Jogos olímpicos: circo, teatro e esporte

terça-feira, fevereiro 24, 2015 Deixe um comentário

Durante os últimos meses, tenho me dedicado a investigar alguns jornais cariocas das décadas de 1890 e 1900. Meu objetivo foi pesquisar as narrativas sobre os jogos olímpicos que poderiam ser encontradas em fontes como o Jornal do Brasil, O Paiz, Gazeta da Tarde, Gazeta de Notícias e Correio da Manhã. Esse trabalho se inclui nos esforços exploratórios para redação da minha tese doutoral. Nesse curto texto, tratarei de minhas primeiras impressões sobre a investigação em curso.

A princípio, meu objetivo era analisar as narrativas jornalísticas sobre os Jogos Olímpicos, organizados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Fiquei surpreso, entretanto, ao descobrir um uso mais polissêmico do termo. Os jogos olímpicos como vistos nas décadas de 1890 e 1900 eram capazes de circular por diferentes espaços culturais disponíveis à época. Eram circo, teatro e esporte. As Olimpíadas Modernas dividiam a atenção dos jornais com os jogos olímpicos promovidos pelas companhias teatrais e circenses que visitavam o Rio de Janeiro, com as olímpiadas não oficiais (por exemplo, Atenas-1906 e Montevidéu-1907), com filmes transmitidos nos cinemas da cidade, dentre outros.

A partir dessa constatação, tive de deslocar o eixo de interpretação da pesquisa em direção a uma abordagem dos jogos olímpicos enquanto movimento cultural, artístico e esportivo. O recorte deixou de se situar nas edições dos Jogos Olímpicos de Atenas-1896, Paris-1900, St. Louis-1904 e Londres-1908, para compreender mais amplamente as décadas de 1890 e 1900. As narrativas foram obtidas a partir da consulta dos cinco periódicos referidos acima.

Elaborei quatro categorias para tentar dar conta da polissemia associada ao termo “jogos olímpicos”. Em um primeiro momento, tenho me debruçado apenas sobre uma delas. Trata-se dos jogos olímpicos enquanto expressão que designa atividades circenses, apresentações esportivas inseridas em eventos comemorativos, tema de películas e peças teatrais. Não era incomum nos periódicos do início do século lermos anúncios da chegada de companhias teatrais à cidade (vide imagens abaixo).

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Figuras 1 e 2: O Paiz, 26 de janeiro de 1903, p. 4. Na imagem superior, o anúncio está no canto inferior esquerdo. Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

Os números que envolvem os Jogos Olímpicos deixam clara a evolução quantitativa desse megaevento (por exemplo: em 1896, foram 14 países participantes; em 2012, 204). O que as estatísticas encobrem são as inúmeras tramas que conduziram as Olimpíadas Modernas em mais de um século de história. Dito de outro modo: quais outros jogos olímpicos ficaram pelo caminho na disputa pela hegemonia de seu significado ao longo do século XX? Nesse sentido, gosto de pensar nas olimpíadas como textos culturais que podem ser lidos e interpretados (cf. Geertz, 2013[1]). Enquanto pesquisador de mídia, também coloco em posição central o processo de mediação envolvido na construção dos sentidos sobre os jogos olímpicos. Ademais, nesses primeiros momentos, os jornais diários foram primordiais na difusão do esporte e do lazer modernos (cf. Melo, 2001[2]) . Logo, ao investigar os significados destes últimos, tendo a privilegiar os discursos elaborados pelos primeiros.

Uma das contribuições que busco fornecer com a pesquisa é justamente a ampliação dos significados que usualmente associamos aos jogos olímpicos. O caminho daqui pra frente é árduo, mas as “descobertas” que venho realizando sustentam meu entusiasmo com o trabalho.

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Figura 3: Palmyre Annato no Cirque des Champs-Elysées (1840). Fonte: Circopedia.

Ps: Este texto é uma versão modificada do resumo enviado ao XIV Congresso Ibercom, evento a ser realizado em São Paulo no final de março. As informações completas do paper estarão disponíveis nos anais do congresso. Até lá, me coloco à disposição dos leitores interessados em propor caminhos, tecer críticas ou simplesmente dialogar comigo sobre a pesquisa em curso.

