Numa tarde de domingo: futebol americano no estádio luso-português

terça-feira, janeiro 13, 2015 Deixe um comentário

Para compor esta postagem, mais uma vez recorro a uma experiência oriunda das peregrinações que faço por estádios do Rio de Janeiro em busca de jogos alternativos de futebol. É muito comum que antes de ir a jogos como Madureira X CRB – assunto do meu último post neste blog – as pessoas me perguntem com certo tom de indignação: o que você vai fazer nesse jogo?

Acho essa pergunta bastante representativa de um tipo de cultura torcedora que privilegia um futebol específico que é aquele que reúne jogadores famosos, dos chamados clubes grandes, altamente privilegiados pelas transmissões televisivas. Mas no dia 30 de novembro, até eu mesma me fiz aquela pergunta: Leda, o que você vai fazer nesse jogo? Não. Não estou enjoando de futebol e muito menos desistindo das minhas visitações daquilo que chamo de circuito alternativo desse esporte. Fiz-me essa pergunta antes de ir assistir ao amistoso entre a seleção brasileira de futebol americano e a seleção Carioca, realizado no Estádio Luso Brasileiro, na Ilha do Governador.

Eu entendo pouquíssimo desse esporte e até, então, meu interesse se limitava ao Superbowl, interesse alimentado, sobretudo, por causa da expectativa do show do intervalo que são sempre espetaculares e que em 2015, por exemplo, terá Katy Perry como estrela. Entendo qualquer irritação que esse tipo de declaração possa causar aos fãs do futebol americano. Eu também me irritaria bastante caso alguém fizesse esse tipo de comentário no caso do futebol da bola redonda.

Mas não sejamos precipitados, porque minhas pesquisas para fazer o texto deste blog, minha ida ao amistoso da seleção, somado a recente vitória do Vasco Patriotas no torneio Touchdown estão me fazendo olhar com outros olhos esse esporte.

Nas últimas semanas me pego, às vezes, assistindo aos jogos da NFL e até mesmo do campeonato universitário. E a comparação é inevitável. Enquanto os jogos da NFL – e até mesmo os do campeonato universitário – são realizados em estádios cheios e com campos apropriados para a prática desse esporte, aqui no Brasil o futebol americano – mesmo quando envolve a seleção nacional – é marcado pelo improviso.

Estádio da Portuguesa da Ilha: a casa do futebol americano

Os poucos trabalhos acadêmicos que encontrei são unânimes em considerar que o futebol americano, no Brasil, tem origem nas areias da praia de Copacabana, quando por volta de 1986 grupos de amigos se reuniam para praticar esse esporte. Em 1992, fundou-se o Rio Guardians, considerada a primeira equipe de futebol americano de praia. Anos depois, idealizou-se o Carioca Bowl torneio que existe até os dias de hoje.

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FOTO 1: Rio Guardians, em 1994.
Fonte: blog do Rio Guardians.

Essa proximidade com as areias em certa medida se explica devido ao fato de que se trata de um lugar adequado para jogar o futebol americano sem o uso dos equipamentos protetores. Em seu início, uma das principais dificuldades da prática do futebol americano, no Brasil, refere-se à falta de materiais como capacetes e protetores bucais, que eram caros e cuja aquisição era difícil já que não havia lojas que os vendessem (FRONTELMO, 2006). Sendo assim: “Para remediar essa falta de equipamento protetor, a praia se tornou uma solução mais plausível, visto que o impacto de quedas poderia ser diminuído na areia” (FRONTELMO, 2006)

Na grama, o Joinville Blackhawks foi a primeira equipe de futebol americano, no Brasil. Fundada em 1991, a equipe incialmente jogava sem o uso dos equipamentos de proteção (PONS, 81). Devido a essas dificuldades, no Brasil, somente em 2008 realizou-se o primeiro jogo “fullpad”, ou seja com o uso de equipamentos completos (PONS, 83)

Sendo assim de 1985 até o início da década de 1990, eram nas areia que se podia ver e praticar o futebol americano, adaptado às condições locais. E mesmo que muitas delas estejam poluídas, a Ilha do Governador tem diversas praias, e algumas delas costumam receber treinos e jogos de times de futebol americano. O bairro tem alguns times dessa modalidade, destacando-se, o Ilha Avalanche (fundado em 2005) e o Rio de Janeiro Islanders (fundado em 2009) que participam do Carioca Bowl, a principal competição de futebol americano de praia do Rio de Janeiro:

E mesmo que muitas delas estejam poluídas, a Ilha do Governador tem diversas praias, sendo que algumas delas costumam receber treinos e jogos de times de futebol americano. A Ilha do Governador tem uma relação antiga com o futebol americano. O bairro tem alguns times dessa modalidade, destacando-se, o Ilha Avalanche (fundado em 2005) e o Rio de Janeiro Islanders (fundado em 2009) que participam do Carioca Bowl, a principal competição de futebol americano de praia do Rio de Janeiro.

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FOTO 2: Escudo do Ilha Avalanche.
Fonte: blog do Ilha Avalanche.

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FOTO 3: Escudo do Rio de Janeiro Islanders.
Fonte: site da Liga Fluminense de Futebol Americano.

A Ilha do Governador, portanto, possui laços com o futebol americano. Não é de estranhar que o Luso, pelo menos desde 2012 venha recebendo jogos de competições importantes de futebol americano no Brasil, como por exemplo, o torneio Touchdown. Nesse estádio ocorreram os treinos da seleção brasileira de futebol americano, o Brasil Onças, o que incluiu o amistoso contra a seleção carioca, assunto do qual tratarei mais adiante.

