“Um de nós”: o esporte em cena

quarta-feira, maio 27, 2015 Deixe um comentário

Faz mais ou menos um mês que assisti à peça “Um de nós”, em cartaz no teatro SESI (Freguesia) para apresentação única. Estava claro que não podia desperdiçar a chance.

 

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É importante explicar como essa peça chegou ao meu conhecimento. Foi bem simples, na verdade. Minha namorada conhecia a produtora, que a convidou para estar presente na apresentação. Junto com o convite, veio uma sinopse da peça. O slogan já havia me conquistado: “uma peça livremente inspirada na história de um judoca iraniano”.

Antes de contar minhas breves impressões sobre a apresentação, deixo registrado os nomes de alguns dos responsáveis por torná-la possível. Roteiro: Pedro Monteiro, Marcus Galiña e Joana Lebreiro; Atores: Gabriela Estevão, Lucas Oradovischi, Jorge Neves e José Wendell; Montagem: Joana Lebreiro.

A sinopse da peça adiantava muitos dos seus eixos dramáticos em torno do protagonista: os problemas com a família, a relação com seu país (Irã), a guerra, os infortúnios, o desejo de ser um campeão do judô. Eis o que estava escrito:

Numa madrugada, um homem assiste a uma entrevista pela TV.

Um judoca iraniano, no Pan Americano de 2007, competindo pela seleção da Guatemala.  (Estranho, não?!)

A luta, que o classificaria para os Jogos Olímpicos de Pequim, não havia acontecido.

O atleta dá uma entrevista, contando a sua trajetória – as tentativas de realizar o seu sonho de ir aos Jogos Olímpicos e as reviravoltas de sua vida e da história do Irã, que o impediram.

Aos 8 anos, um menino iraniano cansou de apanhar do pai, por ser agitado, demais.  Ele, então, fez uma promessa a si: tornar-se um grande lutador e judô, de preferência o maior do seu país.

No auge dos treinos, no entanto, a guerra, em 1980, o obrigaria a lutar por seu país, não nos Jogos Olímpicos de Moscou, mas nas fileiras do exército iraniano.

A partir daí, o homem que assistia à TV não consegue parar de pensar nesse inusitado personagem e começa a imaginar como teria sido essa história.

Logo no início da peça, percebi que o judô não estava na sinopse por acaso. O vestuário de todos os atores era o kimono branco e o palco reproduzia um tatame. A história percorria diferentes lugares, mas o cenário do palco mudava muito pouco. Poucas também foram as mudanças nas roupas dos atores: o kimono serviu até como hiyab. Cada ator interpretava mais de um personagem ao longo da peça, o que demandava um olhar atento dos espectadores para perceber as nuances de interpretação. Acredito que esse jogo de cena acabou tornando-se tão desafiador para a plateia quanto para os atores no palco.

Outro ponto que despertou minha atenção foi o cuidado dos atores com o treinamento para reproduzir fielmente os movimentos do judô. Não conheço a fundo esse esporte/luta, porém os movimentos dos atores se assemelhavam muito ao dos atletas que assisto pela TV nas partidas de judô. Não sei se algum deles já era um judoca antes da peça, mas, ainda que o fosse, esse cuidado com a caracterização merece ser elogiado. Disso resulta que a emoção dos atores nas lutas encenadas transmitia grande verossimilhança e, pelo menos para mim, foi um dos pontos altos da peça.

O protagonista da narrativa é o judoca iraniano Arash Koabi (nome fictício para um personagem da vida real). Coube a Pedro Monteiro interpretá-lo, ao mesmo tempo em que sua voz de roteirista se fez presente em inúmeros momentos da trama – como que em um monólogo, Pedro revelava à plateia o que deve ter sido seu processo criativo para elaboração do roteiro. Na minha opinião, uma boa sacada, que ajudou a dar dinamismo a peça.

A saga do herói clássico já é quase um lugar comum, de tanto que foi difundida pela indústria cinematográfica norte-americana. O herói é aquele que aceita o chamado para a aventura, muitas vezes ainda na infância, e que, com muito esforço, a despeito das dificuldades que possa encontrar pelo caminho, alcança o sucesso esperado. Bem, Arash começou a treinar judô ainda criança e sua vida foi marcada por contratempos. Até aí, ele cumpriu certinho o que se espera de um herói. Entretanto, a conquista da medalha olímpica, que representaria o ápice de sua carreira, nunca chegou.