[1] GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2013.

[2] MELO, Victor Andrade de. Cidade Esportiva: primórdios do Esporte no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Faperj, 2001.

O campeão invisível

terça-feira, fevereiro 17, 2015 Deixe um comentário

Adversário um: leite

Domingo de tarde. Assisto à partida final sulamericana. Pleno fevereiro e já a final? Pois é, e entre duas equipes brasileiras. Em jogo o título, a taça e uma vaga no mundial. Não é futebol… Nem basquete… É vôleibol… Peraí, tu escreverá sobre vôlei?!!! Sim. Melhor assistir a Bruna, Carol, Gabi, Natália e principalmente a Mari… Do que ver Alecsandro, Marcelo Girino, Negueba etc… Minha motivação é a mesma pra assistir ao meu esporte predileto… Tênis… Especialmente quando a Sharapova está jogando. Essa derrota da talentosa russa na final no Australian Open doeu… Mas não importa o resultado. O importante é competir. Certo? E sempre ganho ao assistir à Sharapova, Dementieva, Ivanovic, Kournikova… Voltando ao vôlei…

O público lotou, mesmo em domingo na hora do almoço e sob muito calor no Ginásio Osasquiano (ou seria osasquiense? Não sei…). O narrador esportivo disse agora “osasquense”. Mas não se pode acreditar muito nesses caras… Permanece a dúvida. Meu prato já vazio. Na tela, a equipe de Osasco venceu o primeiro tempo (set?! Porque “set” ?! não traduzem? Chamam pontos de “points” e fim do jogo de “time up”?!) com tranquilidade… No intervalo comercial do canal pago (sportv, da grobo; Como um canal pago pode passar comercial? e ainda dizer que tal programa é “um oferecimento do produto X”?!), anunciaram futebol, claro…

Me disseram pra assistir ao campeonato português de futebol… O argumento é que está cheio de brasileiros?! Poxa, se eu quiser ver jogador brasileiro eu assisto ao brasileirão, estaduais, etc… Cada publicidade que aparece que vou te contar! Fim do intervalo. O Rio de Janeiro tenta reação no começo do segundo tempo… Mas tá difícil. Engraçado… Nos uniformes (se ainda chamam de “set”, então devem chamar uniforme de “jersey”…) das equipes não visualizo os nomes dos clubes… Ao menos não facilmente via TV. Vejo Rexona, Ades, Molico, número e nome das jogadoras mas não um escudo ou nome do clube. Bem diferente do futebol que o escudo do clube ocupa espaço privilegiado nos uniformes. Segundo tempo (set o caramba… Falo português, ô pá!)…disputado ponto a ponto.  Rio de Janeiro 12×10…Osasco pede tempo. O treinador é homem. O do Rio de Janeiro também o é… As jogadoras que se aposentam não se interessam em virar treinadoras? Ou nenhuma tem talento pra tal? Tema pra uma pesquisa acadêmica. Estudo de gênero no esporte profissional feminino. No futebol feminino observo isso também. O “professor” é sempre homem. Nessa (e demais) transmissões, o narrador e o comentarista também são homens. Tenho alergia a homem… Parece que nem na cabine tem ar condicionado… É a terceira vez que o narrador reclama do calor… Rio 18 x12 Osasco…

Adversário dois: desodorante

Essa Gabi fo Osasco/Molico me lembra o atacante Válter (Porto, Goiás, Fluminense)… Não sei porque… Eis que coisas mais importantes, como limpar o quintal e cuidar dos cachorros me chamaram…e tive que interromper a assistência ao vôlei… Que lástima… Quando voltei a partida terminara. Rio de Janeiro campeão na casa do inimigo. Não sei o placar. Estava quase na hora do jogo do Cariocão… Assisti ainda, via TV, é claro, ao jogo entre Bauru e Limeira, pela NBB, a bem sucedida liga de basquetebol brasileira. Que jogo emocionante. Mesmo não sendo simpatizante de nenhum dos dois clubes ou cidades, gostei de ver a partida disputada em alto nível com emoção até os últimos segundos do jogo. Quem gosta de basquetebol deveria assistir. Parabéns às jogadoras do Rio de Janeiro Voleibol Clube. E porque não? também às derrotadas vice campeãs de Osasco.

