Love money, hate ethics

sexta-feira, março 27, 2015 Deixe um comentário

Fornecedora oficial, desde 1970, da bola utilizada nas competições oficiais da FIFA, a Adidas cansou de colocar a bola dentro de campo. No entanto, agora resolveu colocar uma bola fora “homenageando” o atacante uruguaio Luís Suarez, não por seu desempenho profissional tanto na seleção uruguaia como no time do Barcelona, mas sim, pela extrema competência que o mesmo tem na antropofagia futebolística demonstrada em mais de uma oportunidade.

Esta prática é totalmente rejeitada pela entidade maior do futebol mundial, que não acredita no sentido etimológico da palavra, nem no sentido mágico religioso dessa prática, que exprime o respeito e o desejo de adquirir as características do “comido”. O Comitê Disciplinar, usando como base os artigos 48 e 57[1] do Código Disciplinar, aplicou uma suspensão ao praticante, vetando sua participação em toda e qualquer competição oficial da entidade por nove partidas.

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Esta sanção foi aplicada após a mordida que Luisito aplicou no defensor italiano Giorgio Chienelli, durante a partida entre Uruguai e Itália, valendo vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2014, realizada em Natal- RN; partida vencida pela seleção celeste por 1 a 0, com o gol de Diego Godin, aos 36 minutos da etapa final.

Apesar de o árbitro mexicano Marco Rodrigues ter ignorado o lance, as imagens geradas pela TV FIFA são bem claras e o artigo 77 do Código Disciplinar prevê a possibilidade de imposição de pena, mesmo sem a advertência do juiz.

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A campanha publicitária promovida pela Adidas, objeto deste artigo, responderá ao sugestivo nome de “Love and Hate” e será estrelada muito merecidamente pelo atacante uruguaio.

Após uma demorada análise do nome da campanha, não consegui decifrar por completo o título da mesma, logo ainda me resta saber a que ódio se refere; já o amor não deixa nenhuma dúvida, está falando de AMOR ao dinheiro por sobre toda a ética e códigos disciplinares.

[1]O art. 48 trata de conduta agressiva contra adversários durante as partidas, mais especificamente no item “c”, que prevê uma partida de suspensão por conduta antidesportiva em relação a um adversário; e o item “d”, que prevê dois jogos de punição por agressão. Já o artigo 57 prevê multa, advertência ou repreensão por conduta ofensiva e falta de fair play.

LEME divulga vídeos com o pesquisador e geógrafo Gilmar Mascarenhas

De modo a dar continuidade ao projeto de pesquisa desenvolvido pelo Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME), que conta com a colaboração de pesquisadores que se dedicam à área da Comunicação e do Esporte, estão aqui mais três vídeos que foram publicadas recentemente. A entrevista com o pesquisador e geógrafo Gilmar Mascarenhas foi dividida em três eixos: trajetória acadêmica do pesquisador, geografia histórica do futebol no Brasil e estádios no Brasil.

Estes vídeos têm como objetivos apresentar pesquisas acadêmicas concluídas ou em andamento na área das Ciências Sociais e  Humanas (em especial, da Comunicação), além de colaborar na criação de trabalhos acadêmicos, por graduandos ou pós-graduandos, que se inserem na mesma temática.

Todos os vídeos gravados pelo LEME podem ser assistidos em nosso canal no YouTube.