Trata-se então de uma história improvável de heroísmo, pois seu status heroico é alcançado pelo seu esforço abnegado, porém não recompensado. A história do protagonista parece ser de fato, a saga de cada “de um nós”, anônimos das cidades, que buscamos nossa simbólica medalha de ouro (inalcançável para a grande maioria), isto é, a realização de nosso(s) sonho(s).

Após este breve relato, gostaria de parabenizar a todos os envolvidos na peça, ainda que muito provavelmente eles não me leiam. Desejo que, inspirados pelos Jogos do Rio – 2016, mais roteiristas e diretores teatrais se inspirem em sagas olímpicas para tecer suas tramas. O casamento esporte e teatro me parece ter um caminho profícuo a trilhar.

Outras informações sobre a peça podem ser encontradas nos seguintes endereços:

Mistura

sexta-feira, maio 22, 2015 Deixe um comentário

Olá, Faz três meses que não escrevo aqui neste espaço. Eu pensava em que assunto abordar. Nesse ínterim, desde fevereiro, muita coisa aconteceu . Começando pelo maior de todos os eventos esportivos, o Superbowl, este ano conquistado pelo New English Patriots, no Estádio da UNIVERSIDADE DE PHOENIX. (que vergonha pras Universidades brasileiras, não acham?)

PHOENIX UNIVERSITY STADIUM, AZ, USA

No Basquetebol, a disputa pelo título da NBA e do NBB acirraram-se. No NBB, até aqui, semifinais, uma única surpresa, o interior do Estado de São Paulo ressurge no cenário nacional, com 3 dos 4 clubes finalistas oriundos de SP: Limeira, Mogi das Cruzes e Baurú. Este último, um elenco montado para disputar todos os títulos possíveis. Venceram O Estadual/SP e a Liga das Américas. O outro semifinalista da NBB não é surpresa: C. R. Flamengo, que massacrou o Limeira (3X0) e é finalista mais uma vez. A ausência é o Brasília, que perdeu muitos talentos e não conseguiu repetir as boas campanhas de anos anteriores. Ainda no basquetebol, A final das conferências Leste e Oeste da NBA está muito disputada e emocionante. Lebron James perseguindo os recordes de “Air Jordan” a cada jogo e liderando os Cleveland Cavaliers. Até aqui, eliminaram o Chicago iniciam a decisão da conferência contra Atlanta, neste dia 20/05. Emoções à vista. Poucos ingressos ainda disponíveis, a US$150 cada (não tem meia entrada).

No campo futebolístico, avançou a disputa pela Taça Libertadores da América. A regra que força o cruzamento e consequente eliminação de clubes conterrâneos fez algumas vítimas brasileiras. Com duas derrotas consecutivas o Sport Club Corinthians deu adeus, sendo eliminado pelo Guarani (PAR), sem sequer marcar um gol. Na disputa caseira o Internacional (RS) levou a melhor sobre o Atlético Mineiro, por pouco, mas o suficiente para chegar às quartas de final (19 a 28 de maio). No clássico portenho, O River Plate classificou-se antecipadamente, devido à eliminação do Boca Juniors, Alguns desajustados atacaram os jogadores, lançando spray de pimenta nos mesmos, e o clube foi punido.

A Copa do Brasil ainda engatinha, mas algumas baixas já foram sentidas. E essa invenção maluca dos eliminados na primeira fase da Libertadores entrarem nas fases finais da Copa do Brasil? que acham? eu discordo. Eliminado não merece prêmio.

Houveram ainda, neste meio tempo, os contestados (não por mim), Campeonatos Estaduais de Futebol. Alguns ainda em andamento. Os “principais”, porém, já definidos.

E o Campeonato Brasileiro começou. Até aqui, segunda rodada, desempenho pífio dos clubes cariocas. Ainda ontem, domingo, 17/05, o Fluminense foi goleado por 4 X 1 pelo Atlético Mineiro, o Flamengo se salvou de uma derrota para o Sport em pleno Maracanã, arrancando um empate por 2 X 2 nos últimos minutos, e o Vasco, campeão carioca, empatou em 0  X 0 com o Joinvile. O que eu tenho visto, e muitos “especialistas” e “analistas” têm apontado, é uma carência no meio campo. Falta o articulador de jogadas, o homem das assistências, que mantêm uma média de passes certos acima de 80% e coloca os companheiros em condições de marcar. Esse jogador está em falta no mercado. Mesmo com dinheiro não há quem contratar. O que se vê é um festival de mediocridade no meio- campo. Mesmo os clubes que venceram os Estaduais têm deficiência. Não existe o “camisa 10″. O Flamengo acena com a possibilidade de contratar o experiente meia Diego (ex- Santos), atualmente do Fenerbach, e/ou seu amigo Robinho. A multinacional Jeep, recém chegada ao clube, ajudaria nessa negociação. Após tentar preencher a lacuna com Dario Bottinelli, Lucas Mugni, e mais recentemente, Almir, parece que a paciência da diretoria esgotou e pretende alguém com mais nome. O que impressiona é que os “camisa 10″, o “meia armador”, não surjam mais nas categorias de base dos clubes. Só formam volantes (e ruins). Elogiam muito o Paulo Henrique (vulgo Ganso), mas, sinceramente, nunca achei um grande jogador. Outros da posição do mesmo nível: Valdívia (Palmeiras), Conca (ex-Fluminense), etc.