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A crise do futebol carioca e a falta de união dos clubes

terça-feira, fevereiro 10, 2015 1 comentário

Durante os anos 1970 e boa parte dos anos 1980, era comum lermos na imprensa a expressão “crise do futebol brasileiro”. O tema foi o cerne da minha tese de doutorado defendida no Departamento de sociologia da Universidade de Nova Iorque, em 1994. A crise, tal como narrada na imprensa, se referia a alguns fatores inter-relacionados: a) desorganização dos campeonatos; b) queda de público nos estádios; c) êxodo dos melhores jogadores para Europa: d) má administração dos clubes, federações e CBF. O ápice deste processo foi o surgimento do movimento conhecido como “Clube dos 13”, em meados de 1987, após a CBF afirmar que não tinha condições financeiras de organizar o campeonato brasileiro daquele ano.

De 1987 até os dias de hoje, volta e meia a expressão “crise do futebol brasileiro” surge outra vez. Porém, muita coisa mudou desde então, principalmente o calendário e o campeonato brasileiro. Se antes não tínhamos um calendário fixo e as rodadas dos campeonatos eram definidas semana a semana, hoje o torcedor sabe quais são os períodos dos campeonatos e as rodadas são definidas antes do início da competição. Há os que criticam a fórmula do campeonato brasileiro, com pontos corridos, por exemplo, mas seu sucesso, em termos de interesse do público, é muito maior que o de antes, ainda que os estádios estejam com capacidade de público mais reduzida.

Mas e o campeonato carioca? Este perdeu importância e vem declinado ano após ano. Teria alguma correlação com o êxito do Brasileirão? Não creio. O problema maior e central se encontra, em minha opinião, na quantidade de jogos sem interesse, pelo fato de o campeonato contar com 16 clubes. O Rio de janeiro possui tradicionalmente quatro clubes considerados “grandes” – Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo – e dois “médios” – Bangu e América. Esta classificação entre “grandes”, “médios” e “pequenos” se encontra bem definida no imaginário da torcida e da imprensa, ainda que alguns possam questioná-la. Teríamos então 10 clubes “pequenos”, ou de menor expressão, com pouca torcida, participando do campeonato, que só ganha interesse nas semifinais e finais, geralmente em confronto entre os “grandes”.

maracana 1

No momento, Flamengo e Fluminense travam uma luta contra a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro – FERJ. Tudo começou por conta da precificação dos ingressos. Não seria a hora de se pensar em uma união dos quatro grandes no sentido deles terem mais autonomia para organizar o estadual e tentar recuperar o interesse que este campeonato tinha no passado? Mesmo que Flamengo e Fluminense consigam derrubar a precificação, não seria o momento de se pensar no campeonato como um todo? Vasco e Botafogo não deveriam se unir aos dois? Afinal, quem lucra com este campeonato? Ele não poderia ser mais rentável?

4 grandes times cariocas

Alguns podem objetar e defender o maior número de times sem expressão, com o argumento de que esta seria a única forma deles irem adquirindo mais importância. Mas não é isso que temos verificado. Desde muito tempo que temos quatro “grandes” no Rio de Janeiro. Se pensarmos em Brasil, o torcedor sabe que temos 12 grandes. Não é necessário citá-los aqui. Não seria mais razoável que estes clubes pudessem ter mais autonomia de gerenciar os campeonatos? Afinal, o campeonato é seu produto, é onde os clubes podem arrecadar com cotas de televisão, bilheterias e patrocínio.

No caso do Rio de Janeiro, os quatro grandes deveriam se unir, estudar a possibilidade legal de se formar uma nova Liga, convidar Bangu e América, pela tradição e por terem maiores torcidas que os outros participantes do atual campeonato, e pensar em conjunto uma fórmula de fazer do Estadual um campeonato atrativo, exitoso e mais importante.

