poeta. O malandro é Maradona.

A intenção de Galvão Bueno poder ter sido boa. Contudo, ela reconhece que o Rei tem significados frios e talvez impostos por repetição de outros ou pelo mantra de que ele foi e ainda é o melhor. Mantra que forma uma fita de Moebius com a cara do Brasil país de futebol. Ambos os lados se demandam para fazer uma superfície contínua. Será que por isso os brasileiros aparecem suscetíveis à defesa argentina de Maradona como o melhor? Será que estão por cair juntos, a parte e o todo? Ou seja, se Brasil é o Pais do Futebol (o todo) como pode um argentino (a parte) ser o melhor! O país do futebol deve ter o melhor jogador, seu questionamento, ainda que seja por argentinos, arranharia as bases da identidade brasileira? Se a resposta é afirmativa, a suscetibilidade diante do debate pelo melhor quase se explica sozinha.

O apolíneo está mais próximo da figura do eterno e se distancia da morte e do transitório no mármore atemporal. O dionisíaco parece estar sempre em contato com ela, desafia e a cutuca com o passe inesperado da dança e a ironia transitória. Pelé diz que Edson Arantes de Nascimento diz que Pelé é o melhor.  Maradona diz que sua mãe afirma que ele é o melhor.

Nunca pensamos que poderíamos assistir a renúncia de um Papa nem a da de um Rei. E isto ocorreu diante de nosso olhar espantado. O Edson poderia renunciar ao papel do Rei, deixar o manto sagrado e se misturar nas conversas do povo? Seria menos enreizado, mas, talvez, mais querido? Apenas um mortal: Pelé. Sem ser o Rei poderia falar e agir com menores constrangimentos e, talvez, até fazer poesia quando fala. Reconhecer que há muitos reis e que determinar o melhor é uma tarefa ingrata, talvez impossível e, sobretudo, tonta. Talvez por ser tonta seja tema do jornalismo esportivo e de suas perguntas que geram debates infindáveis e insolúveis que jamais se solucionam apenas se abandonam.

Uma moral se impõe: Talvez Pelé seja um Rei com pés de barro. Maradona é um Pibe com barro até o pescoço. Um pode cair, o outro pode se afogar. Nós, os do povo, podemos escolher o modelo. O custo são as diferenças no tratamento. Os argentinos escolheram Maradona por unanimidade. O baixo desempenho de Messi ajudaria a manter o lugar de Maradona? Que seria desse lugar se Messi tivesse feito dois gols contra Alemanha e ganhasse a Copa? Os argentinos, como consequência,  carregariam os custos de elaborar a nova situação. Maradona já tinha declarado que, se algo assim ocorresse, ele mesmo estenderia o tapete vermelho para Messi. Cederia seu lugar de melhor.

Os brasileiros ainda duvidam entre o apolíneo Pelé quando comparado aos dionisíacos Garrincha e Romário e talvez, em futuro próximo, Neymar seja o polo da comparação. Mas, manter Pelé como o melhor é uma questão de honra e vamos torcer contra os de fora, os argentinos, que pretendem mudar essa ordem! Uma invasão de tal envergadura em nosso imaginário deve ser rejeitada de forma prática. Vamos a torcer pela Alemanha!

 

[1] Ver a entrevista de R. Helal para a Folha (http://www1.folha.uol.com.br/esporte/folhanacopa/2014/07/1484416-copa-mostra-acirramento-da-rivalidade-brasil-argentina-afirma-sociologo.shtml).

[2] Ver a entrevista de R, Helal no Estado de São Paulo (http://tv.estadao.com.br/videos,BRASIL-ME-DIGA-O-QUE-SENTE-DESCONSTRUINDO-A-RIVALIDADE-ENTRE-BRASILEIROS-E-ARGENTINOS,245762,0,0.htm)Em seus trabalhos Helal destaca: 1) a anterioridade temporal do zoar ou do deboche brasileiro sobre o argentino até no campo publicitário. 2) a transformação das relações jocosas da rixa futebolística em intolerância em relação aos argentinos. 3) a passagem do “odiamos amar os brasileiros”, originalmente posto como sentimento dos argentinos,  em o “amamos odiar os argentinos”, sentimento brasileiro original. 4) os jornais “sérios” brasileiros levam em consideração o pasquim esportivo Olé e minimizam a seus colegas de classe.

[3] “Pelé y Maradona: el periodismo y las contradicciones entre los héroes y las sociedades.” Lecturas Educación Física y Deportes (Buenos Aires), v. 139, p. 1-7, 2009.