Ainda dentro do que acontece no cenário esportivo atual, estão as classificatórias para as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. Mas isso ninguém quer saber ainda, né? Se alguém se importar, esse cara fez uma boa síntese do que vêm acontecendo:

http://olimpiadas2016-classificados.blogspot.com.br/

Uma coisa me espantou… segundo a fonte acima, há 308 atletas brasileiros classificados para os Jogos Olímpicos, enquanto apenas 44 estadunidenses estão com vaga garantida. Isso não faz sentido algum.

http://olimpiadas2016-classificados.blogspot.com.br/2015/05/lista-dos-paises-classificados-para-os.html

E tem também a Copa América este ano. Será que depois do 7 X 1 alguém ainda quer ver a seleção brasileira? eu não!

Até daqui a três meses.

Messi: sociologia de um gênio

domingo, maio 17, 2015 Deixe um comentário

Recentemente fui abordado por um amigo que me perguntou como eu poderia explicar o futebol do Messi. Surpreendido com a pergunta, lhe respondi que genialidade não tem explicação. De qualquer forma, passei a refletir sobre a questão a partir do livro Mozart: sociologia de um gênio, do sociólogo alemão Norbert Elias. Nesta obra, Elias analisa a questão do conflito trágico entre a genialidade de Mozart e uma sociedade que pretendia controlá-lo. Apesar do título do livro, o sociólogo não se atreveu a fornecer ao leitor explicações sobre a genialidade do músico.

Mozart - sociologia de um gênio

De fato, talento é algo que não se explica. O sujeito nasce com ele. E o aprimora com treinamento. Do ponto de vista sociológico, não temos como explicar o futebol de Messi. No entanto, Messi tem algo que podemos ter como pauta para uma pesquisa futura. Trata-se de sua personalidade introspectiva, tímida, sem aparições na mídia, com poucas palavras, quase mudo, o que faz dele um ídolo singular, distinto dos demais, nesta característica de “não celebridade”.

Observemos que, mesmo em campo, ele ignora tanto os adversários quando recebe faltas, quanto o árbitro quando não as marca. Quase nunca o vemos reclamando de alguma coisa. Calado, mas com um talento extraordinário, é idolatrado mundialmente e, talvez, mais ainda na Argentina. No Barcelona é ídolo e herói, pois possui várias conquistas em sua carreira. Essa distinção se faz necessária, já que heróis vivem de conquistas, que são compartilhadas com a comunidade, no caso a torcida do time em questão ou a da seleção de seu país. Neste quesito de heroísmo, Messi estaria devendo um título mundial a seu país. Caso não o conquiste seria, parafraseando o colunista esportivo, Fernando Calazans, ao referir-se a Zico, “um azar para a Copa do Mundo”. E aí Maradona continuaria sendo o maior herói dos argentinos.

Messi durante o prêmio Bola de Ouro em 2012, com o título de melhor do mundo pela terceira vez.

Messi durante o prêmio Bola de Ouro em 2012, com o título de melhor do mundo pela terceira vez.

O antropólogo Hugo Lovisolo e eu já observamos, em artigo acadêmico publicado faz alguns anos, que a Argentina tem uma tendência a cultuar heróis com características mais “dionisíacas”. Figuras “imperfeitas”, como Evita, Perón, Che Guevara, Gardel e Maradona, por exemplo.

O que aconteceria se Messi ganhasse uma Copa? Como a imprensa argentina iria “construir” narrativas em torno deste herói? Ele não é “dionisíaco”, como Maradona, tampouco “apolíneo” como Pelé, por exemplo. Talvez seu extraordinário talento futebolístico estaria mais próximo da categoria “apolínea”, tal como a definiu Gilberto Freyre em artigo famoso publicado no Diário de Pernambuco em 18 de junho de 1938, que tinha como objetivo explicar a idiossincrasia do futebol brasileiro. Mas sua personalidade caminha na contramão da tendência padrão que vemos no universo de celebridades em um contexto cada vez mais midiático. As narrativas midiáticas em torno de ídolos se alicerçam frequentemente em comportamentos destes na vida pública (algumas vezes até na vida privada). Mas o que sabemos de Messi fora dos campos de futebol? Ele não aparece em público, quase não dá entrevistas, e quando as dá é monossilábico.