A Portuguesa da Ilha do Governador é um clube bastante representativo para o bairro. Basta ir em qualquer tarde de sábado e domingo que podemos ver suas instalações cheias de sócios que fazem festas de aniversário, churrascos comemorativos ou vão nadar na piscina em dias de calor, jogar uma pelada em um campo ao lado do campo principal ou jogar futebol na quadra interna do clube.

Inspirada na Portuguesa Santista, a Associação Atlética Portuguesa foi criada em 1924 e, portanto, completou 90 anos, em 2014. O time da Portuguesa nunca foi campeão da primeira Divisão do Carioca, mas no seu histórico consta uma vitória sobre o Real Madrid, em amistoso realizado em 1969. Essa vitória é celebrada como um dos mais importantes momentos da trajetória do clube.

Em uma época na qual era comum em clubes brasileiros excursionarem pela Europa, a Portuguesa da Ilha fez diversos amistosos na década de 1960, incluindo um jogo contra o Real Madri que havia acabado de ser bicampeão espanhol.

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FOTO 4
Fonte: site da CBN Esportes.

Um dos maiores bens do clube é o Estádio Luso Brasileiro inaugurado em 1965. Parte do que hoje é o estádio, já foi o Jockey Club da Guanabara, inaugurado em 1961 e fechado um ano depois, sendo comprado pela Portuguesa:

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FOTO 5.
Fonte: blog Um Coração Suburbano.

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FOTO 6.
Fonte: Fotolog do Luiz.

Com o Maracanã em obras para o Pan de 2007, em 2005 o estádio da Portuguesa virou “arena” para receber os jogos de Flamengo e Botafogo que em parceria com a Petrobras e com o Governo do Estado, ampliaram o estádio, construindo arquibancadas tubulares, aumentando sua capacidade para cerca de 30 mil pessoas:

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FOTO 7.
Fonte: site da Arena Petrobrás.

Nos últimos tempos o estádio da Portuguesa realiza jogos, muitas vezes, sem a presença de público devido à falta de algum laudo técnico exigido pela FERJ.

Para 2015, o estádio da Portuguesa ainda precisa regularizar seus laudos para poder receber torcedores. Pelo que consta no site da FERJ, o Estádio, até o momento o Estádio Luso Brasileiro, não apresentou o laudo da Polícia Militar. Já o Laudo da Vigilância Sanitária expira no dia 11 de março e no dia 3 de Abril, expira o Laudo de Prevenção e Combate de Incêndio (LPCI). Na tabela da FERJ consta como liberado somente o Laudo de Vistoria e Engenharia.

Mas como o futebol americano não é modalidade filiada a FERJ e, além disso, as partidas que vi foram realizadas em novembro e dezembro de 2014, o estádio da Lusa pode contar com a presença de público.

BRASIL ONÇAS X SELEÇÃO CARIOCA

A seleção brasileira de futebol americano é bastante recente, sendo criada, em 2007, após a convocação de jogadores para disputar um amistoso contra o Uruguai. A convocação foi realizada pela CBFA (Confederação Brasileira de Futebol Americano) mediante a seleção feita a partir de “diversos torneios interestaduais, testes físicos e da disponibilidade dos atletas de participar.” (Disponível no site da CBFA)

O amistoso realizado na Ilha do Governador é parte do planejamento de treinos visando à preparação para o jogo contra o Panamá, no final de Janeiro, e que tem o objetivo de definir qual seleção ocupará a última vaga para a Copa do Mundo, que se realizará provavelmente nos Estados Unidos, já que a Suécia desistiu recentemente da empreitada.

O futebol americano tem se popularizado, no Brasil, sobretudo, nos últimos 10 anos. Segundo Rodrigo Pons, em seu trabalho “Futebol americano no Brasil: Um estudo com inspiração etnográfica sobre as práticas de consumo“ seriam três os fatores que possibilitaram o crescimento do futebol americano no Brasil: “Transmissão televisa do esporte, interesse pessoal e internet” (2013, 78)

No caso do papel da Televisão, destacam-se as transmissões em TV aberta da Rede Bandeirantes e da Manchete, na década de 1980, de partidas de jogos da NFL e, posteriormente, nos anos de 1990, as transmissões da ESPN. O interesse pessoal foi um importante motivador da criação de times por inciativa de indivíduos apaixonados por essa modalidade esportiva. Já a internet “facilitou e massificou a troca de informações entre os praticantes e interessados no futebol americano no país. A internet também disponibilizou acesso a notícias, táticas e treinamentos de maneira rápida e sem custos” (2013, 86).

Creio que há outro fator que pode ser relevante nesse processo de popularização do futebol americano, no Brasil, e que diz respeito às parcerias que os times tradicionais de futebol têm feito com as equipes de futebol americano. É o caso do Vasco da Gama Patriotas que nasceu de uma parceria do Vasco com o Patriotas RJ. Flamengo, Botafogo e Fluminense também possuem seus times e o mesmo se vê em clubes de outros estados como Corinthians e Curitiba.

O maior público de uma competição de futebol americano no Brasil, por exemplo, foi registrado no estádio Couto Pereira na final do Brasil Bowl II, no jogo entre o Coritiba Crododiles x Fluminense Imperadores. Foram mais de sete mil espectadores.

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FOTO 8.
Fonte: site do Globo Esporte.

Creio que essa vinculação a times de futebol com adesão clubística já consolidada pode possibilitar mecanismos de identificação com o público e abrir caminhos para o futebol americano no Brasil.

Digo isso por mim mesma. Parte do interesse e vontade de ir ao amistoso do Brasil Onças X Seleção Carioca nasceu no dia 13/12 quando assisti muito atenta a final do Torneio Touchdown entre Vasco Patriotas e T-Rex. Eu somente assisti a esse jogo porque um dos times representava o Vasco.