Doping no esporte ou morte nos negócios, qual a tragédia?

sexta-feira, fevereiro 6, 2015 Deixe um comentário

O MMA (mixedmartialarts ou Artes Marciais Mistas) seria esporte, barbárie, circo, simplesmente um espetáculo oportuno que atende os anseios de uma sociedade violenta, que retroalimenta a fome capitalista, ou a comunhão destes fatores?  O sucesso incontestável desta modalidade na  TV aberta ou a cabo, na internet  ou na imprensa em geral confirma o anseio desta sociedade.

Não há novidade sobre o gosto pela violência, no histórico do comportamento humano – temos várias referências que atestam ser a espécie humana a mais violenta que existe, apesar de racional. Pensemos na época dos gladiadores romanos, para fazer uma analogia. Em 766 anos a.C. os gregos procuravam através dos Jogos Olímpicos (que incluíam a luta) a paz e harmonia entres as cidades que compunham a civilização grega, dando vital importância à manutenção de um corpo saudável.

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Não consigo identificar nenhuma dessas características no MMA, lembremos da pancadaria promovida no Maracanãzinho entre seguidores do jiu-jitsu e da capoeira quando o Mestre Hulk,  representante desta categoria, aplicou contundente derrota em Amaury Bitetti, pupilo dos Gracie, no desafio de Vale Tudo em 28 de agosto de 1995.

Também não enxergo  preocupação com um corpo saudável e sim com um corpo esteticamente impressionante, vide a proliferação de casos de doping e a sua continuidade apesar das “punições”. Basta comparar as reincidências de doping do MMA com outros esportes, como a natação, que tem um universo de praticantes infinitamente superior. Se fosse um negócio estritamente esportivo, para um público que se importassem realmente com esporte no sentido estrito da palavra, os dirigentes do MMA teriam maior zelo com o espirito esportivo e maior transparência nas decisões, banindo sim do esporte, aqueles que desabonem o mesmo, em qualquer âmbito, seja por doping ou por comportamento inadequado fora do octógono.

No caso de Anderson Silva, o exame realizado em 9 de janeiro de 2015, ou seja 3 semanas antes da luta com Nick Diaz, que revelou dois tipos de esteroides anabolizantes no organismo do lutador, somente teve seu resultado divulgado alguns dias após a luta.

[1] “Quando pessoas testam positivo, não deviam mais lutar” – este  foi o parecer de Anderson Silva em entrevista ao site americano MMA Junkie, em 15 de outubro de 2014.

O Spider, como é conhecido o lutador, é o maior garoto propaganda da modalidade, atrai as maiores audiências, patrocinadores gigantes, além de ser o único da categoria a ser patrocinado pela Nike. Seria uma “finalização” (para usar um termo congênere) para o MMA a confirmação  do resultado na contraprova solicitada pelos administradores da carreira do atleta. Vários patrocinadores abandonariam os investimentos e muitos “aficionados” perderiam interesse, a exemplo do que aconteceu com o boxe no episódio da mordida de Mike Tyson em Evander Holyfield,

O histórico de atletas flagrados no mundo do UFC é antigo, remonta ao inicio das atividades da modalidade e muitos brasileiros já foram penalizados pela prática, neste artigo me limitarei aos atletas do Brasil. Victor Belfort foi flagrado a primeira vez em 2006, após derrota para Dan Anderson, o exame constatou Hidroxitestosterona presente. A segunda vez, em um exame surpresa, realizado pela Comissão Atlética de Nevada (a mesma que flagrou agora o Spider), em 2014, foi constatado o uso de TRT ( Terapia de Reposição de Testosterona). À raiz desse acontecimento ele foi obrigado a concordar em ser testado sem prévio aviso até o final de sua carreira, além do período de suspensão imposto.