Estamos diante de um dilema que pode nos ajudar a entender melhor a relação entre ídolos e mídia. O poder da mídia esbarraria nas ações do atleta. A “construção” midiática de narrativas em torno de ídolos/heróis futebolísticos necessita da ação compartilhada do atleta em questão, dentro e fora dos gramados.

Messi é um gênio. Maravilhamo-nos e deleitamo-nos com suas atuações. Se vier a conquistar uma Copa do Mundo, a imprensa argentina terá que se utilizar de recursos distintos ao que se utilizou para narrar a trajetória heroica de Maradona. Messi é o ídolo mais “fora do ninho” dentro do universo contemporâneo de celebridades. Talvez por isso, muitos o admirem ainda mais.

Este artigo saiu originalmente no domingo, dia 17 de maio de 2015, na seção Opinião do jornal O Globo sob o título “Explicação para o inexplicável Messi”:

Sobre a Copa América e o ouro olímpico

quarta-feira, maio 6, 2015 Deixe um comentário

Nesta terça o técnico Dunga convocou a seleção brasileira para a primeira competição oficial após a realização da Copa do Mundo de 2014, a Copa América, que acontece entre 11 de junho e 4 de julho no Chile. O treinador chegou a este momento apresentando um ótimo retrospecto à frente do Brasil: oito vitórias em oito partidas amistosas disputadas. Isto o ajuda a diminuir, no momento, a desconfiança da imprensa a seu trabalho neste novo período à frente do selecionado brasileiro.

No entanto, a participação do Brasil na Copa América deve aumentar consideravelmente a pressão para que a seleção brasileira consiga superar, de alguma forma, o fiasco no Mundial de 2014, oportunidade na qual o Brasil sofreu a maior goleada de sua história – o 7 a 1 para a Alemanha. Ainda assim, suspeito que mesmo a conquista de uma competição como a Copa América não será suficiente para superar essa derrota, que constantemente tem sido relembrada pela imprensa esportiva. Essa suspeita parte do pressuposto de que, para curar tal ferida, o remédio seria apenas uma vitória de goleada em um jogo com um contexto semelhante ao do 7 a 1 para a Alemanha.

Ainda no campo das narrativas esportivas sobre a seleção brasileira, vale salientar o aumento gradativo do espaço dado à seleção olímpica com a proximidade cada vez maior dos Jogos de 2016. Se a seleção principal tem que lidar com o fantasma do 7 a 1, a equipe olímpica tem que administrar a expectativa pela conquista da inédita medalha de ouro no futebol masculino. As narrativas em torno deste título, que é apontado por parte da imprensa esportiva como o último que falta ao futebol brasileiro, têm recebido cada vez mais espaço na imprensa brasileira.

Dunga, Marco Polo Del Nero e Gilmar Rinaldi durante a convocação (Crédito da foto: Rafael Ribeiro / CBF).

Dunga, Marco Polo Del Nero e Gilmar Rinaldi durante a convocação (Crédito da foto: Rafael Ribeiro / CBF).

Se o ouro olímpico parece não ter o potencial para apagar a frustração brasileira após o fiasco no Mundial, suspeito que deve haver uma mudança no imaginário sobre a conquista do ouro inédito em pleno estádio do Maracanã, com a conquista da mesma sendo vista como um início da recuperação do futebol brasileiro. Enfim, somente o tempo dirá se as suspeitas se confirmam ou não.

 

O algoz e o rival!

domingo, maio 3, 2015 Deixe um comentário

Imagine que, certo dia, você é abatido. De forma cruel, impiedosa, virulenta. Numa cena de puro sadismo, você saberá depois. Porque o ato (quase criminoso) é cometido dentro de sua própria casa, diante de sua família, daqueles que você tem como heróis. E para piorar, o algoz comemora, ri, se esbalda. Festeja feito um louco pelo que, para você, é apenas dor, sofrimento e lágrimas.

É claro que num ato mecânico e até entendível do ponto de vista humano, você, onde estiver, vai torcer contra seu algoz. Torcer para que ele seja identificado e capturado, ou, como muitos hão de preferir, que ele tenha o mesmo fim que lhe proporcionou. É parte da vida. Da fraqueza da vida, melhor dizendo. Da necessidade, ainda que inconsciente, de só ficar em paz quando se descobre que a justiça foi feita.