O Vasco venceu e provocou em mim um inusitado interesse por futebol americano, como nunca havia sentido, e que me fez pesquisar um pouco sobre o tema e descobrir que na Ilha do Governador se realizaria um amistoso entre a Seleção Brasileira de Futebol Americano contra a Seleção Carioca.

Ambos os times seriam compostos por jogadores que atuam no Vasco. Portanto, quando eu mesma me perguntei: o que você vai fazer nesse jogo? Lembrei do torneio Touchdown e do Vasco Patriotas e rumei para a Ilha do Governador.

Chegando ao estádio, me espantou ver que não havia nenhuma faixa ou cartaz indicativo de que ali haveria um amistoso entre a Seleção brasileira de futebol americano e a seleção Carioca. Mas a presença de pessoas vestidas com camisas de futebol americano de clubes cariocas me fez ter certeza de que estava no lugar certo. O ingresso para a partida custava R$ 10,0 e durante os intervalos seriam realizados sorteios de brindes para o público presente. Público composto basicamente por familiares e amigos dos jogadores que estavam em campo.

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FOTO 9.

Passei parte do tempo tirando fotos e me divertindo com a narração do jogo que podia ser ouvida nas arquibancadas através de duas caixas de som que durante os intervalos também tocavam músicas. Parte dessa narração servia para esclarecer alguns lances do jogo, o que foi importante para pessoas que como eu desconhecem grande parte das regras do futebol americano.

A narração foi bastante descontraída e marcada por comentários engraçados que muitas vezes ironizava algumas dificuldades técnicas encontradas para se narrar a partida. Dificuldades como, por exemplo, enxergar o número da camisa dos atletas e consequentemente seus nomes. Muitos comentários também demonstravam que o narrador possuía um convívio próximo com jogadores ou membros da comissão técnica.

O narrador em questão chama-se Merlin Calazans que também é jogador de futebol americano e que costuma ser convidado para narrar jogos de times de futebol americano do Rio de Janeiro. Trata-se, portanto, de uma figura bastante conhecida no universo do futebol americano no Brasil.

Esse universo, ao que parece tem dimensões reduzidas e que ainda carece de investimento, afinal é válido lembrar que se trata de uma modalidade amadora, no Brasil. Tal condição amadora se reflete em grande medida nas condições de prática do esporte, marcadas por certo nível de improviso:

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FOTO 10.

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FOTO 11: o garoto do placar.

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FOTO 12.

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FOTO 13.

Partidas como essa são marcadas por certa informalidade que pode nos permitir entrar em campo, por exemplo, e assistir de perto o jogo e o entorno:

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FOTO 14.

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FOTO 15.

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FOTO 16: Seleção Onças.

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FOTO 17: Seleção Carioca.

E antes de ir embora consegui uma curiosidade que foi deixada no gramado: o playbook da seleção carioca. O Playbook é um livro que contém  todas as jogadas usadas pelo ataque e defesa durante as partidas de futebol americano. A primeira página do playbook da equipe carioca foi dedicada à apresentação de algumas regras básicas de conduta dos jogadores:

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FOTO 18.

Nesse Playbook há um item especialmente destinado aos cuidados com a Seleção Brasileira:

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FOTO 19.

O futebol americano é um jogo que se mostra muito tático e estratégico. Não sem motivos, o restante das páginas do playbook guardavam o planejamento de jogadas:

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FOTO 20.

E minha saideira foi gloriosa, com uma foto ao lado do técnico da Seleção Carioca e do Vasco Patriotas:

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FOTO 21.

FRONTELMO, Paulo. Futebol Americano no Brasil. Estratégias e Limitações no país do Futebol, Revista Digital – Buenos Aires – Año 11 – N° 102 – Noviembre de 2006.Disponível em: http://www.efdeportes.com/efd102/futebol.htm

PONS, Rodrigo Vieira de Souza. Futebol americano no Brasil. Um estudo de inspiração etnográfica sobre as práticas de consumo. Dissertação de Mestrado, Instituto de AdministraçãoCOPEAAD, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2013.

Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 40.000 vezes em Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 15 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Clique aqui para ver o relatório completo

Mude o impossível

terça-feira, dezembro 30, 2014 Deixe um comentário

Minha pesquisa acadêmica sempre girou em torno do esporte paralímpico e sua relação com os meios de comunicação. Em diversos momentos em que fui apresentar alguns de meus resultados e reflexões, fui questionada por outros pesquisadores, muitos já com vasta experiência, se meu interesse pelo tema poderia ser explicado pelo fato de eu ter alguém com deficiência na família. Esse questionamento sempre me incomodou e me leva a explicar que meu interesse surgiu em 2004 durante o período olímpico. Depois de acompanhar avidamente os Jogos Olímpicos pela TV, esperei ansiosamente pelos Jogos Paralímpicos, espera frustrada. A cobertura midiática foi pífia, notícias curtas, poucas transmissões ao vivo. Então, comecei a questionar o porquê, uma vez que, o Brasil vem crescendo no esporte paralímpico, e os números do país não deixam mentir: em Atenas-2004 foram 10 medalhas e o 16º lugar geral; em Pequim-08, 47 medalhas e nono lugar; na ultima edição em 2012 em Londres o Brasil conquistou 43 medalhas e o sétimo lugar no ranking.

atletismoDepois de tantos anos pesquisando o tema, e justificando meu interesse me deparei no ultimo dia 10 com o lançamento da campanha: “Mude o impossível”. A ideia da campanha é mostrar que o conceito de impossível é relativo.  “Impossível nadar mais rápido do que alguém o dobro do meu tamanho”; “Impossível correr 400m em menos de 1min sem ver a pista”; “Impossível acertar o gol sem enxergar”.