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E lá se vão dez anos…

terça-feira, março 17, 2015 Deixe um comentário

Em 2005 escrevi um dos meus primeiros textos sobre a cobertura midiática dos Jogos Paralímpicos. Esse ano, então, comemoro dez anos de pesquisa na área, de lá para cá pouca coisa mudou, principalmente a necessidade de gerar sentimento de pena. Esse sentimento não é exclusivo da cobertura esportiva, ela está presente também na indústria fílmica, na publicidade e em nas páginas dos jornais, em diversas editorias, quando o assunto é deficiência. As imagens perpetuadas são, geralmente, aquelas que nos dão a ideia de superação de limites. O fato é que o esporte gira em torno de superação de limites, de tempo, de esforço, recordes, o problema é que no esporte paralímpico a superação cinge-se à deficiência. Parece ser algo inerente ao ser humano, sentir pena e ao mesmo tempo sentir-se inspirado por aquele que decidiu viver, mesmo em condições desfavoráveis, o que pode gerar o estigma da deficiência. Esse estigma é grave, uma vez que transforma essas pessoas em seres incapazes, improdutivos, indefesos, sempre deixados em segundo lugar na ordem das coisas. Ou seja, as pessoas com deficiência enfrentam duplamente os efeitos da vulnerabilidade social. Primeiro, por não serem reconhecidas socialmente como sujeitos produtivos, e com consequente dificuldade de inserção no mercado. E segundo, mesmo pela impossibilidade de garantirem sua autonomia econômica, social e simbólica, resultando em exclusão e isolamento ao não fazerem parte da sociedade produtiva. O sujeito com deficiência, torna-se reduzido a essa deficiência, o que o impede de exercer seu papel social de indivíduo. Em nossa sociedade somos, cada vez mais, impelidos a atingir o ideal corporal imposto, a atingir o sucesso em um ambiente educacional altamente competitivo, a acumular o máximo de saúde, status e independência nos locais de trabalho, e tornarmo-nos pessoas desejáveis através da imagem, vestuário, papéis desempenhados, e habilidades. Assim dentro dessa cultura narcisista, faz algum sentido que as partes de nós que não se enquadram nessas expectativas tornem-se inaceitáveis para nós.

Paratleta Fernando Fernandes na Revista Sport Magazin, da Aústria.

Paratleta Fernando Fernandes na Revista Sport Magazin, da Aústria.

Atualmente as cirurgias estéticas, depilação, personal trainers, dietas e uma série de tratamentos de saúde e beleza, são caminhos utilizados pelo sujeito moderno para corrigir “falhas” em sua aparência. Na sociedade contemporânea atomizada, o corpo é, para muitas pessoas, uma das poucas áreas de controle e auto expressão remanescentes, uma vez que se não se tem controle sobre a complexidade da sociedade, pelo menos se consegue controlar, em alguns casos, algumas características corporais como forma e tamanho.  O corpo é, assim, cada vez mais, usado como marcador de distinção e como uma entidade que está em processo de tornar-se; um projeto que deve ser trabalhado e realizado como parte da identidade do indivíduo. Contudo, as pessoas com deficiência funcionam como um lembrete desconfortável de que nós podemos não estar totalmente no controle de nosso destino e que nossos corpos e mentes estão vulneráveis.

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Novas tecnologias da Era Digital: seria uma das causas da fraca seara no celeiro de craques no futebol brasileiro

sábado, março 7, 2015 Deixe um comentário

A revelação de jogadores fora de série atravessa um forte declínio na última década no Brasil; nesse período somente 2 jogadores foram eleitos como melhores do mundo: Ronaldinho Gaúcho, em 2005, e Kaká, em 2007. Na década entre 1994 e 2004, o Brasil emplacou a eleição de 4 jogadores em 6 oportunidades: Romário, em 1994, Ronaldo, em 1996, 1997 e 2002,   Rivaldo, em 1999, e Ronaldinho Gaúcho, em 2004, selando o fim da hegemonia de craques do futebol brasileiro. Estes números correspondem a um universo de mais de 2 milhões de atletas.

Por outro lado, o Brasil ganhou o seu último titulo mundial Sub-17 em 2003, na Finlândia, prenúncio de novas gerações sem muito brilho.