Mas eis que o futebol está aí para reverter a ordem vigente da vida. De repente, o algoz nem é tão algoz assim. De repente, a justiça nem se faz tão necessária. Não mais do que após um instante, o futebol ensina que o perdão é talvez o mais nobre e digno dos sentimentos humanos. Ainda que, mais uma vez, de forma inconsciente.

Ah, o futebol, com seu prazer irrefreável de contradizer a lógica. De renegar o que parece óbvio. De mostrar caminhos alternativos para o que até então jamais pareceria possível. Pois basta o Ceará se apresentar como algoz do Vitória, numa ensolarada tarde de sábado de Salvador, numa semifinal de Copa do Nordeste, para que os rubro-negros, de repente, não se incomodem tanto em torcer pelos seus irmãos cearenses, quase co-irmãos contra a “maldição tricolor”.

E eis que o instante futebolístico novamente surge, para pulverizar a natureza dos costumes mundanos. E talvez, por isto, haja quem diga que o futebol tem um “quê” de sagrado. Não! Não torcerão jamais, os rubro-negros baianos, contra quem lhes eliminaram de forma tão dolorosa dentro de sua própria casa, num empate em 2 a 2, no detalhe do gol marcado fora de casa, infestado de amargura e choro, que culminou na eliminação sufocante daquela tarde de bola no Barradão.

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Pois de repente, todo torcedor do Vitória é revestido de uma nobre, altiva e angelical força. Digna dos grandes homens, dos grandes vultos da humanidade, dos grandes mestres. Aqueles poucos dotados da capacidade de perdoar de forma plena e irrestrita. Sem ressentimentos ou juras de vinganças futuras. Sem nem mesmo rememorar, ainda que de passagem, os tempos em que estiveram de lados opostos.

E ainda em meio ao luto, ao sufocamento típico das grandes derrotas, mesmo com a memória viva dos gols alvinegros dentro de – é sempre dolorido repetir – sua própria casa, o torcedor do Vitória há de reconhecer laços de sangue que o unirá ao Ceará. E há de lembrar ao irmão alvinegro, tão rápido for possível, que o mesmo “azul, vermelho e branco” do arquirrival deles, o Fortaleza; é o “azul, vermelho e branco” do Bahia, o seu próprio arquirrival e adversário dos cearenses na grande final nordestina.

Porque amigos, a rivalidade é algo tão intrínseca ao futebol, tão mágica e tão apaixonante, que o torcedor do Vitória é capaz de pular junto com o torcedor do Ceará, abraçados há mais de mil quilômetros um do outro, justo com quem lhe feriu de morte, a ter que aguentar a comemoração de seu vizinho soteropolitano, urrando algo como “Bahêa, minha…”.

Pois neste caso, o palavrão que comumente se segue à frase do torcedor do Bahia vai ser tão ferina, tão doída e latejante, que jamais será escutada como um xingamento elogioso a si mesmo, como de fato o é, mas uma provocação letárgica sem data para ser esquecida ao pobre do Vitória que sofreu e morreu duas vezes numa mesma Copa do Nordeste.

Refletindo sobre o esporte como ferramenta do marketing estratégico

quarta-feira, abril 29, 2015 Deixe um comentário

O consumo esportivo é uma das funções de lazer mais difundidas na sociedade moderna, pois invade todos os aspectos da vida humana e possui apelo mundial, além de atingir pessoas de todas as idades, atravessando as fronteiras culturais e nacionais. Obviamente que esse discurso tem o “vender mais” como principal intenção, o lucro para as instituições esportivas ou não, os clubes, os canais de TV, os times etc.

Pode-se afirmar que as corridas de rua refletem hoje esse tipo de consumo esportivo ligado ao lazer e à vida saudável. Nos últimos dias “brotaram” em minha linha do tempo do Facebook muitas fotos de colegas participando dessas corridas. Existem várias modalidades delas, voltadas para o homem, à mulher, corridas mistas, corridas com campanhas sociais, com crianças e bichos de estimação. Cada vez mais, empresas e marcas esportivas patrocinam e promovem ações de marketing nesses eventos. E uma destas ações é a divulgação de fotos dos participantes durante a corrida. Estas surgem com a marca patrocinadora, com as cores do evento e da marca, além dos brindes e uniformes distribuídos antes e durante a corrida.