Classificamos as pessoas com deficiência dentro de nossas caixas mentais do que acreditamos ser possível ou impossível, essa classificação vem de nosso conhecimento adquirido sobre o mundo, e esse conhecimento é construído pelo nosso contato direto com o outro, mas principalmente através da informação que recebemos sobre o outro. E é claro que os meios de comunicação exercem um papel fundamental na criação, alteração, e reforço de estereótipos.  Esses estereótipos divulgados pela mídia são reflexos dos medos e ansiedades do público, ou seja, nos evitamos falar sobre a possibilidade da deficiência, em nos ou em alguém próximo, e o que tememos geralmente estigmatizamos.

Impossível pensar diferente; Impossível quebrar paradigmas; Impossível mudar. Mude o impossível! Aproveite as resoluções de ano novo para mudar algo que você acredita ser impossível e aproveite para refletir de que forma você se relaciona com o outro que é diferente de você. E um Feliz Ano Novo!

Entrevista com Roberto Assaf: As Ditaduras e o futebol na América Latina

sexta-feira, dezembro 19, 2014 Deixe um comentário

A utilização do futebol como instrumento legitimador  dos regimes autoritários, na tentativa de legalizar atos cometidos pelos militares na América Latina durante o período de exceção.

 

Jota Silvera

Até os regimes autoritários precisam de reconhecimento, legitimação, e, da associação do regime com a nação – onde governo e pátria se tornem uma coisa só –  para tal se fazem necessários símbolos, símbolos estes, que também remetam a nossa identidade.

Por intermédio  do carnaval, samba, alegria, cachaça e futebol somos identificados e nos identificamos como brasileiros. Destes elementos todos, o futebol, como qualquer outra atividade lúdica e cultural, tem somada a força de ser envolvente e emocionante, força esta amplificada  ao se tratar da Seleção Nacional.

Getúlio Vargas percebeu este potencial, profissionalizou  o futebol tornando-o símbolo da identidade nacional, onde negros e mestiços, além de participarem, se tornam destaques, isto reforça a ideia da mestiçagem ou uma democracia racial  – segundo tese de Gilberto Freyre –  em soma, o alicerce  da constituição de nossa brasilidade.

O futebol como esporte coletivo, onde “todos juntos”,  sem distinção de raça, credo ou ideologia, com disciplina e amor a camisa tornariam o Brasil grande, moderno, imbatível, transformando a imagem das vitórias futebolísticas  no campo internacional, na própria imagem do sistema, sistema este capaz de produzir um povo ordeiro, vencedor, civilizado e avesso a todos os conflitos do mundo; religiosos, raciais ou mesmo sociais.

Nas décadas de 1960 a 1980, o uso político do futebol, se tornaria comum nos países da América Latina submetidos a um regime totalitário como Argentina, Chile e Uruguai.

O jornalista esportivo Roberto Assaf analisa o fenômeno.

 

As ditaduras militares têm se valido do esporte, especialmente do futebol, mas sobretudo em época de Copa do Mundo, como instrumento propagandístico do seu sistema autoritário. A partir de que momento isso se torna  visível?

 Se torna mais visível a partir do ato institucional  Nº 5, em 1969, mas, já em 1933, durante o Estado Novo, Getúlio Vargas  profissionaliza o futebol, marcando a primeira interferência significativa do Estado no esporte.

Outra intervenção, esta maior, foi em 1941 durante a ditadura Vargas (1937 a 1945) com a criação do CND – Conselho Nacional de Desportos – órgão normativo, com estatuto redigido nos moldes do da Alemanha de Hitler e da Itália de Benito Mussolini.  O objetivo de estabelecer as bases de todos os esportes no Brasil, e com isto ter o controle absoluto sobre toda e qualquer competição realizada, seguindo o exemplo dos países comunistas da Europa, que após a segunda grande guerra, têm a premissa de que um país com esporte forte dá a ideia também de um Estado forte, com um povo unido, civilizado e  disciplinado. Até 1930 os esportes no Brasil eram muito precários, para ter uma ideia não existiam piscinas no país, as competições de natação eram disputadas nos rios Tiete e Pinheiros em São Paulo, e as do Rio em mar aberto.

Com a realização da Copa do Mundo no Brasil em julho de 1950, aparece a oportunidade de mostrar ao mundo que, apesar de ser um pais subdesenvolvido tinha condições de sediar um evento dessa magnitude fora e dentro de campo. Segundo todos os jogadores da Seleção que entrevistei, o técnico repetiu exaustivamente o pedido de jogar limpo, mostrando disciplina e ganhando pura e exclusivamente pela superioridade técnica da equipe. Quem sabe uma falta antiesportiva tivesse evitado a troca de passes entre Júlio Perez e Alcides Ghiggia , o segundo gol,  e a consequente vitória do Uruguai nessa trágica final, já que o empate, dava o titulo a seleção brasileira.

 

É na Copa do México em 1970,  quando Brasil se torna o primeiro tricampeão mundial que este instrumento  se faz mais presente ?

Em 31 de agosto de 1969, durante a partida final das eliminatórias, contra o Paraguai no Maracanã, onde este recebeu o maior número de público pagante da história, (apesar de transmitida ao vivo pela Tevê inclusive para o Rio de Janeiro), a junta militar estava reunida no Palácio Guanabara elaborando a segunda Constituição do período ditatorial. E  comunicou  ao povo na mesma noite, na Resenha Militar em cadeia de radio e televisão em meio aos festejos do povo pela classificação.