[4] O antropólogo Gustavo Lins Ribeiro trabalhou sobre tal caracterização. Ver Ribeiro, Gustavo Lins, “Tropicalismo e Europeísmo: modos de representar o Brasil e Argentina” In Frigerio, Alejandro e Riberio, Gustavo Lins (orgs.) Argentinos e Brasileiros: encontros, imagens e estereótipos. Petrópolis, Vozes, 2002.

[5] As notícias jornalísticas indicam que o jovem jogador James registrou o maior aumento de valor profissional. Se isto for certo, seu desempenho, medido pelo mercado, foi superior.

O Rei deveria renunciar?

sexta-feira, julho 18, 2014 2 comentários

Durante a Copa do Mundo que acaba de finalizar, a televisão mostrou a presença do Rei Pelé no Maracanã.  Galvão Bueno, nosso ícone do jornalismo esportivo, comentou que é necessário que os brasileiros mostrem em relação ao Pelé o tipo de atitudes que os argentinos têm em relação à Maradona. Sua afonia após a transmissão da final o fazia mais humano e simpático. O defeito, pelo qual pediu desculpas, enaltece seu desempenho aproximando-o dos comuns mortais.

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Faz alguns anos, em artigo escrito a quatro mãos com Ronaldo Helal,[1] apontamos a  existência de uma inversão nas relações parte/todo quando tomamos como referencia Brasil e Argentina e Pelé e Maradona. Brasil sempre foi apresentado como a nação exuberante, produto da miscigenação, inqualificável e que dança alegremente na beira do abismo. Dissemos, no artigo, que as construções sobre as imagens do Brasil estavam claramente imbuídas de um caráter dionisíaco. Em contrapartida, a Argentina aparecia como o país europeizado, talvez de forma prematura. Em vários sentidos, da geografia ao tango, aparecia, sobretudo para os brasileiros, como um país apolíneo.

Agora bem, quando nos deslocamos para a parte, e para seus maiores heróis do futebol, o Rei e o Pibe (o moleque) as caracterizações se invertiam: o Rei é apolíneo e o Pibe dionisíaco. Pelé tem o entorno, a superioridade e a distancia do Rei; Maradona a proximidade familiar do Pibe. Nas descrições jornalísticas os caracteres apolíneos ou dionisíacos sempre estão presentes. Sobre Pelé reiteradamente se destaca sua completitude física e técnica, de Maradona se marcam as incompletudes, falta de domínio bilateral, por exemplo. Pelé parece ocultar as complicações de sua vida e Maradona as enfrenta sem recusar seu caráter público.

A relação de carinho, respeito e proximidade dos argentinos com Maradona é natural, embora não necessária. A relação de distancia e respeito dos brasileiros com Pelé também é natural e talvez não fosse necessária. Quando Maradona entra, começa a festa. Quando o faz Pelé, entra a aura e o tratamento protocolar.

Além de sua carreira de atleta, Maradona marca o cotidiano argentino com suas condutas privadas e dizeres públicos. Quando Maradona adoece, os argentinos rezam e fazem vigília por ele. Recentemente Pelé teve que se submeter a uma cirurgia para colocar uma prótese e a informação saiu em pequenas notas,  ninguém fez vigília ou encarregou missa pela recuperação do Rei.

Hoje, por exemplo, no jornal digital de O Globo aparecem as opiniões, vertidas em seu programa televisivo venezuelano, La Zurda,  de Maradona sobre o mundial e a final. Por volta das sete horas aparecia Maradona trajado e a notícia era cabeça da página. Depois desapareceu e no inicio da tarde voltou com menos destaque e com foto dele e de Rivelino mostrando camisetas. Na segunda versão, a notícia destaca a crítica de Maradona do premio dado pela FIFA ao Messi, uma jogada de marketing, destacando os elogios à participação da seleção argentina. Suas posições, como quase sempre, são originais, tanto em relação aos times emergentes que destaca, como Costa Rica, quanto nas atuações frustrantes (Inglaterra, Itália e Espanha). Maradona ainda coloca a James, o jovem jogador colombiano, como o melhor da COPA, enquanto por aqui foram mencionados alguns alemães, Robben e Rodriguez e talvez outros que não registramos. O James deve ter ficado muito feliz e é possível que valorize mais o reconhecimento de Maradona que o premio da FIFA, dado a Messi, com muitas dúvidas sobre seu valor. Messi nem deve ter ficado confortado. Mas, Maradona, diz o que pensa e ainda defende o valor de sua verdade e também da capacidade crítica diante do desempenho do atual ídolo argentino. O Pibe é valente! O Rei, entretanto, continua ausente e distante e os jornalistas mudam os destaques das matérias. O Rei deve ser protegido.