É inegável que as novas tecnologias na era digital têm promovido uma revolução no esporte. O uso destas tecnologias tem propiciado um trabalho multidisciplinar em prol de avanços significativos nas várias perspectivas que os esportes em geral englobam. Desde a medicina (enquadrando aqui, diagnóstico médico, nutricionista, fisiologista e fisioterapeuta) à preparação física (agora tem preparador de goleiro, de defesa e de ataque) passando pelo material esportivo usado para a prática do esporte em si; pelas comunicações, que têm determinado o ritmo e até alterado regras específicas e a globalização econômica e midiática, todos, sem exceção, têm realizado intervenções indeléveis e nem sempre positivas. Estas são aplicadas no mundo do esporte profissional, onde assistimos dia após dia à falta de craques. Normalmente, temos jogadores medíocres que são incapazes de  acertar fundamentos, desconhecem as regras oficiais e fazem do jogo um possível trampolim a herói ou a uma transferência para o Velho Mundo ou à China…; em última instância uma ascensão social via um empresário marqueteiro.

No Brasil, 82% dos atletas recebem até 2 salários mínimos e 2% recebem acima de 20 salários mínimos – indicador sutil desta mediocridade. Porém, não quero focar este artigo nessa área, me interessa trazer à tona uma inquietude sobre o elemento mais importante da pratica esportiva: o nascimento do jogador de futebol. Qual o processo de formação destes futuros atletas, o que mudou nesse processo nas últimas décadas para plasmar a decadência técnica/criativa hoje observada.

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Obdulio Varela

Lendo o livro “En la Cumbre de lãs Hazanhas”, do escritor uruguaio José Eduardo Picerno, sobre a vitória da Celeste Olímpica contra o Brasil na final da  Copa do Mundo de 1950, me chamou muito a atenção uma declaração em 1951 de Obdulio Varela, capitão da seleção uruguaia. Ao ser questionado sobre a procedência da qualidade dos jogadores uruguaios, que detinham 4 títulos mundiais de futebol entre 1924 e 1950, ele afirmava que as ruas do bairro e os times de bairro eram os maiores formadores de jogadores de futebol, processo parecido ao qual encontramos no Brasil em um período posterior.

Os “futuros jogadores” tinham à disposição ruas sem trânsito e terrenos baldios facilmente adaptados numa quadra de futebol. Além dessa disponibilidade do território, o mais importante era ter tempo livre para brincar. As crianças das décadas de 1910 até 1960 tinham tempo livre após a escola, o que permitia a prática do esporte durante 3 horas por dia em média, tal era o prazer que a atividade lúdica proporcionava.

Sem contar que outros elementos como a TV-computador, celular e vídeo games estavam atrelados à ficção científica – que não era um equipamento comum nos lares dos trabalhadores, de onde provém a grande maioria dos jogadores, não disputavam tempo com o futebol. Estas horas de brincadeiras em terrenos irregulares cheios de obstáculos, com bolas de borracha ou trapo e normalmente com roupa e calçados inadequados para a prática de esportes, dotavam às crianças de um vasto domínio da bola, técnico e dos fundamentos. Cabe ressaltar que as habilidades desenvolvidas eram fruto de uma atividade lúdica sem maiores obrigações que a de se divertir e brincar, aguçando a criatividade.

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Por se tratar de uma atividade auto-regulamentada, os mais velhos (estavam no comando) ensinavam aos mais novos as regras, os posicionamentos, como passar, driblar e chutar, as malandragens, e o mais importante, o respeito e a lealdade (já que uma queda no asfalto devido a uma falta desleal seria o fim do jogo). Mesmo se houvessem? Somente poucos jogadores para uma partida desenvolviam outras atividades que auxiliavam de forma imperceptível a adquirir a técnica e o domínio da bola. Entre estas atividades contamos: torneio de embaixadas, bobinho e linha de passe entre outras, aonde a associação da criatividade com o futebol se dava de forma lúdica.