Esse governo tinha ampla certeza da qualidade da seleção, considerada a melhor de todos os tempos até o momento, e do poder do futebol como divertimento de massas. Só faltava uma tecnologia de comunicações moderna que cobrisse todo o território nacional. E  construíram assim,  um novo complexo de comunicações, entre eles a rede nacional de tevê, onde programas como Jornal Nacional e Amaral Neto O Repórter se tornaram a voz oficial do sistema.

Cientes do potencial da seleção naquele ano e com uma rede nacional de televisão, poderiam capitalizar o interesse e a união nacional em beneficio do próprio sistema, algo que fizeram com incontestável competência. A música Pra frente Brasil de Luís Gustavo, cantada  por todo o país na euforia ufanista gerada pela transmissão ao vivo da Copa é mais uma prova disso.

 

O episódio Joao Saldanha tem a ver com a interferência militar ou Zagallo tinha mas competência para dirigir a esquadra canarinho ?

Em todos os setores da sociedade a junta introduziu militares nos cargos de maior hierarquia. No futebol não seria diferente, o chefe da delegação brasileira era o brigadeiro Gerônimo Bastos e toda a comissão técnica também era constituída de militares,  com exceção de João Saldanha, consagrado comentarista esportivo aclamado pelas massas como “o comentarista que o Brasil consagrou”, e reconhecidamente homem de esquerda. Mas  não cabia dividir os louros da vitória com um comunista. Os militares aproveitaram as críticas de alguns órgãos de imprensa descontentes com o esquema tático 4-2-4 considerado ultrapassado, e com o desempenho da seleção nas eliminatórias. Apesar de classificada, não teve oponentes de peso à altura de Inglaterra, Checoslováquia  e Romênia, rivais do Brasil na primeira fase da Copa, e demitiram Saldanha, chamando Zagallo para ocupar o cargo.

 

Após a conquista do tricampeonato mundial ficou claro que o governo militar capitalizou essa vitória?

A delegação foi recebida pelo presidente Emilio Garrastazu Médici nos jardins do Palácio da Alvorada (ele acertou o placar da final 4 x 1) e na coletiva de imprensa, lançou o bordão “ninguém segura este país”. No embalo da conquista do tri, os militares vão interferir diretamente no futebol, criando um campeonato nacional (dentro do lema integrar para não entregar) a partir de 1971, embrião do campeonato brasileiro de hoje.

 

 

A Copa de 1974, na Alemanha não teve participação relevante dos países da América do Sul.  Somente em 1978 as ditaduras volveram a agir?

Alguns episódios emblemáticos aconteceram na primeira metade da década de 1970, o Chile de Salvador Allende , Uruguai e Argentina  que viviam regimes democráticos foram vítimas também de golpes militares entre 1973 e 1976. O golpe do general Pinochet no Chile transformou o Estadio Nacional num campo de concentração, onde ficaram presos mais de cinquenta mil presos políticos de diversas nacionalidades, majoritariamente sul-americanos. Centenas deles foram sumariamente executados por fuzilamento dentro do própio estádio. O Chile viria  a se classificar para a copa de 1974 na Alemanha pela desistência da  Uniao Sovietica; negou-se a viajar a Santiago para disputar a partida de volta, em repúdio à ditadura. A Copa de 1978, apesar dos protestos de organizações de direitos humanos, especialmente dos países da Europa, contra as atrocidades cometidas pelos militares,  se realiza na Argentina. Para isto foi fundamental o apoio da FIFA que, inacreditavelmente era presidida por um brasileiro. João Havelange fora eleito em 1974, para surpresa de todos,  após peregrinação pela maioria dos países do mundo, fazendo promessas de tornar o futebol universal. Promessas que cumpriu, transformando o esporte em um negócio extraordinário.

A Argentina, nos moldes do que o Brasil realizara em 1970, utilizou a copa  de 78 para legitimar o regime. A copa vencida pela Argentina teve o famoso jogo contra o Peru que levanta suspeitas ate hoje.

Depois, em 1980, a ditadura uruguaia tentaria com o Mundialito, torneio que reuniu todos os campeões mundias, legitimar também suas ações. Marcando um mês antes um plesbicito para alterar a Constituição e tornar válidas todas as arbitrariedades  cometidas durante o regime. Esta tentativa foi frustada com o não da população, e a expulsão  das bandas militares do campo do Estádio Centenário no apito final da partida em que o Uruguay derrotou o Brasil por 2 a 1 sagrando-se campeão. Um fato marcante, que determinaria o inicio do fim da ditadura no Uruguay, foi a volta olímpica em sentido anti horário,  aos gritos de vai passar, vai passar a ditadura militar”, entoada ao uníssono pela massa.

 

quem sabe uma falta antiesportiva tivesse evitado a troca de passes entre Júlio Perez e Alcides Ghiggia , o segundo gol,  e a consequente vitória do Uruguai nessa trágica final, já que o empate, dava o titulo a seleção brasileira

Até 1930 os esportes no Brasil eram muito precários, para ter uma ideia não existiam piscinas no país, as competições de natação eram disputadas nos rios Tiete e Pinheiros em São Paulo, e as do Rio em mar aberto.

*Publicado originalmente na revista Ponto & Virgula da Facha (1o semestre de 2013)

Adeus ano novo. Feliz ano velho. De novo!

terça-feira, dezembro 16, 2014 Deixe um comentário

Uma das obrigações que chegam junto com o mês de dezembro é a de fazer um balanço do que foi o ano. Avaliar o que deu certo e traçar planos para corrigir ou colocar em prática tudo o que você adiou por doze meses. Em regra, somos tomados por um otimismo sem sentido que nos inspira a acreditar que desta vez vamos conseguir tirar tudo papel.