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Dessa forma, as marcas criam laços, afetos e uma nova forma de consumo do esporte. O público participante diretamente da corrida passa a ter certo engajamento com a marca ao compartilhar por toda a rede suas fotos após o evento. A experiência do esporte se perpetua durante um período na Internet, numa espécie publicidade e promoção das marcas.

Existe um cronograma dessas corridas de rua que são compartilhados continuamente por seus praticantes. Especialistas em marketing esportivo afirmam que o melhor produto do esporte é o calendário de eventos. Hoje, os elementos essenciais do produto esportivo são o jogo, a competição e a prática. O esporte é um meio pelo qual as organizações podem atingir objetivos de marketing, desde a exposição da marca a programas de fidelidade de longo prazo.

As marcas que associadas às paixões e emoções que cercam o universo esportivo podem criar imagens duradouras e atitudes positivas em suas bases de clientes, que seriam praticamente impossíveis de atingir por meio do marketing convencional.

No marketing esportivo, a aplicação dos 4 P’s do Mix de Marketing – preço, produto, promoção e praça – se dá de forma específica em um contexto concebido para atender às necessidades dos clientes do esporte, sejam eles consumidores individuais, participantes de esportes ou jogadores e investidores corporativos.

Nesse cenário, estudiosos do tema incluíram mais um P nesse Mix, a Paixão. Seria este o elemento levado em conta devido ao ambiente do marketing esportivo, já que a emoção e a paixão são inerentes ao torcedor e ao praticante quando o comportamento é um fator contingencial das ações de marketing esportivo, do resultado dos jogos e da experiência proporcionada? Com a paixão, a dimensão do produto esportivo atinge o seu limite máximo no momento do jogo e da competição, quando a paixão de torcer/praticar é somada à comemoração por vencer ou à decepção de perder/desistir. E é fortalecida pela paixão de presenciar algo incomum que posteriormente se traduz na paixão de contar, de lembrar e rememorar.

O domínio da Paixão sobre todos os demais elementos do Mix de Marketing Esportivo confere um diferencial significativo ao produto: é um marketing que visa gerar emoção antes, durante e depois de realizado o consumo do produto esportivo.

O controle do poder emocional do esporte oferece aos profissionais de marketing uma oportunidade única. Seria difícil tornar um seguro de vida “sexy” ou despertar fortes sentimentos por um cartão de crédito. No entanto, relacionar essas categorias de produtos ao esporte e a personalidades esportivas proporciona aos consumidores emoções que lhes escapariam de outra forma.

O esporte revela qualidades únicas que outras ferramentas de marketing não poderiam oferecer. O material impresso é unidimensional, a televisão é bidirecional, os eventos são tridimensionais, mas o esporte e o patrocínio de uma modalidade podem ser tetradimensionais. Essa quarta dimensão seria a emoção, que pode desenvolver relacionamentos com os consumidores e mercados de forma eficaz.

Por fim, especialistas apontam que a crescente eficácia do esporte como plataforma de marketing é desejável quando o retorno sobre o investimento pode ser demonstrado. Como as empresas hoje buscam níveis maiores de responsabilidade em cada aspecto de seus orçamentos de marketing, os eventos esportivos que ainda vão ocorrer no Brasil e a modalidade de corridas e eventos esportivos de rua se apresentam como nova oportunidade de investimento e engajamento com o esporte, como também a possibilidade de obter retornos lucrativos e de valores intangíveis proporcionados pela experiência com o esporte.

Referências fundamentais:

MORGAN, M.; Summers, J. Marketing Esportivo. São Paulo: Thompson Learning, 2008.

MELO NETO, F. Marketing Esportivo: O esporte como ferramenta do marketing moderno. Rio de Janeiro: BestSeller, 2013.

Reinventando o Brasil

terça-feira, abril 21, 2015 Deixe um comentário

“Sua derrota foi normal e deve-se mais à má atuação dos seus dirigentes do que aos jogadores. Meus compatriotas continuam a serem futebolistas de primeira categoria, e os erros cometidos pelo quadro, neste Mundial, são de responsabilidade da Comissão Técnica, que errou em impôr aos jogadores um sistema de jogo demasiadamente defensivo e lento. Não seguiram a evolução do futebol e não se utilizaram das qualidades características dos craques brasileiros, que instintivamente são mais atacantes que defensores”. As palavras do ex-técnico Oto Glória foram publicadas na Folha de S. Paulo, há quase 50 anos, mas parecem que foram digitadas logo após o já exaurido “7 x 1”.