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Não vimos matérias jornalísticas ou argumentos nos debates sobre a fratura de vértebra de Neymar. Embora a crítica ao ato “maldoso” de Zuñiga fosse o eixo -e as melhores considerações foram as do próprio Neymar que surpreende positivamente com suas opiniões abertas sobre a seleção – como é possível que ninguém tenha levantado hipóteses sobre a probabilidade de seu tipo de fratura ocorrer ou sobre as condições que as tornam reais? Os especialistas foram convocados para esclarecer e discutir sobre o assunto?  Neymar se protege pouco? Seus ossos são saudáveis? Qual a probabilidade de acidentes dessa natureza se repetirem? Parece que vigora um pacto entre os jornalistas esportivos: não falar do tema para proteger Neymar.

Ortega y Gasset apontou que o intelectual é uma figura que faz que sua vida privada e a suas opiniões se tornem parte do debate público. No seu caso, até as gravatas chocantes que usava podiam ser discutidas no parlamento e na imprensa de Espanha. Seu estilo, sob diferentes pontos de vista, também era dionisíaco. Talvez por isso não chegasse a formular um sistema como o faria Heidegger, embora nos legou aproximações que ainda devem ser aproveitadas.

Chegamos a nossa hipótese: Maradona, sob a base de sua atuação destacadíssima para o futebol argentino e mundial, tornou suas condutas e opiniões insumos para o debate público no campo do esporte, da política, da ética e da vida cotidiana.  O Pibe é o maior intelectual popular da Argentina. O moleque pode fazer um gol com a mão, mas ganhar um mundial com tamanha malandragem apenas Maradona. O herói popular dionisíaco pratica a arte da malandragem, sabe simular e se aproveita das confusões que monta. O título familiar de Pibe o aproxima, ele senta-se à mesa do bar, se introduz nas conversas da família, dos amigos e, sobretudo, dos futeboleiros. Em uma medida talvez menor, Romário faz parte da mesma estirpe de intelectuais populares e suas condutas e opiniões entram nas conversas públicas em relações jocosas e afetuosas. Os dois tentam se distinguir do Rei e por vezes o alfinetam mediante a ironia. Pelé acaba calado em sua majestade. Romário: Pelé calado é um poeta.

A intenção de Galvão Bueno poder ter sido boa. Contudo, ela reconhece que o Rei tem significados frios e talvez impostos por repetição de outros ou pelo mantra de que ele foi e ainda é o melhor. Mantra que forma uma fita de Moebius com a cara do Brasil país de futebol. Ambos os lados se demandam para fazer uma superfície contínua. Será que estão por cair juntos?

O apolíneo está mais próximo da figura do eterno e se distancia da morte e do transitório no mármore atemporal. O dionisíaco parece estar sempre em contato com ela, desafia-la e a cutuca com o passe inesperado da dança e a ironia transitória. Pelé diz que Edson Arantes de Nascimento diz que Pelé é o melhor.  Maradona diz que sua mãe afirma que ele é o melhor.

Nunca pensamos que poderíamos assistir a renúncia de um Papa nem a da de um Rei. E isto ocorreu diante de nosso olhar espantado. O Edson poderia renunciar ao papel do Rei, deixar o manto sagrado e se misturar nas conversas do povo. Seria menos enreizado, mas, talvez, mais querido. Apenas um mortal: Pelé. Sem ser o Rei poderia falar e agir com menores constrangimentos e, talvez, até fazer poesia quando fala. Reconhecer que há muitos reis e que determinar o melhor é uma tarefa ingrata, talvez impossível e, sobretudo, tonta. Talvez por ser tonta seja tema do jornalismo esportivo e de suas perguntas.

Uma moral se impõe: Pelé é um Rei com pés de barro. Maradona é um Pibe com barro até o pescoço. Nós, os do povo, podemos escolher o modelo. O custo são as diferenças no tratamento. Os argentinos escolheram Maradona por unanimidade. Os brasileiros ainda duvidam entre o apolíneo Pelé e os dionisíacos Garrincha, Romário e, talvez, Neymar.

[1]Pelé y Maradona: el periodismo y las contradicciones entre los héroes y las sociedades.” Lecturas Educación Física y Deportes (Buenos Aires), v. 139, p. 1-7, 2009.