No começo de 2014, escrevi para o blog sobre o pessimismo que se abatia sobre o futebol brasileiro. Apesar da Copa do Mundo, a perspectiva era controversa. Dentro de campo, as críticas à qualidade do futebol apresentado no Brasil não paravam de crescer. Fora das quatro linhas, antigos problemas continuavam nos assombrando.

Ariano Suassuna, que morreu em julho (anote aí mais um motivo para lamentar 2014), se definia como um “realista esperançoso”. No entanto, acho que, quando se fala do futebol brasileiro, até ele teria dificuldades para encontrar motivos para sorrir. O ano que passou foi sombrio. Talvez a única coisa que tenha aumentado foi o número de programas esportivos nas TVs por assinatura. São pelo menos seis emissoras e muitas delas com mais de um canal. Uma pena que essa overdose de programação ao vivo não consiga apresentar soluções ou ao menos influenciar na melhoria do nosso futebol.

A tragédia do Mineirão dificilmente será esquecida. E, pior que isso, parece não ter sido compreendida. Ainda não descobrimos onde erramos. O placar de 7×1 talvez só tenha servido para explicar que um vexame de um país sede nada tem a ver com o vice-campeonato brasileiro, em 1950.

Temos uma penca de estádios novos, mas eles continuam vazios na maior parte dos jogos. A violência entre torcedores não foi contida. Já a alegria e a espontaneidade das arquibancadas está quase sendo proibida. A CBF trocou de dono, mas nada mudou. Suspeitas de corrupção continuam e a velha forma de comandar permanece. Nenhum clube brasileiro disputou a final dos principais torneios sulamericanos. Para completar, Eurico Miranda está de volta.

Durante todo o ano, casos de racismo no mundo esportivo foram registrados aos montes. Mas talvez aí esteja escondida uma boa notícia. O aumento de casos reflete necessariamente pelo aumento das denúncias. Vítimas se calam menos. E se devemos lamentar que nossa sociedade ainda seja obrigada a conviver com essa prática nefasta, pelo menos estamos começando a encarar o tema de frente. O que certamente é melhor do que ignorá-lo.

Para os torcedores esperançosos, é a hora de torcer para que aquela sonhada contratação se concretize. Para os realistas, é o momento de fazer as contas e ver o que vai ser possível realizar no curto período de doze meses. Arrumar a casa pode ser um bom começo.

Hierarquia e impessoalidade no futebol brasileiro

sexta-feira, dezembro 12, 2014 1 comentário

Nunca deixo de me surpreender com a capacidade que o futebol tem de produzir textos culturais antagônicos. Praticamente ao mesmo tempo em que o Atlético/MG conquistava a Copa do Brasil e o Cruzeiro se sagrava bicampeão consecutivo do Brasileirão, Eurico Miranda era novamente eleito para três anos de mandato como presidente do Vasco. Se o feito da dupla mineira foi narrado pela mídia como o triunfo da boa governança e da eficiente gestão, a eleição de Eurico causou certa estranheza pelo retrocesso que representa, não apenas para o Vasco, mas para o futebol brasileiro.

Remetendo ao título desse post, faço referência às reflexões de Roberto DaMatta (contidas principalmente no livro Carnavais, Malandros e Heróis), que classificava o Brasil como um país dividido entre códigos pessoais e impessoais. A esfera da pessoalidade se manifestaria em atitudes como o “você sabe com quem está falando” (recentemente atualizado no notório caso da querela entre o juiz e a agente da lei seca), o famoso “jeitinho brasileiro” e as hierarquias sociais ainda vigentes. Por outro lado, a impessoalidade nos remete ao “todos são iguais perante à lei”. Enquanto a pessoalidade traduz resquícios de uma sociedade tradicional, a impessoalidade seria um imperativo das sociedades ditas modernas.

Em relação a Eurico, ficaram evidentes na representação midiática de seu último mandato seu caráter intransigente (por exemplo, o caso da expulsão de Roberto Dinamite das cadeiras sociais do clube) e o viés autoritário (censura ao trabalho da imprensa em São Januário, proibição dos jogadores de conceder entrevistas). Ademais, o Vasco ficou quase seis anos sem patrocinadores, o que colaborou para a formação de elencos de qualidade duvidosa e a conquista de apenas um título (o Estadual de 2003).

 

A despeito disso, é interessante como Eurico pode representar tanto a modernidade (impessoalidade) quanto à tradição (pessoalidade). Como vice-presidente de futebol do clube nas décadas de 1980 e 1990, Eurico foi extremamente vitorioso, tanto pelos títulos no futebol quanto pelos investimentos em outros esportes (em especial, o basquete e o futsal), e soube capitalizar as conquistas para si – não à toa muitos torcedores esquecem que o presidente à época era Antônio Soares Calçada. Aliás, na década de 1980, Eurico perdeu por duas vezes consecutivas as eleições presidenciais para Calçada, fato este pouco lembrando pela mídia e pelos vascaínos. Essa oscilação entre um lado, digamos, modernizador e outro apegado às tradições parece se manifestar novamente em 2014. Ao mesmo tempo em que assume a presidência afirmando que equacionará as dívidas do Vasco e ampliará a capacidade do estádio de São Januário (promessa que vem desde sua última gestão), Eurico compra briga com o Fluminense e com o Consórcio Maracanã pela preservação da tradição do “lado vascaíno” no Estádio do Maracanã. Além disso, extingue o cargo de gerente de futebol – um dos símbolos da administração moderna do futebol –, ocupado até então por Rodrigo Caetano.

A influência política também é uma faceta da pessoalidade que cerca o dirigente vascaíno. Se ao final de seu último mandato, Eurico era execrado por personalidades vascaínas, dias após eleito, em 2014, ele já aparecia em foto com o presidente da CBF e a mesma instituição o parabenizava pela vitória. É igualmente notória a relação de amizade entre o novo mandatário do Vasco e o presidente da Federação de Futebol do Rio. No dia de sua posse, estavam presentes o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o Ministro do Esporte, Aldo Rebelo.