Quando adolescentes, abandonavam o futebol de rua – a Polícia era intransigente com o jogo de bola na rua, mais ainda se tratando de “marmanjos”- iam jogar no time do bairro, portando uma bagagem de vários anos, brincando várias horas por dia, com domínio da bola e dos fundamentos. Sempre eram dirigidos por técnicos amadores, na sua grande maioria ex-atletas, que exerciam a atividade sem fins de lucro material; normalmente o prestigio e a tradição do bairro de ter o melhor time era o mais importante. O próximo passo dos que se destacavam nos torneios entre bairros era a indicação para um clube profissional, aonde chegava com um knowhow consistente, requerendo só uma lapidação.

Sem saudosismo, e simnovas tecnologias no esporte 4 fazendo uma analogia entre o processo relatado e a realidade da formação contemporânea, numa tentativa de encontrar quais as mudanças e seu grau de interferência no processo atual, que justifique a queda na geração de craques apesar dos avanços tecnológicos. Hoje, as crianças não dispõem de ruas tranquilas, nem de terrenos vazios; mas têm à disposição material esportivo de última geração, quadra de grama sintética, juiz, iluminação e vestiário nas escolinhas de futebol. Normalmente as crianças frequentam 2 aulas de 1 hora por semana.

O interesse é pura e exclusivamente material, onde a criança paga para correr atrás da bola durante 1 hora duas vezes por semana, brincando de “profissional”, onde o aprendizado deixa de lado o espirito lúdico e se torna quase uma obrigação. Alguns times de futebol profissional como o Flamengo tem uma “escolinha de futebol”; melhor dito, o clube tem franquias da escolinha pelo Brasil afora. A sua administração, por exemplo, é comandada por uma empresa terceirizada – Time Forte Marketing Esportivo – especializada em escolas de futebol desde 1994.

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Consta no site escolinhafla.com.br, que a franquia abarca 150 unidades em vários Estados e mais de 9.000 alunos em todo Brasil, o que lhe confere o status de “maior rede de escolas de futebol do Brasil”. Segundo o mesmo site, os alunos são submetidos a uma bateria de testes (ferramentas científicas) com o propósito de otimizar o controle e prescrição do treinamento, complementando a avaliação através da observação do “potencial genético” e qualidades físicas exigidas para a prática do esporte, aumentando inclusive as possibilidades de inclusão social. O site, no entanto, não revela o número de alunos que tenham sido aproveitados nas divisões de base do clube, nem o número de gratuidades de alunos com bolsa.

O próximo passo destes adolescentes “formados” nas escolinhas, são as divisões de base dos clubes profissionais, que há muito tempo deixaram de ser celeiros de craques para se tornarem celeiros de lucro. Observamos que muitos jogadores da base e até profissionais, além de desconhecer as regras do jogo são carentes de fundamentos – erram passes, não tem a mínima noção de posicionamento espacial e nem conseguem levantar a cabeça para ter uma melhor leitura do momento do jogo. Enfim, a única conclusão que chego perante este cenário é que criatividade, conhecimento empírico e técnica refinada não são certamente frutos de nenhuma nova tecnologia, mas fruto da prática constante, e, o mais importante, tudo desenvolvido num ambiente lúdico.

Arquibancada vazia

quinta-feira, março 5, 2015 Deixe um comentário

No mundo esportivo, pouca coisa me incomoda mais do que um estádio vazio. Consigo assistir a uma partida de péssima qualidade técnica, desde que exista uma atmosfera interessante nas arquibancadas. Por outro lado, nenhum grande jogo será um verdadeiro espetáculo se não houver plateia. Porém, a última década fez com o Brasil se acostumasse a estádios vazios. Atualmente, comemoramos públicos de 15 mil pessoas, mesmo se um grande clube estiver em campo.