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O primeiro campeão do UFC, Royce Gracie teve a substancia “nandralona” apontanda no exame antidoping, indicando níveis de testosterona 8 vezes maiores que o permitido. Exame este realizado após a segunda luta contra Kazushi Sakuraba, no EliteXC, em 2 de julho de 2007. Sakuraba era considerado o carrasco dos Gracie, tendo derrotado Royler, Renzo, Ryan e o próprio Royce 7 anos antes.

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A lutadora Cris Cyborg, foi flagrada com a presença do esteróide “estanozolol” em 2011 após vitória sobre Hiroko Yamanaka, que lhe valeu uma suspensão de um ano e multa de U$S 2.500.

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Em exame pós-derrota para Hector Lombard, em dezembro de 2012, o peso-médio Rousimar Toquinho, foi suspenso por 9 meses por apresentar níveis de testosterona acima do normal.

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Enfim, aguardaremos a contraprova e o comportamento de dirigentes da modalidade, imprensa, patrocinadores e público em geral. Nas redes sociais, onde lutadores também trafegam, a expectativa é grande, já que a magnitude da repercussão que o lutador Anderson Silva gera poderá selar o futuro do negócio.

[1]http://mmajunkie.com/2014/10/ufcs-anderson-silva-positive-steroid-tests-should-mean-no-more-fights

O novo eldorado do futebol

terça-feira, fevereiro 3, 2015 Deixe um comentário

É início de temporada no Brasil, época na qual proliferam na imprensa esportiva notícias sobre contratações e dispensas de jogadores e técnicos. Durante os últimos anos, em especial a partir da década de 1980, este foi o período no qual muitas equipes brasileiras viam sair seus melhores jogadores para grandes clubes da Europa. Foi assim, por exemplo, com a ida do atacante Lucas, ex-São Paulo, para o PSG em 2012; do atacante Neymar, ex-Santos, para o Barcelona em 2013; do meia-atacante Anderson Talisca, ex-Bahia, para o Benfica em 2014; e do volante Lucas Silva, ex-Cruzeiro, para o Real Madrid no início de 2015.

Entre as justificativas apresentadas por jogadores e times para este tipo de negociação predomina a de que a ida para a Europa garantiria a independência financeira e representaria que o atleta alcançou um patamar mais alto em sua carreira. As ligas europeias continuam a ser o alvo da maior parte dos jogadores formados no Brasil. Porém, um fenômeno indica que há um novo eldorado no futebol mundial, a China.

Se antes a possibilidade de vestir a camisa de uma das grandes equipes europeias parecia ser o maior objetivo dos jovens jogadores brasileiros, algumas das últimas transferências de nossos atletas para o exterior dão indícios de que este arranjo pode estar mudando.

No início de 2015 Cruzeiro e Atlético Mineiro viram dois de seus principais jogadores, respectivamente o meia-atacante Ricardo Goulart e o atacante Diego Tardelli, aceitarem propostas de equipes da China. Tanto Goulart como Tardelli aceitaram as propostas para atuarem em uma liga menos conhecida no melhor momento de suas carreiras (ambos foram escolhidos para compor a seleção com os melhores jogadores do Campeonato Brasileiro de 2014 e vêm sendo convocados para a seleção brasileira). Em declarações à imprensa, os atletas evidenciaram que o aspecto que predominou nas suas escolhas foi o financeiro, na China eles receberão vencimentos bem maiores do que os praticados no Brasil e em alguns países da Europa.

Diego Tardelli deixou o Atlético Mineiro para fechar com o Shandong Luneng, da China.

Diego Tardelli deixou o Atlético Mineiro para fechar com o Shandong Luneng, da China.

O Cruzeiro perdeu Ricardo Goulart, que acertou com o Guangzhou Evergrande.

O Cruzeiro perdeu Ricardo Goulart, que acertou com o Guangzhou Evergrande.

Diante do exposto, pode-se perguntar: Que relação as contratações de jogadores brasileiros por equipes chinesas têm com os estudos voltados para as narrativas da imprensa sobre o futebol brasileiro? A relação surge quando se considera o protagonismo que o aspecto financeiro alcança na carreira dos jogadores na contemporaneidade, e como os próprios atletas e jornalistas tratam o assunto.