Essa tensão entre certa visão amadora (de amor ao clube, respeito às tradições, etc.) e uma vertente mais profissional, contudo, não é nova nem exclusiva da persona Eurico. A dualidade remonta, pelo menos, à década de 1920 no futebol brasileiro; nessa época, as ligas amadoras e profissionais disputavam a hegemonia da prática futebolística. Quando da fundação do Clube dos 13, em 1987, a “crise do futebol brasileiro” também podia ser interpretada por essa ótica dicotômica – Ronaldo Helal documentou criticamente esse processo em sua tese de doutorado, posteriormente publicada no livro Passes e Impasses.

Não desejo aqui imputar um julgamento de valor ao novo mandato de Eurico Miranda no Vasco, afinal ele foi eleito democraticamente pelos sócios-torcedores vascaínos, ainda que sob denúncias de “compra de votos”. O que busquei salientar foi a oscilação entre uma narrativa que prega a modernização do futebol brasileiro, que nos colocaria no mesmo patamar das ligas europeias, tanto em organização quanto em qualidade dos jogadores; e, por outro lado, nos mantemos apegados àqueles que exaltam um discurso da tradição e do saudosismo. O lema da campanha da chapa de Eurico não poderia ser diferente: “Volta, Vasco! Volta, Eurico!”. A pergunta que fica é: qual Eurico está voltando? Estará o Vasco apto a disputar o Brasileirão 2015 em “pé de igualdade” com os “clubes-modelo” que mencionei no início desse texto? A nós, amantes do futebol, nos resta apenas aguardar o desenrolar de mais uma edição do embate entre tradição e modernidade.

Os mexicanos não são bons de bola (segundo eles mesmos).

terça-feira, dezembro 9, 2014 Deixe um comentário

Estou no  México. As imagens do país me tocam e desejo saber mais sobre sua história e situação atual. Em uma livraria de sebo da Av. Centenário, Coyoacan, compro vários livros sobre o México, dentre eles “Mañana o pasado: El misterio de los mejicanos” (2011, Ed. Aguilar), escrito por Jorge G. Castañeda, um intelectual político e um político intelectual destacado em ambos os campos.[i] Castañeda me atrai pelo título tanto do seu livro como do primeiro capítulo: “De por qué los mexicanos rechazan los rascacielos y son malos para el futbol”.  Deve existir alguma coisa por baixo que nos permita relacionar a rejeição aos arranha céus com a falta de qualidade para o futebol. A relação, que logo se revela, é em princípio misteriosa. O Brasil também é um mistério ou os brasileiros o são. Pareceria que todos tendem a destacar a complexidade da própria Nação sob a forma de mistério, daí que o “Brasil não seja para principiantes” e que a Argentina seja um mistério, sobretudo, para as teorias do desenvolvimento.

Que os mexicanos sejam “maus para o futebol” me atrai, mais quando isso é dito por eles mesmos. Castañeda se baseia em Juan Villoro que por sua vez teria se baseado em Alan Riding, carioca nascido em 1943, filho de pais britânicos dos quais herdara sua nacionalidade inglesa. Riding foi do direito e da economia para o jornalismo e atuou vários anos no México pelo New York Times. Um resultado de sua atuação foi a obra Vecinos distantes. Un retrato de los  mexicanos (1985).[ii] Na interpretação de Riding, os mexicanos seriam ruins para o futebol por não serem jogadores de equipe ou associativos. Seus destaques apenas estariam nos esportes individuais como, por exemplo, o boxe. Segundo Castañeda, Villoro teria posto em dados empíricos a percepção de Riding sobre o individualismo e o desempenho dos mexicanos na sua seleção, além de tomar o esporte como matéria de intervenções jornalísticas e obras literárias de qualidade. O artigo mencionado é Era para Hoy?, publicado em 2008, e do qual estou atrás sem resultado positivo, embora existam listas de artigos e crônicas publicadas por Villoro na internet.

Para Castañeda, seguindo a história corriqueira, o futebol teria chegado ao México da mesma forma que a Argentina, ao Brasil e ao Uruguai: mediante a divulgação por estrangeiros dentre os quais se destacaram os trabalhadores ingleses e as escolas religiosas. As diferenças entre os países “bons de bola”, os três mencionados, e o México estariam dadas pela formação da base institucional do futebol, cujo surgimento seria apenas de equipes de futebol. No México –ao contrário dos bons de bola, Argentina, Brasil e Uruguai– teriam tido por base clubes sociais e esportivos, campo sobretudo de interação social, de melhores condições para a prática esportiva e lugares nos quais podia se desenvolver a autoajuda, em princípio, entre os imigrantes fundadores. A base institucional e melhores condições teriam ocorrido recentemente e a duras penas no México.[iii]

Contudo, a explicação seria insuficiente se não se leva em conta que “os mexicanos não gostam de socializar coletivamente. Preferem ver as partidas em casa (…). Se retrocedemos à época pré-colombiana, aparece um antecedente desta tendência individualista” (42). A história do futebol no México coloca um jogo pré-colombiano com bola. É difícil identificar esse jogo com a linhagem do futebol, sobretudo, se levarmos em consideração que o resultado implicava um ato de real canibalismo: comer ou ser comido. Contudo, o significativo é que enfatiza seu “individualismo”.  Para Castañeda nem o movimento zapatista conseguiu quebrar com a tradição individualista mexicana (76-77).  Marcos teria se convertido em mais um simples chefe carismático. O individualismo estaria também presente na rejeição aos arranha-céus.