Não proponho discutir as causas dos estádios estarem às moscas. Isso a imprensa tem feito com frequência. Apesar de muitas reportagens, relatórios e levantamentos estatísticos, poucas medidas são colocadas em prática. Clubes e federações que organizam os campeonatos parecem não se empenhar para mudar a situação. O deslocamento do torcedor da arquibancada para o sofá é assunto antigo, mas atualmente soa como algo irreversível. Os motivos podem ser os altos preços dos ingressos, a violência, a inflação, a baixa qualidade do futebol atual, o horário dos jogos, o calor, o inverno, o péssimo transporte público, a proibição da cerveja, a praia ou a segurança do shopping. O torcedor lança mão de qualquer um desses discursos para justificar sua ausência naquele que poderia ser quase um compromisso semanal.

O curioso é que todos esses problemas são rapidamente esquecidos quando chega a hora de uma final de campeonato, um clássico ou um jogo decisivo. Nessa hora, todas as dificuldades são esquecidas e queremos estar com o nosso time. Acredito, portanto, que a paixão não acabou ou sequer diminuiu. E sigo sem entender o porquê de nos afastarmos.

Durante muito tempo, a desculpa fora a péssima infra-estrutura dos estádios brasileiros. Embora essa ainda seja uma realidade em vários partes do Brasil, após a Copa do Mundo, ao menos 12 das principais capitais do Brasil, têm estádios com padrão europeu. Imaginávamos que esses estádios poderiam ser um fator para levar mais público. Um ano depois, fracassamos. Passada a euforia, muita gente já conheceu os estádios novos, alguns entraram num campo de futebol pela primeira vez. No entanto, poucos voltaram.

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No último fim de semana, Grêmio e Internacional jogaram no Estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, pelo Campeonato Gaúcho. A partida é cercada por um histórico de violência fora do campo. Em função disso, os cartolas resolveram que este seria o “clássico da paz”. Em um setor com capacidade para 2 mil pessoas, cada sócio-torcedor do Inter teve direito a comprar um ingresso para um acompanhante gremista. A ideia era demonstrar que os torcedores rivais poderiam assistir ao clássico em harmonia e deu certo. Pelo menos naquele setor, nenhum problema foi registrado. Do lado de fora, outro grupo de gremistas entrou em confronto com a polícia e com adversários colorados.

A iniciativa parece válida. Algumas linhas acima, criticamos a inércia dos dirigentes que pouco fazem para trazer públicos aos estádios. Portanto, experimentos como esse são muito bem-vindos. Só peço que não me convidem para assistir a um jogo ao lado do meu rival. Enquanto a bola rola, prefiro torcer e acreditar que posso ajudar meu time de alguma maneira. Acho que fazer isso, ombro a ombro com um rival é um pouco desconfortável. Mas depois do apito final, nada contra dividir uma cerveja. Na prática, a única coisa que me preocupa nesse episódio é que um modelo de torcer acabe perdendo espaço nos estádios, em detrimento de uma plateia mais comportada.

No fim das contas, fica o receio de que possa estar em curso uma tentativa de limitar o acesso do torcedor tradicional aos estádios modernos. Mesmo sem conseguir comprovar se isso está acontecendo, o fato é que a estratégia está dando errado, afinal, sobram cadeiras vazias. Os novos torcedores convidados a participar da festa não aceitaram o convite e só confirmam presença quando o evento é realmente importante.

Jogos olímpicos: circo, teatro e esporte

terça-feira, fevereiro 24, 2015 Deixe um comentário

Durante os últimos meses, tenho me dedicado a investigar alguns jornais cariocas das décadas de 1890 e 1900. Meu objetivo foi pesquisar as narrativas sobre os jogos olímpicos que poderiam ser encontradas em fontes como o Jornal do Brasil, O Paiz, Gazeta da Tarde, Gazeta de Notícias e Correio da Manhã. Esse trabalho se inclui nos esforços exploratórios para redação da minha tese doutoral. Nesse curto texto, tratarei de minhas primeiras impressões sobre a investigação em curso.