Nesta nova ordem, parece que a possibilidade de um jogador se tornar ídolo de uma grande equipe brasileira, de vestir a camisa de um grande clube europeu ou de fazer carreira na seleção já não são prioridades, mas o que realmente conta é a obtenção de maiores lucros financeiros.

A intenção com este texto não é recriminar tal movimento, mas chamar a atenção para o mesmo, que aponta novas possibilidades de leitura das narrativas no campo do esporte em estudos sobre a seleção brasileira, clubes e jogadores.

Retrospectiva Copa de Mundo de 2014

sexta-feira, janeiro 30, 2015 Deixe um comentário

Refletindo durante as “férias” sobre o esmaecimento dos epítetos “país do futebol” e “pátria de chuteiras” para minha pesquisa de doutorado, fui buscar dados e números referentes à Copa do Mundo de 2014. De forma retrospectiva, talvez esses números pudessem sinalizar se de fato deixamos de ser o país do futebol e não nos engajamos com o Mundial realizado em casa.

Primeiro é preciso situar em que contexto a Copa do Mundo ocorreu ano passado, após as manifestações de 2013 contrárias ao evento. A pesquisa sobre a percepção dos brasileiros sobre a Copa do Mundo, contratada pelo Governo Federal e realizada pela Secretaria de Comunicação (SECOM) e a Assessoria de Pesquisa de Opinião Pública, em parceria com o Instituto Análise, apontou em que o envolvimento dos brasileiros com o futebol surge como um dos principais atributos da identidade do país, confirmando os estudos já apresentados neste blog e em nosso Grupo de Trabalho.

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Frente ao cenário político do país em 2013, o envolvimento da população brasileira era de um sentimento de união em torno de algo maior do que disputas entre times da mesma cidade ou de estados diferentes. Cabe destacar dois pontos diversos apresentados na pesquisa: aquele formado por sentimentos de orgulho, união e nacionalismo em relação à Copa; e outro negativo, formado pela preocupação com a insegurança pública, a percepção de que as obras estão atrasadas e relatos isolados de que obras previstas não tenham saído do papel (2013, p.15).

Sobre o universo mercadológico e de consumo, a pesquisa Nielsen Sports, “Da Copa das Confederações à Copa do Mundo”, realizada logo após o final da Copa das Confederações, trataria da audiência de marcas ligadas ao megaevento em meio à turbulência das manifestações. Nesta pesquisa, o cenário apresentado sinalizava que o apoio da população ao evento diminuiria significativamente – de 71% em setembro de 2012, para 45% em julho de 2013.

Em 2014, a SECOM divulgou outra pesquisa sobre a temática da Copa do Mundo em junho, desta vez realizada pela empresa IBOPE Inteligência. De acordo com esses resultados, 39% dos entrevistados mostravam-se animados com a Copa do Mundo que aconteceria naquele mês, enquanto 31% sinalizavam desânimo e outros 29% diziam estar indiferentes ao evento. Entre os animados com o Mundial, 57% diziam muito empolgados com a Copa em casa. Do total de entrevistados, 52% eram a favor de o evento ser realizado no Brasil. Dado relevante é que a maioria da população, 42%, afirmou que assistiria a todos os jogos que pudesse e 38% gostariam de ver o Brasil campeão do torneio, enquanto 34% diziam preferir que o evento fosse um sucesso; 43% acreditavam que o Brasil tinha muitas chances de ser campeão do Mundial em casa.  E ainda, 90% dos entrevistados afirmaram que não participariam de manifestações contrárias a realização a Copa do Mundo durante o evento.

Entender as relações do consumo com a Copa do Mundo, além de sinalizar o gosto do brasileiro pelo futebol, aponta as diferentes formas de apropriação e uso de determinados códigos para sinalizar o quanto o torcedor é fã daquele esporte.