A nossa Copa do Mundo

quarta-feira, julho 16, 2014 Deixe um comentário

A Copa do Mundo acabou. Só nos resta juntar os cacos. Há muito o que comemorar, afinal o Brasil conseguiu realizar o evento com dignidade e arrancar suspiros da maioria dos gringos que aqui estiveram. Mas para os brasileiros que são realmente fãs de futebol, o gosto amargo do massacre alemão vai demorar a passar. Para piorar, voltar a viver nosso futebol ordinário será doloroso, ainda mais tendo na memória a atmosfera inesquecível que vivemos nas últimas semanas.

As contradições estão na mesa e talvez este momento não seja o melhor para tirarmos conclusões. Diferente do que a imprensa especializada tem tentando, ainda não é possível compreender tudo o que aconteceu por aqui. Talvez seja melhor esperar o “defunto esfriar”. Acredito que precisaremos de um intervalo apropriado, tanto para entender o fracasso da seleção quanto para decifrar a importância do megaevento. Ainda estamos envenenados pelo sabor da derrota no campo e embriagados pela linda festa que fizemos.

Não me distanciei o suficiente dessa Copa do Mundo para fazer um relato ponderado sobre o que vivemos. Fui a jogos, colecionei álbum de figurinhas e copos de cervejas com bandeirinhas, tirei férias, viajei pelo país. Assisti a jogos da Costa Rica, Nigéria, Irã e Grécia! Tirei fotos, gravei vídeos, fiz selfies. Acreditei no Felipão, lamentei pelo Neymar, cantei o hino e depois crucifiquei o treinador.

A dor da derrota para a Alemanha nos deixou especialmente atordoados. No entanto, apesar dos lamentos, parece que esta dor se dissolveu mais rapidamente. Acredito que isso seja reflexo da intensidade com que vivemos tudo na atualidade. Lendo a opinião de centenas de amigos nas redes sociais, em menos de uma hora, forma-se uma opinião coletiva mais rápida. Criamos uma noção (muitas vezes equivocada) do que aconteceu e chegamos às nossas conclusões rapidamente. Ao mesmo tempo que nos confortamos mutuamente, ficamos cheios de certezas e isso pode ser perigoso.

Acredito que seja nesse ponto que se amplie a importância da pequisa em Comunicação e Esporte. A imprensa esportiva parece incapaz de lidar com as tragédias que ocorrem dentro de campo. Ela procura culpados, amplia nossos ódios, mas explica pouco. Colocamos nossos algozes em locais até superiores do que de fato merecem.

Em 2011, num texto para este blog <link:http://comunicacaoeesporte.com/2011/08/09/repetir-os-erros-corrigindo-os-acertos/>, após a eliminação da Seleção Brasileira na Copa América, mostramos como o discurso da imprensa esportiva era precipitado e cruel. Além de decretar a morte de uma geração (protagonizada por Neymar, Ganso e Pato), os jornais não se envergonharam em alterar o discurso construído ao longo do tempo de acordo com os resultados. Uma mesma característica, que era valorizada em algum momento como uma qualidade, passa a ser um defeito ou o principal responsável pelo fracasso, depois que a derrota está consolidada. A mídia não será capaz de, sozinha, nos fazer compreender o momento do futebol brasileiro, quem sabe a Academia não possa ajudar

Saldo positivo

Algo que me entusiasmou durante esta Copa do Mundo foi enxergar na pauta do noticiário esportivo várias questões que já foram tema de pesquisa deste grupo. Fica a impressão de que conseguimos antecipar alguns debates e, portanto, estamos no caminho certo. A imprensa se preocupou com o racismo no esporte, o comportamento das torcidas e como as mudanças nos estádios impactaram essa mudança de comportamento. Aspectos históricos foram levados em conta com um pouco mais de cuidado. Também a rivalidade Brasil x Argentina mereceu da mídia uma discussão menos rasteira que a habitual. Todos estes temas nos preocupam há tempos e agora também fazem parte das páginas dos jornais.

Brasil me diga o que sente: desconstruindo a rivalidade entre brasileiros e argentinos

Ronaldo Helal participou desse curto vídeo produzido pelo jornal Estadão. A matéria aborda a rivalidade entre brasileiros e argentinos. Quanto há de provocação e seriedade nessa relação? Por que os argentinos são o nosso Outro? Como ficará essa rivalidade agora, depois da Copa? Qual o papel da mídia nessa construção? Assista o vídeo abaixo.

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