A princípio, meu objetivo era analisar as narrativas jornalísticas sobre os Jogos Olímpicos, organizados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Fiquei surpreso, entretanto, ao descobrir um uso mais polissêmico do termo. Os jogos olímpicos como vistos nas décadas de 1890 e 1900 eram capazes de circular por diferentes espaços culturais disponíveis à época. Eram circo, teatro e esporte. As Olimpíadas Modernas dividiam a atenção dos jornais com os jogos olímpicos promovidos pelas companhias teatrais e circenses que visitavam o Rio de Janeiro, com as olímpiadas não oficiais (por exemplo, Atenas-1906 e Montevidéu-1907), com filmes transmitidos nos cinemas da cidade, dentre outros.

A partir dessa constatação, tive de deslocar o eixo de interpretação da pesquisa em direção a uma abordagem dos jogos olímpicos enquanto movimento cultural, artístico e esportivo. O recorte deixou de se situar nas edições dos Jogos Olímpicos de Atenas-1896, Paris-1900, St. Louis-1904 e Londres-1908, para compreender mais amplamente as décadas de 1890 e 1900. As narrativas foram obtidas a partir da consulta dos cinco periódicos referidos acima.

Elaborei quatro categorias para tentar dar conta da polissemia associada ao termo “jogos olímpicos”. Em um primeiro momento, tenho me debruçado apenas sobre uma delas. Trata-se dos jogos olímpicos enquanto expressão que designa atividades circenses, apresentações esportivas inseridas em eventos comemorativos, tema de películas e peças teatrais. Não era incomum nos periódicos do início do século lermos anúncios da chegada de companhias teatrais à cidade (vide imagens abaixo).

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Figuras 1 e 2: O Paiz, 26 de janeiro de 1903, p. 4. Na imagem superior, o anúncio está no canto inferior esquerdo. Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

Os números que envolvem os Jogos Olímpicos deixam clara a evolução quantitativa desse megaevento (por exemplo: em 1896, foram 14 países participantes; em 2012, 204). O que as estatísticas encobrem são as inúmeras tramas que conduziram as Olimpíadas Modernas em mais de um século de história. Dito de outro modo: quais outros jogos olímpicos ficaram pelo caminho na disputa pela hegemonia de seu significado ao longo do século XX? Nesse sentido, gosto de pensar nas olimpíadas como textos culturais que podem ser lidos e interpretados (cf. Geertz, 2013[1]). Enquanto pesquisador de mídia, também coloco em posição central o processo de mediação envolvido na construção dos sentidos sobre os jogos olímpicos. Ademais, nesses primeiros momentos, os jornais diários foram primordiais na difusão do esporte e do lazer modernos (cf. Melo, 2001[2]) . Logo, ao investigar os significados destes últimos, tendo a privilegiar os discursos elaborados pelos primeiros.

Uma das contribuições que busco fornecer com a pesquisa é justamente a ampliação dos significados que usualmente associamos aos jogos olímpicos. O caminho daqui pra frente é árduo, mas as “descobertas” que venho realizando sustentam meu entusiasmo com o trabalho.

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Figura 3: Palmyre Annato no Cirque des Champs-Elysées (1840). Fonte: Circopedia.

Ps: Este texto é uma versão modificada do resumo enviado ao XIV Congresso Ibercom, evento a ser realizado em São Paulo no final de março. As informações completas do paper estarão disponíveis nos anais do congresso. Até lá, me coloco à disposição dos leitores interessados em propor caminhos, tecer críticas ou simplesmente dialogar comigo sobre a pesquisa em curso.

[1] GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2013.

[2] MELO, Victor Andrade de. Cidade Esportiva: primórdios do Esporte no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Faperj, 2001.