Segundo a Nielsen, o consumo de cerveja apresentou aumento em 11% no Brasil durante o mês de junho, se comparado com números referentes ao mesmo mês de 2013. As cidades de Belo Horizonte e Natal apresentaram aumento de 20% nas vendas da bebida. Foi feita uma injeção extra de R$ 405 milhões no setor. Já o consumo de refrigerantes teve 2% de aumento nas vendas durante o mesmo período

Na avaliação do IBOPE sobre os produtos que os consumidores das cidades-sede desejavam comprar em decorrência da Copa, na região Sudeste, 13,4% da população garantiu que gastariam mais com alimentos para acompanhar os jogos, seguido de itens de vestuário com 11% e televisores, com 9,7%. Nas localidades que não foram cidades-sedes, os gastos seriam com alimentos (27,4%), televisores (16,2%) e itens de vestuário (15,6%). Em relação ao local onde os entrevistados deveriam assistir aos jogos, na região Sudeste 61,8% ficariam em casa e 20,2% em bar e restaurantes. O mesmo aconteceria com a população nas demais localidades, em que 46,8% assistiriam em suas residências, seguido de 25,6% em bares e restaurantes.

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Os números do IBOPE também revelam que a audiência da TV Paga triplicou durante o evento. Muitos torcedores acompanharam a Copa do Mundo por meio da Internet. 64% dos brasileiros que possuem smarthphone utilizaram o aparelho para se informar sobre o Mundial e os jogos. A pesquisa realizada pelo Mobile Report, da Nielsen IBOPE em agosto de 2014 sinaliza ainda que 29% dos usuários acompanharam a classificação das seleções, 15% buscaram informações sobre os jogadores e 14% se informaram sobre as transmissões da TV. Aplicativos referentes à Copa do Mundo foram usados por 26% dos entrevistados.

A Copa do Mundo também foi sucesso nas redes sociais, nas quais atingiu índices históricos. O recorde de tuites durante uma partida foi o placar de 7 a 1 da Alemanha no Brasil, com 35,6 milhões de tuites, 3 milhões a mais que a final do Mundial. Já no Facebook, as publicações relacionadas à Copa do Mundo alcançaram índices de 3 bilhões de publicações ao longo de toda a competição, transformando o Mundial no maior evento de mídia social do mundo. Mais de 350 milhões de usuários do Facebook estavam engajados na Copa do Mundo.

Se pensarmos sobre o esmaecimento do epíteto de que o Brasil é o “país do futebol”, refletindo com base nos números aqui apresentados, é possível afirmar que tal fato não se confirma. Ainda que, dentro do campo a Copa do Mundo não tenha apresentado o sucesso esperado no futebol do país, o consumo e o engajamento do torcedor brasileiro sinalizaram que o gosto pelo esporte e a paixão nacional ainda prevalecem no país. È fundamental compreender como informações sobre consumo e audiência podem representar simbolicamente a relação do brasileiro com a Copa do Mundo, principalmente quando o futebol faz parte de processos identitários de um país.

Links para as pesquisas:

http://www.secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-total-de-pesquisas/relatorio-final-da-pesquisa-qualitativa-copa-do-mundo-i-ago-13.pdf

http://secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-total-de-pesquisas/relatorio-final-pesquisa-qualitativa-copa-do-mundo-ii-set-13.pdf

http://www.secom.gov.br/atuacao/pesquisa/lista-de-pesquisas-quantitativas-e-qualitativas-de-contratos-atuais/relatorio-final-pesquisa-domiciliar-copa-do-mundo-jun-14.pdf

http://www.nielsen.com/br/pt/press-room/2013/copa_do_mundo_patrocinadores_oficiais_aparecem_mais_para_o_bem_ou_para_o_mal.html

http://www.nielsen.com/br/pt/press-room/2014/64-porcento-usaram-smartphone-para-consultar-informacoes-sobre-a-copa.html

http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2014/07/15/copa-do-mundo-de-2014-bate-recordes-historicos-nas-redes-sociais.htm

Futebol feminino: machismo, homofobia ou rejeição de associação?

domingo, janeiro 25, 2015 Deixe um comentário

Várias são as hipóteses cogitadas para justificar o pífio apoio que o futebol feminino do Brasil recebe das autoridades do esporte, da imprensa em geral, dos patrocinadores em particular e consequentemente dos clubes.