Naquele mesmo dia seguinte à eliminação na Copa de 1966, o jornal dizia: “O Brasil, país do futebol, já não é mais rei desse esporte, que seu povo elegeu como favorito. Que seja, porém, um grande lutador, formado entre os primeiros. Que tenha a humildade de procurar reconhecer seus erros e saná-los, desde a pequena agremiação, base de tudo que pode ser certo ou errado” (FOLHA DE S. PAULO, 20/07/1966, p. 20). Sim, meus amigos, o discurso é o mesmo que ouvimos de um ano para cá. “Precisamos reinventar o futebol brasileiro”, dizem todos os especialistas, imprensa, palpiteiros de esquina, mesas de boteco. O que concluímos é que, sempre diante de derrotas onde não colocamos a culpa nos outros – como no juiz Mr. Ellis para o revés diante da Hungria em 1954 –, digo sempre, buscamos reinventar o já reinventado. E entramos num ciclo construído por dirigentes – imprensa – (e por que não?) torcida.

Após a derrota para o Uruguai, em 1950, o país – que se achava o “bambambam” da bola após resultados em amistosos e o 3º lugar no longínquo 1938 – preferiu calar. Quase um ano sem entrar em campo. “Necessária renovação”, “indispensáveis mudanças”, “novos rumos” eram expressões dominantes na montagem para o time de 1954. Tanto que dos 11 titulares do Maracanazzo, apenas Bauer e Ademir começaram jogando a partida seguinte, em 06/04/52 pelo Campeonato Pan-Americano, 2 x 0 sobre o México. Precisávamos resolver a “questão psicológica”, jogamos de lado a tradição de 34 anos da camisa, branca com gola azul azarada, para o amarelo ouro. Resolvemos um problema de identidade com o uniforme nas cores nacionais, mas na bola, só tivemos resultado em 1958.

Depois do tricampeonato, uma nova reinvenção do nosso futebol foi debatida com o quarto lugar em 1974:

Zagalo: Brasil precisa reformular sua concepção de futebol
Depois da derrota para a Holanda por 2 a 0, Zagalo disse ontem que o Brasil precisa reformular sua concepção de futebol: “Ou jogamos como a Holanda, um futebol rápido, moderno e objetivo, ou não conseguiremos mais nada daqui para a frente. Estamos alguns anos atrasados e precisamos andar depressa” (O GLOBO, 04/07/1974, capa).

A discussão seguiu nos dias após a eliminação:

Passo anuncia reestruturação do futebol
O Presidente da Comissão Técnica, Antonio do Passo, informou que todos os membros apresentarão seus relatórios à CBD, sugerindo principalmente, um estudo da possibilidade de reestruturação do futebol brasileiro:
– A Copa do Mundo de 1974 nos deu uma grande lição e nós da Comissão Técnica sentimos que chegou a hora de mudar os conceitos técnicos e táticos do futebol brasileiro (O GLOBO, 07/07/1974, p. 27).

A tal reestruturação passaria pelas Copas de 78, 82, 86 mostrando um futebol que ora encantava, ora era eficiente, mas sem um título sequer. Após os fracassos dos times de Telê nos anos 1980, Sebastião Lazzaroni assumiu com uma proposta de mais resultados, menos arte. Trocamos o “futebol-arte” pelo “pragmatismo”. Venceu a Copa América de 1989, é verdade. Mas na Itália, em 1990, a queda nas oitavas de final para a c Argentina, levantou novamente a tese da necessidade de mudança. Como vemos na matéria de Flávio Gomes:

Seleção do “futebol-nada” deve ser esquecida já a partir de hoje
[…] O pragmatismo de Sebastião faz sentido, mas só é defensável quando dá resultado. Da forma como tudo terminou ontem, os quatro jogos do Brasil na Copa da Itália passam para a história como exemplos de mediocridade, do “futebol-nada”, do “futebol-sem-resultados”, na verdade. Em quatro partidas, três delas terminaram com 1×0 no placar, um sinal de pobreza esportiva. A seleção brasileira de 1990 foi um time muito chato de se ver jogar (FOLHA DE S. PAULO, 25/06/1990, p. D1).

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Os anos 1990 trouxeram o resgate do “país do futebol”. Frequentamos três finais seguidas, vencendo duas. A seleção chegaria em 2006 como favorita absoluta, afinal, desde 1982, nenhum outro time tinha encantado tanto quanto a equipe de 2005. A vitória da França liquidou um “futebol-arte” esperado, mas não jogado no torneio.