Temos, então, o individualismo mexicano como condição ou força atuante no mau desempenho da seleção nacional. De fato, Castañeda segue a tradição da comparação dos individualismos: o associativo, na linha descritiva e interpretativa traçada por Tocqueville, e um individualismo não associativo que seria o mexicano. A recorrência a um individualismo insuficiente ou peculiar estaria na base de muitas explicações sobre o que não fomos ou poderíamos ser. Embora conceituar o individualismo não seja fácil, seja variável sua valorização e tremendamente difícil construir indicadores empíricos não contraditórios.

O fantástico, para mim, é que Oliveira Vianna, em artigo escrito para a coletânea organizada por Lecínio Cardoso, Às margens da história da República, afirmava interpretações muito semelhantes em relação ao individualismo brasileiro nas primeiras décadas do século XX. Creio que podemos interpretar que nos diz que sem individualismo associativo a república seria uma ideia fora de lugar no Brasil. E talvez o futebol fosse “fogo de palha” como afirmava Graciliano Ramos, sendo o único esporte válido a luta pelo poder que abria as portas para outros benefícios. [iv]

Para Castañeda, Riding e Villoro seria o futebol um esporte fora de lugar no México apesar do fervor que desperta? Fervor que recentemente observamos na torcida mexicana durante a Copa no Brasil.

Se levarmos em consideração que existem quase cem anos de distância entre o texto de Vianna e o de Castañeda temos duas opções: a) reconhecemos que  os problemas são os mesmos ou b) pensamos que o “tipo de individualismo” continua sendo central para nossas explicações imaginárias do passado e das formas de enfrentar o amanhã, núcleo problemático de Castañeda. Ou seja, como o caráter mexicano estaria adequado às tarefas demandadas pela complexidade do futuro já presente. O individualismo egoísta apareceria como obstáculo para enfrentá-lo criativa e exitosamente.

Na virada do século XIX para o XX o individualismo “egocêntrico” foi colocado como fator do baixo desenvolvimento do futebol brasileiro.[v] Poucas décadas depois, em 1938, Freyre estaria elevando as qualidades do “futebol mulato” enquanto paradigma do futebol. Na nossa realidade, o futebol coletivo ou de força, o futebol de equipe, cuja principal metáfora seria o inglês, não teria sido totalmente apropriado pelo dito “futebol arte” ou “futebol bonito”. Teria ficado ao lado do seu caminho. Ainda mais, o craque individual e a jogada pessoal tiveram e continuam tendo valor de referência para nós, tanto quanto o destaque conferido pelas páginas mexicanas a Pelé em 1970 e a Maradona em 1986. Juan Villoro tem um artigo que que tem como protagonista Hugo Sanchez, talvez o maior craque do futebol mexicano. Nesse artigo, o individualismo ou desparece ou a falta de cooperação, de jogar em equipe, é absorvida pelas qualidades pessoais do maior futebolista mexicano e aluno do curso de odontologia da UNAM.  Quem percorre a história do Estádio Azteca, totalmente disponível na internet, poderá constatar o valor conferido à individualidade, contudo, não parece existir muita diferença em relação às elaborações feitas por aqueles que se afirmam como “os bons de bola”.

O México parece sentir-se tocado na fibra futebolista por avançar pouco nas copas e por perderem dos times africanos. No entanto, nenhum desses times africanos aparece como primeiro ou segundo nas Copas do Mundo. Mais ainda, se temos 20 copas e 40 posições, entre primeiro e segundo, apenas 12 times rodam ocupando essas posições. O primeiro lugar foi ganho 13 vezes por apenas 3 times e eles também ganharam várias vezes o segundo lugar. Ou seja, tudo indica que estamos diante de um oligopólio competitivo. Tudo indica que é um monopólio difícil de quebrar. A Espanha demorou a entrar para a lista dos 12 vencedores e tivemos sinais de que parece difícil que repita o feito. A incógnita, depois de tudo, é o fermento do entusiasmo pelo futebol.

Eu me pergunto: se o México ganhar a Copa de 2018, mesmo por acaso, as teorias sobre o peso do individualismo ou da incapacidade para jogar de forma associativa ou cooperativa continuariam sendo reiteradas ou seriam rapidamente substituídas?

Atrever-me-ia a responder de forma negativa à pergunta. Neste caso, seria muito bom interrogarmos sobre o papel que desempenham as teorias do individualismo não associativo em nossas construções sobre o passado e o futuro.

_______________

[i] Castañeda ocupou o cargo de Secretario de Relaciones Exteriores, Chanceler creio que se diria por aqui, foi candidato a presidente e leciona em universidades dos Estados Unidos. É um dos entrevistados pela GloboNews nessa semana. O programa ainda está no ar.

[ii] Descobri sem saber que usei o mesmo título que Riding, Vizinhos distantes, para um livro meu editado pela Eduerj, “Vizinhos distantes: comunidades científicas em Argentina e no Brasil”. Tenho a meu favor, como desculpa, de que em 1999 a internet nada informava.

[iii] Observo que Mario Filho escreveu entre 1915 e 1920 vários artigos jornalísticos salientando as positivas condições dos clubes argentinos quando comparados pelos brasileiros.

[iv]  Lovisolo H. R. e  Soares , A. J. Fogo de palha: a profecia de G. Ramos. Pesquisa de Campo. , v.5, 1997.

[v] Veja-se Soares, A. J. e Lovisolo, H. R., Futebol: A construção histórica do estilo nacional, RBCE, v.25, n.1, p.129-143, set de 2003, Mostramos no artigo como nos inícios do futebol, primeiras décadas do século XX, abundavam as críticas ao individualismo egoísta no futebol e os elogios ao jogar para a equipe.

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