Machismo e homofobia seriam as principais causas da falta de apoio, já que o desempenho em campo da seleção brasileira feminina não é desabonador. Contudo, esportes como o vôlei feminino, contam com apoio da federação, da imprensa e tem sólidos patrocínios mesmo não sendo tão popular como o futebol. Isso confunde um pouco a minha análise e derruba em certo grau a tese do machismo.

É inegável que o preconceito impera em todos os âmbitos da sociedade brasileira e, portanto, não poderia ser diferente dentro do segmento esportivo. No futebol praticado pelo gênero masculino principalmente, um esporte considerado e “recomendado” para “homens viris”, a homofobia e o machismo são componentes com uma forte presença e utilizados sempre com uma conotação negativa pelos diversos atores envolvidos na atividade, atletas, dirigentes, torcedores e a imprensa. Apelidos como Bambi (atribuído à jogadores e torcedores do São Paulo F.C.), por exemplo, tentam ligar estes à homossexualidade, o mesmo acontece com o Fluminense no Rio de Janeiro.

São raros os casos de atletas profissionais que assumiram a condição de homossexuais. A título de exemplo posso citar os mais recentes: no futebol europeu o ex-meia e alemão Thomas Hitzlsperger (foto 1), na NBA (liga profissional de basquete norte-americana) o pivô Jason Collins (foto 2), na Super Liga de Vôlei brasileiro o meio de rede Michael (foto 3) e no boxe (talvez o mais viril de todos os esportes acima citados) o peso-pena porto-riquenho Orlando Cruz (foto 4), todos os atletas de altíssimo nível com comprovada competência. Em comum além da condição sexual, nenhum dos atletas citados apresentam trejeitos ou comportamento social que denunciasse a sua homossexualidade, nem podem ser estereotipados. Portanto a condição sexual de um indivíduo em nada interfere no talento e no desempenho do mesmo em qualquer esporte.

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FOTO 1: Thomas Hitzlsperger.

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FOTO 2: Jason Collins.

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FOTO 3: Michael.

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FOTO 4: Orlando Cruz.

No futebol brasileiro os casos são mais raros ainda, e o profissional que tomasse essa iniciativa pagaria um preço incalculável dentro e fora do campo. Para efeitos comparativos, posso citar a polêmica levantada em torno do “selinho” que o atleta Emerson Sheik (foto 5), à época jogador do Corinthians, deu em um amigo e posteriormente postou a foto nas redes sociais.

Emerson dá selinho no amigo Isaac

Considerando que o machismo e a homofobia não são exclusividades do futebol e sim características intrínsecas da sociedade, que se revela em todos os esportes. Ademais, a homossexualidade não é um fator determinante nem preponderante para a prática esportiva de qualidade, tendo a descartar estas características como a principal causa da falta de apoio ao futebol feminino brasileiro.

Outra causa seria a falta de público ou desinteresse social pela modalidade, o que nao se confirma. Na final dos jogos pan-americanos de 2007 a seleção brasileira de futebol feminino venceu a seleção dos Estados Unidos por 5 x 0. O jogo, realizado no estádio Mario Filho – Maracanã – foi assistido por um público superior a 65000 pessoas. Só me resta pensar que a falta de patrocínio paralisa a ação de clubes e da imprensa, que certamente inviabiliza o processo.

O patrocinador sempre busca o retorno associando sua marca e imagem a uma modalidade de sucesso e de ampla aceitação pelo mercado consumidor, no caso especifico, o consumidor feminino. O esporte não somente proporciona entretenimento e interação, também atua sobre outras sensações e sentimentos, levando o consumidor a se identificar com a marca patrocinadora e com o atleta que a representa. No caso do futebol, que ao contrário do vôlei, carrega em grande parte das atletas uma imagem estereotipada voltada ao masculino, dificulta a associação e a identificação do publico feminino com uma marca que patrocine este esporte.

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