A chance de recuperação com uma equipe disciplinada, menos artística, veio quatro anos depois. O estilo do agora técnico Dunga, não agradou. Derrota novamente nas quartas, agora para a Holanda, e críticas aos comandantes e comandados:

A alegria há de vreinventando o brasil 2oltar, José Geraldo Couto
Perder é sempre ruim, mas há um consolo. Com a derrota, a concepção bélica, triste e carrancuda de futebol do treinador Dunga talvez seja sepultada, ao menos por um tempo. Talvez voltemos a ver o futebol como um espetáculo, uma festa, uma alegria (FOLHA DE S. PAULO, 03/07/2010, p. D13).

A queda do treinador Dunga – colocada pela imprensa como definitiva naquele momento – já era um sinal de mudança, como vemos na coluna de Renato Maurício Prado:

Fim de uma era sombria que não deixará saudade
[…] Ah, ia me esquecendo do mais importante: passamos, também, a praticar um joguinho chinfrim, sem graça nem talento, apenas na base de contra-ataque, sob a falácia de que o que interessa é o resultado – e não a consagrada história e a aplaudida e mundialmente reconhecida arte do nosso futebol. Vade Retro! (O GLOBO, 03/07/2010, p. 13, Caderno Esportesreinventando o brasil 3).

Chegaríamos ao ápice do atual “pedido de reinvenção” com a derrota para a Alemanha, em casa, na semifinal de 2014. O Brasil estaria atrasado diante do futebol praticado em outros países. O jornalista Fernando Calazans aponta como “Uma única saída: ressuscitar”:

O futebol brasileiro – aquele dos cinco títulos mundiais – só tem uma única saída: ressuscitar. Não há forma de remissão, de recuperação, de reação. O futebol brasileiro tem que nascer de novo. Tem que renascer. Para quem foi, para quem é pentacampeão do mundo, para quem tem um lugar definitivo na História, não deve ser impossível. […] Esse jogo, essa derrota, essa goleada histórica tem que ser guardada na memória, para marcar o início de uma era de total reformulação (O GLOBO, 09/07/14, p.2).

Tamanho o baque pela derrota, que a imprensa começa a questionar a perda da identidade nacional pelo futebol. A Folha de S. Paulo demonstra o desgaste dessa representação na sua editoria de Opinião, em um dos editoriais, com o título “Pátria sem chuteiras”:

Derrota brutal da seleção brasileira diante da Alemanha talvez possa representar o fim de uma era dentro e fora do futebol . […] O vexame histórico, ainda que não numa final de campeonato, vem eclipsar o famigerado ‘maracanazzo’ de 1950. […] A frustração – mas o termo é leve demais para descrever o que aconteceu – talvez possa, com o tempo, enquadrar-se num contexto diverso daquele que marcou, até hoje, as relações do brasileiro com seu esporte mais popular. […] Já constituía um fenômeno curioso que, no chamado país do futebol, tenham se observado movimentos expressivos, ainda que isolados, de oposição a que a Copa do Mundo se realizasse por aqui. […] A ideia de uma ‘pátria em chuteiras’, na célebre formulação de Nelson Rodrigues, terá provavelmente sofrido um subterrâneo desgaste ao longo dos anos. Um país mais diversificado, plural e rico foi deixando de ver, nos campos de futebol, sua única fonte de compensação diante dos muitos insucessos do seu projeto econômico e social. […] Injustificado, talvez, tenha se provado o hábito de depositarmos tanto de nossa identidade nacional num único esporte, num único campo, num único jogo – que sempre é o de hoje. […] A paixão futebolística sobreviverá, é claro, ao pesadelo de ontem. Mas o massacre, no que teve de brutal e inesquecível, não maculou apenas a mística da camisa verde-amarela; talvez venha a significar também o encerramento de uma época em que país e estádio, povo e torcida, governantes e técnicos, nação e seleção tendem a ser vistos como a mesma coisa. […] Talvez se possa dizer, a partir de agora, que o Brasil é maior que seu futebol – e que tem desafios mais importantes, e maiores, a vencer. (FOLHA, 09/07/14, p. A2).

Quanto à seleção brasileira, esta reformulação passa pelos próximos campeonatos. No início de maio, teremos a convocação para o primeiro torneio oficial após o desastre de 2014. Em parte, teremos mais sobreviventes do Mineirazzo na lista, do que os dois – Bauer e Ademir – que voltaram pós-Maracanazzo. Os principais jornais elogiam a nova postura da seleção, o novo Dunga. Alguns novos nomes, uma sequência de vitórias em amistosos e lá estamos nós, esperançosos em mais um título nacional. Cá estamos nós, reinventados. Mesmo que com os mesmos de antes…

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