O campeão invisível

terça-feira, fevereiro 17, 2015 Deixe um comentário

Adversário um: leite

Domingo de tarde. Assisto à partida final sulamericana. Pleno fevereiro e já a final? Pois é, e entre duas equipes brasileiras. Em jogo o título, a taça e uma vaga no mundial. Não é futebol… Nem basquete… É vôleibol… Peraí, tu escreverá sobre vôlei?!!! Sim. Melhor assistir a Bruna, Carol, Gabi, Natália e principalmente a Mari… Do que ver Alecsandro, Marcelo Girino, Negueba etc… Minha motivação é a mesma pra assistir ao meu esporte predileto… Tênis… Especialmente quando a Sharapova está jogando. Essa derrota da talentosa russa na final no Australian Open doeu… Mas não importa o resultado. O importante é competir. Certo? E sempre ganho ao assistir à Sharapova, Dementieva, Ivanovic, Kournikova… Voltando ao vôlei…

O público lotou, mesmo em domingo na hora do almoço e sob muito calor no Ginásio Osasquiano (ou seria osasquiense? Não sei…). O narrador esportivo disse agora “osasquense”. Mas não se pode acreditar muito nesses caras… Permanece a dúvida. Meu prato já vazio. Na tela, a equipe de Osasco venceu o primeiro tempo (set?! Porque “set” ?! não traduzem? Chamam pontos de “points” e fim do jogo de “time up”?!) com tranquilidade… No intervalo comercial do canal pago (sportv, da grobo; Como um canal pago pode passar comercial? e ainda dizer que tal programa é “um oferecimento do produto X”?!), anunciaram futebol, claro…

Me disseram pra assistir ao campeonato português de futebol… O argumento é que está cheio de brasileiros?! Poxa, se eu quiser ver jogador brasileiro eu assisto ao brasileirão, estaduais, etc… Cada publicidade que aparece que vou te contar! Fim do intervalo. O Rio de Janeiro tenta reação no começo do segundo tempo… Mas tá difícil. Engraçado… Nos uniformes (se ainda chamam de “set”, então devem chamar uniforme de “jersey”…) das equipes não visualizo os nomes dos clubes… Ao menos não facilmente via TV. Vejo Rexona, Ades, Molico, número e nome das jogadoras mas não um escudo ou nome do clube. Bem diferente do futebol que o escudo do clube ocupa espaço privilegiado nos uniformes. Segundo tempo (set o caramba… Falo português, ô pá!)…disputado ponto a ponto.  Rio de Janeiro 12×10…Osasco pede tempo. O treinador é homem. O do Rio de Janeiro também o é… As jogadoras que se aposentam não se interessam em virar treinadoras? Ou nenhuma tem talento pra tal? Tema pra uma pesquisa acadêmica. Estudo de gênero no esporte profissional feminino. No futebol feminino observo isso também. O “professor” é sempre homem. Nessa (e demais) transmissões, o narrador e o comentarista também são homens. Tenho alergia a homem… Parece que nem na cabine tem ar condicionado… É a terceira vez que o narrador reclama do calor… Rio 18 x12 Osasco…

Adversário dois: desodorante

Essa Gabi fo Osasco/Molico me lembra o atacante Válter (Porto, Goiás, Fluminense)… Não sei porque… Eis que coisas mais importantes, como limpar o quintal e cuidar dos cachorros me chamaram…e tive que interromper a assistência ao vôlei… Que lástima… Quando voltei a partida terminara. Rio de Janeiro campeão na casa do inimigo. Não sei o placar. Estava quase na hora do jogo do Cariocão… Assisti ainda, via TV, é claro, ao jogo entre Bauru e Limeira, pela NBB, a bem sucedida liga de basquetebol brasileira. Que jogo emocionante. Mesmo não sendo simpatizante de nenhum dos dois clubes ou cidades, gostei de ver a partida disputada em alto nível com emoção até os últimos segundos do jogo. Quem gosta de basquetebol deveria assistir. Parabéns às jogadoras do Rio de Janeiro Voleibol Clube. E porque não? também às derrotadas vice campeãs de Osasco.

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